História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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Saturday Review quando diz que se trata de “um hino em louvor
ao Espírito Americano”. Na verdade, ele achou o livro “mais
3 0
O autor se refere à avaliação feita para publicação do artigo na Oral History
Review. (Nota da organizadora)
3 1
Outra referência ao livro Hard Times: an Oral History of the Great Depression,
de autoria de Studs Terkel, cuja primeira edição foi publicada pela Pantheon
Books em 1970. (Nota da organizadora)


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deprimente do que qualquer outra coisa”, porque demonstrava “o
impacto destrutivo da Depressão nas vidas que as pessoas viviam”.
De forma semelhante, as estórias do StoryCorps/NPR demonstram
o impacto destrutivo do neoliberalismo sobre as vidas americanas
atuais. As estórias de Terkel, argumenta Frisch, mostraram “por
que os americanos acham tão difícil examinar criticamente a sua
cultura e as suas instituições, mesmo quando grandes colapsos
tornam tais exames imperativos” (FRISCH, 1979, p. 71). O fenômeno
corrente da contação de estórias apresenta evidências similares.
O maior problema da leitura que os críticos faziam do livro, de
acordo com Frisch, era o fato de tomar os testemunhos orais ao pé
da letra, como representações simples, mas verdadeiras, do que a
Depressão realmente foi, não como memórias bem ordenadas e
suavizadas, recontadas nos anos 1960, numa época em que as
pessoas estavam tentando dar sentido a tantas crises sociais,
políticas e culturais: a herança duradoura da pobreza, do
desemprego e das oportunidades perdidas na esteira da Grande
Depressão, os ecos da Segunda Guerra Mundial, as implicações
urgentes do movimento pelos direitos civis e as crescentes tensões
raciais, a guerra no Vietnã, o assassinato de líderes políticos e
religiosos, as novas recessões econômicas e a subversão dos valores
culturais e morais. Os críticos, afirmava Frisch, compreendiam o
trabalho da história oral de duas formas: como mais informação
sobre o passado (“mais história”) ou como acesso direto a
experiências autênticas que falam por si e não precisam de
interpretação especializada (“sem história”). A leitura simplista da
história oral como evidência era ainda mais surpreendente, notava
Frisch, porque o próprio Terkel tinha sido claro: o seu livro era um
livro de memória e não um livro de história (FRISCH, 1979).
O que mudou nesses quarenta anos? Hoje, mais do que nunca,
os consumidores de estórias de memória, ao que parece, acreditam
ser a sua resposta emocional uma indicação de que as estórias
que ouvem dão acesso a experiências autênticas. Ganley escreve
sobre o que a contação de estórias realiza: “Estamos contando a
estória como ela é. Como a experimentamos. Estamos formando


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comunidades em torno das nossas estórias” (GANLEY, 2013, p.
X). Para os historiadores, esta é uma notícia preocupante; também
preocupante é o fato de que (ao contrário de Terkel) os produtores
dessas “histórias orais” compartilham da mesma crença. Por
exemplo, o StoryCorps alega que está criando um arquivo e, dessa
forma, “mais história”. Ao invés de uma história de grandes homens,
escreve Isay, “o StoryCorps vai criar uma história do nosso país de
baixo para cima, através das estórias e das vozes dos americanos
comuns” (ISAY, 2007, p. 163). Quando Filene entrevistou Taylor
Cooper, o arquivista do StoryCorps, ele disse: “Esta é a história da
América pela América, para a América”. Filene concluiu: “o
StoryCorps se propõe a provocar uma mudança na compreensão
histórica: quer demonstrar de forma poderosa, visceral, exaustiva,
que as pessoas comuns dão forma à história” (FILENE, 2011, p.
176). Ao mesmo tempo, afirma que, por respeito aos contadores
de estórias, nenhuma contextualização das estórias individuais
(“sem história”) é necessária. Essa visão populista da história como
simplesmente a estória do passado se tornou um veículo para a
ideologia individualista sob o disfarce da história oral.
Alguns historiadores parecem ter assimilado esse argumento.
Filene afirma que o StoryCorps ensina história às pessoas
simplesmente por dar a elas a oportunidade de registrar as suas
estórias. A partir da sua experiência pessoal carregada de emoção,
Lamothe e Horowitz, escrevendo que o StoryCorps oferece “uma
experiência em história”,  extrapolaram afirmações importantes
sobre as contribuições do projeto para a história: “Através dessa
poderosa experiência pessoal, o StoryCorps ensina lições gerais
sobre a natureza da história. O entrevistado tem a oportunidade
de interpretar a sua própria história de vida. O entrevistador também
assume o papel do historiador ao identificar alguém com estórias
dignas de ser aprendidas e preservadas” (LAMOTHE; HOROWITZ,
2006, p. 171, 173-174). Assim, se entendo corretamente, os autores
argumentam que: a) uma conversa de quarenta minutos se
aproxima de algo parecido com uma história de vida; b) experiências
são sempre e naturalmente interpretadas de uma perspectiva


