Ii c ongresso i nternacional de



Baixar 146.86 Kb.
Pdf preview
Página7/12
Encontro02.06.2021
Tamanho146.86 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12
II

 

C

ONGRESSO 

I

NTERNACIONAL DE 

L

INGUÍSTICA E 

F

ILOLOGIA

 

XX



 

C

ONGRESSO 

N

ACIONAL DE 

L

INGUÍSTICA E 

F

ILOLOGIA

 

Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2016  



33 

chamar Ceará. O guerreiro branco retornou para sua terra, levando o filho 

e quatro anos depois voltou para o Ceará com o objetivo de implantar a 

fé cristã. Poti se converteu e continuou sendo um fiel amigo. Os dois aju-

daram o comandante Jerônimo de Albuquerque a vencer os tupinambás e 

a expulsar o branco tapuia. Às vezes, Martim revia o local onde fora tão 

feliz e se doía de saudade. 

Como  se  pôde  observar,  em  Iracema  Alencar  não  mostra  a  ne-

nhum  momento os trágicos ocorridos aos nativos e com essa obra inau-

gura  uma  crença  mestiça  e  prodigiosa.  Ele  escreve  esse  livro  com  um 

modo de narrar que lembra as histórias orais, valorizando a cor local, as 

coisas  típicas  e  exóticas  a  fim  de  embelezar  e  engrandecer  a  terra  natal 

por meio de comparações que ampliam o caráter paradisíaco do Nordes-

te. A protagonista Iracema é  projetada da maneira  mais intrincada e ex-

pressiva possível, ela é o centro da brasilidade de cuja entrega e sacrifício 

mortal surge a  nova raça. Todas as imagens que José de Alencar utiliza 

para se referir à “virgem dos lábios de mel”  são retiradas da natureza e 

isso identifica a personagem com o ambiente e faz com que ela se torne 

uma personificação do Brasil. 

O pecado da personagem, a sacerdotisa de Tupã, consiste em ce-

der a sua virgindade ao guerreiro português Martim, que é uma analogia 

da Europa, do colonizador. A partir desse momento ela  transfere todo o 

poder que detinha para o estrangeiro e atrai para si toda a responsabilida-

de do ato e toda a maldição de seu deus. O encontro de Iracema e Martim 

representa o encontro do bem da natureza com o bem da civilização, um 

considerado puro em relação ao outro. Eles se integram para formar uma 

nova nacionalidade. 

Contado  em  terceira  pessoa  por  um  narrador  onisciente,  que  se 

mostra  envolvido  e  emocionado  com  o  que  relata,  o  livro  demonstra 

grande subjetividade que se manifesta pelos adjetivos, metáforas e com-

parações que foram empregadas. Com um tom poético, épico, solene, lí-

rico,  terno  e  compassivo  ao  mesmo  tempo,  a  recriação  do  passado  con-

tém  tanto  a  magia  das  tradições  orais  como  a  veracidade  das  pesquisas 

históricas. 

De  acordo  com  os  estudos  de  Fernando  Teixeira  de  Andrade 

(2015), para elaborar o vocábulo “Iracema”, Alencar aglutinou duas pa-

lavras guaranis e aportuguesou o resultado. Ele ajustou o termo “ira”, que 

significa  mel,  ao  termo  “cembe”,  que  significa  lábios.  Portanto,  IRA  + 

CEMBE = Iracema, a virgem dos lábios de mel. 



Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos 

34 

Cadernos do CNLF, vol. XX, nº 08 – História da literatura e crítica literária. 

José de Alencar é um escritor que, sem dúvidas, lutou pelo espi-

rito crítico, procurou seguir quotidianamente o pensamento em busca de 

si mesmo e contribuiu para a autonomia literária, que se manifesta sem-

pre que um homem transfere para o papel a sua visão da realidade. Para 

esse  escritor,  não  bastava  a  reprodução  do  ambiente,  dos  tipos  e  da  lin-

guagem,  era  preciso  ter  um  sentimento  íntimo  que  pudesse  orientar  os 

acontecimentos, as reações e os personagens que não poderiam estar em 

outro tempo e em outro lugar que não fosse o Brasil. Conforme ele mes-

mo afirmou, 

o conhecimento da língua indígena é o melhor critério para a nacionalidade da 

literatura. Ele nos dá não só o verdadeiro estilo, como as imagens poéticas do 

selvagem, os modos de seu pensamento, as tendências de seu espírito e até as 

menores particularidades de sua vida. (ALENCAR, 1991, p. 89) 

Alencar  defendia  que  se  os  escritores  quisessem  ser  entendidos 

pelo  povo,  deveriam  utilizar  os  termos  e  locuções  desse,  traduzindo  os 

costumes e sentimentos através dos vocábulos que os nativos compreen-

diam. Foi um autor que conhecia as normas referentes ao  estilo e à for-

ma, como se pode observar em Iracema pela musicalidade das frases, pe-

la  riqueza  de  imagens  apoiadas  em  elementos  da  natureza  americana  e 

pelo dinamismo das ações presentes no enredo. 

 



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal