História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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uma vez” (LAMBERT, 2013, p. 5 – grifos meus). Abelmann et al.
(2009, p. 258) veem nisso a “comunicação perfeita”:
Enquanto a vida cotidiana oferece apenas fragmentação, divisão e
distração, o StoryCorps cria um universo paralelo que é justamente
o oposto: um espaço íntimo e ainda assim semipúblico no qual
podemos compartilhar a nós mesmos. No mundo do StoryCorps, o
sonho impossível de uma comunicação perfeita pode afinal não ser
tão impossível: tudo que precisamos é de um parceiro, um espaço
silencioso, suavemente iluminado, um microfone e quarenta minutos.
(LAMOTHE; HOROWITZ, 2006, p. 172-173)
Essa premissa – a de que o StoryCorps e outras propostas de
contação de estórias nos oferecem uma trilha há muito perdida
para um mundo melhor – é mito e faz-de-conta, não história ou
política. Implícita nessa premissa está a suposição de que, se
encontrarmos nosso caminho de volta até o entorno da fogueira,
se pararmos para escutar mais profundamente as estórias uns dos
outros, se alcançarmos o “sonho da comunicação perfeita”, então
tudo será melhor – vidas individuais e sociedade como um todo. E
podemos alcançar tudo isso em quarenta minutos numa sala de
estar de mentira com um microfone. Como defendo a seguir, esse
mito é operado pelo hiperindividualismo neoliberal e por seus
discursos sociais concomitantes: sobrevivência, terapia e trauma.
Os comentários deixados pelos ouvintes da NPR mostram que
essa crença na virtude do compartilhar estórias deitou raízes
profundas na cultura e na sociedade americanas. Os pesquisadores
de história oral, em suas resenhas a respeito do StoryCorps, são
afetados de maneira semelhante. Lamothe e Horowitz (2006, p.
172-173) descreveram a experiência da entrevista que fizeram um
com o outro na cabine de gravação do StoryCorps. Foram


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[...] recebidos por dois membros muito animados da equipe. O
pequeno espaço, desenhado para se parecer com uma confortável
sala de estar, nos deixou à vontade apesar do imponente
equipamento de gravação. Ouvimos algumas instruções simples,
assinamos um formulário de autorização... e então um de nós
(Andrew Horowitz) começou a entrevistar o outro (Peter Lamothe).
Ficamos surpresos com a rapidez com que os quarenta minutos
reservados transcorreram.
Eles ficaram “tremendamente impressionados” com a
experiência:
Como entrevistado, Peter falou de experiências pessoais que não
revisitava há anos. A intimidade do ambiente fez com que ele
desejasse ser sincero, e opiniões, tendências e algumas emoções
pessoais fortes vieram à tona rapidamente. Ao final, Peter levou
consigo a sensação de que para ele o benefício mais significativo do
StoryCorps era emocional: a chance de refletir sobre o passado
acordou nele de uma só vez a consciência e a alma, a mente e o
coração. Da sua parte, Andrew se sentiu privilegiado pela
oportunidade de conhecer Peter de uma maneira muito mais pessoal
do que o relacionamento deles jamais teria permitido. Se chegamos
lá como colegas, saímos como amigos.
Os fãs da contação de estórias aceitariam sem quaisquer reservas
essas respostas e sentimentos. Os autores descrevem o efeito quase
terapêutico e profundamente transformador da contação de estórias.
Ambos sabiam que estavam produzindo uma gravação que poderia
ser disponibilizada para uma audiência de milhões de pessoas. Os
pesquisadores de história oral sabem que se trata de uma experiência
pouco usual, não um evento cotidiano. A maior parte dos nossos
momentos são muito mais privativos; nossas conversas em torno
da mesa da cozinha ou do refrigerador podem ser escutadas por
não mais do que meia dúzia de pessoas. Ainda assim, foi na mais
pública das circunstâncias que os dois homens sentiram tal nível
de intimidade e privacidade que puderam “ser sinceros” e
compartilhar estórias e emoções, presumivelmente não
compartilháveis na privacidade de seus escritórios, num jantar, numa
viagem de automóvel ou durante um jogo de golfe. Os efeitos que


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Horowitz e Lamothe descrevem nos fazem lembrar da catarse
ocasionada pela confissão ou pela psicanálise. A diferença, no
entanto, é que a confissão de Lamothe poderia potencialmente ser
veiculada para o mundo de forma instantânea e ambos os
pesquisadores estavam plenamente conscientes disso, tendo cedido
seus direitos ao StoryCorps e à NPR. E ainda assim, a única coisa
que acharam “intimidante” foi o equipamento de gravação, não o
fato de que seu “eu interior” seria divulgado para o mundo. Foi
uma experiência de confiança ou de autoengano? Como chegamos
a esse lugar – nem sempre estivemos aqui e essa situação tem se
prolongado por um bom tempo –, onde achamos completamente
normal e até mesmo medicinal compartilhar com o público os
aspectos mais íntimos das nossas vidas? Quais as implicações disso
para a história oral?
Abelmann et al. (2009, p. 255) viram o StoryCorps de forma
mais crítica, mas também mostraram um apoio carregado de
emoção ao projeto. Compartilharam um “fascínio pelo StoryCorps”:
Nossas discussões foram inspiradas pelos momentos emo-
cionalmente eletrizantes do programa radiofônico semanal, pela
dedicação dos facilitadores do Corps, que reconhecíamos, pela


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