História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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Escutar é um ato de amor, que é também o título de seu livro de
2007, cujo subtítulo é Uma celebração da vida americana pelo
Projeto StoryCorps. No ano seguinte, quatro pesquisadoras de
história oral escreveram uma extensa resenha sobre esse livro e
sobre o projeto como um todo. Novamente, ainda que
questionassem aspectos do projeto, as autoras eram
fundamentalmente favoráveis a ele (ABELMANN et al., 2009, p.
255-260).
Apesar de terem aceitado o StoryCorps e empreendimentos
similares, os pesquisadores de história oral também formularam
perguntas e preocupações, questionando principalmente se o


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StoryCorps realmente faz história oral e se é viável como
arquivo histórico (POZZI-THANNER, 2005, p. 104; LAMOTHE;
HOROWITZ, 2006, p. 173-174). Nancy Abelmann, Susan Davis,
Cara Finnegan e Peggy Miller sugeriram cautelosamente que a
alegação de que o StoryCorps fazia história oral podia estar indo
um pouco longe demais; pelo menos as suas “técnicas”, escreveram
elas, “diferem das práticas correntes da história oral” (ABELMANN
et al., 2009, p. 256). As autoras sustentaram que as estórias eram
elaboradas como “momentos pungentes”, que se ajustavam aos
“gostos do projeto e à sua ligação com programas da NPR, como
o ‘All Things Considered’” (ABELMANN et al.,  2009, p. 257). As
autoras também questionaram a alegação de que o StoryCorps
seguia a tradição do Federal Writers Project (FWP), da década de
1930. Mencionaram que o StoryCorps produzia “fragmentos de
emoção a partir de vidas aparentemente individualizadas” e não,
como o FWP, documentação histórica sobre grupos sociais
específicos (ABELMANN et al., 2009, p. 257). De fato, concluíram,
as narrativas produzidas pelo StoryCorps não são história oral,
mas um processo pelo qual as pessoas usam uma fórmula específica
para produzir “uma jóia permanente” de autodocumentação, no
contexto mais amplo de uma “cultura de autodocumentação”
(ABELMANN et al., 2009, p. 260). Muitas das preocupações dos
críticos também foram explicitadas nas discussões que se seguiram
à palestra de abertura de Isay no encontro de pesquisadores de
história oral em 2008, alguns dos quais “viam na força emocional
do programa do StoryCorps evidência de uma sensibilidade
altamente problemática, manipulativa e até mesmo voyeurística,
ainda mais distante dos padrões da história oral” (FRISCH, 2011,
p. 134-135).
Todas essas críticas foram úteis para estabelecer que o
StoryCorps na realidade não fazia história oral. Mas o elefante
branco continuava no recinto: Por que o StoryCorps era tão mais
bem sucedido – em escopo, financiamento e popularidade – do
que qualquer projeto de história oral? Um esboço de resposta pode
ser encontrado na calorosa aceitação com que os pesquisadores


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de história oral – a despeito de todas as reservas – receberam o
StoryCorps e o fenômeno mais amplo da contação de estórias.
Ainda que tenham registrado a grande diversidade na contação de
estórias e até mesmo explicitado as diferenças fundamentais entre
a contação de estórias à la StoryCorps/NPR e as estórias produzidas
em seus próprios projetos, os pesquisadores de história oral se
mostraram ansiosos para embarcar no bonde da contação de
estórias, sugerindo que não seria problemático chamar todos os
tipos de prática, incluindo a história oral, de contação de estórias,
e dessa forma apagar, pelo menos na superfície, todas as diferenças
em termos de epistemologia, método, ética e política. Esse
deslocamento fica evidente nos títulos que aparecem nos programas
dos encontros anuais da Oral History Association, onde, nos últimos
anos, “estória” e “contação de estórias” substituíram “voz”,
“memória” e “história oral” na lista das principais palavras-chave.
Os pesquisadores de história oral aceitaram a contação de
estórias e o fizeram com grande emoção. Essa emoção foi
alimentada por suposições nostálgicas a respeito de um passado
melhor e por uma romantização da contação de estórias como
uma panaceia para os problemas do nosso mundo. Pozzi-Thanner
aderiu ao objetivo mais amplo do projeto, que é nos ajudar a
escutar uns aos outros: “Em nosso tempo eletrônico, com que
frequência as pessoas se sentam juntas e escutam as estórias umas
das outras?” O StoryCorps, argumentou ela, “pode encorajar as
pessoas a formular questões mais profundas a respeito umas das
outras, a escutar com mais cuidado, ainda que apenas durante
aquela hora” (POZZI-THANNER, 2005, p. 104). Abelmann et al.
(2009, p. 258) concordam:
As estórias também falam da necessidade de diminuir a velocidade
e prestar atenção. Concordamos com Isay [quando diz] que as nossas
aceleradas vidas são dirigidas pela hipermediação e pela
hipermobilidade e que raramente reservamos tempo para honrar
as estórias daqueles que amamos: para ir mais devagar, conversar e,
o mais importante, escutar.
A premissa desse argumento é a de que houve um tempo em


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que nós nos sentávamos para escutar uns aos outros e hoje já não
o fazemos.
Essa nostalgia é o mantra de grande parte do circuito da contação
de estórias. Para Lambert, trata-se de “encontrar o caminho de volta
até o entorno da fogueira. Por intermédio da contação de estórias
digital, todos nós podemos nos tornar contadores de estórias mais



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