Instituto de letras beatriz azevedo da silva jacinta, passos de uma escritora



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Cântico de exílio25

Estou cansada Senhor.

Minha alma insaciável.

a minha alma faminta de beleza,

ávida de perfeição,

é perseguida pelo teu amor.

Puseste dentro dela esta ânsia infinita,

cujo ardor queima,

como a sede em pleno deserto escaldante

persegue o viajor.


Esta angústia, que cresce e que vibra e palpita,

nasceu dentro em mim

no mesmo divino instante

em que, morrendo, a última ilusão,

só me restava afinal

uma fria certeza

cortante como o gume dum punhal.

A certeza de que, tendo tudo no mundo,

nada

pode encher o vazio do meu desejo,



do meu desejo profundo.
Na aridez de minha alma desolada,

esta angústia brotou,

como brota no solo sertanejo

no solo nu, exausto e sofredor,

solo onde a seca vai matando a vida,

a última flor

‒ a flor sangrenta do cacto ‒

cuja raiz parece que sugou

todo o sangue da terra dolorida.
Compreendi, Senhor, compreendi

a voz que sobe

do fundo misterioso do meu ser.

Esta angústia que vive dentro em mim

somente há de ter fim,

quando nada mais existir entre nós,

quando, num dia sem crepúsculo,

eu me abismar em ti,

no teu esplendor absoluto.
Mas apenas começo a caminhar,

estou cansada, Senhor.

É bem longo o caminho a percorrer

e sinto-me sozinha.

Levanto os braços para o céu distante

como a palmeira‒ longo anseio de infinito‒

que no deserto se ergue, solitária,

em busca do azul.

Suplico humildemente o teu auxílio.

Dos meus lábios, irrompe como um grito

meu cântico de exílio.

Ah! Senhor, quando se há de realizar

a aspiração profunda de meu ser?

(1937)
É importante ressaltar que a temática do exílio foi bastante explorada na poesia brasileira. Este é um dos temas atemporais em nossa cultura, não apenas nas representações artísticas, mas faz parte da vida de muitos indivíduos, inclusive intelectuais em trânsito por diversas culturas que preservam o sentimento do não-pertecimento, do não-lugar que leva-os à constante sensação do exílio.

Gonçalves Dias (1832-1864), um dos expoentes da primeira geração do romantismo brasileiro, aborda em seu famoso poema “Canção do Exílio” a experiência do afastamento de sua terra de forma ufanista, o poeta enaltece as belezas naturais do país estabelecendo uma relação de valor com as terras estrangeiras onde se encontrava- Portugal-. O exílio do poeta é aquele físico, é a vivência de alguém que se encontra fora da noção de pertencimento a um lugar, da identidade de que está, ainda que provisoriamente, destituído.

Alguns outros poetas brasileiros abordaram esta temática, utilizando-se da paródia do referido poema. Murilo Mendes (1901-1975) revisitou “Canção do exílio” com versos que estão em uma perspectiva diferente da adotada por Gonçalves Dias. No lugar da exaltação da natureza e dos valores da terra brasileira, o poeta mineiro adota um tom irônico ao tratar de aspectos relacionados à vida cotidiana, quando cita as frutas brasileiras, por exemplo, não ressalta apenas a qualidade que lhes é peculiar, mas enfatiza o preço que se paga por elas: “Nossa flores são mais bonitas/ nossas frutas mais gostosas/ mas custam cem mil réis a dúzia”. Este autor está tratando da sensação de estar exilado, dentro do país onde se vive, através desta crítica.

O escritor modernista Oswald de Andrade (1890-1954) também se apropriou do poema de Gonçalves Dias trazendo um sentido novo à noção de exílio. Em “Canto de regresso à pátria” (1925) não há uma representação das belezas naturais brasileiras, o poeta não está exaltando as particularidades do país sobre o viés ufanista, ele desestabiliza os conceitos cristalizados por Gonçalves Dias em seu tempo: “Minha terra tem palmares/ Onde gorjeia o mar”, neste verso utiliza “palmares” ao invés de “palmeiras”, fazendo uma referência à escravidão no país ao citar um dos líderes do processo de resistência, Zumbi dos Palmares. Em outro momento o autor volta-se para o progresso e as modificações estruturais por que passavam cidades como São Paulo nos anos 20: “Não permita Deus que eu morra/ Sem que volte pra São Paulo/Sem que veja a Rua 15/E o progresso de São Paulo”. O exílio do autor se faz através da crítica e da ironia, mas estabelece uma relação de proximidade com o país.

Retomamos estes autores para voltarmos ao poema de Jacinta Passos. Em todos três, o significado do exílio se dá através da relação de identidade e pertencimento assumidos em relação ao um lugar físico, a um aspecto territorial, geográfico, o Brasil enquanto nação real ou imaginária. A escritora atribui um novo sentido à ideia de exílio, em seu poema, este não está relacionado à ideia de alguém que deseja voltar a um lugar específico, ou que tenha uma relação crítica com este lugar, como no caso dos três últimos escritores.

O eu lírico no poema de Jacinta Passos quer voltar do exílio de si mesma, do afastamento dos valores que elege verdadeiros em sua vida: a aproximação de Deus, do seu amor e compaixão. O afastamento da espiritualidade promoveu este afastamento de si mesma, que condena o ser à solidão e ao sofrimento e é deste estado espiritual que este sujeito deseja retornar, e talvez por ser ter sido ele mesmo responsável por este afastamento, seja mais difícil voltar ao caminho de antes: “Mas apenas começo a caminhar, / Estou cansada, Senhor. /é bem longo o caminho a percorrer/ e sinto-me sozinha.”. Sair do exílio significa reaproximar-se da conexão com o divino: “Suplico humildemente o teu auxílio. / Dos meus lábios, irrompe como um grito/meu cântico de exílio. / Ah! Senhor, quando há de realizar/ a aspiração profunda do meu ser?”. Interessante observar que o título “Canção de exílio” difere dos títulos criados pelos outros poetas. A troca das preposições denota que a canção que compôs serviu-lhe para o seu exílio, é própria para este momento de introspecção, que pertence apenas a eu lírico; esta volta a si mesmo não é uma atitude que pode ser apropriada por outros seres que não a voz lírica.

A sensação de angústia, solidão e incapacidade na resolução das inquietações internas fica também evidente neste outro poema:





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