Igual-desigual



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Carlos Henrique Cruz dos Santos

T-201

Projeto de Vida

Texto 1

IGUAL-DESIGUAL

Eu desconfiava:

todas as histórias em quadrinhos são iguais.

Todos os filmes norte-americanos são iguais. Todos os filmes de todos os países são iguais.

Todos os best-sellers são iguais

Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol

Todos os partidos políticos

são iguais.

Todas as mulheres que andam na moda

são iguais.

Todas as experiências de sexo

são iguais.

Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais

e todos, todos

Os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.

(são iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.

Todas as fomes são iguais. Todos os amores, iguais iguais iguais.

Iguais todos os rompimentos.




A morte é igualissima.

Todas as criações da natureza são iguais. Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes,

são iguais.

Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem,

(bicho ou coisa.

Não é igual a nada.

Todo ser humano é um estranho

ímpar.


Texto 2

Havia uma outra verdade. Crianças brincavam nos terraços do Jardim de Luxemburgo, eu

me aproximava delas, elas esbarravam em mim sem me ver, eu olhava para elas com olhos

de pobre: como elas eram fortes e rápidas! Como eram belas! Diante daqueles heróis de

carne e osso, eu perdia minha inteligência prodigiosa, meu saber universal, minha

musculatura atlética, minha destreza de valentão; encostado a uma árvore, eu esperava.

Bastaria uma só palavra gritada pelo chefe do bando: "Vem, Pardaillan, é você que vai ser o

prisioneiro", eu teria abandonado meus privilégios. Eu ficaria contente até mesmo com um

papel mudo. Teria aceitado com entusiasmo fazer o papel do ferido na maca, ou até de um

morto. Nem tive oportunidade: eu tinha encontrado meus verdadeiros juízes, meus

contemporâneos, meus pares, e a indiferença deles me condenava. Eu mal conseguia

acreditar, ao me descobrir pelo olhar deles: nem uma maravilha nem um espanto, um

magrelo que não interessava a ninguém. Minha mãe disfarçava mal sua indignação. [...]

Vendo que ninguém queria me convidar para brincar, [...] para me salvar do desespero ela

fingia impaciência: "O que é que você está esperando, seu bobão? Pergunte se eles

querem brincar com você." Eu sacudia a cabeça: eu teria aceitado as tarefas mais baixas,

mas meu orgulho me impedia de solicitá-las. Ela mostrava as senhoras que tricotavam nas

cadeiras de metal: "Você quer que eu fale com as mães deles?" Eu suplicava para que ele

não fizesse nada. Ela me pegava pela mão, nós partíamos, de árvore em árvore, de grupo

em grupo, sempre implorantes, sempre excluídos.

Na hora do pôr-do-sol, eu reencontrava meu poleiro, os lugares elevados do sopro do

espírito, meus sonhos: eu me vingava das humilhações com meia dúzia de palavras de

criança e o massacre de cem soldadinhos. Não importa: a coisa não funcionava.

Carlos Drummond de Andrade é um dos maiores poetas da literatura brasileira. Também

escreveu contos e crônicas, mas é a poesia que o tornou conhecido no mundo todo.

Nasceu em 1902 e morreu em 1987. Ele defendia a liberdade no uso das palavras e fugia

das formas convencionais, ao escrever versos livres e sem rimas.



Jean-Paul Sartre é um dos mais conhecidos filósofos e escritores do século XX. Nasceu na

França em 1905 e morreu em 1980. Sua influência foi enorme no pensamento de toda a

geração nascida entre os anos 40 e os anos 70. Ele acreditava que nós somos a soma de

nossos atos, somos responsáveis por eles e nos construímos por meio deles. Em 1964, ano

em que escreveu sua autobiografia As palavras (da qual faz parte o trecho que você leu),

Sartre recusou o prêmio Nobel de literatura que lhe foi atribuído, por julgar que ser premiado



pelo que escrevia era incoerente com seus valores.


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