História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia


partir das práticas religiosas confessionais é um começo. FOUCAULT (1990)



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partir das práticas religiosas confessionais é um começo. FOUCAULT (1990);
FREUND (2014).


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História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
reaver nosso ceticismo.
O crescimento da cultura da terapia está intimamente ligado à
ascensão do movimento de autoajuda, que por sua vez encontra
terreno fértil na contação de estórias. Contar estórias – segmentar
a vida em episódios inspiradores de sobrevivência individual – se
relaciona, sem dúvida, com aquilo que a crítica social americana
Barbara Ehrenreich (2009) chama a “ideologia americana do
pensamento positivo”. Ehrenreich identificou uma indústria
multimilionária – livros e DVDs de autoajuda, oficinas de
pensamento positivo, “dezenas de milhares de ‘instrutores para a
vida’, ‘instrutores executivos’ e palestrantes motivacionais”, além
de vários outros “instrutores, pregadores e gurus de diversos tipos”
–, que consegue lucrar brincando com o medo que os americanos
têm de não conseguir controlar suas vidas, ensinando a eles um
“otimismo injustificável” e uma “autoilusão deliberada”. O
pensamento positivo não é causa ou efeito do sucesso, mas “é
guiado por uma terrível insegurança”. O pensamento positivo,
argumenta Ehrenreich, é um forte aliado das duas forças motrizes
do século XX e do começo do século XXI: o nacionalismo e o
capitalismo. Ehrenreich escreve que
[...] o pensamento positivo se mostrou útil como uma apologia dos
aspectos mais cruéis da economia de mercado. Se o otimismo é a
chave para o sucesso material, e se você pode chegar a uma
perspectiva otimista através da disciplina do pensamento positivo,
então não existe desculpa para o fracasso. O outro lado da
positividade é, assim, uma rigorosa insistência na responsabilidade
pessoal: se o seu negócio fracassa ou o seu emprego é eliminado,
deve ser porque você não tentou o suficiente, não acreditou
firmemente o bastante na inevitabilidade do seu sucesso. Conforme
a economia trouxe mais desemprego e turbulência financeira para a
classe média, os promotores do pensamento positivo foram
enfatizando cada vez mais esse julgamento negativo: sentir-se
desapontado, ressentido ou desanimado é ser uma “vítima” e um
“resmungão” (EHRENREICH, 2009).
Vemos esse pensamento positivo estruturando muitas das
estórias manufaturadas no setor de contação de estórias. Ele pode


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ser visto também, pelos comentários no Facebook e em outros
lugares, no público consumidor. A análise de Ehrenreich aponta
outra área que precisamos considerar ao contextualizar o fenômeno
da contação de estórias. O StoryCorps pode ter nascido no contexto
do 11 de setembro e do furacão Katrina, mas esses dois
acontecimentos – habilmente recontados pelas agências do governo
e pela Fox como “catástrofes nacionais” – são apenas eventos de
superfície. Mais abaixo, a angústia americana é construída sobre
as inseguranças econômicas, militares, sociais e culturais que
dominaram a vida americana desde a década de 1970. Da
desindustrialização à crise financeira de 2008, do Vietnã ao Iraque
e ao Afeganistão, da deterioração dos sistemas educacional e de
assistência à saúde, e das guerras raciais dos anos 1970 ao aumento
estrondoso da violência na cultura popular, os americanos têm
boas razões para recorrer ao pensamento positivo e às estórias
inspiradoras à la Chicken Soup for the Soul [Canja de Galinha
para a Alma]
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.
Contação de estórias versus história oral:
a política da história e da memória
Os proponentes da contação de estórias alegam que ela promete
um caminho para um mundo melhor precisamente por evitar a
política. Para Colbert e outros, a contação de estórias que acontece
no StoryCorps é o oposto da política:
Vivemos num tempo em que absolutamente tudo é fonte de divisão.
Tudo funciona como uma declaração política. Cidades costeiras x
cidadezinhas. Republicanos x Democratas, MSNBC x FOX, Costco
x Sam’s Club. Mas você não ouve qualquer agenda política no
StoryCorps – você não ouve agenda nenhuma. Você ouve apenas
um desejo de compartilhar. (STORYCORPS, 2013)
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O livro Chicken Soup for the Soul: 101 Stories to Open the Heart and



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