Instituto de letras beatriz azevedo da silva jacinta, passos de uma escritora



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Canção para Maria22

Por que estás triste, Maria,

como noite sem espera

por que estás triste, Maria,

que eu vi no Porto de Santos

e nos campos da Bahia?

Tua fala me responde:

sete e sete são quatorze,

caranguejo peixe é,

como custa ai! como custa

de remar contra a maré.
Vamos, Maria, vamos,

o mundo é céu, terra e mar.


Não tenho pena e consolo,

nem fuga pra te dar.


Tua sorte será feita

com o poder da tua mão,

se vence fera e doença

também fome e solidão,

se vence até a loucura

com o poder da tua mão.

Amanhã vamos à lua

diz a ciência: por que não?

se vence governo e polícia,

Ó Maria,


com o poder da tua mão.
Vamos, Maria, vamos

O mundo é céu, terra e mar.


Eu já vejo amanhecendo

tão belo, no seu olhar.


Tão real como teres pés

é a fala do velho Stalin,

é o novo mundo chinês.

Tão certo como um provérbio

que a boca do povo fez.

A paz não chega de graça

como chuva cai do céu.

Quanto suor, pensamento,

quanta bravura escondida,

Maria, neste momento.


Tua sorte é de teu povo,

ninguém pode separar.


Sou povo não sou cativo,

Quitéria pegou nas armas,

Zumbi foi um negro altivo,

pelas mãos deste pracinha

foi Hitler queimado vivo,

Ó senhor americano,

sou povo não sou cativo:

teu poder? Era uma vez

histórias da carochinha

e jugo do português.


Verdade tão verdadeira

nem precisa se enfeitar.


Vamos, Maria, vamos

O mundo é terra, céu e mar. 23


Em 1942, período em que este poema foi escrito, a autora encontrava-se hospitalizada em uma casa de saúde mental em São Paulo para tratamento de grave crise nervosa que a acometeu. É importante refletir que a Maria deste poema está sendo convocada a uma posição de protagonismo, está sendo chamada a construir seu caminho, a vencer as dificuldades encontradas e, de alguma forma, engajar-se ainda que fosse difícil “remar contra a maré”. Esta Maria não terá a quem recorrer, nem quem a consolar: “Não tenho pena e consolo/nem fuga pra te dar”, deverá através de sua própria força encontrar as respostas para as dificuldades que enfrenta como a “solidão, a loucura”, todos esses desafios serão vencidos através do “poder da tua mão”.

Nota-se que, no poema escrito em 1934, a Maria está colocada em uma posição de veneração, é a santa que roga pelos pecadores. A Maria de 1953 não tem a quem recorrer para que interceda por ela.

O poema traz referências históricas importantes e faz analogias com personalidades que fizeram parte de importantes momentos na história do Brasil e do mundo. A voz lírica convoca Maria à luta, faz uma associação ao líder comunista Josef Stalin, comparando a força da personagem central do poema, aos pronunciamentos do político na antiga União Soviética: “Tão real como teres pés/é a fala do velho Stalin/ é o novo mundo chinês”, este último verso, faz referência ao Comunismo na China. O poema é todo construído como se fosse um convite à mobilização política, à ação que trará mudanças sociais como está expresso nos versos: “A paz não chega de graça/como chuva cai do céu”. O poema parece em alguns momentos apenas tratar de Maria, mas na verdade o eu lírico refere-se, em muitos momentos ao coletivo, ao país e a outros lugares do mundo. A poetisa constrói uma imagem heroica de nação “Sou povo/não sou cativo”, em referência à dependência histórica do Brasil em relação a Portugal e reforça mais à frente: “Sou povo/não sou cativo/Teu poder? Era uma vez/Histórias da carochinha/E jugo do português”, ressaltando que o país não estava mais sob uma relação de subserviência com nenhum outro país.

Há também no poema elementos que são autobiográficos, o sujeito lírico fala em “vencer o governo e a polícia”, em “vencer a loucura e a solidão” referências que estão associadas à própria vida da autora em parte por conta da perseguição que os militantes do PCB sofreram em vários momentos como no período do Estado Novo e também em relação à sua própria situação no momento da composição do poema.

