História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia


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Sob o encanto da
contação de estórias?
História oral numa era neoliberal
1
Alexander Freund [Tradução: Maria Cristina Itokazu]
O fenômeno da contação de estórias
 2
Nas manhãs de sexta-feira, milhões de americanos sintonizam
a National Public Radio (NPR) a caminho do trabalho, e seus
1
FREUND, Alexander. Under Storytelling’s Spell? Oral History in a Neoliberal
Age. Oral History Review, v. 42, n. 1, p. 96-132, Winter/Spring 2015. Copyright
© Oxford University Press. Primeiramente publicado, online, em 11 de
março de 2015.
A tradução e a publicação do artigo de Alexander Freund, neste livro, foram
autorizadas pela Oxford University Press (editora da Oral History Review).
Cabe informar que versão preliminar do texto foi apresentada na conferência
final do II Seminário Internacional História do Tempo Presente, realizado
na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), em Florianópolis,
SC, de 13 a 15 de outubro de 2014; o evento foi promovido pelo PPGH-
UDESC. (Nota da organizadora)
2
Traduzimos os termos “story” e “history” do original em inglês como “estória”
e “história”, respectivamente. Esperamos com isso evitar confusões


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corações se enternecem quando ouvem o apresentador anunciar:
“É hora de StoryCorps. Pessoas de todo país vêm ao StoryCorps
para gravar entrevistas com os amigos e as pessoas que amam”.
Ficam com os olhos marejados e podem mesmo ter que encostar
o carro para chorar um pouco enquanto saboreiam mais uma
estória tipicamente americana de sofrimento e eventual triunfo.
Num dia, Ida Cortez, dez anos de idade, de São Francisco, diz à
sua mãe o quanto adora ler, apesar da dislexia; no outro, três
irmãos cegos falam de um benfeitor, também cego, que deu a eles
o que a mãe não conseguiu prover. Desde 2003, o StoryCorps e a
NPR produziram e veicularam mais de 500 dessas estórias de três
minutos
3
. Elas fazem parte de um fenômeno novo no Ocidente: a
contação de estórias. Este artigo examina esse fenômeno e suas
implicações para os pesquisadores de história oral.
A contação de estórias se tornou um modismo nas sociedades
ocidentais, especialmente na América do Norte. Este artigo se
concentra na contação pública de estórias autobiográficas –  falar
publicamente sobre a própria vida. A contação pública de estórias
autobiográficas –  contação de estórias, para abreviar –  é um
fenômeno social novo que emergiu durante o último quarto de
século. Esse novo fenômeno compreende: a prática individual de
tornar pública uma parte da própria vida na forma de estória,
muitas vezes em tom confessional; uma indústria de apoio que
inclui tanto a academia quanto as organizações com e sem fins
lucrativos; e uma cultura e mentalité mais amplas que incentivam
as práticas individuais, a indústria e o público em geral a produzir,
divulgar, vender, comprar e consumir estórias confessionais. O
fenômeno da contação de estórias está fundamentado em certos
processos das sociedades ocidentais: por um lado, a democratização
e a maior igualdade social e legal e, por outro, a maior desigualdade
desnecessárias que dificultariam a compreensão do texto. Também optamos
por traduzir “oral historians” como “pesquisadores de história oral”. (Nota
da tradutora)
3
Todas as estórias estão disponíveis nos sites das duas organizações: /storycorps.org/listen/> e .


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econômica, a falência do Estado de Bem-Estar Social e a
emergência de um hiperindividualismo crasso, na esteira do
neoliberalismo. Além disso, a contação de estórias é moldada pelos
discursos da emoção, da terapia, da sobrevivência e do trauma
que emergiram na década de 1970, nas sociedades ocidentais, e
tem raízes numa história secular de práticas de entrevista
confessionais e psicologizantes que fornecem um modelo para o
automonitoramento e o autorrelato.
Afirmo que esse tipo de contação pública de estórias
autobiográficas é uma tecnologia de si. Como tal, é um modo
eficaz de formar identidades individuais e coletivas por meio de
narrativas unificadoras. Com foco no que é individual, o novo tipo
de contação de estórias tende a atomizar a sociedade, apresentando
o narrador como um protagonista que vence desafios aparentemente
pessoais num mundo de circunstâncias inexplicáveis como a
pobreza, a discriminação e a opressão. É motivado pela crença
liberal na autonomia, na liberdade e nos direitos individuais.
Inadvertidamente, no entanto, sustenta os valores neoliberais do
consumismo, da competição e das soluções do livre mercado para
todos os problemas econômicos, sociais e culturais. A indústria da
contação de estórias se alimenta da simpatia, mas não é capaz de
criar empatia ou compreensão. A ascensão da contação de estórias
levou a uma despolitização da narrativa e do discurso público -
substituindo a política por nostalgia, culto do herói, nacionalismo,
fabricação de mitos e mantras de autoajuda como a crença no
pensamento positivo, na autossuficiência e no autoempoderamento.
Devo esclarecer que não estou falando de todas as práticas de
contação de estórias. A contação de estórias sempre existiu; é
“um dos nossos atos sociais básicos” (JACKSON, 2007, p. X)
4
.
Ao contrário, falo de um novo discurso a respeito da contação de
estórias que apareceu no Ocidente durante o último quarto de
século. Uma simples busca no Google por “contação de estórias”
4
Sobre o papel fundamental da contação de estórias na sociedade, ver:
BOYD (2009); GOTTSCHALL (2013); JACKSON (2007).


