História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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Rolling Stone, na Buzz Feed, na The Wire ou em qualquer mídia,
um pastiche de excertos de entrevista sobre uma peça, um programa
de TV, uma banda de rock ou evento musical é hoje comumente
chamado de história oral. Isso é irritante para os pesquisadores de
história oral, mas o mais importante é que uma parte crescente da
população tem aprendido a pensar e a falar sobre si da mesma
forma que as estrelas tornam públicos os detalhes mais íntimos de
suas vidas.
Fora do circuito comercial, o movimento da contação de estórias
é mais evidente nos setores sem fins lucrativos e no acadêmico,
onde muitos contadores de estórias se opõem ao movimento de
autoajuda ou às outras aplicações voltadas para o mercado. No
8
Para mais exemplos, ver FREUND; JESSEE (2014, p. 317). Ver também a
campanha de arrecadação Feel no shame [Não se envergonhe], da Sentebale,
que inclui a revelação de segredos por parte de celebridades como o príncipe
Harry, cofundador da entidade (SENTEBALE, 2014).
9
Oprah Winfrey é conhecida por seu programa de entrevistas The Ophah
Winfrey Show, na TV estadunidense. (Nota da organizadora)


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setor sem fins lucrativos, os websites, projetos, circuitos e festivais
de contação de estórias abrangem um vasto leque de práticas e
gêneros, dos contos de fadas às narrativas autobiográficas. Os
contadores podem ser profissionais ou amadores, podem fazer
carreira ou se apresentar apenas uma vez. O Center for Digital
Storytelling, em Berkeley, Califórnia, fundado pelo produtor teatral
Joe Lambert, entre outros, oferece “serviços de projeto
personalizados” para ajudar as pessoas a usar a “contação de
estórias para o desenvolvimento profissional, como uma prática
de reflexão, uma estratégia pedagógica ou um veículo para a
educação, a mobilização comunitária ou o advocacy
10
” (CENTER
FOR DIGITAL STORYTELLING, 2014a). No seu website, o centro
afirma ter trabalhado com “aproximadamente mil organizações
de todo o mundo e capacitado mais de quinze mil pessoas em
centenas de oficinas, que ensinam a compartilhar estórias a respeito
de suas vidas” (CENTER FOR DIGITAL STORYTELLING, 2014b).
Muitas outras organizações sem fins lucrativos, além de empresas
comerciais, oferecem serviços similares. Outros indivíduos e grupos
estabeleceram projetos para registrar estórias e apresentar online
as versões editadas. Entre eles estão o Interview Project, The Kitchen
Sisters e The Moth (INTERVIEW PROJECT, 2014; BRYAN, 2010;
THE KITCHEN SISTERS, 2014; THE MOTH, 2014). Desde o
começo da década de 1970, os festivais de contação de estórias
reúnem contadores de contos de fadas e de outras estórias
tradicionais. A celebração global das estórias e da contação de
estórias produziu o Dia Mundial de Contação de Estórias, que é
comemorado com festivais e eventos no mundo todo. Em muitos
desses encontros e nas diversas práticas discutidas, a contação de
estórias autobiográficas está misturada, interligada e integrada a
outros gêneros. Novamente, o ponto aqui não é que eu queira
1 0
O termo advocacy  remete a um conjunto de ações voltadas para a defesa de
causas que sejam de interesse coletivo, de modo que venham a obter apoio
social bem como tradução em leis e/ou políticas públicas. (Nota da
organizadora)


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submeter todas as diferentes práticas ao rótulo da “contação de
estórias”. O ponto que quero defender é o oposto: que um número
crescente de praticantes – incluindo os pesquisadores de história
oral – chamam seu trabalho de contação de estórias e o fazem
muitas vezes sem refletir o suficiente a respeito das implicações
mais amplas dessa mudança de terminologia. Ainda que os
contadores tradicionais, incluindo os pesquisadores de história oral,
existam há muito mais tempo, a popularização e o impacto dos
projetos de contação de estórias com base na Internet, além de
outros jogos, aplicativos e produtos comerciais mais recentes, são
muito maiores.
Na academia, a contação de estórias parece ter surgido
inicialmente na educação, como ferramenta pedagógica. Uma
busca no WorldCat por livros, artigos e outros meios com o título
“contação de estórias” chegou a quase 16.000 resultados (quase
todos não ficção e literatura não juvenil). Pairando abaixo dos 10
resultados por ano até 1959, as publicações aumentaram
gradativamente no final da década de 1960, alcançando cem
resultados em 1979, crescendo mais rápido depois de meados da
década de 1980 e novamente depois de 1990 (245 títulos), depois
de 2000 (524 títulos) e depois de 2010 (1.056 títulos). As maiores
categorias foram “linguagem, linguística e literatura” (1.012 títulos),
“educação” (873) e “antropologia” (373). Houve mais publicações
sobre contação de estórias em “negócios e economia” (218) do
que no tópico tradicionalmente narrativo “história e ciências
auxiliares” (188). Muito do interesse acadêmico na contação de
estórias pode ser explicado pela virada linguística da década de
1960 e pela subsequente virada narrativa da década de 1980.
Existem hoje subcampos narrativos em quase todas as disciplinas
das humanidades e das ciências sociais (HERMAN, 2007). Em
história, para além da história oral, houve um retorno à narrativa.
A filosofia descobriu a narrativa como um campo de pesquisa.
Depois da psicologia cognitiva, a psicologia clínica concentrou sua
atenção na terapia narrativa (BRUNER, 1990; BRUNER, 1996;
BRUNER, 2002; POLKINGHORNE, 1988). Antropologia,


