História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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Rekindle the Spirit, de Jack Canfield e Mark Victor Hansen (1993), é o
primeiro de uma longa e persistente série de livros e outros produtos
inspiradores baseados numa compilação de estórias pessoais.


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Os pesquisadores de história oral aceitaram essas alegações?
Lamothe e Horowitz argumentam:
Através da veiculação de trechos de entrevistas na National Public
Radio, o StoryCorps disponibiliza a uma ampla audiência o melhor
do que a história oral pode oferecer: ao focar em pequenas narrativas
pessoais que ecoam os temas mais abrangentes da experiência
humana, essas estórias insistem na inclusão de indivíduos comuns
no registro histórico e forçam uma compreensão democrática da
história. (LAMOTHE; HOROWITZ, 2006, p. 173)
De modo similar, Abelmann et al. (2009, p. 258) acreditam
que  “as entrevistas do StoryCorps são uma forma complexa de
ritual entre pessoas muito próximas. O que liga essas pessoas não
são as coordenadas sociológicas, as grandes narrativas ou a
integridade histórica, mas a sua sensibilidade”.
Como apontou Michael Frisch em 1972, uma das três questões
básicas a formular sobre qualquer corpus de histórias orais é: quem
está falando? Ainda que aparentemente o StoryCorps cubra uma
vasta gama de pessoas, a falta de dados biográficos básicos torna
obscura a composição demográfica dos participantes. Homens e
mulheres participam igualmente? Pessoas de todas as idades, raças,
grupos étnicos e classes sociais participam em proporções
semelhantes às que ocorrem na população como um todo? Pessoas
de todas as convicções políticas e crenças religiosas estão
proporcionalmente representadas? Como mostrou Filene, pelo
menos para os propósitos da contação de estórias na NPR, tais
informações são intencionalmente suprimidas. O StoryCorps quer
defender a ideia de que todos os americanos são iguais. Faz isso
sob a égide da democratização, da inclusão e do humanismo. Por
exemplo, o background racial ou a classe social dos trigêmeos cegos
cuja estória lemos anteriormente não desempenham nenhum papel
no enredo – nem o acesso (ou a falta de acesso) da mãe à ajuda
pública ou privada. Eles são americanos e, sendo eles brancos ou
negros, pobres ou ricos, a mensagem subjacente do StoryCorps é
a de que a estória seria a mesma. Tal movimento, no entanto,
juntamente com a afirmação populista de que todo debate gera


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divisões, é uma estratégia política que visa esvaziar a crítica social.
E ela impede que os pesquisadores de história oral investiguem a
cultura pública mais ampla e as forças modeladoras da NPR e do
StoryCorps que geram as estórias de sobrevivência.
Assim, o que une as estórias não é a sua sensibilidade (o que
quer que isso signifique concretamente), mas o fato de que são
implicitamente, e em grande parte não intencionalmente (pelo
menos da parte dos narradores), modeladas pelos valores de um
individualismo antiestatal crasso. O individualismo do início do
século XXI na América ignora o insight sociológico de que, nas
palavras de C. Wright Mills, “problemas pessoais” estão
normalmente ligados a “questões sociais”; ignora também o insight
histórico de que os indivíduos pensam e agem, de acordo com a
famosa frase de Karl Marx, “sob circunstâncias já existentes, legadas
e transmitidas pelo passado”
29
. Ao invés de documentar e criticar
os efeitos do neoliberalismo, será que o fenômeno da contação de
estórias tem apoiado e reforçado os valores neoliberais da
competição no livre mercado?
Podemos encontrar uma resposta preliminar examinando como
a contação de estórias reformulou o debate sobre a política da
história e da memória. Abelmann et al. (2009) deram os primeiros
passos para inserir o StoryCorps no contexto mais amplo da história,
da memória e da recordação e comemoração públicas. O projeto,
escreveram, surgiu das catástrofes nacionais americanas do 11 de
setembro e do furacão Katrina, como parte da “era de
autopublicação” (ABELMANN et al., 2009, p. 260). Dessa origem
emergiu uma ênfase no “heroico [que existe] no banal... um jeito
de produzir sentido num vácuo de significado”. O StoryCorps,
escreveram elas, emergiu no contexto “da nossa cultura
insistentemente comemorativa”. No caso do 11 de setembro e do
Katrina, “as práticas de documentação e de comemoração do
StoryCorps celebravam a resistência e o heroísmo das vítimas e
das equipes de resgate” (ABELMANN et al., 2009, p. 260). Essa
29
 Citações de Mills e Marx em CALLERO (2013, p. 8-9).


