História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia


participantes muitas vezes usavam a expressão



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participantes muitas vezes usavam a expressão história oral sem
qualquer conhecimento substancial do seu real significado. Eu não
queria voltar para os alienantes debates dos anos 1960 e 1970
sobre o que propriamente constituía a história oral e o que era
jornalismo, folclore etc. Discutir se o StoryCorps ou uma estratégia
de negócios baseada na contação de estórias é ou não é história
oral faz muito pouco sentido. Ao invés disso, precisamos agora
recuar diante da contação de estórias, esse gigantesco fenômeno
que nos varreu do mapa, desfazer os nós que nos ligam a ele e
começar a estudá-lo como um novo fenômeno social, cultural,
econômico e intelectual.
Em jogo está a história oral, porque já não cabe a nós a tarefa
de definir os seus parâmetros na esfera pública. Duvido que o
nosso pequeno grupo de pesquisadores possa efetivamente mudar
os termos do debate no âmbito público e corporativo do complexo
da contação de estórias. Mas podemos certamente tentar resistir
ao turbilhão da contação de estórias. Por exemplo, Barbara Ganley,
a fundadora e diretora da Community Expressions Ltda., escreve
que a contação de estórias digital tira “os acadêmicos da sua zona
de conforto no domínio racional do discurso crítico para [inseri-los


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no] processo profundamente afetivo de localizar, articular e
comunicar estórias pessoais” (GANLEY, 2013, p. IX). Essa
afirmação se baseia numa lógica imperfeita, assim como uma
grande parte da indústria da contação de estórias, que se equilibra
à beira do movimento de autoajuda. A premissa de que o discurso
crítico per se é uma zona de conforto é insustentável; é contraditório
definir a contação de estórias digital como um espaço mais
confortável do que a academia e ao mesmo tempo afirmar que
ela não é uma zona de conforto. Mas não é o raciocínio falho da
empreitada que me preocupa (na verdade, falho ou não, tal
argumento é uma propaganda bem melhor do que um formulário
de solicitação de financiamento). Ao invés disso, me preocupo
com o fato de que, ainda que possa ser interessante para os
acadêmicos o engajamento num processo que supostamente é
“profundamente afetivo” – como se ler documentos num arquivo
e escrever sobre a opressão e discriminação sofridas por pessoas
em suas lutas políticas cotidianas fosse um processo desprovido de
emoção –, podemos nos esquecer de voltar ao domínio do discurso
crítico, permanecendo na zona de conforto da contemplação
narrativa do nosso próprio umbigo ao invés de avaliá-la criticamente.
Em jogo está a história. A contação de estórias mescla memória
individual – filtrada pelos discursos sociais do individualismo, da
sobrevivência e da terapia – e história. Como resultado, estamos
ouvindo apenas uma estória. E essa estória é a estória neoliberal
do triunfo individual e, implicitamente, do sucesso do livre mercado
e do fracasso do Estado. É uma estória poderosa. Como
historiadores, precisamos cuidar para não sermos hipnotizados pela
força emocional do fenômeno da contação de estórias ou pelo
sucesso econômico da indústria da contação de estórias. Devo
enfatizar: não estou argumentando contra o valor ou a validade
das experiências e estórias individuais e não estou argumentando
contra o poder da contação de estórias. A contação de estórias é
realmente poderosa. Mas precisamos continuar insistindo que
memória individual e história não são a mesma coisa.
Em jogo está a cidadania crítica e a democracia. Como a