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etnografia, estudos folclóricos, literatura e linguística têm, é claro,
um interesse antigo na contação de estórias. A contação de estórias
é também um dos focos principais de disciplinas recém-surgidas,
como os estudos culturais, os estudos de cinema e mídia e as
humanidades digitais
11
.
De modo geral, existe hoje um imenso mercado, tanto online
quanto offline, nos setores com e sem fins lucrativos e acadêmico,
para a produção, a difusão e o consumo de estórias e de contação
de estórias, que é peculiar e diferente da história prévia da contação
de estórias. Uma das grandes defensoras da contação de estórias,
Barbara Ganley, escreveu, em 2012: “Realmente, estamos imersos
nessas estórias”. Há uma inundação de estórias de todos os naipes,
produzidas e divulgadas por museus, bibliotecas, rádio, televisão,
fóruns na Internet “e centros de história oral em todo o planeta”
(GANLEY, 2013, p. X). A diferença com relação aos períodos
precedentes consiste no fato de que agora todos querem “praticar”
a contação de estórias, e ela adquiriu uma aura quase mágica,
parecendo capaz de oferecer soluções efetivas e poderosas para
todos os tipos de problema individual, social e econômico. Ganley
explicita o poder de transformar o mundo que tem a contação de
estórias:
Escolas de medicina, administração e direito estão prestando atenção
no poder que as estórias têm de curar e de desenvolver líderes
corporativos éticos e eficientes. O jornalismo cidadão, como se viu
na Primavera Árabe e no movimento Occupy, tem ancorado cada
grande momento no mural da experiência individual. Estamos
contando a estória como ela é. Como a experimentamos. Estamos
formando comunidades em torno das nossas estórias. (GANLEY,
2013, p. X)
1 1
Humanidades digitais: referência à área de estudos que, no meio acadêmico
(em especial em países de língua inglesa), dedica-se tanto a pensar o digital
com o aparato teórico-metodológico das ciências humanas como a
desenvolver pesquisas próprias do âmbito das ciências humanas em
imbricação com as ferramentas teóricas e metodológicas do mundo digital.
(Nota da organizadora)


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São reivindicações grandiosas e ambiciosas que estimulam os
pesquisadores de história oral, reafirmando a sua crença de que,
com a contação de estórias, estão no caminho certo. Por mais que
essa estória da contação de estórias seja motivadora, os
pesquisadores de história oral deveriam se manter em alerta – ou,
pelo menos, céticos.
No começo do século XXI, a contação privada e a
disponibilização pública de estórias autobiográficas (e muitas vezes
confessionais) está sendo gerada, motivada, incorporada, produzida
e consumida num contexto socioeconômico e cultural mais amplo.
Existe hoje um movimento multinacional, social e cultural levado
a cabo por um amplo leque de indivíduos, além de organizações
acadêmicas, sem fins lucrativos e não governamentais, que
acreditam na (ou pelo menos proclamam a) contação de estórias
como um meio poderoso de mudar os indivíduos e a sociedade. A
contação de estórias também é uma indústria internacional de
muitos bilhões de dólares, que inclui agências governamentais e
não governamentais, a economia privada e todos os níveis da
educação; está profundamente entrelaçada com uma economia
digital de vários bilhões de dólares que visa lucrar com a venda de
produtos que aparentemente possibilitam e aprimoram a habilidade
que as pessoas têm de produzir, difundir, preservar e consumir
estórias. De fato, a contação de estórias é um novo credo de massa
que se apresenta como panaceia para todos os males do mundo e
da vida das pessoas.
Antes de continuar tentando descobrir onde o nosso pequeno
bando de pesquisadores de história oral se encaixa nesse fenômeno
biliardário, multinacional e transcultural, vamos examinar uma
organização que tem capturado a atenção dos pesquisadores de
história oral por afirmar que está criando nada menos do que
“Uma História Oral da América” (NATIONAL PUBLIC RADIO,
2003): o StoryCorps.


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Contando a estória da América:
StoryCorps e a “História Oral da América”
Quando se fala de contação de estórias, humanidades digitais
e história oral, o StoryCorps é a própria estória do início do século
XXI. Tal como é descrito no começo de muitos dos segmentos de
três minutos regularmente veiculados pela National Public Radio
(NPR), StoryCorps é “o projeto que registra conversas entre pessoas
que se amam”
12
. Em seu website, a NPR declara que o objetivo do
projeto é “compartilhar e preservar as estórias das nossas vidas”
(NATIONAL PUBLIC RADIO, 2014a). O StoryCorps afirma que
“é um dos maiores projetos de história oral da sua categoria, e
milhões de pessoas ouvem as transmissões semanais na Edição da
Manhã da NPR e na nossa página” (STORYCORPS, 2014a). O
projeto quer dar a todos os americanos “a oportunidade de registrar,
compartilhar e preservar as estórias das nossas vidas”
(STORYCORPS, 2014b). Onde quer que o projeto estabeleça seu
estúdio, as pessoas podem gravar uma sessão de quarenta minutos;
elas são encorajadas a doar US$25 e recebem um CD com a
cópia da sua conversa. Desde 2003, o StoryCorps reuniu 50.000
entrevistas com 100.000 participantes. As gravações são arquivadas
no American Folklife Center, na Biblioteca do Congresso. A missão
e o escopo do projeto são grandiosos: “Fazemos isso para nos
lembrarmos da nossa humanidade compartilhada, para fortalecer
e construir conexões entre as pessoas, ensinar o valor da escuta e
incorporar no tecido da nossa cultura um arquivo inestimável de
vozes americanas e de sabedoria para as gerações futuras”. Mais:
“Nos próximos anos, vamos transformar o StoryCorps numa
instituição permanente que irá tocar as vidas de todas as famílias
americanas” (STORYCORPS, 2014a).
1 2
Para um exemplo, ver/ouvir, na National Public Radio: The Lives of Blind



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