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O trabalho ideológico da crítica à parcialidade



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2. O trabalho ideológico da crítica à parcialidade
Assim como o esquecimento não é o contrário da memória, mas uma de suas condições de possibilidade, também o recorte e a hierarquização de informações são necessários à atividade de levá-las ao conhecimento público por meio de veículos de comunicação. Dada a impossibilidade de abarcar a totalidade dos fatos – limitação inerente à qualquer atividade descritiva –, a omissão e o esquecimento operados pela mídia são, em princípio, um imperativo inescapável da atividade jornalística, não um investimento ideológico3. Mas a frequência com que o imperativo desliza para o investimento, e as formas substantivas que tais deslizamentos assumem, não haveriam de passar desapercebidas. São evidências, dizem os críticos, de um modus operandi que coaduna-se com os ditames mais amplos do espetáculo, pautado pela busca do sensacional, extraordinário ou inusitado que caracteriza o fait divers. Bourdieu resumiu bem o ponto, notando ainda as afinidades eletivas entre o predomínio do fait divers e outros aspectos estruturais da imprensa, como a “circulação circular da informação”, a lógica da concorrência operando a homogeneização da produção jornalística, e a tendência a privilegiar descrições feitas por sobre ideias cuja aceitação esteja garantida, de modo a evitar possíveis ruídos de recepção (BOURDIEU, 1997: 30-38). Tudo se passa como se os eventos descritos pela imprensa ocorressem num vácuo causal ou vazio histórico, existindo apenas enquanto espetáculos fugidios, tão duráveis quanto o brilho da excitação que produzem, tão rentáveis quanto os lucros políticos advindos de sua exploração dramatizada (CHAUÍ, 2006: 45-46). Some-se a isso a personalização das questões apresentadas em noticiário, a sanha voyeurística pela vida de celebridades, a obsessão por descrever a vida política sob uma ótica degradada até o ponto da estereotipagem (PATTERSON, 1993) – a lista de deslizamentos é extensa.

Este último ponto é especialmente relevante. Não cabe aqui revistar a controvérsia que, desde Dewey e Lippmann, se desenrola sobre a problemática relação entre opinião publicada, opinião pública e democracia (GUIMARÃES e AMORIM, 2013); para os nossos propósitos, importa observar os contornos adquiridos pelo debate a partir da chamada crise da representação, que é também da grande mídia como instância representativa, crise essa que se materializa na sensação generalizada de descolamento da atividade política em relação aos interesses públicos, na desconfiança nas instituições, no esvaziamento dos partidos e nos baixos índices de comparecimento eleitoral. O processo de formação de preferências é variável importante para o funcionamento da democracia: o voto expressa um julgamento sobre o comportamento e o desempenho de políticos, julgamento este que é construído através do acúmulo de narrativas sobre questões que ganham expressão através da mídia. Isto é, para que os eleitores possam comparar alternativas, é preciso que eles as situem dentro de um espaço comum, que é dado pelos diversos assuntos que formam a agenda de debates públicos. Logo, a grande mídia, que tem a capacidade de efetivamente pautar a agenda, condiciona em alguma medida a escolha eleitoral (MIGUEL, 2003), questão de suma importância nas atuais “democracias de audiência”, nas quais os partidos vem perdendo a primazia, entre outros motivos, em função da prevalência do contato midiático direto entre líderes e eleitores (MANIN, 1997).

Não é difícil enxergar a razão. Desconstruindo as versões apresentadas por atores políticos ou subscrevendo-as de acordo com o sabor da ocasião, e tendo na busca de irregularidades sua principal atividade de crítica, o jornalismo se torna cativo de uma prática em boa medida voltada às miudezas e aos escândalos, assim “esquecendo” de apresentar adequadamente os contextos, de inserir os fatos esquadrinhados numa ordem mais ampla de fenômenos (COELHO, 2007: 347). Resultaria daí não apenas a disseminação de uma visão cínica da esfera política4 – em que os atores são pintados como ambiciosos sem convicção, responsivos somente aos interesses referidos à lógica de competição interna pelo poder –, mas também a fixação de uma disposição cognitiva que obstaculiza o exercício de compreender e situar fatos dentro de uma perspectiva minimamente contextual, histórica. Os consumidores de informação cairiam então vítimas de uma “amnésia estrutural”, pois que o jornalismo produziria uma visão “des-historicizada e des-historicizante, atomizada e atomizante”, uma “representação do mundo prenhe de uma filosofia da história como sucessão absurda de desastres sobre os quais não se compreende nada e sobre os quais não se pode nada” (BOURDIEU, 1997: 138-140). É a própria inteligibilidade da realidade que está em questão aqui, e este vácuo narrativo que conjuga a lógica espetacularizada do fait divers com uma hiperfactualidade persecutória e iconoclasta poderia ser visto como um sintoma do vazio das metanarrativas.

