História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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Grosso modo, poderíamos classificar os conteúdos substantivos
referentes ao nacional por meio de duas categorias presentes em
50% ou mais dos trinta e dois Estados que possibilitaram a análise.
No entanto, a dispersão dos exemplos de “política interna” e de
“política externa” empregados pelos autores dos currículos
impossibilita a extração da vulgata, que é o nosso grande objetivo
neste texto. Assim, eliminadas tais categorias, sobram os dez
acontecimentos diretamente referidos nos programas, entre os quais:
Movimentos por Direitos Civis, Grande Depressão, I Guerra Mundial,
II Guerra Mundial e Guerra Fria, que frequentam as expectativas
de mais de 50% dos Estados.
Quadro 2 – Vulgata histórica nacional nos currículos prescritos dos EUA
Obs.: Produzido pelo autor a partir dos programas estaduais para o ensino de
história nos EUA.


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Observem a coincidência em relação à vulgata da história
transnacional, no que diz respeito aos acontecimentos: I Guerra
Mundial, II Guerra Mundial e Guerra Fria. A diferença está no
reduzido prestígio dos Movimentos de Independência (reduzido em
relação ao ponto de corte de 50%, pois eles são abordados,
principalmente, sob as categorias “política interna” e “política
externa”) e na ascensão da Grande Depressão e dos Movimentos
pelos Direitos Civis/Humanos (também presentes na vulgata
transnacional). Assim, à primeira vista, podemos afirmar que os
principais acontecimentos que balizam a história nacional também
são a espinha dorsal da história transnacional. Mas em que medida
o tratamento desta espinha dorsal, nas expectativas sobre o
nacional, convergem ou divergem das expectativas que os abordam
como experiência transnacional?
A I Guerra Mundial, presente em 50% dos Estados, praticamente
não tem suas causas exploradas. São as consequências internas
dos eventos que preenchem a experiência da grande conflagração.
Alguns, como o Tratado de Versalhes e a instituição da Liga das
Nações, atravessam a maioria dos Estados. Os mesmos, porém,
apresentam uma série de desdobramentos que explicam os
conturbados anos 1920: as políticas internas de controle do
comunismo, do uso de bebidas alcóolicas (Massachusetts), a
ampliação da democracia, o crescimento da Ku Klux Klan (Kansas),
a mudança de status de asiáticos, hispânicos, judeus, indígenas,
mulheres e dissidentes nos EUA (Flórida) e os conflitos entre
“tradicionalismo” e “modernidade”, em termos políticos, científicos
e morais (Massachusetts). A I Guerra Mundial também é marco
da transformação dos EUA em superpotência (Virgínia) e exemplo
do empenho nacional para “salvar a democracia no mundo”
(Kansas), mas é também motivo de questionamentos: o país foi
realmente um agente neutro no início da guerra? (Virgínia).
A Grande Depressão (69%), da mesma forma, parece um
assunto liquidado em termo de explicações. Salvo Dakota do Sul
e Califórnia, que a justificam, por exemplo, pelas crises climáticas
provocadas por ineficiente emprego dos recursos naturais (Dust


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Bowl), e Virgínia e Nova Iorque, que citam a especulação econômica
do final da década de 1920, os demais se ocupam dos sujeitos
(presidentes, sobretudo), das políticas (cultural, de emprego e de
seguridade social – o New Deal é o grande citado) e dos
desdobramentos nas famílias americanas (New Jersey) e na
economia de outros países. O evento é também referido como
marco na positivação dos papéis das mulheres e dos afroamericanos
(Kansas).
A II Guerra Mundial (81%) também não tem suas causas
exploradas para além de alguns termos da vulgata transnacional,
já anunciados: Pearl Harbor, Crash de 1929, Grande Depressão
(Indiana e Nova Iorque), invasões alemãs na Europa (Massachusetts)
e dos japoneses na Ásia (Massachusetts e Virgínia), fascismo e
militarismo no mundo (Utah) e instabilidade econômica resultante
da I Guerra Mundial (Virgínia). Do evento, são recorrentemente
explorados: a ação dos estadunidenses – demonstrações de
patriotismo (Texas); sacrifícios individuais, de indígenas, negros,
mulheres (Alaska e Califórnia); o impulso à indústria nacional –
aviação, armamento, comunicação e medicina (Califórnia); a
abertura do mercado de trabalho para as mulheres e negros
(Massachusetts, Minnesota e Virgínia). Também são referidos os
efeitos negativos internos: os ataques internos às liberdades civis
de nipo-americanos, italianos e alemães (Califórnia, Louisiana,
Minnesota, Nova Iorque e Texas) e os desdobramentos
transnacionais como “a aceitação do papel de superpotência”, o
Holocausto (Virgínia) e a Guerra Fria (Louisiana).
Se a II Guerra Mundial praticamente não tem as causas
exploradas, muito mais profunda é a ausência de explicações sobre
a Guerra Fria (75%). As poucas expectativas que tratam deste
elemento registram-na como “resposta dos EUA à agressão soviética
após a II Guerra Mundial” (Texas), “resposta americana às políticas
expansionistas soviéticas”, característica da política externa dos
presidentes Eisenhower, Kennedy, Johnson e Nixon (Massachusetts),
além das genéricas “diferenças entre metas e ideologias”
estadunidenses e soviéticas (Virgínia). Apenas duas expectativas


