História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia


participação ativa do público nas cabines itinerantes de gravação e



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participação ativa do público nas cabines itinerantes de gravação e
pelo anúncio de que as entrevistas do StoryCorps seriam arquivadas
na Biblioteca do Congresso.
Ainda que não vissem o StoryCorps como história oral, queriam
“pensar no lugar que essa atividade ocupa na genealogia da história
oral” (ABELMANN et al., 2009, p. 255). As autoras compararam
as estórias do StoryCorps com “instantâneos num álbum de
recortes” ou “breves tributos públicos ao poder da estória”. Também
viam essas estórias como “parte de um legado americano de
celebração do ‘comum’”, sem especificar o que seria essa tradição.
Descreveram as estórias como “ternas celebrações da intimidade,
comunicadas de forma paradoxal através da grande rede midiática
do StoryCorps”. Não elaboraram esse paradoxo, ainda que ele
pareça estar no centro de uma explicação para o fenômeno da
contação de estórias. Ao invés disso, concentraram-se na


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emotividade das estórias e o fizeram de forma pessoal e solidária.
Realmente, a emoção guia boa parte da resposta do público e
dos pesquisadores de história oral ao StoryCorps e ao fenômeno
da contação de estórias. “O que torna o StoryCorps tão influente?”,
pergunta o historiador público americano Benjamin Filene. “Por
que milhões de pessoas percorrem soluçando o trajeto de casa até
o trabalho e voltam [a sintonizar] para ouvir mais?” (FILENE,
2011, p. 175). São importantes questões que Filene responde apenas
com outra pergunta: “O projeto ilustra o alcance [da atitude] de
deixar que as pessoas contem suas próprias estórias?” Mas é claro,
como aponta o próprio Filene (2011), que essas não são suas
próprias estórias. A maioria das pessoas não é capaz de contar
suas estórias em três minutos e levar milhões de pessoas às lágrimas.
Como Abelmann et al. (2009) e Filene (2011) mostram, as lágrimas
de sexta de manhã são produto de uma edição profissional, não
de algum misterioso poder inerente à contação de estórias. O
StoryCorps e a NPR escolhem cuidadosamente trechos do material
bruto e elaboram estórias selecionando, rearranjando e produzindo
um arco narrativo cujo propósito é fazer com que os ouvintes
chorem. Assim como as estórias, o efeito provocado é homogêneo.
Abelmann et al. (2009, p. 259) escrevem:
O que unifica as entrevistas do StoryCorps como celebrações, rituais
ou instantâneos é a maneira semelhante, quase uniforme, com que
elas evocam as emoções do ouvinte/leitor. O ouvinte, como proclama
o título, vai amar escutar e, acrescentaríamos, vai se emocionar (até
as lágrimas). O leitor pode experimentar a mesma fisgada
emocional... Essas são, parece, as conversas que gostaríamos de ter
(ou que gostaríamos de ter tido) com uma pessoa amada que está
morrendo.
Emocionar-se até as lágrimas é a reação mais frequente a essas
estórias nas respostas online do público ouvinte. E os acadêmicos
não têm vergonha de começar seus artigos admitindo: “Posso contar
com as manhãs de sexta para chorar bastante” (FILENE, 2011, p.
174). Chorar parece ser parte integrante do fenômeno da contação
de estórias. O apresentador da Edição da Manhã da NPR, Steve


