História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia


participar da formulação de políticas de gestão dos seus registros?



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participar da formulação de políticas de gestão dos seus registros?
Pensar a cibercultura envolve, assim, refletir sobre a profusão
de informações que circulam diariamente, e de forma cada vez


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História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
mais rápida e intensa, por meios eletrônicos (sobretudo, redes
sociais). E envolve, entre outros aspectos, indagar: como pensar a
esfera da intimidade quando a mídia eletrônica, a todo momento,
estimula seus usuários a borrar as fronteiras entre o público e o
privado, não somente em relação a figuras destacadas do meio
político e da indústria de entretenimento? O que resta ainda a
proteger, uma vez que o privado é intensa e cotidianamente invadido
pela mídia e seus usuários, em todas as suas variantes? O texto do
quinto capítulo, escrito por Márcia Ramos de Oliveira, vincula-se,
em suas linhas gerais, a esse conjunto de questões, ao abordar a
polêmica travada midiaticamente em torno da ação penal movida
pelo cantor e compositor brasileiro Roberto Carlos, de modo a
impedir a circulação do livro Roberto Carlos em detalhes, escrito
pelo jornalista e historiador Paulo Cesar de Araújo.
Dois capítulos da coletânea examinam mais detidamente as
questões do tempo presente em conexão com o ensino de História.
Em um deles, Cristiani Bereta da Silva busca equacionar a
produção do conhecimento histórico e, em especial, o lugar desse
conhecimento no ensino escolar. A autora tem em vista os
significados contemporâneos da História, em meio à crise de regimes
de historicidade e à multiplicação de narrativas históricas, difundidas
por diferentes veículos midiáticos. Nesses quadros, como pensar o
lugar do presente, e em relação a qual passado? Questões que
também são pertinentes ao capítulo de autoria de Itamar Freitas,
mas em clave mais específica: afinal, como as narrativas históricas
são traduzidas em vulgatas, presentes no sistema escolar? Quais
os processos históricos e acontecimentos-chave valorizados nessas
vulgatas? De que maneira o tempo presente é nelas tematizado e
recortado? Ao analisar programas de ensino vigentes nos EUA,
Freitas oferece, sinteticamente, algumas respostas a esses
questionamentos.
No último capítulo do livro estão fortemente integrados vários
dos temas abordados em capítulos anteriores: a singular “intimidade
pública” da contemporaneidade, a construção de narrativas
hegemônicas, a formação de culturas históricas no embate com a


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mídia e no jogo dos testemunhos. Alexander Freund trata do
fenômeno contemporâneo do Storytelling (ou da “contação de
estórias”, como foi aqui traduzido). Como contação de relatos
pessoais, o Storytelling disseminou-se por distintos campos de
conhecimento e profissionais (gestão empresarial, publicidade e
propaganda, educação, comunicações, terapia...), em articulação
com o crescimento de uma indústria da autoajuda e do pensamento
positivo. Dada a sua forte presença, principalmente na América
do Norte, em tão diversos âmbitos, estaria a contação pública de
relatos pessoais alterando a prática da História Oral nesses países?
Suas formas midiatizadas influenciariam entrevistadores e
entrevistados? Interferiria a “contação pública de estórias” na
produção de culturas históricas, ao tender a identificar narrativa
pessoal (baseada na memória individual) e narrativa de caráter
histórico?
Alexander Freund articula esse conjunto de questões à análise
de um estudo de caso: a contação pública de relatos pessoais
regularmente promovida por um programa de rádio – o StoryCorps,
da National Public Radio, nos EUA. Ao centrar-se no estudo do
StoryCorps, Freund ressalta seu poder não somente para confirmar
e reforçar identidades (individuais e coletivas) como para induzir a
uma percepção de mundo em que o indivíduo é totalmente
responsável por sua felicidade (que poderá ser alcançada com
esforço, disciplina e perseverança). Constrói-se uma narrativa em
que os problemas individuais são isolados de seu contexto histórico
e social, promovendo-se o apagamento do papel de políticas
públicas. O StoryCorps, valorizando o sentimentalismo, reforçaria
o hiperindividualismo e proporcionaria a produção de uma narrativa
geradora de consensos, silenciadora de tensões e conflitos,
distanciada de uma perspectiva histórica crítica.
A riqueza e a relevância das discussões presentes na coletânea
foram aqui meramente indicadas, na intenção de instigar à leitura.
Caberá a cada leitor reconhecer, nos capítulos, convergências,
dissonâncias e desvios no desafio compartilhado pelos autores:
refletir sobre os elos entre o tempo presente e a História.