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histórica; c) qualquer pessoa entrevistando outra pessoa é um
historiador (ou seja, formula perguntas de um ponto de vista
histórico); e d) o ato de identificar alguém importante na vida de
uma pessoa (como a sua mãe) é semelhante ao juízo do historiador
sobre a significação histórica. Só é possível aceitar tais alegações
se concordamos com a suposição implícita de que a história é um
modo natural de pensar e não um discurso politicamente carregado
e controverso a respeito do passado (WINEBURG, 2001;
TROUILLOT, 1995; ver também SHOPES, 2014, p. 257-268).
De modo semelhante, Filene afirma: “Das centenas de estórias
que o StoryCorps veiculou, emerge um retrato coletivo da América
– uma cidadania de diversidade e força; comprometida com o
trabalho duro e sustentada pelo orgulho silencioso; determinada
na adversidade e imbuída de uma decência irresistível” (FILENE,
2011, p. 178). Este é o ponto de vista “sem história” que Fritsch
criticou em 1972. Essa visão é problemática, como apontaram
Frisch e muitos outros pesquisadores de história oral, porque nenhum
testemunho fornece um acesso sem filtros ao passado. Toda
memória é filtrada pelo tempo e pela experiência vivida. Como
escreveu Frisch a respeito das memórias da Depressão:
O fracasso forçou as pessoas a reduzir as experiências gerais a termos
pessoais e, dessa forma, uma dor intensa os protegia de verdades
históricas mais profundamente ameaçadoras; a sobrevivência, no
entanto, parece encorajá-los a elevar a generalização pessoal e
biográfica até o nível dos termos históricos, ao mesmo tempo uma
mensagem que valida a si própria e uma herança culturalmente
validada para a próxima geração (FRISCH, 1979, p. 78).
Lamothe e Horowitz também abraçaram a visão “mais história”,
afirmando que o “StoryCorps encoraja uma visão inclusiva de quem
e o que é historicamente significativo” (LAMOTHE; HOROWITZ,
2006, p. 173). Novamente, essa afirmação só pode ser aceita se
concordarmos com a premissa subjacente que mistura passado e
história, uma visão segundo a qual tudo e todos são história. Mas
a história é um discurso social e uma luta política sobre quais são
os eventos e de quem são as experiências importantes. O StoryCorps


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e todos os outros projetos de contação de estórias fazem as mesmas
seleções e julgamentos sobre quem e o que incluir. A “História
Oral da América” do StoryCorps é um produto de seu tempo, não
a estória universal e definitiva, como sugere o aceno à “inclusão”.
Assim, nas estórias do StoryCorps na NPR, não são as experiências
individuais que importam – como aponta Filene, os personagens
são suavizados para que os ouvintes possam se identificar com
eles (FILENE, 2011, p. 188). Ao contrário, o centro de tudo é a
moral da estória, que quase sempre é a estória “americana” de
indivíduos que vencem as adversidades, a estória dos homens da
fronteira e dos pioneiros, dos exploradores e aventureiros, dos heróis
e heroínas, a estória do “Espírito Americano”. Estórias de intervenção
estatal bem sucedida ou dos efeitos benéficos de um Estado de
Bem-Estar Social são tão raras quanto as estórias de um sistema
econômico que destrói vidas e comunidades. O “milagre de Ollie”
rejeita a importância da solidariedade publicamente organizada e
do apoio estrutural aos fracos. As 50.000 estórias do StoryCorps
soam como um disco riscado: como americanos, superamos as
adversidades do jeito americano. Somos todos iguais e a nossa
sorte está em nossas mãos e apenas nelas. Não há espaço para o
Estado. E não há espaço para a crítica social.
Devemos nos alegrar pelo fato de que, quarenta anos depois
da análise de Michael Frisch, a história oral parece ter chegado à
sociedade hegemônica, mas sugiro que devemos nos alarmar com
o fato de que um grande número de pessoas – incluindo os produtores
e consumidores das estórias do StoryCorps/NPR – entendem que
fazer história oral significa tomar as estórias ao pé da letra, sem
qualquer tentativa de historicizá-las. Sob a alcunha de história
oral, os empreendimentos de contação de estórias produzem para
consumo público estórias de triunfo pessoal para o ouvinte se sentir
bem, estórias aparentemente desprovidas de qualquer política.
Podem os pesquisadores de história oral tirar qualquer proveito
dessa abordagem? Filene, por exemplo, argumenta que os
historiadores rejeitam a abordagem do StoryCorps para a história
porque não conseguem lidar com a emoção presente nas estórias.