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Inskeep, se deleita com o fato de que chorava regularmente ouvindo
as vinhetas do StoryCorps (NATIONAL PUBLIC RADIO, 2013a;
2013b).
Será que os pesquisadores de história oral “compraram” a
emotividade da contação de estórias, mesmo sabendo que as
estórias da NPR, como os dramas hollywoodianos, são editados
com o propósito de nos fazer chorar? Será que eles compraram a
ideia de que a contação de estórias sempre compartilha e empodera,
mesmo sabendo que os participantes do StoryCorps não têm
controle algum sobre o trabalho de edição? Eles concordam que a
experiência seja reduzida à emoção, especialmente quando o leque
de emoções permitido no StoryCorps é estreito e parece excluir
emoções desconfortáveis para o público consumidor, como a revolta
contra injustiças políticas e desigualdades econômicas ou o ódio
nascido do nacionalismo ou da pobreza? É difícil resistir à “fisgada
emocional” da contação de estórias enquanto cura e
empoderamento. Muitos daqueles que escrevem sobre o StoryCorps
parecem concordar com Filene (2011), quando ele argumenta que
“o projeto mostra que a emoção transmite significado de forma
poderosa e é significativa em si mesma”. Se a história oral nos
ensinou alguma coisa, no entanto, foi que a emoção é enganadora,
ilusória, nunca autoexplicativa. Não sabemos porque as pessoas
choram quando contam uma estória, mas podemos ter certeza de
que elas o fazem por outras razões que não as nossas quando
choramos com elas. Além disso, ainda que o movimento de
contação de estórias reduza as emoções ao amor e às lágrimas
(normalmente por causa de um final feliz), nossos entrevistados
nos falam também de outras emoções, incluindo raiva, ódio, revolta
e medo
21
. Finalmente, a emoção particular nos engana e nos faz
2 1
Ainda que outras emoções estejam ausentes das estórias editadas, seria
interessante ver com que frequência elas aparecem nas conversas de 40
minutos. Esse corpus de fontes nos ajudará a escrever uma história da
mentalidade da sociedade americana no começo do século XXI, mas seu
uso para uma história das emoções pode ser limitado.


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confundir simpatia com empatia. Com frequência, acreditamos
ter alcançado a empatia quando tudo o que fizemos foi sentir
simpatia. Mas apenas um desses dois, como enfatiza Allison
Landsberg, demanda trabalho intelectual: a empatia
(LANDSBERG, 2009, p.222-223). É por isso que os historiadores
não lidam com a simpatia; lidam com a empatia. No entanto, é
difícil resistir à fisgada emocional porque ela tem raízes em forças
sociais profundas: a confissão pública (cultura de massas do início
do século XXI), a ascensão de um hiperindividualismo neoliberal e
a emergência da cultura terapêutica e de uma obsessão com o
trauma e a sobrevivência, desde a década de 1970 (FREUND,
2014). Todas essas forças sociais devem ser consideradas quando
da contextualização do fenômeno da contação de estórias.
Por que falamos de nós mesmos?
Neoliberalismo, hiperindividualismo e
cultura da terapia
Existe uma crença amplamente difundida de que a contação
de estórias faz parte do conjunto das forças sociais democratizantes
que emergiram depois da Segunda Guerra Mundial e que incluem
a ascensão da classe média, o movimento pelos direitos civis, o
movimento feminista, a expansão da educação superior e o
movimento estudantil e, de forma mais geral, o fortalecimento da
esquerda e do liberalismo. Na academia, a história social e a escrita
de uma história mais inclusiva foram expressões dos anos 1960
(ADAIR; FILENE; KOLOSKI, 2011, p. 11). A história oral se vê
normalmente dentro dessa tradição, fornecendo uma metodologia
que revela a voz do passado e um campo de pesquisa que discute
criticamente os métodos e a ética da entrevista e da interpretação.
Os curadores dos museus e outros historiadores públicos, que se
viram sob grande pressão para fazer o público participar ativamente
e contribuir para as suas exposições, entraram na conversa: “Depois
de trabalhar por uma geração contando estórias que


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des-centralizam as elites, os museus agora estão des-centralizando
os contadores de estórias das elites, também” (ADAIR; FILENE;
KOLOSKI, 2011, p. 11). Realmente, a contação de estórias por
todos e para todos, amplamente compartilhada online, é vista
cada vez mais como uma ferramenta de democratização para o
empoderamento individual e a mudança social. Mas isso é apenas


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