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Meta-História. A imaginação histórica do século XIX. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.
________. Enredo e verdade na escrita da história. In: MALERBA, Jurandir (org.). A História Escrita. Teoria e história da historiografia. São Paulo: Contexto, p.191-209, 2006.
________. O valor da narrativa na representação da realidade. In: Caderno de Letras. UFF, n3, p.5-33, s/d/p.
________. Trópicos do Discurso. Ensaios Sobre a Crítica da Cultura. São Paulo: EDUSP, 2001.
WOLF, Mauro. Teorias da comunicação de massa. São Paulo: Presença, 1990.


1 Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Jornalismo Político do VI Congresso da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (VI COMPOLÍTICA), na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), de 22 a 24 de abril de 2015.

2 Doutor em Ciências Sociais (PUC-Rio). Pós-doutorando em Ciência Política no Instituto de Ciências Sociais da UERJ. e-mail: antonioengelke@gmail.com

3 Elencar os atributos que demarcariam a aptidão de um fato para converter-se em notícia, perguntando pelas características e processos que confirmam sua “noticiabilidade” (WOLF, 1990), é apenas descrever procedimentos do campo jornalístico; nada nos diz sobre os efeitos de tal operação. Faremos melhor em observar que, mais que mero suporte, o jornal está inserido num dispositivo mais amplo de informação, uma matriz cuja existência é anterior ao texto, que implica num modo de estruturação próprio e “prepara para o sentido” (MOUILLAUD, 2012: 48). Trata-se de examinar como as escolhas feitas acabam por conformar uma determinada estória, e o que as exclusões e omissões necessárias à sua feitura poderiam revelar sobre as estórias que não chegaram ser contadas.


4 Para uma ilustração deste argumento, ver a análise de Kantola (2007) sobre o imaginário político cínico plasmado pelo Financial Times.

5 O paradigma construcionista abriga autores de correntes diversas, como a estruturalista e a interacionista. Uso o neologismo “narrativistas” para me referir a um subconjunto específico de autores deste paradigma, que partilham o intuito de avançar a crítica pela via da observação da natureza textual do jornalismo.

6 Desde Malinowski, a “subjetividade do autor [fora] separada do referente objetivo do texto”; no máximo, a voz autoral era vista como um “estilo” (CLIFFORD, 1986: 13; tradução minha). Narrativas de abertura de etnografias, de Malinowski a Geertz, cumpriam a função de mediar a contradição entre a autoridade científica e a experiência subjetiva de campo. Mas o texto final deveria, ao menos em tese, conformar-se às normas do discurso científico, que exigem o completo apagamento do sujeito que experimenta a realidade que pretende descrever. Paradoxalmente, “as condições do trabalho de campo [eram] expressas como um impedimento à tarefa de realizá-lo, ao invés de ser parte daquilo que deveria contar como trabalho de campo” (PRATT, 1986: 41). Que este cientificismo possa manter ainda hoje sua ascendência sobre pesquisadores do campo é um testemunho da força da crença na transparência da representação. Voltarei a este ponto mais adiante.


7 Existe algum limite à representação de eventos? Ao exemplo mais extremado: os “fatos brutos” do nazismo e do extermínio sistemático dos campos de concentração colocariam, em função de qualidades que lhes seriam inerentes, limites ao que poderia ser dito sobre eles? White responde negativamente a estas questões, avançando um argumento cuja complexidade impede que lhe façamos justiça aqui. Sem medo de deslizar em direção a um relativismo estéril, e já torcendo a questão em outra direção, creio ser possível sustentar, com Stanley Fish (1980), que a obviedade de significado de um discurso não decorre dos valores que suas alegações possuem num sistema linguístico independente de contexto; ao contrário, é porque tais alegações são recebidas já inseridas num contexto que elas possuem um significado que então será percebido como óbvio.

8 White (1998) define os 4 modos de consciência histórica em conseqüência das estratégias prefigurativas que informa cada um deles, referidas aos 4 tropos da linguagem poética (metáfora, metonímia, sinédoque e ironia). Assim, um estilo historiográfico seria a combinação particular entre os modos de elaboração de enredo (romanesco, trágico, cômico, satírico), o tipo de argumentação (formista, mecanicista, organicista, contextualista) e sua implicação ideológica (anarquista, radical, conservador, liberal). Não há necessidade de nos aprofundarmos nos meandros de sua análise dos elementos trópicos contidos na consciência histórica e na historiografia européia do século XIX; para os nossos propósitos, basta observar sua crítica ao discurso histórico, extraindo lições cuja validade possa ser estendida ao trabalho jornalístico.


9 Por exemplo, considere as seguintes manchetes de jornal: 1) "Já chega a quarenta o número de cubanos que abandonaram o Programa Mais Médicos"; e 2) "Em cada mil cubanos do Mais Médicos, menos de quatro abandonam o Programa". Ambas são factualmente verdadeiras, correspondem à realidade de que tratam, mas o sentido que constroem para o fato ao qual se referem difere enormemente. Em (1) temos o número absoluto, que, ampliado em dramaticidade pelo uso da expressão “já chega a...”, sugere algum fracasso no Programa Mais Médicos. Em (2) temos o número relativo, e a proporção que ele assinala induz o leitor a concluir que o Programa transcorre em normalidade. Pode-se, é claro, afirmar que a manchete (2) é melhor do que (1) porque informa mais adequadamente o contexto necessário à compreensão do fato em questão. Mas pode-se com igual justiça argumentar que a manchete (2), ao diluir o número de médicos cubanos desertores na grandeza estatística, contribui para minimizar um problema real do Programa. Se quisermos, pois, decidir pela superioridade de uma ou outra manchete, o critério da correspondência com a realidade não é de muita serventia. Como assevera Stanley Fish, “desacordos não podem ser resolvidos por referência a fatos, porque os fatos emergem somente no contexto de um ponto de vista. Segue-se, então, que desacordos devem ocorrer somente entre aqueles que possuem (ou são possuídos por) diferentes pontos de vista, e o que está em jogo num desacordo é o direito de especificar o que serão os fatos dali em diante. Desacordos não são resolvidos por fatos, são os meios através dos quais fatos são resolvidos. Nenhuma resolução, claro, é final, e no (quase certo) evento de uma disputa ser reaberta, a categoria dos fatos ‘como eles realmente são’ será reconstituída em uma outra forma” (FISH, 1980: 338-339; tradução minha). O exemplo acima evocado é de Gustavo Gindre, que o formulou em sua página pessoal no Facebook.