A voz lírica faz menção à figura do líder comunista soviético Josef Stalin que foi Secretário Geral do Partido Comunista em seu país até 1953 e também ao comunismo chinês instituído em 1949 com a Proclamação da República Social da China.

Todas essas referências estão associadas à sua atuação como militante do PCB demonstrando estar atenta aos acontecimentos em torno do Comunismo no mundo.

Na penúltima estrofe, o poema apresenta uma característica recorrente em sua obra, “o grito de libertação”: “Sou povo, não sou cativo/Quitéria pegou nas armas/Zumbi foi um negro altivo/pelas mãos deste pracinha/foi Hitler queimado vivo”. Nesta estrofe, a autora consegue reunir informações históricas que exaltam heróis brasileiros como Maria Quitéria e Zumbi dos Palmares em referência aos desafios enfrentados por ambos, cada um em seu período histórico e faz também referência à entrada do Brasil na Segunda Guerra e aos soldados da Força Expedicionária Brasileira, enviados à Itália para o front, conhecidos internamente como “Pracinhas”.

As características apresentadas na análise temática do poema convergem para a hipótese da alteração da obra da escritora a partir de sua vivência como militante do Partido Comunista Brasileiro como um fator decisivo para que ela desse um salto da poesia de cunho religioso, como está expresso no poema “Maria” (1934) e o que se verifica em “Canção para Maria” (1953) é uma guinada em relação ao tema e na forma como ela constrói a personagem central.

Tomando a ideia de que a literatura é um suporte simbólico de representação das diferentes esferas da realidade, e é importante reconhecer a relatividade desta realidade, esta compreensão de literatura dialoga com a forma como Passos construiu seu percurso através desta forma artística.

Dentro das delimitações teóricas que definiam a literatura e seus moldes de produção em seu contexto histórico, a autora utilizou a sua escrita como uma forma de interpretar e de alguma maneira interferir na realidade em que se encontrava, tendo em vista que muitos de seus textos eram combativos e tinham uma postura ideológica e política muito claras.

A escritora e jornalista publicou um artigo intitulado “Sentido atual da literatura” no jornal O Imparcial (1918-1947) em que discute o “sentido da literatura nos idos dos anos 40”. Naquele momento, sua compreensão era de que o texto literário deveria estar inclinado a estabelecer um diálogo com a realidade social e cultural de seu tempo e de seu lugar. Neste texto ela deixa claro que a literatura tem uma função social importante e deveria valer-se dessa força para atuar como uma ferramenta de ação e intervenção em um determinado contexto:


Na obra literária, o artista, dentro de sua condição humana, exprime ou representa a realidade. E como, dentro dessa condição humana, a realidade é alguma coisa móvel que se transforma sem cessar, a literatura é também um movimento. A novas formas de vida sempre correspondem sempre novas formas literárias. [...]

A guerra atual, modificando as relações humanas, imprime um novo sentido ao movimento literário. Talvez ainda não seja possível definir as novas formas literárias em que o movimento se concretizará. Mas o sentido, a linha essencial do movimento aí está, mais ou menos nítida, através dos fatos, sob os acontecimentos que se desenrolam.

Em nenhum momento histórico houve uma comunicação tão direta e tão ampla entre os homens de todos os cantos do mundo. [...]

O nosso cenário de vida, hoje, é o mundo. O primeiro reflexo, na literatura dessas transformações, é a purificação do seu sentido, a queda dos falsos conceitos de literatura- ornamento, literatura-instrumento, literatura-divertimento e todos os outros conceitos que deformam a literatura. A regeneração do termo literário terá o valor de um símbolo. Quem, no meio das lutas, do sangue, das lágrimas da hora atual, escreve livros galantes, como o que Leopoldo Stern acaba de publicar e só é lido ainda por alguns brasileiros, porque nós, brasileiros, ainda não estamos realmente dentro do fogo que transforma o mundo. [...]