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resposta ao Hard Times, as estórias do StoryCorps nos ensinam
que os americanos continuam achando “difícil examinar
criticamente a sua cultura e as suas instituições” (FRISCH, 1979,
p.71). Por que isso acontece? Já afirmei em outros textos que,
seguindo Foucault, podemos entender a entrevista como uma
tecnologia de si. Por meio da entrevista, em suas múltiplas formas
– desde a confissão e a terapia até as entrevistas jornalísticas e a
história oral –, aprendemos a nos monitorar e a relatar nossas
descobertas para especialistas na esperança de sermos absolvidos
ou curados. Esse automonitoramento e esse autorrelato são
moldados pelas expectativas da sociedade e dos especialistas a
respeito do que e como relatar (FREUND, 2014). O StoryCorps e
formas semelhantes de contação de estórias nos ensinam que a
confissão pública e as estórias de sobrevivência ou triunfo pessoal
são as únicas maneiras de falar de si
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? A história oral, argumenta
Frisch, “revela padrões e escolhas que, tomados em conjunto,
começam a definir o aparato reforçador e selecionador da cultura
geral, e os modos pelos quais ela nos encoraja a digerir a experiência”
(FRISCH, 1979, p. 76). Assim, uma das questões que precisamos
formular com mais frequência e consistência é de que forma os
valores neoliberais, as linguagens da terapia e do trauma e o gênero
da estória de sobrevivência modelam as autointerpretações dos
nossos entrevistados.
Uma tarefa urgente é começar a escrever uma história do
fenômeno da contação de estórias. Os historiadores precisam
investigar as origens e os fatores que contribuíram para o surgimento
desse fenômeno. Ainda que eu tenha tentado alcançar alguns desses
objetivos neste artigo, existem muitas outras questões. A contação
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Como argumenta Gilmore (2010, p. 657-658), um novo gênero de memórias
de queda e redenção “substitui outras narrativas de vida, incluindo aquelas
que [...] identificavam a natureza sistêmica da privação de direitos,
desmascaravam a indulgência da classe média com relação à privacidade e
à violência sexual, ligavam o sofrimento e a violência à pobreza e à indiferença
do Estado, e desafiavam as práticas leitoras dominantes em torno do contar
a verdade”.


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de estórias tem raízes no desencanto com as ciências duras, na
esteira das duas guerras mundiais, da matança industrializada e
da bomba atômica? Devemos ver o discurso sobre a contação de
estórias como pertencendo à “novilíngua” neoliberal (BOURDIEU;
WACQUANDT, 2001, p. 2-5)? Quais as raízes religiosas da contação
de estórias, se é que existe alguma
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? Qual é, por exemplo, a ligação,
se existe, entre a ascensão da contação de estórias e a ascensão
do evangelismo desde a década de 1970? Que papel desempenha
o fascínio do Ocidente, desde a década de 1960, pelas religiões
não cristãs, pela sabedoria indígena, pelas atitudes New Age, pelo
sobrevivencialismo, pela autoajuda, pelos extraterrestres e outros,
na ascensão da contação de estórias (MESERVE, 1977, p. 77)?
Como o crescimento da indústria da mídia digital desde a década
de 1990 afetou a contação de estórias? De que maneira é construído
o mercado de trabalho da contação de estórias sobre as ruínas do
jornalismo impresso, da carreira acadêmica e do Estado de Bem-
Estar Social?  Qual o papel da publicidade? Por que a contação
de estórias individual, a confissão e a terapia necessitam de
audiências tão grandes quanto se possa imaginar?
Quer seja por intermédio do StoryCorps, de Oprah Winfrey ou
da contação de estórias digital, nas sociedades ocidentais do século
XXI a entrevista, a confissão e a publicidade estão profundamente
entrelaçadas com o individualismo neoliberal e com as indústrias
da autoajuda e da tecnologia digital. Os pesquisadores de história
oral precisam estudar esse fenômeno social mais amplo, não para
desacreditá-lo, mas para explicá-lo e compreendê-lo. Então
precisam perguntar como as suas próprias práticas e projetos se
relacionam com esse fenômeno. Finalmente, precisam ponderar
as ramificações epistemológicas, metodológicas, interpretativas e
éticas do (e as respostas ao) entrelaçamento da história oral com
3 3
Sobre a ordem moral do neoliberalismo, que lembra, de muitas formas, a
ordem moral do individualismo na contação de estórias, ver AMABLE (2011).
Sobre a ascensão da religião conservadora e do neoliberalismo nos EUA,
ver BORSTELMANN (2012, p. 249-257, 275).


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as práticas confessionais de massa da contação pública de estórias
no Ocidente. Não devemos esquecer que as alegações grandiosas
da indústria da contação de estórias – de que seria capaz de curar
os indivíduos e a sociedade e de que estaria escrevendo uma história
definitiva – desviam a atenção e os recursos para longe das
investigações críticas dos fenômenos sociais e históricos. É tempo
de nos afastarmos da celebração descerebrada das estórias e da
contação de estórias e de nos dedicarmos à tarefa de historicizar a
história oral, a entrevista e a contação de estórias.
Referências
ABELMANN, Nancy et al. What is StoryCorps, Anyway? Oral



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