10 Não é preciso recorrer a análises ideológicas do discurso para embasar o argumento. A própria seleção do que conta como notícia, e sua hierarquização em termos de relevância, já é uma operação de construção de sentido, na medida em que oculta mostrando.

11 Foi o historiador Sergio Bruno Martins que me chamou a atenção para este argumento, quando as Jornadas de Junho explodiam com força no Rio de Janeiro. Em determinado momento, o governo Sérgio Cabral decretou uma lei proibindo o uso de máscaras em manifestações; o jornal O Globo não poderia omitir a inconstitucionalidade da lei, embora a apoiasse explicitamente em seus editoriais. A OAB serviu então como veículo de um trabalho que o jornal foi obrigado a fazer, embora a contragosto. Cito o comentário do Sergio a este respeito: “Essa matéria [sobre o posicionamento da OAB a respeito da proibição das máscaras] se inscreve num contexto no qual a noção de legalidade vem se mostrando bastante elástica, mas invariavelmente de acordo com a conveniência do poder instituído. Ou seja: a mensagem que o Globo passa é a seguinte: a lei é inconstitucional, mas não deveria ser. O ponto é que, dentro da hierarquia ideológica da informação, o 'deveria ser' se sobrepõe ao 'é'. É para esse lado que tende a elasticidade percebida da legalidade, para o lado de um senso comum moral. Portanto, a OAB aqui não ocupa o lugar do especialista que referenda uma verdade (o que às vezes acontece, especialmente quando a linha editorial se beneficia disso), e sim o papel duplo de álibi (reforçando a certeza do leitor a respeito da honestidade do jornal, inclusive quando é necessário defendê-la junto aos críticos) e de inconveniente (ou seja, de uma posição tacitamente desqualificada: 'ah, esses advogados e sociólogos que adoram direitos humanos pra bandido!'). Aliás, na falta de termo melhor, o nome desse papel duplo poderia ser ‘inconveniente democrático.’ Seu enunciado tem valor fraco, mas sua presença no noticiário garante a este um certo semblante democrático.”

12 A inspiração aqui vem da filosofia analítica da linguagem, sobretudo da obra de Richard Rorty, e também de Nelson Goodman. Goodman (1995) propõe que observemos a relação entre correção e ajustamento; por exemplo, a correção de uma obra de arquitetura consistiria num ajustamento de suas diferentes partes umas com as outras, e do conjunto como um todo com os vários enquadramentos [frames of reference] do qual faz parte. Penso que o mesmo se aplica às narrativas jornalísticas.

13 Em termos mais rigorosos, seria prudente falar não em relativismo, mas numa miríade de relativismos. Maria Baghramian (2010) distingue entre quatro grandes escolas de pensamento relativista, quais sejam, relativismo cultural, conceitual, construtivismo social e pós-modernismo. Refinando ainda mais o escopo de observação, Michael Krauz (2010) examina as variantes internas à ampla doutrina relativista: relativismo referente a enquadramento de referência (conceitual, cultural, histórico), relativismo de domínios (cognitivo, moral, estético), relativismo de nível (ontológico, epistêmico) e de valores (verdade, razoabilidade, justiça).


14 Não ignoro que o sentido das narrativas só se completa no leitor, como os teóricos da recepção argumentam. Contudo, a ênfase na recepção deixa de levar em conta tudo o que permanece asfixiado no registro do não-dito, os objetos de exclusão sistêmica. A apropriação e ressignificação operada por leitores só incide sobre artefatos que circulam, que já possuem existência reconhecida. Se a capacidade de construir silêncios é parte essencial das estratégias de poder, então as lacunas importam por aquilo que sua ausência denuncia. São estes fechamentos mais sutis, que deslegitimam de antemão tudo aquilo que se opõe a um valor hegemônico, sem que tal valor necessite ser explicitado, que importam observar. A questão é urgente sobretudo no campo da política, que não é somente o domínio da tomada de decisão, mas também um espaço de exclusão no qual aqueles que estiverem ocupando posições de poder manobram para estabelecer regras ou delimitar limites de modo a se protegerem de expedientes percebidos como ameaçadores. Assuntos ou temas que poderiam influenciar o processo de escolha do eleitor muitas vezes sequer chegam à esfera pública, ou chegam de forma enviesada, conformando uma espécie de “processo de não-tomada de decisões” (BACHRACH e BARATZ, 2011: 152). Quando Ranciére descreve a maneira pela qual a linguagem dos sem-parte é ininteligível para aqueles que falam somente a linguagem do status quo, parece estar argumentando algo semelhante, isto é, que o poder coloca os termos do debate de tal maneira que as visões e demandas de subalternos não podem ser propriamente compreendidas, ou mesmo eventualmente formuladas (HEWLETT, 2007: 99).


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