Pode-se concordar com tudo isto – a presentificação atomista que impede a compreensão estrutural, a lógica do espetáculo e seus corolários, o personalismo vazio, o desencanto que sobrevém da despolitização – e ainda assim manter certa suspeita quanto a tais críticas endereçadas ao jornalismo. Não será necessário retomar as objeções feitas ao reducionismo determinista que condena a atividade jornalística à mera função de reprodutora da ideologia hegemônica; tal crítica está bem sedimentada, tendo inclusive recebido o reforço recente das teorias de recepção. Ao contrário, o que se pretende aqui é questionar o papel deste tipo de abordagem na própria reprodução da autoimagem de jornalistas. E se ser visto como produtor de instantâneos factuais a-históricos for algo desejável para o campo do jornalismo, desde um ponto de vista de sua justificação ideológica? Dito de outro modo, o fato de ser percebido como denunciante de escândalos e relator de fait divers esparsos, e não como produtor de narrativas, não será justamente um dos ingredientes indispensáveis ao trabalho ideológico do jornalismo no sentido de apresentar-se como uma atividade calcada na objetividade? Se tivermos em mente que o fetichismo da objetividade é ingrediente fundamental à reivindicação da imparcialidade, da qual jornais e jornalistas dependem em boa medida para construir seu capital simbólico, e se lembrarmos ainda que a ideia de “narrativa” encontra-se num campo semântico povoado por noções de forte coloração subjetivista, como “história”, “enredo” e “personagem”, então não será ilícito concluir que esta denúncia do jornalismo como operador da acronia e atopia, por mais válida que seja, acaba contribuindo inadvertidamente para manter nas sombras uma característica absolutamente fundamental do fazer jornalístico, qual seja, o caráter poético de sua operação narrativa. Esta é precisamente a verdade que o jornalismo precisa recalcar para se manter enquanto tal. Redações podem sobreviver razoavelmente incólumes à acusação de que promovem amnésia estrutural ou recortes mal feitos da realidade, mas não à denúncia de que produzem, a partir de artefatos verbais, narrativas mais próximas de ficções literárias do que de descrições que espelhariam os fatos. Quem constrói narrativas dificilmente poderá se fazer aceito como imparcial ou objetivo, pois que todo contar de história implica na assunção de uma perspectiva, de um narrador; quem, por outro lado, é visto (e vê a si próprio) como mero recolhedor e apresentador de fatos diversos, isolados, encontra mais facilidade para cobrir-se com o manto protetor da objetividade e imparcialidade.


3. Radicalizar a notícia como narrativa
Investir contra a fala de jornais e jornalistas, demonstrando a parcialidade de manchetes e reportagens e colunas, pode ser eticamente recomendável e politicamente recompensador, mas, paradoxalmente, fortalece o vocabulário que pretendia erodir: contribui para manter intocado o lugar de fala do jornalismo. Se se critica um jornal pela parcialidade desavergonhada ou implícita de suas representações, é porque assume-se como dada a possibilidade de desempenhar a tarefa de modo imparcial. Evidentemente, nada disto implica em sugerir que análises de framing e agenda-setting sejam condenadas à lata de lixo das ciência sociais; muito ao contrário, são importantes na medida em que mantem afiada uma hermenêutica da suspeita que desnaturalize as representações ofertadas e examine criticamente seus efeitos sobre a constituição de uma ordem simbólica. O problema não está em analisar o discurso jornalístico no intuito de lhe revelar as tendências ocultas e os mecanismos de funcionamento, mas sim em assumir que isto deva ser feito contra o pano de fundo do referente ao qual ele alegadamente deve obediência – os “fatos”.

O jornalismo é o único campo produtor de conhecimento que parece haver passado razoavelmente incólume pela virada linguística; talvez por esta razão possa ser considerado o modo de ficção hegemônico a partir do século XX. Goza do privilégio epistemológico cientificista, mas sem as exigências impostas aos demais campos que também o desfrutam. Ao contrário, por exemplo, de antropólogos e sociólogos, jornalistas não precisam informar as condições de produção de seu trabalho, nem a metodologia empregada etc; basta que se mantenham apegados a uma linguagem supostamente neutra ou descritiva, que observem o imperativo da pluralidade de fontes, para que continuem a desfrutar da permissão da objetividade. Esforçam-se o quanto podem para neutralizar “as marcas enunciativas, evitando o uso das formas indexicais, dos dispositivos de linguagem que explicitam a relação dos enunciados com a pessoa, o lugar e o tempo da própria enunciação” (RODRIGUES, 2012: 240), e seguem trabalhando como se a distinção entre fato e valor fosse uma verdade auto-evidente, não uma crença contingente. “O jornalismo procura representar a realidade dos fatos, operando, assim, uma virtualização da realidade, sem, contudo, ficcioná-la” (SILVA, 2012: 344-345) – eis a ilustração perfeita do autoengano de que o jornalista necessita para continuar acreditando na correção do próprio trabalho, e que nos remete à dimensão da ideologia como práxis, como fazer ideológico, a que Zizek (1996) alude. A definição evita o ranço positivista, isto é, reconhece que qualquer representação do real é necessariamente falha (daí a operação de “virtualização” da realidade), ao mesmo tempo em que procura manter os pés fincados no realismo, querendo com isso escapar ao fantasma da ficção.

