História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia


particularmente popular entre os partidários da direita política e



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particularmente popular entre os partidários da direita política e
social (LAUNIUS, 2013, p. 31 e 33)
15
.
Antes de prosseguir examinando a resposta dos pesquisadores
de história oral ao StoryCorps e ao fenômeno mais abrangente da
contação de estórias, gostaria de descrever brevemente uma estória
típica do StoryCorps e a resposta online típica por parte do público
ouvinte
16
. A estória “A vida dos irmãos cegos mudou quando ‘papai’
bateu na porta” foi ao ar na NPR na manhã do dia 21 de fevereiro
de 2014 e foi divulgada no perfil da rádio no Facebook (NATIONAL
PUBLIC RADIO, 2014b)
17
. Em pouco menos de três minutos, Ollie
Cantos e os trigêmeos de catorze anos de Arlington, Virgínia, contam
a estória de como conseguiram superar grandes adversidades. Os
três garotos nasceram cegos e lutaram, na infância e na
1 5
Sobre as políticas antidemocráticas, antipartidárias, pró-consenso dos
neoliberais, ver AMABLE (2011, p. 18-21).
1 6
Uma ressalva: as conversas de 40 minutos são arquivadas e não estão
acessíveis ainda. O principal meio pelo qual o público americano ouve as
estórias do StoryCorps é a National Public Radio. O StoryCorps e a NPR
têm editores profissionais que elaboram uma estória de três minutos a partir
do “melhor” das entrevistas gravadas em áudio.
1 7
No site do StoryCorps, a estória recebeu o seguinte título: “I didn’t know that
there were other blind people except me and my brothers” (STORYCORPS,
2014c).


História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
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adolescência, contra a discriminação sistemática e a pobreza. De
acordo com o narrador da NPR, “a sua mãe, solteira, encontrou
muitas dificuldades para cuidar deles”. Leo, um dos irmãos, lembra:
“Todo dia era, então, acordar, ir pra escola, voltar pra casa, e aí
você fica lá pelo resto do dia”. A mãe deles não deixava que
saíssem para brincar. O ponto alto da infância dos irmãos foi uma
visita ao McDonald’s, quando eles tinham sete anos. Nick, outro
irmão, diz que, em certo momento, as coisas eram tão ruins que
ele queria cometer suicídio. “Tudo mudou quando eles estavam
com dez anos”, explica o locutor da NPR/StoryCorps, quando um
homem mais velho da comunidade, Ollie, “ouviu falar da situação
da família e bateu na porta”. Ele também tinha nascido cego e
lutado contra as dificuldades. Lentamente, Ollie ganhou a confiança
dos irmãos. Hoje, eles o chamam de pai. De acordo com o
StoryCorps, “Ele está agora a ponto de adotar formalmente os
irmãos”
18
. Quando Ollie narra como foi ser chamado de pai pela
primeira vez, sua voz treme de emoção.
Os ouvintes e leitores podiam deixar comentários no website e
no perfil da NPR no Facebook. Em poucas horas, havia 29
comentários no site e 276 no Facebook, além de 6.500 curtidas no
Facebook. Depois de três dias, havia 56 comentários no site da
NPR e 1.675 comentários e mais de 14.000 curtidas no Facebook.
Quase todos os comentários eram solidários e positivos, descrevendo
a estória como “ótima”, “de aquecer o coração”, “bela”, “incrível”,
“emocionante” e “inspiradora”. Muitos mencionaram que tinham
ficado com os olhos marejados ou que se sentiam comovidos até
as lágrimas. Essa resposta unânime parecia sugerir que a estória
era um exemplo do que se poderia chamar o “espírito americano”
ou “a humanidade no que ela tem de melhor”. A resposta do
público a essa e muitas outras estórias do StoryCorps/NPR faz
lembrar, na verdade, as respostas que Michael Frisch identificou
nas resenhas de Hard Times, livro de Studs Terkel, em 1970
1 8
A transcrição da estória está em NATIONAL PUBLIC RADIO (2014c).


