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II

 

C

ONGRESSO 

I

NTERNACIONAL DE 

L

INGUÍSTICA E 

F

ILOLOGIA

 

XX



 

C

ONGRESSO 

N

ACIONAL DE 

L

INGUÍSTICA E 

F

ILOLOGIA

 

Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2016  



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ser considerada madura assim como a sociedade, pois ambas são capazes 

de formular e resolver seus próprios problemas. 

Para  Antonio  Candido  (2009)  na  literatura  brasileira,  houve  um 

processo de imposição cultural até a Independência do Brasil. Somente a 

partir  desse  momento  é  que  os  autores  começaram  a  deixar  os  padrões 

ibéricos de lado e se voltaram para o que  havia de  mais característico e 

singular no país, surgindo assim, a necessidade de se criar um passado e 

um ícone lendários. A datar de 1822, o que houve com a literatura teria 

sido uma adaptação das formas estéticas portuguesas por parte dos escri-

tores, para que pudessem relatar e engrandecer as particularidades da ter-

ra em que viviam, como uma forma de afirmação nacional e de constru-

ção da pátria. Assim, “a literatura foi de tal modo expressão da cultura do 

colonizador e depois do colono europeizado”. (Cf. CANDIDO, 2009, p. 

165) 

Antonio Candido (2009) relata que todo esse processo de imposi-



ção foi bastante nítido, já que a maioria dos cronistas, historiadores e po-

etas do primeiro século eram quase todos sacerdotes, senhores, militares, 

conhecedores dos princípios autenticados na Metrópole. Segundo ele, tu-

do  o  que  era  ensinado  aos  nativos  pelos  jesuítas  exprimia  a  religião,  os 

valores morais e as normas políticas da Monarquia. 

Com o passar do tempo, os interesses da colônia começaram a se 

diferenciar  dos  interesses  de  Portugal  e  os  escritores  exprimiam  novas 

posições,  novos  pensamentos,  novos  sentimentos  através  de  suas  artes. 

Pesquisas estavam sendo feitas com relação ao passado e ao se descobri-

rem coisas novas, as pessoas começaram a valorizar a figura dos nativos 

e  a  exaltar  a  importância  de  seus  feitos,  dando  início  ao  processo  de 

adaptação, no qual os autores enalteciam os recursos tipicamente brasilei-

ros, atribuíam  um sentido figurado à flora,  magia à fauna, transcendiam 

as coisas, os fatos e as pessoas, transpunham a realidade local à escala do 

sonho. Tudo o que era produzido durante esse processo parecia ser mais 

legitimo e realmente brasileiro. 

Antonio Candido (2009) reitera que “a imposição e adaptação de 

padrões  culturais  permitiram  à  literatura  contribuir  para  formar  uma 

consciência nacional”. (Cf. CANDIDO, 2009, p. 178) 

Em Iracema, há uma passagem em que se pode notar um leve tra-

ço de imposição cultural, sendo essa entendida de acordo com o que foi 

exposto acima. Uma delas é o trecho presente no início da narrativa, em 

que a personagem está tranquila, se banhando no rio e, de repente, ouve 



Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos 

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Cadernos do CNLF, vol. XX, nº 08 – História da literatura e crítica literária. 

um  barulho  estranho  e  vê  um  guerreiro  desconhecido,  portando  armas 

igualmente  desconhecidas,  totalmente  diferente  de  tudo  o  que  já  tinha 

visto. No resumo da história apresentado, há presente a reação de Irace-

ma diante daquele ser. Ela, assustada, desfere-lhe uma flecha que acaba o 

machucando no rosto. O  guerreiro branco, por sua  vez, na  mesma  hora, 

leva a mão à espada, porém se lembra dos ensinamentos de sua mãe e se 

arrepende. Tal excerto pode ser lido abaixo:  

Rumor  suspeito  quebra  a  doce  harmonia  da  sesta.  Ergue  a  virgem  os 

olhos,  que  o  sol  não  deslumbra;  sua  vista  perturba-se.  Diante  dela  e  todo  a 

contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau es-

pirito  da  floresta.  Tem  nas  faces  o  branco  das  areias  que  borda  o  mar,  nos 

olhos  o  azul  triste  das  águas  profundas.  Ignotas  armas  e  tecidos  ignotos  co-

brem-lhe  o  corpo.  (...)  De  primeiro  ímpeto,  a  mão  lesta  caiu  sobre  a  cruz  da 

espada (...). (ALENCAR, 1991, p. 20) 

Pode-se  notar  nessa  passagem,  a  presença  de  imposição  cultural 

devido ao fato do guerreiro português querer, nem que seja por um minu-

to, fazer uso da espada para se defender de uma índia nativa. No texto há 

referências de que esse  mesmo guerreiro estaria em uma  missão incum-

bido de catequisar os nativos e de convertê-los à fé cristã. De acordo com 

a definição de imposição cultural, pode-se afirmar que essa conversão a 

uma outra fé deterioraria as crenças e os valores indígenas. 

É possível enxergar essa imposição cultural também no livro “Ira-

cema” como um todo, já que esse, como foi relatado acima, é uma analo-

gia do processo de colonização do Brasil com relação a Portugal. 

 



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