O sentido atual da literatura será uma incorporação de novas correntes humanas. Em quase todos os países não é uma expressão da vida nacional, mas de alguns grupos sociais dentro da nação. [...]24 (Cf. Anexo H)

Como é possível identificar neste trecho do artigo, a escritora aponta para a necessidade de pensar a literatura de forma que estivesse atrelada às questões históricas e sociais de seu tempo. Para ela, uma obra literária não poderia estar voltada apenas para as questões de fruição estética ou mesmo para o entretenimento do leitor. Ela compreende que a literatura pode assumir a expressão da vida humana no seu sentido mais amplo, ela deveria estar relacionada ao seu contexto cultural, social e principalmente comprometida com seu povo e aponta não somente o Brasil, mas nenhuma nação, naquele momento tinha o compromisso com a criação de uma literatura que dialogasse com suas questões internas e também com o que considera universal.

Estes dados da trajetória pessoal da autora são aqui colocados para que a partir deles seja possível compreender como ela construiu sua identidade como escritora. Apostamos que o fazer literário não é um ato isolado do mundo, a literatura, a poesia feita por Jacinta Passos estava em compasso com o traçado ideológico que escolheu trilhar.

É claro que, em muitos momentos, uma determinada ideologia, principalmente quando está ligada ao fazer político-partidário, pode perder-se e tornar-se anacrônica, como será possível verificar, através de uma avaliação crítica, sobre o que a autora escreveu depois que os ideais comunistas estavam em descompasso com o mundo que rapidamente transformava-se com os avanços capitalistas.

Silviano Santiago (2002) utiliza a expressão “literatura anfíbia” para ilustrar como escritores brasileiros tornaram-se intelectuais cujas obras teriam para além da função estética e artística a elas inerentes, também a função social e política tendo em vista o contexto em que essas obras literárias são produzidas, ou seja, a literatura brasileira e alguns de seus escritores poderiam assumir a tarefa de transcender a arte pela arte e adquirir uma face mais voltada para a realidade, levando-se em consideração de que no país a maioria da população não tem acesso ao consumo dos bens culturais.

É importante observar que não se está reduzindo a literatura a uma ferramenta de panfletagem política uma vez que esta é uma atividade intelectual e cultural que não está presa a qualquer tipo de padrão ou regra rígida, principalmente na contemporaneidade. O que se busca, em vez disso, é expressar neste estudo que grande parte dos textos de Jacinta Passos atende à proposta de uma literatura politicamente engajada, na qual ficam claros os anseios por uma sociedade mais equilibrada.

Silviano Santiago aponta diferentes aspectos relacionados ao ofício literário na contemporaneidade, mas o ponto que se relaciona com a hipótese de que a obra de Jacinta Passos é socialmente engajada, reside na defesa deste autor de que um escritor para além de seu papel de artista, desempenha um papel de grande influência social a partir das ideias que defende e que de alguma forma estão relacionadas com os problemas de ordem política e social que envolvem o país,
Com o passar das décadas a prática da literatura no Brasil foi-se revestindo duma capa, ou seja, duma dupla meta ideológica. Ao explorar os meandros da observação direta dos acontecimentos cotidianos ou históricos (...), nossa literatura também configura a carência sócio-econômica e educacional da maioria da população do país (...). No século 20, os nossos melhores livros apontam para a Arte, ao observar os princípios individualizantes, libertadores e rigorosos da vanguarda estética europeia, e ao mesmo tempo apontam para a política, ao querer denunciar pelos recursos literários não só as mazelas oriundas do passado colonial e escravocrata da sociedade brasileira, mas também os regimes ditatoriais que assolam a vida republicana. A atividade artística do escritor não se descola da sua influência política; a influência da política sobre o cidadão não se descola da sua atividade artística. (SANTIAGO, 2002, p.14-15)

Assim como Santiago explica que a atividade artística do escritor não se descola da sua influência política e logo da possibilidade de fazer alguma intervenção social, a obra de Jacinta Passos também se encontra dentro desta proposta de estar em compasso com os acontecimentos históricos e políticos de sua época, sobre os quais sempre que pôde emitiu seu parecer crítico.

Como mencionado anteriormente, no início de sua carreira literária, os poemas estavam ligados às temáticas religiosas, à exaltação da natureza, à subjetividade demonstrada através da angústia existencial presente em parte deles. Nos poemas religiosos, predominam a inquietude, o desassossego da alma em relação ao sagrado, o eu lírico busca autoconhecimento, mas tem consciência de sua incompletude e impotência diante da vida.




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