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História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
(FRISCH, 1972; repr. em  FRISCH, 1979).
De certa forma, essa uniformidade das respostas não surpreende.
Analisei dúzias de estórias do StoryCorps/NPR e centenas de
comentários deixados por ouvintes nos websites das duas
organizações. A maioria das estórias se concentra na superação
das adversidades, que assumem diversas formas: um câncer, a
perda de uma pessoa querida, uma lesão desfigurante, uma doença
mental, a pobreza, a situação de rua, as deficiências físicas ou
mentais, as dificuldades de aprendizagem, a síndrome do stress
pós-traumático, o abuso sexual, a violência doméstica, o bullying,
o preconceito, o racismo, o adoecimento ou morte de uma criança,
a separação dos pais, um naufrágio, ou mesmo a homossexualidade
ou a identidade transgênero. Um bom número dessas dificuldades
é resultado das guerras americanas no Iraque e no Afeganistão,
nos últimos treze anos, quase todas concentradas em membros
das Forças Armadas americanas que foram feridos, ficaram aleijados
ou mentalmente prejudicados. Também existem estórias de
inspiração e agradecimento: um neurocirurgião que agradece ao
professor de ciências do ginásio, um homem de vinte anos que
agradece à sua peculiar avó, um morador de rua que agradece a
uma imigrante sem documentos por alimentá-lo, dois irmãos
agradecidos pelo nascimento de um bebê que transformou a família.
Às vezes, aparece uma estória de testemunho histórico: a viúva e a
enteada de Spalding Gray, que relembram o dia em que ele
desapareceu
19
; as enfermeiras que cuidaram de Jackie Kennedy no
dia em que seu marido foi assassinado; um criador de cavalos que
narra seus dias como dublê de Hollywood em numerosos faroestes;
1 9
Spalding Gray: Ator estadunidense famoso pelos monólogos autobiográficos
que escreveu e encenou no teatro nos anos 1980 e 1990. Em 2001, sofreu
um acidente de automóvel que deixou sequelas graves, incluindo episódios
de depressão. Desapareceu de sua casa em Nova York em 11 de janeiro de
2004; em 7 de março, seu corpo foi encontrado no East River. As difíceis
condições de vida após o acidente, além de outros eventos biográficos,
tornam forte a hipótese de suicídio. (Nota da tradutora)


História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
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ou um jovem que lembra a sua participação na marcha de 1963
em Washington
20
.
Na maioria das vezes, os excertos da NPR/StoryCorps contam
estórias de sobrevivência, quase sempre com a ajuda de outra
pessoa. Um garoto em situação de rua é acolhido por seu professor;
o filho de uma mulher é salvo pela sua melhor amiga; uma família
cuida do filho que voltou da guerra no Iraque com danos cerebrais;
um pai ajuda seu filho a passar por “um período difícil”; uma mãe
solteira protege seu filho da realidade da pobreza; uma mãe ajuda
sua filha a vencer a dislexia. Estão ausentes dessas estórias: as
instituições estatais, sociais e culturais; o sistema econômico; a
religião e qualquer crítica social, econômica ou cultural. Isso, em
certa medida, se deve à estética do StoryCorps, que tende a podar
as estórias, eliminando as complexidades mais espinhosas, e que,
mantendo todos os aspectos potencialmente controversos à
distância, permite que “nós, ouvintes, nos projetemos na estória:
poderia ser eu; pessoas são pessoas” (FILENE, 2011, p. 188). E, o
que é mais importante, é também, como procuro demonstrar a
seguir, resultado de recentes correntes sociais e culturais
subterrâneas que prendem todas as estórias confessionais,
autobiográficas e contadas publicamente na camisa de força
interpretativa da crença neoliberal de que as pessoas têm seu destino
em suas próprias mãos.
É isso, então, que o StoryCorps e projetos similares fazem:
produção em massa, difusão e consumo de estórias de amor,
generosidade, superação de adversidades e sobrevivência. São
muitas vezes comoventes e quase sempre parecem ser apolíticas.
Baseiam-se na suposição explícita de que contar e escutar estórias
cura os indivíduos e a sociedade. Baseiam-se na suposição implícita
2 0
Um dos revisores anônimos deste artigo [quando publicado na Oral History
Review] sugeriu que, conforme os ouvintes foram se familiarizando com o
gênero das estórias do NPR/StoryCorps, podem ter feito adaptações no seu
estilo de contação; dessa forma, as conversas teriam ficado ainda mais
homogêneas. Esse é um excelente ponto, cuja comprovação aguarda uma
pesquisa mais detalhada nas estórias arquivadas.


