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Jornalismo, modos de fazer mundos e relativismo



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5. Jornalismo, modos de fazer mundos e relativismo
Há uma distância entre dizer “a facticidade importa” e “a facticidade é o que mais importa”, e essa distância se torna mais claramente distinguível se, com Wittgenstein, nos perguntarmos mais pelos usos das palavras do que por seus significados. Ao utilizarmos palavras com o propósito de comunicar algo, estamos ao mesmo tempo efetivamente fazendo algo (AUSTIN, 1990); compreender o significado desta ação levanta o problema de sua intencionalidade e do exame do contexto em que ocorre. Para usar o exemplo mobilizado por Quentin Skinner, não basta interpretar o que Maquiavel disse, é preciso compreender o que ele estava fazendo ao dizê-lo. Dessa perspectiva, não importa se Maquiavel falava ou não a verdade; a noção de verdade é irrelevante para a explicação de crenças (SKINNER, 2002: 4). Melhor faremos em observar que, quando afirmamos que uma crença é verdadeira, queremos dizer que ela é racionalmente aceitável dentro do contexto de outras crenças (ibidem: 52). Assim como o julgamento sobre o tamanho de um objeto só faz sentido se feito em comparação com algo que pertença a mesma classe de objetos, também o julgamento acerca da justeza de uma ação só faz sentido dentro de um determinado acordo ou consenso – um cachorro pode ser grande em comparação a um poodle, mas não em comparação a “cachorros” tomados genericamente. Do mesmo modo, uma ação pode ser errada em relação a um determinado contexto ou acordo intersubjetivo, mas não errada per se (HARMAN, 2010: 226).

O jornalista poderia protestar alegando que, para além da correção factual, há outros princípios aos quais deve ajustar seu trabalho, como a transparência de fontes e a exigência de fairness, de “ouvir ambos os lados”. Mas nada disso resolve o problema que estamos examinando. Fontes contrárias umas às outras podem ambas estar mentindo ou simplesmente equivocadas (SEIDENGLANZ e SPONHOLZ, 2008: 43). Mais ainda, elas podem ser estrategicamente utilizadas pelo jornal como um falso contraponto dentro de uma narrativa que o jornal sabe deliberadamente estar construindo, e que justamente por isso não pode ser percebida enquanto tal11. Novamente, o que importa é a ação que o jornal está desempenhando ao convocar “ambos os lados”, e não aquilo que propriamente dizem. O principal está no contexto, pois o juízo quanto à correção de tal ação jornalística só pode ser formulado se examinadas as circunstâncias de sua produção e observados os efeitos sobre a conjuntura em que se insere. É aqui que ficam evidentes os limites das propostas avançadas por autores “narrativistas”: dizer que o relato jornalístico é “um jogo de linguagem situado entre a narrativa da história (realista) e a literária (imaginativa)” (MOTTA, 2005b: 10), mas insistir em julgar a validade do relato menos pelos mundos que ele convida o leitor a imaginar como reais do que pelo grau de realismo do mundo supostamente descrito, é, ao fim e ao cabo, permanecer preso ao paradigma do jornalismo como espelho da realidade. Escapar a este impasse exige uma mudança temporal na localização do critério de validade do discurso jornalístico. O paradigma do espelho ancora o juízo acerca da validade da notícia em referência ao acontecido. A alternativa, se é que desejamos abandonar o monopólio da objetividade como virtude máxima do jornalismo, consistiria em ancorar a validade da notícia em referência aos mundos que ela ajuda a construir enquanto os representa12.

No entanto, afirmar que a correspondência com a realidade importa menos que a intencionalidade e os efeitos reais da narrativa é abrir o flanco para a acusação de relativismo. Esta é a provável razão pela qual os “narrativistas” se recusaram a dar o passo seguinte, evitando reconhecer todo o alcance de suas formulações. O medo, naturalmente, é o do vale-tudo na representação. Borradas as fronteiras que distinguem descrição e narração, fato e valor, objetivo e subjetivo, em que bases poderia o discurso jornalístico reivindicar para si a credibilidade de que depende para se manter? Como se diferenciaria da literatura? Se assim fosse, não estaríamos então condenados a uma guerra de versões, tanto mais suja quanto a disposição dos atores de torcer os eventos de modo a encaixá-los numa visão de mundo previamente dada?