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História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
Referências
CHAUVEAU, Agnès; TÉTART, Philippe (Orgs.). Questões para a
história do presente. Bauru, SP: Edusc, 1999.
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Moraes (Orgs.). História do tempo presente. Rio de Janeiro: Ed.
FGV, 2014.
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desafios. Cultura Vozes, Petrópolis, v. 94, n. 3, p. 111-124, 2000.
FERREIRA, Marieta de Moraes. História Oral e Tempo Presente.
In: MEIHY, José Carlos Sebe Bom. (Re)Introduzindo a História
Oral no Brasil. São Paulo: Xamã, 1996. p. 11-21.
FERREIRA, Marieta de Moraes. História, tempo presente e história
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MOTTA, Márcia Maria Menendes. História, memória e tempo
presente. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo
(Orgs.). Novos domínios da História. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.
p. 21-36.
PEREIRA, Mateus. A máquina da memória/Almanaque Abril: o tem-
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PORTELLI, Alessandro. Sonhos ucrônicos: memórias e possíveis
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PÔRTO Jr., Gilson (Org.). História do tempo presente. Bauru, SP:
Edusc, 2007.
VARELLA, Flávia et al. (Orgs.). Tempo presente e usos do passado.
Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2012.
VESENTINI, Carlos Alberto. A teia do fato: uma proposta de estudo
sobre a memória histórica. São Paulo: Hucitec, 1997.


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Historia del presente,
historia oral y memoria
de la izquierda en
México
Gerardo Necoechea Gracia
I
La expresión historia del presente, debo admitir, me incomoda.
Si quisiese estudiar el presente, seguramente no habría escogido la
historia como disciplina de estudio, y si lo hice fue precisamente
por mi interés en el pasado. Al mismo tiempo, creo entender la idea
que la expresión, quizás torpemente, trata de nombrar.
En México, los historiadores consideran que el pasado está
conformado de aquellos sucesos que ya no afectan el presente.
Esta consideración lleva implícita la ingenua suposición de que existe


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una barrera que separa y aísla los tiempos, y gracias a ella podemos
identificar el inicio del presente. Ahí, el historiador detiene su labor
inquisitiva y cede el terreno a otras disciplinas que estudian a la
sociedad. La revisión crítica de los estudios acerca del siglo XX
mexicano, realizada por el politólogo Medina Peña (1998),
comprueba que efectivamente la segunda mitad del siglo es provincia
casi exclusiva de politólogos, sociólogos y economistas. Las incur-
siones de historiadores profesionales en ese periodo, que las hay,
son vistas como extravagancias marginales que poco añaden al
oficio. Los historiadores, además, desaniman, cuando no prohíben,
que los estudiantes investiguen los años posteriores a 1950, límite
que por supuesto está bajo asedio por la curiosidad de estudiantes
que apenas experimentaron directamente el siglo pasado.
Detrás de esta postura está la idea de que el historiador debe
ser neutral frente a los sucesos históricos, y que sólo la distancia
temporal asegura esa neutralidad puesto que lo descrito no afecta
el presente. No es menester señalar lo imposible e innecesario de la
neutralidad, tema ya muy discutido. Pero sí es importante subrayar
que la idea frecuentemente va acompañada de un conservadurismo
político, que a los ojos de quienes lo enarbolan nunca afecta su
neutralidad.
En México, el desarrollo de la profesionalización de las ciencias
humanas recorrió un camino particular que es interesante. En las
décadas de 1920 y 1930, la antropología adquirió importancia, en


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