O fantasma, no entanto, é real. A crítica que salienta o caráter narrativo ou poético da produção jornalística não é exatamente novidade; já em 1925 Robert Park dizia ser a notícia de jornal uma forma de literatura popular. Mas foi somente nos anos 1970, a partir da consolidação do paradigma construcionista da crítica ao jornalismo5 – oposto tanto à perspectiva da notícia como distorção ideologicamente motivada, quanto à da notícia como espelho da realidade (TRAQUINA, 2012: 169) –, que tal crítica ganhou força. Ancorados na compreensão de que a linguagem não é um meio transparente de representação da realidade, mas uma ferramenta da qual dispomos para lidar com ela, os autores “narrativistas” procuraram avançar a reflexão sobre o caráter poético do fazer jornalístico, pensando-o como um gênero literário ou um tipo particular de narrativa mitológica (BIRD e DARDENNE, 1999). Nessa perspectiva, “o jornalismo não é ficção, mas é narrativa; como narrativa, pode ser interpretado como ficção” (MOTTA, 2005a: 25). Num certo sentido, a inspiração que lhes subjaz é análoga à problematização da questão textual na feitura de etnografias, eclodida a partir da publicação da coletânea Writing Culture (1986), que sedimentou o entendimento da antropologia como um empreendimento textual híbrido6. Não se trata de dizer que etnografia ou jornalismo sejam somente literatura, mas sim de lembrar que são sempre uma escrita, que o “poético e o político são inseparáveis, e que a ciência está dentro, e não acima, de processos históricos e linguísticos” (CLIFFORD, 1986: 2).

As fronteiras comumente aceitas estipulam que o jornalismo é regido pela convenção da veracidade, ao passo que narrativas literárias atendem a convenções de ficcionalidade, e que, ao contrário do escritor de ficção, o jornalista tem pretensão de verdade, precisa ajustar-se ao mundo real, descrevendo-o tanto quanto possível (SANCHEZ, 1992). É bem verdade que construcionistas em geral e “narrativistas” em particular ajudaram a borrar tais fronteiras, mas o fizeram com tamanha reverência à distinção entre fato e valor, que caberia perguntar se conseguem de fato extrair todo o rendimento daquilo que propõem. “Considerar as notícias como narrativas”, afirmam Bird e Dardenne (1999: 265), “não nega o valor de as considerar como correspondentes da realidade exterior”. Gaye Tuchman sugere que “dizer que uma notícia é uma ‘estória’ não é de modo algum rebaixar a notícia, nem acusá-la de ser fictícia. Melhor, alerta-nos para o facto de a notícia (...) ser uma realidade construída possuidora da sua própria validade interna” (1999: 262; itálicos meus). Mais recentemente, a absorção das teorias da recepção pelo campo dos media studies adicionou um novo elemento a esta equação. Agora, a narratividade não é apenas propriedade intrínseca ao texto jornalístico, referida ao estilo de escrita ou modo de composição da notícia: “Não é, entretanto, o caráter mais ou menos narrativo que vai revelar a narratividade do texto jornalístico. É o leitor ou ouvinte, no ato de recepção das notícias, que conclui a obra” (MOTTA, 2005b: 9). Em resumo: notícias são construções narrativas, e não meros reflexos descritivos; possuem sua própria validade interna, mas não são artefatos acabados em si mesmos, pois que sua significação depende também do modo como são lidas e interpretadas; ao mesmo tempo, conservam seu valor na medida em que correspondam à realidade.

A noção de que a notícia é uma construção narrativa arranha apenas a superfície do objetivismo que pretende deslocar; falta-lhe a radicalidade necessária para impactar mais significativamente o vocabulário hegemônico do jornalismo. A despeito de suas muitas contribuições, os “narrativistas” permanecem presos à tradicional noção da verdade como correspondência da realidade que jaz na base do paradigma do jornalismo como espelho de fatos, que eles próprios repudiam porque ingenuamente objetivista. Mas não é possível solapar, ao ponto da ruptura, tal fetiche da objetividade sem abandonar a noção da verdade como correspondência da realidade. Fazê-lo implica em lidar com duas ordens de problemas: a necessidade de postular um critério para decidir o que conta como bom ou mau jornalismo, que não esteja atrelado umbilicalmente ao referente empírico da notícia, isto é, o fato que pretende descrever; e a necessidade de responder às acusações de se estar assumindo uma posição relativista, algo que inevitavelmente incide sobre todos aqueles que realizam o tipo de movimento aqui proposto.




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