Os alardeados malefícios do relativismo13, conhecemos desde a Grécia antiga – a auto-refutação lógica, o subjetivismo incoerente, o niilismo, a paralisia ética. Mas tais acusações em geral têm suas raízes mais no dogmatismo do acusador do que no relativismo do acusado. “Todas as definições comuns do relativismo”, assinala John Ladd, “são formuladas por adversários do relativismo... São definições absolutistas” (apud GEERTZ, 2001: 48). Ventilada por atores internos ao campo do jornalismo, a denúncia do suposto caos que se instalaria caso abríssemos mão do critério da objetividade e da verdade como correspondência com a realidade cumpre a função ideológica de lhes salvaguardar o lugar de fala. Então não é próprio do discurso ideológico trabalhar “nos conflitos que procura negociar”, amiúde com o objetivo de “reapresentar o problema sob a forma de sua solução potencial?” (EAGLETON, 1996: 210). Visto de perto, contudo, este revela-se um falso problema. Na falta de espaço para tratar aqui das inúmeras respostas dadas ao desafio do relativismo, fiquemos com a observação, a esta altura um tanto trivial, de que podemos distinguir entre relativismo em sentido forte (“democracia liberal e nazismo são sustentados por crenças válidas cada qual à sua maneira, sendo impossível afirmar a superioridade intrínseca de um regime sobre outro”), e em sentido fraco (“não dispomos de um princípio universal absolutamente incontroverso sobre o qual poderíamos sustentar nossa crença na superioridade da democracia liberal sobre o nazismo”). Ora, dizer que o critério de validação de uma narrativa jornalística não está em sua adequação aos fatos, mas em sua capacidade de nos fazer enxergá-los por uma perspectiva mais alargada, que ampliaria nossos horizontes de compreensão, não é incorrer em relativismo forte. A própria identificação de um critério substantivo já o afasta, pois que podemos decidir pela superioridade de uma narrativa sobre outra conflitante. Poder-se-ia retrucar, questionando os critérios que definiriam o que conta como “perspectiva mais alargada” e “ampliação de horizontes de compreensão”. A resposta começaria pela assunção de nosso próprio etnocentrismo, a convicção de que tais critérios estariam baseados naquilo que nós hoje consideramos como sendo a “boa vida”: o respeito aos direitos fundamentais, a busca por um ótimo de equilíbrio entre igualdade e liberdade, a promoção da justiça e da paz, e assim por diante.

Longe portanto de rejeitar a verdade como ideal regulativo, trata-se de ampliar o horizonte normativo de toda atividade de descrição ou representação de modo a abarcar outras preocupações de cunho ético e político, algumas das quais advindas do próprio compromisso de buscar a verdade. Nessa perspectiva, o critério para decidir sobre a qualidade da práxis jornalística não será o grau de objetividade dos relatos que produz, mas sim a que desígnios servem as narrativas construídas a partir de tais relatos, os possíveis que deixam entrever, os horizontes que descortinam14. A questão da validade do discurso jornalístico poderia então ser recolocada de modo a nos levar pensar sobre o quão instrutiva é a história que conta, o quanto nos permitiria compreender sobre nós mesmos, e se abriria uma fértil perspectiva acerca dos eventos que descreve. Não se pode pedir muito mais a uma narrativa. E aqui também a mensuração de méritos e falhas se dá por comparação. “Se toda estória plenamente realizada (...) é um tipo de alegoria, aponta para uma moral ou dota os eventos – sejam reais ou imaginários – de uma significância que eles não possuem enquanto mera sequência”, diz Hayden White, “então parece possível concluir que toda narrativa histórica tem como propósito latente ou manifesto o desejo de moralizar os eventos de que trata” (WHITE, s/d/p: 18; ênfase minha). Eis a moral da história.




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