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parecem colocar o protagonismo dos EUA em situação
constrangedora: os “atrasos na abertura da segunda frente na
Europa” (Carolina do Sul) e o pernicioso impacto do “Macarthismo
[...] nas liberdades individuais” (New Jersey). Mais fecundas são
as que tratam dos desdobramentos externos (com seus respectivos
cenários e atores) – a ação militar dos EUA na Coréia, Vietnã,
Cuba, Afeganistão, Irã, Iraque, entre outros –, bem como os raros
e constrangedores efeitos internos: o “pânico vermelho” e as
“reações” à Guerra do Vietnã (Tennessee e Indiana).
O evento caracterizado pelo emprego da locução “direitos civis”
ou, em menor quantidade, “direitos humanos”, presente em 81%
dos Estados, é abordado mediante as sugestões de análise, descrição
e busca da importância de sujeitos individuais, instituições e
episódios relacionados à conquista de direitos por parte de mulheres,
afroamericanos, asiáticos e indígenas, no que diz respeito ao voto
e à igualdade de oportunidades educacionais, trabalhistas, de ir e
vir. As causas, entretanto, não são sugeridas. Os eventos, como o
Boicote de ônibus de Montgomery, a Marcha de Washington, a
crise na Escola Little Rock e o Protesto de Birman, abundam,
assim como os nomes dos principais protagonistas, sobretudo
afroamericanos. Os movimentos de resistência à ampliação dos
direitos, como a Ku Klux Klan, todavia, raramente são citados.
Esses foram, por fim, os mais recorrentes acontecimentos e os
seus clássicos tratamentos nos programas estaduais de ensino de
história para a high school dos EUA. Como afirmamos no início,
são apenas a vulgata e o que é possível exemplificar, em termos de
similaridades e diferenciações, nessa mesa redonda. Resta-nos
rememorar os principais resultados aqui discutidos e apontar
algumas tendências estrangeiras que podem auxiliar os
pesquisadores brasileiros em sua prática de criticar e construir
currículos de história.
Conclusões
A primeira delas, limitada, evidentemente, ao breve recorte
efetuado no projeto História do tempo presente na formação de


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pessoas, foi a assertiva de que a experiência do século XX é
majoritária em 70% dos programas estaduais dos EUA, variando
entre 100% e um terço a taxa de ocupação do período, nos
programas.
Sobre a natureza desse presente, esperamos ter ficado claro
que existe uma vulgata, tanto em termos nacionais quanto no que
diz respeito à experiência transnacional. Sobre esta última,
afirmamos que ela está inscrita (corresponde e é abonada) nas
histórias da historiografia sobre o século XX, produzidas,
principalmente, nas décadas de 80 e 90 do século passado. Assim,
I Guerra Mundial, II Guerra Mundial, Guerra Fria e Movimentos
de Independência são os acontecimentos mais recorrentes, estando
presentes em 50% ou mais dos programas estaduais. A abordagem
e as sugestões de interpretação variam em ideologia e níveis de
comprometimento. É até possível estabelecer uma progressão: 1)
quanto mais recuados no tempo os acontecimentos (I Guerra
Mundial), maior o consenso; 2) quanto mais próximos à experiência
estadunidense (Guerra Fria) e também menos ameaçadores a ela
(Movimentos de Independência), menor o grau de comprometimento
das expectativas. Por fim, 3) quanto mais geral a experiência (II
Guerra Mundial), maior a oportunidade de análise de interpretações
divergentes sugeridas aos alunos.
No que diz respeito à experiência nacional estadunidense, a
vivência do século XX é mais difusa, destacando-se, como vulgata,
os semelhantes eventos do passado transnacional, além das
experiências da Grande Depressão e da ampliação dos direitos
civis. Aqui, na vulgata histórica nacional, a presença da vulgata
acadêmica é mais visível. Mulheres, afroamericanos, direitos civis,
progressivismo, New Deal, anticomunismo são fartamente citados
e apresentados como conteúdos para formação dos alunos.
Contudo, o tratamento dos eventos (em parte e no todo)
evidentemente difere, haja vista a explicável ênfase nos
desdobramentos da I Guerra Mundial, II Guerra Mundial e Guerra
Fria nas políticas governamentais internas, que moldaram
comportamentos e alteraram a distribuição da riqueza e a noção


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de liberdades civis. Mas diferem também pelo frágil
comprometimento dos autores na formulação das expectativas.
As habilidades de alta complexidade – explique, critique
interpretações, elabore hipóteses, tome posição etc. – e o
requerimento das causas e consequências pouco são
acompanhados da devida indução, ou seja, do posicionamento
ou das opções de posicionamento dos autores dos currículos. Neste
sentido, podemos afirmar que as expectativas da vulgata
transnacional são mais críticas que as expectativas da vulgata
nacional.
Evidentemente, o tempo não permite que façamos comparações
nessa fala, embora seja um dos principais objetivos do projeto já
referido. Espero, porém, que a apresentação desses resultados possa
animar nossa discussão sobre dois pontos que consideramos
fundamentais e oportunos nesse evento, e que estão diretamente
relacionados à experiência brasileira. O primeiro é a discussão sobre
a natureza da História do Tempo Presente e, consequentemente,
dos seus usos potenciais na escolarização básica. O segundo e
último é a reflexão sobre os nossos programas de história, dos
ensinos fundamental, médio e das licenciaturas em história, frente
às suas reformulações em âmbito federal.
Referências
ALEXANDER, Gerard. Contemporary Conservatism and
Contemporary History in the United States. In: BRIVATI, Brian;
BUXTON, Julia; SELDON, Anthony. The Contemporary History



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