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deixa claro que ela é assunto em todos os setores da sociedade e é
discutida sempre do mesmo modo, na medicina e na atenção à
saúde, nos negócios e na publicidade, na pedagogia e na terapia:
contar uma estória, especialmente sobre si mesmo e principalmente
se ela revela detalhes íntimos da sua vida, é sempre positivo e
normalmente soluciona problemas de outra forma intratáveis. Essa
visão unilateralmente positiva é muitas vezes ou ingênua ou
calculada (para explorar a ingenuidade dos outros a respeito da
“magia” da contação de estórias).
Ao invés de abraçar esse novo discurso sobre a contação de
estórias, os pesquisadores de história oral precisam investigá-la como
um fenômeno social historicamente situado. Precisamos perguntar:
Por que e como esse tipo de contação de estórias emergiu como
um novo movimento social e uma nova indústria, no final do século
XX? Como ele ganhou poder cultural, social e econômico durante
o último quarto de século? Quais são os seus efeitos sociais,
políticos, culturais, econômicos e mentais sobre a sociedade? E,
finalmente, quais as implicações metodológicas, interpretativas,
éticas e políticas para a prática da história oral? Estudar a contação
de estórias como um fenômeno social faz parte de uma tarefa
maior que os pesquisadores de história oral devem enfrentar:
posicionar esse campo de conhecimento em uma história de longue
durée da entrevista, que se ocupe tanto das suas tecnologias
específicas quanto das forças sociais, econômicas e culturais mais
abrangentes (FREUND, 2014). Neste artigo, persisto na tarefa de
historicizar a história oral, focalizando o período mais recente.
A seguir, descrevo rapidamente o extraordinário crescimento
da contação de estórias comercial e não comercial nas últimas
décadas. Considero o desenvolvimento do StoryCorps e a resposta
do público e dos historiadores aos seus produtos como um estudo
de caso. Contextualizo o fenômeno da contação de estórias,
relacionando-o com as mudanças econômicas e sociais que
ocorreram nos EUA desde a década de 1970, em particular o
crescente hiato entre a igualdade política e a desigualdade
econômica. Dedico especial atenção a desenvolvimentos


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socioculturais concomitantes, como o surgimento de uma cultura
terapêutica e de uma obsessão dirigida à emoção, à sobrevivência,
ao trauma e à lembrança, e a ascensão do movimento de
pensamento positivo e de autoajuda. Concluo examinando o que
está em jogo nessa discussão a respeito da contação de estórias e
da história oral e sugiro algumas questões para investigação futura,
questões que os pesquisadores de história oral, como estudiosos
da narrativa, da comunicação interativa, da história e da política,
estão especialmente bem equipados para enfrentar.
O novo fenômeno da contação de estórias que descrevo a seguir
é mais evidente nos EUA, mas também está presente em outras
sociedades ocidentais como o Canadá, a Austrália e o Reino Unido.
Uma descrição exaustiva desse fenômeno está além das
possibilidades deste artigo e, o que é mais importante, além dos
limites do nosso conhecimento atual. Até onde posso dizer, as
ciências sociais e as humanidades ainda não identificaram essa
mania recente como um fenômeno que peça maior escrutínio. Na
falta de qualquer pesquisa substantiva, no ponto em que estamos
hoje podemos apenas descrever algumas das suas características
mais visíveis.
Uma busca na Internet por “contação de estórias” revela o
escopo e a diversidade dessa expressão. A Wikipedia descreve a
contação de estórias em termos genéricos como “a comunicação
de eventos através de palavras e imagens, muitas vezes usando
improvisação e ornamentos. Estórias ou narrativas têm sido
compartilhadas em todas as culturas como forma de
entretenimento, educação, preservação da cultura e transmissão
de valores morais”. Os autores da Wikipedia também nos dizem
que “a contação de estórias antecede a escrita” e que “a contação
de estórias contemporânea” extrapola a tradição oral e os gêneros
tradicionais como o conto de fadas para incluir “história, narrativa
pessoal, comentário político e normas culturais em
desenvolvimento”. É usada na educação, na terapia, nos jogos, na
ficção interativa e nos documentários (WIKIPEDIA, 2014b). Nessa
definição, as estórias contadas podem falar de qualquer coisa,