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História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
de que as adversidades podem afetar todos os americanos
igualmente, de que as dificuldades são uma questão de destino e
são, portanto, imprevisíveis, e de que a sobrevivência depende do
indivíduo (e talvez de um ou dois ajudantes). A ideologia por trás
dessas estórias é a noção neoliberal de um hiperindividualismo
que não vê nenhum papel a ser desempenhado pelo Estado ou
pela solidariedade nas vidas dos indivíduos americanos. Se
falhamos, não podemos culpar a ninguém senão a nós mesmos.
Tais estórias excluem e rejeitam qualquer análise política da
desigualdade e da injustiça. Tomadas em conjunto, essas estórias
de sobreviventes silenciam a crítica cidadã. Esse efeito da contação
de estórias não resulta apenas de uma estética do StoryCorps ou
da NPR. De um ponto de vista mais abrangente, é o efeito de
como a contação de estórias acontece no Ocidente moderno. A
menos que investiguemos criticamente a política subjacente à
contação de estórias e seus efeitos na sociedade e na democracia,
seremos varridos por suas correntes ideológicas subterrâneas.
Podemos investigar mais efetivamente esse fenômeno
contextualizando-o historicamente e fundamentando a investigação
sobre a nossa compreensão a respeito da narrativa e das construções
dialógicas da história e da memória nas entrevistas.
Como já disse em outro lugar, o ponto dessa investigação não
é descobrir se o StoryCorps e outros projetos similares produzem
história oral de boa ou de má qualidade, ou mesmo narrativas
históricas de qualquer tipo. Não pretendo desacreditar o StoryCorps
ou qualquer outro projeto bem-intencionado. Ao contrário, o ponto
é convocar os pesquisadores de história oral para que usem suas
ferramentas e habilidades para examinar criticamente e situar
historicamente o StoryCorps, a contação de estórias digital e outras
formas do que se pode chamar de produção e consumo “fast food
de estórias (FREUND, 2009, p. 3, 6).


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Queremos mesmo nos sentar de novo
em torno da fogueira? A confusão dos
pesquisadores de história oral a respeito
do StoryCorps
Os pesquisadores de história oral, pelo menos na América do
Norte, parecem ter respondido positivamente ao StoryCorps e à
onda mais abrangente da contação de estórias. O StoryCorps foi
discutido pela primeira vez na Oral History Review em 2005, numa
resenha de Elisabeth Pozzi-Thanner, que chamava a atenção para
a ambição do projeto: “Um release para a imprensa espera até
250.000 entrevistas gravadas nos próximos dez anos” (POZZI-
THANNER, 2005, p. 103). Um ano depois, Peter Lamothe e Andrew
Horowitz escreveram uma resenha sobre o StoryCorps para a seção
de resenhas de exposições no Journal of American History
(LAMOTHE; HOROWITZ, 2006, p. 171). Ainda que questionassem
alguns aspectos do projeto, ambas as resenhas eram favoráveis.
Ao mesmo tempo, grandes antologias incluíram o StoryCorps e
projetos similares como exemplos de produções sonoras hospedadas
na Web e como modelos para a história pública (HARDY III; DEAN,
2006, p. 553-554; FILENE, 2011). A resposta positiva dos
pesquisadores de história oral ao StoryCorps também ficou evidente
em 2008, quando a Oral History Association escalou Isay para a
palestra de abertura do seu encontro anual. O título da fala era



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