História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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Brothers Changed When ‘Dad’ Came Knocking, February 21, 2014.
(NATIONAL PUBLIC RADIO, 2014b).


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História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
O StoryCorps encontrou amplo e disseminado apoio e
entusiasmo nos EUA e em outros países do Ocidente. A organização
recebeu o Peabody Award e os três livros de estórias reunidos pelo
fundador do StoryCorps, David Isay, são best-sellers
13
. Projetos
similares, ainda que de menor visibilidade, têm surgido nos EUA
nas últimas décadas. O Center for Digital Storytelling, sediado em
Berkeley, afirma em seu website: “Através de seu trabalho
abrangente, o Center for Digital Storytelling transformou a maneira
como ativistas comunitários, educadores, agências de serviços
humanitários e de saúde, profissionais e artistas pensam o poder
da voz individual na construção da mudança” (CENTER FOR
DIGITAL STORYTELLING, 2014b). A Community Expressions
Ltda., fundada em 2008, depois que seus diretores frequentaram
oficinas com Joe Lambert, oferece “oficinas e consultas sobre
contação de estórias, diálogo, facilitação, mapeamento da
comunidade e mídia social comunitária”, com o objetivo de “ajudar
comunidades de todos os tipos a alcançar um futuro saudável e
sustentável” (COMMUNITY EXPRESSIONS, 2014).
Projetos inspirados no StoryCorps foram estabelecidos em outros
países. No Reino Unido, a BBC iniciou recentemente o Listening
Project, que arquiva todas as gravações da coleção de história oral
da British Library. Seu objetivo: “Capturar a nação em diálogo
para construir uma imagem única das nossas vidas hoje e preservá-
la para as futuras gerações” (BBC, 2014). Na Austrália, The Story
Project, “uma organização cultural independente sem fins lucrativos”
inspirada no StoryCorps, “reúne as pessoas para gravar e
compartilhar as suas estórias de vida”. Trechos dessas estórias são
divulgados por estações locais de rádio e online (THE STORY
PROJECT, 2014). No Canadá, The Tale of a Town descreve-se
como “uma iniciativa nacional de história oral e teatro que visa
capturar a memória comunitária coletiva das ruas do nosso país,
uma estória de cada vez” (THE TALE OF A TOWN, 2014).
1 3
Isay também ganhou o Prêmio TED 2015 (COHEN, 2014).


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Para quase todos os apoiadores desses projetos de contação de
estórias, no cerne de tudo está a convicção de que contar e escutar
estórias é positivo, medicinal e empoderador, e pode levar a
transformações pessoais e até à mudança social. Nas palavras de
Isay: “Escutar é um ato de amor... Se gastássemos menos tempo
ouvindo o barulho das rádios fomentadoras de divisões e dos talk
shows e mais tempo escutando uns aos outros, seríamos uma nação
melhor, mais previdente e solidária” (ISAY, 2007, p. 269)
14
. O
australiano The Story Project afirma: “Acreditamos que o simples
ato de compartilhar estórias ajuda a unir as pessoas” (THE STORY
PROJECT, 2014). O Center for Digital Storytelling vê a contação
de estórias como “uma ferramenta para a mudança” e por isso
tem como missão “promover a valorização da estória como um
caminho para a ação comunitária solidária” (CENTER FOR
DIGITAL STORYTELLING, 2014a). O Community Expressions
se “dedica a ajudar as comunidades rurais, as organizações sem
fins lucrativos e os indivíduos a entrelaçar o velho e o novo, o lento
e o rápido, para criar mundos melhores” (COMMUNITY
EXPRESSIONS, 2014). Nas palavras (não humorísticas) do
humorista político Stephen Colbert, na cerimônia do décimo
aniversário do StoryCorps, em Nova York, em 30 de outubro de
2003: “Existe na realidade apenas um enredo: a necessidade de
dar e receber amor. E esse é o verdadeiro tema de todas as estórias
humanas” (STORYCORPS, 2013).
Tais sentimentos são familiares para os historiadores sociais
que têm utilizado a história oral para escrever uma história mais
inclusiva e para os praticantes que veem na história oral uma
ferramenta poderosa para o ativismo. Coletando as narrativas de
vítimas e criminosos, de oprimidos e opressores, eles submeteram
suas evidências ao escrutínio histórico ao invés de confiar
simplesmente no poder da estória. Assim, as práticas da contação
de estórias e da história oral diferem bastante, da mesma forma
1 4
Ver também FILENE (2011, p. 181).


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que os seus resultados e seus modos de publicização. Como ficará
claro mais tarde, a história social e o StoryCorps estão em polos
opostos da política da história. Enquanto os historiadores sociais
enfatizam a diversidade e as diferenças e questionam as causas
econômicas, sociais e culturais e os efeitos das hierarquias e da
opressão, o StoryCorps está inequivocamente no campo da história
consensual que é construída sobre os temas da excepcionalidade
americana, da ideia de “uma nação, um povo” e de “uma nostalgia
por um passado menos complexo em que éramos um só”. Como
demonstrou Roger D. Launius, curador sênior do National Air and
Space Museum do Smithsonian, essa história consensual é


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