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Mas tal alegação se baseia num mal entendido a respeito do
StoryCorps. Como o próprio Filene admite, o StoryCorps contorna
as referências básicas da disciplina (como a razão, a cronologia e
a determinação de causas) e assegura que a história de todas as
pessoas “vale por si só” e, ao mesmo tempo “vale por todos nós”.
Como escreve Filene: “Os livros e o programa de rádio do projeto
sugerem valores atemporais e uma humanidade sempre igual a si
mesma” (FILENE, 2011, p. 181-183). E tudo isso acontece sem
qualquer autocrítica, nos limites nacionalistas de uma visão de
mundo EUA-cêntrica, em que qualquer americano representa
qualquer outro americano e mesmo qualquer outro ser humano.
Isso não apenas é a-histórico, como Filene acertadamente aponta,
mas despolitizante, baseado na fé de que a simples crença na
igualdade vai nos tornar iguais. Aparenta-se, dessa forma, com o
movimento do pensamento positivo, identificado por Barbara
Ehrenreich (2009). Tal abordagem da história destrói a capacidade
que as pessoas têm de estudar o passado e de se engajar no presente
de forma crítica e significativa.
As conclusões de Filene são problemáticas para os historiadores.
Ele argumenta que os historiadores públicos deveriam adotar as
ideias do StoryCorps porque elas são populares e bem sucedidas,
não porque fornecem uma compreensão melhor do passado. De
fato, ele afirma que os historiadores públicos deveriam se curvar
diante do StoryCorps, deixando para trás as expectativas históricas
convencionais, que parecem incluir as mais básicas balizas do
pensamento histórico, tais como o rastreamento da continuidade
e da mudança no tempo, a compreensão das causas e dos efeitos
históricos e a avaliação da significação histórica:
O StoryCorps tem poder porque demonstra, vez após vez, uma
lição muito mais fundamental: o passado existe e podemos carregá-
lo conosco todos os dias. Mais do que um projeto para documentar
e interpretar a história, em outras palavras, o StoryCorps é uma
engenhosa ferramenta capaz de inculcar uma mentalidade histórica
[history-mindedness] – a conscientização de que vivemos nos
equilibrando entre algo que veio antes e algo que virá depois.
(FILENE, 2011)


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Tal afirmativa se sustenta apenas se acreditarmos que passado
e história são a mesma coisa, e que senso de tempo é o mesmo
que senso de história. Como diz Filene, confundindo passado e
história: “O poder do StoryCorps nasce da sua habilidade de
encorajar as pessoas a se apropriar do passado no aqui e agora –
reivindicar a história  como sua própria e encontrar significado
pessoal nela” (FILENE, 2011). Esta é uma compreensão
despolitizada e enganadora da história. A história é um discurso
sobre o passado, modelado pelos nossos valores presentes e que
ensina os valores desse tempo para a geração seguinte. É uma
negociação politicamente investida sobre o que é importante lembrar
e o que é uma forma razoável e plausível de explicar e interpretar
o passado. Simplesmente gravar uma estória sobre a vida de alguém
não leva a uma compreensão da história, e o sentido que muitas
pessoas encontram é manifestamente a-histórico. Como Frisch e
tantos outros pesquisadores de história oral tão habilmente
mostraram, as pessoas geralmente não procuram explicações
históricas para as suas experiências.
Conclusão: O que está em jogo?
Comecei a me interessar pela história oral na pós-graduação
em 1992 e a gravar entrevistas um ano depois. Rapidamente adotei
a ideia de que a história oral era uma ferramenta pouco valorizada,
mas muito poderosa, e que o campo era marginalizado e
incompreendido. No início dos anos 2000, comecei a sentir uma
mudança. A história oral era mencionada com mais frequência na
mídia popular e fora da academia, e de maneira positiva. Logo,
ouvi falar de projetos não acadêmicos de história oral que produziam
excelentes gravações e websites, e havia um burburinho a respeito
da narrativa e da contação de estórias. A essa altura, eu era um
entusiasta da contação de estórias – exatamente como Pozzi-
Thanner, Lamothe e Horowitz, Abelmann et al. e Filene – porque
acreditava que nós – pesquisadores de história oral – tínhamos
finalmente chegado lá. Como o início da nossa história datava
dos anos 1940, estávamos inquestionavelmente na raiz dessa nova


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apreciação popular da história oral. Como praticantes experientes,
éramos o centro de tudo. E como acadêmicos letrados, formávamos
a sua intelligentsia.
Mais ou menos desde 2008, no entanto, meu entusiasmo
minguou, em parte porque notei que os pesquisadores de história
oral desempenhavam apenas um papel marginal nesse novo
movimento de contação de estórias. Nossos financiamentos não
aumentaram; os criadores de megaprojetos como o StoryCorps
podem falar nas nossas conferências mas raramente leem nossas
pesquisas ou contribuem para as nossas discussões de forma
significativa. Mais importante, eles moldaram o debate e o
entendimento do público a respeito da história oral de um modo
que nós historiadores jamais seríamos capazes. Comecei a recuar
e repensar a conexão entre a história oral e o fenômeno mais
abrangente da contação de estórias, um fenômeno cujos


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