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análise é um primeiro passo importante e pode facilmente ser
relacionada com o desenvolvimento do hiperindividualismo e da
cultura da terapia desde os anos 1970. Isso nos permite ver que,
ao invés de um “vácuo de significado”, havia uma disputa pelo
sentido que foi rapidamente vencida pelo governo e pela mídia
conservadora. Identificar “o heroico [que existe] no banal” era parte
da sua estratégia vencedora. Essa narrativa calou fundo num público
que tinha sido levado a acreditar, durante as décadas anteriores,
que todas as pessoas eram sobreviventes e tinham uma estória
para contar, e que contar essa estória publicamente era um
expediente de empoderamento e cura.
O StoryCorps também participou de uma cultura da
autodocumentação e autopublicação, como notam Abelmann et
al. (2009): “Ainda que o StoryCorps se apresente como universal
em seu interesse e profundamente histórico em sua tradição, tem
os dois pés no presente, é parte da onda de autodocumentação
sem fim do Facebook, dos scrapbooks e dos blogs”. Ao invés de
registrar uma experiência histórica, muitas pessoas usam o
StoryCorps exatamente como usam o Twitter, o Facebook e o
movimento digital de contação de estórias: para se documentar
no presente. A promessa de que tal autodocumentação será
arquivada, seja na Biblioteca do Congresso ou no éter da
Internet, cria a esperança de que não seremos esquecidos, de
que a atenção de agora vai continuar depois da nossa morte.
Além disso, quando o movimento de autoajuda começou a
usar a mídia digital para vender seus produtos, a indústria da
tecnologia digital encontrou um grande mercado para os seus.
A facilidade de acesso online e a interatividade se uniram à
necessidade de confissão pública para criar o StoryCorps, o
Facebook e outras plataformas digitais de contação de estórias.
Dessa forma, se encararmos a autopublicação não apenas como
uma força democratizante, mas também como resultado de uma
indústria multibilionária que lucra com a autopublicação,
poderemos entender melhor como os valores da indústria se
incorporam à autoexpressão aparentemente individualista e


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autônoma do público.
É verdade que, como um dos revisores anônimos deste artigo
apontou
30
, estou juntando as diversas práticas comerciais e não
comerciais de contação de estórias, mas este é exatamente o ponto
que quero destacar nesse estágio precoce da análise: o conceito
abrangente de contação de estórias (públicas, autobiográficas,
confessionais) reúne todas essas práticas através das suas promessas
de atenção, cura e empoderamento. Uma das futuras agendas de
investigação dos pesquisadores de história oral pode ser destrinchar
como exatamente o Facebook, a contação de estórias digital e
outras práticas de autopublicação modelam [o comportamento
de] entrevistados e entrevistadores quando eles se sentam para
uma entrevista de história oral.
Neste momento, quero me concentrar na ideia de que a
contação de estórias mistura história e memória individual e, dessa
forma, despolitiza o discurso público. Esse fenômeno não é novo.
Há quarenta anos, Michael Frisch (1979) examinou os produtos
da contação de estórias e as respostas populares de outro tempo:
a coleção de memórias da Grande Depressão organizadas por Studs
Terkel
31
 e as resenhas da mídia popular. Frisch concorda com a
maioria dos outros críticos e leitores: a leitura das memórias de
150 americanos que viveram durante a Depressão ou tinham ouvido
falar dela posteriormente era “comovente, pungente, intensa,
humana e instrutiva”. A resposta atual do público às estórias do
StoryCorps/NPR é muito semelhante. Frisch discorda, no entanto,
em outro ponto. Ele não concorda com a Newsweek quando esta
diz que o livro “vai restaurar a nossa fé em todos nós” ou com o



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