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adotar qualquer forma e ser usadas para tudo. Claramente, então,
a contação de estórias permeia nossa vida cotidiana. Esse é
também o argumento do intelectual americano Jonathan Gottschall;
ele chama o ser humano de “animal que conta estórias”
(GOTTSCHALL, 2013)
5
.
Uma busca por “contação de estórias” no Google leva a dezenas
de milhões de resultados; eles reforçam a afirmação da Wikipedia
de que o contar estórias se tornou um método bem aceito e popular
nos campos da terapia, da educação, da gestão do conhecimento,
da comunicação e da estratégia empresariais, da resolução de
conflitos, da publicidade, da música e do cinema, referindo-se às
vezes, ainda que implicitamente, à contação de estórias antiga e
tradicional dos povos da África e das Américas. Mais do que
qualquer coisa, a contação de estórias se tornou uma nova
ferramenta gerencial. A contação de estórias, aprendemos na
Wikipedia, é hoje amplamente utilizada nas empresas como “uma
via mais convincente e efetiva para a transmissão de informações
do que a utilização dos fatos a seco”. A contação de estórias é
usada para resolver conflitos no local de trabalho, fomentar o
espírito de equipe, elaborar estratégias de negócios e fazer a
propaganda de produtos e serviços. A “contação de estórias
organizacional” é considerada uma “competência-chave para os
líderes do século XXI” (WIKIPEDIA, 2014a). Realmente, o mercado
do livro foi inundado por títulos que apresentam a contação de
estórias como uma estratégia poderosa no gerenciamento da
reorganização corporativa, das demissões e da “diversidade”. Os
administradores aprendem que “fatos contam, estórias vendem” e
que vence quem contar a melhor estória
6
 (a respeito, ver BROWN;
5
Esse autor argumenta a favor de uma definição abrangente de estória –  dos
sonhos e da propaganda até as canções e os esportes televisionados. Ver
GOTTSCHALL, 2013, p. 1-20.
6
Em itálico, alusão ao livro de Annette Simmons, Whoever Tells the Best Story
Wins, publicado em 2007, que o autor comentará em seguida. (Nota da
organizadora).


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DENNING; GROH; PRUSAK, 2004; DENNING, 2007;
GARGIULO, 2006 e 2011; SIMMONS, 2002 e, com um novo
subtítulo, 2006; SIMMONS, 2007; LIPMAN, 1999; BENNETT;
YAEGER, 2013; MAZZOCCHI, 2013; MEYER, 2014)
7
.
Em Vence quem contar a melhor estória, a autora Annette
Simmons encoraja os seus leitores a usar uma estória pessoal para
ganhar a confiança das pessoas. Outros manuais encorajam os
leitores a utilizar a contação de estórias para (re)conquistar a
confiança em si mesmos. Os manuais de autoajuda por meio da
contação de estórias são pensados para ajudar os leitores a enfrentar
vários problemas pessoais, ou de relacionamento, usando a
contação de estórias autobiográficas. Esses manuais fazem parte
de uma indústria muito maior, o chamado movimento de
autoajuda e realização, identificado pelo jornalista Steve Salerno,
em 2005, como uma indústria de muitos bilhões de dólares que,
só em 2003, produziu de 3.500 a 4.000 livros e em 2005 arrecadou
8,56 bilhões de dólares (SALERNO, 2005). A contação de estórias
é vendida hoje como uma estratégia de treinamento para melhorar
os relacionamentos pessoais e a vida em geral. Da confissão clássica
– Contar a minha estória (Passo 5 do programa de 12 passos dos
Alcoólicos Anônimos, de 1939) – até a novíssima “solução da
contação de estórias para a baixa autoestima”, diz-se a um grande
público que “mudar a sua estória [significa] mudar a sua vida” e
que contar estórias é um “modo de curar” e de “vivenciar a
espiritualidade” (STEP 5, 2010; JOHNSON, 2014; TOLAN, 2011;
LOEHR, 2008; DESALVO, 1999; COX; ALBERTS, 2003;
O’KEEFE; O’KEEFE, 2013; KURTZ; KETCHAM, 2014). Juntos,
esses livros, DVDs, oficinas, seminários, retiros e sessões de
treinamento pessoal mostram o quanto cresce a crença popular
no “poder da narrativa” para quem quer se transformar e influenciar
outros. São parte do mantra dessa indústria, que celebra o
7
Também o conjunto de 4 DVDs de Ty BennettFacts Tell - Stories Sell, anunciado
em .


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História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
empoderamento por intermédio da autoajuda e do pensamento
positivo (SALERNO, 2005, p. 32-34; EHRENREICH, 2009).
A abordagem confessional da contação de estórias é modelada
e reproduzida nos meios de comunicação populares, incluindo os
jornais, as revistas, o rádio e a televisão, as plataformas online e as
campanhas de arrecadação de fundos. Quase todos os relatos da
indústria do entretenimento, uma grande parte dos relatos do esporte
profissional, assim como dos relatos a respeito de políticos, são
baseados na exposição pública de vidas privadas e na busca de
confissões escandalosas
8
. Precisamos apenas nos lembrar das
inúmeras confissões públicas que acontecem no sofá de Oprah
Winfrey – “um lugar que mistura terapia com comércio na produção
da ‘conversa’” (GILMORE, 2010, p. 662) – para reconhecer a
prevalência e o poder desse novo fenômeno de contação de
estórias
9
. Esse tipo de contação é às vezes vendido na embalagem
da história oral – seja na Vanity Fair, no Washington Post, na



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