História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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americana: padrões e perspectivas, reservam espaço, em sua sexta


História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
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edição (1992), para as divergentes visões sobre o movimento social
das mulheres e dos negros, imperialismo americano, progressivismo,
New Deal, II Guerra Mundial, Guerra Fria, ascensão do Estado de
segurança nacional e a política interna e externa pós-1989
3
. Gerard
Alexander (1996), por sua vez, denuncia a baixa frequência das
disputas e de explicitação de pontos de vista. Contudo, destaca
prevalência da ideologia liberal (centre-left “liberal” – in social
democratic sense) sobre os conservadores, em número de
historiadores e em prestígio. Ambas as correntes disputam a
interpretação de cinco temas prioritários: política externa, política
interna (estudos sobre os presidentes), Guerra do Vietnã, movimento
pelos direitos civis e Estado de Bem-Estar Social.
Outros textos escritos na primeira década do século XXI também
nos convidam a observar algumas recorrências. Robert Harrison
(2004) e Georg Iggers (2005) confirmam a prevalência (ou o retorno)
da ideologia de centro-esquerda entre os historiadores
estadunidenses a partir dos anos 1960, superando o período do
consenso reinante na primeira fase da Guerra Fria (1945-1965).
Com esse objetivo, apontam as temáticas de cunho social (no
sentido de econômico e cultural) como imigração, família,
crescimento urbano, trabalho, lazer e, em menor número, educação
e religião. Antes desse período (e do consenso dos tempos da Guerra
Fria), entretanto, afirma Harrison, os temas do progressivismo e do
New Deal dominaram a cena historiográfica. Harrison, por fim,
anuncia a fragmentação do campo em uma miríade de
especialidades e lamenta que não se tenha escrito uma síntese
(história dos EUA) a partir dessas novas perspectivas temáticas.
Tal fragmentação, bem como a expansão do espaço universitário
para os estudos históricos, também são demonstradas em A
educação dos historiadores para o século XXI, de Thomas Bender,
Philip M. Katz, Colin Palmer e do AHA Commitee on Graduate
3
Os autores iniciam a obra com o tema do industrialismo. No entanto, ele
aqui foi desconsiderado por estar situado, majoritariamente, na segunda
metade do século XIX.


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Education (2004). Mas isso não os impossibilita de citar um rol de
temas recorrentes nos EUA, mediante o inventário efetuado por
The Journal of American History, nos anos 1980: intelectuais,
religião, mulheres, negócios e economia, afroamericanos, política
externa, experiência social e experiência do político (PALMER;
BENDER; KATZ; AHA, 2004).
Para fechar esse breve inventário, incluímos um clássico
brasileiro, História de uma história, do saudoso Gerson Moura
(1995), e o História dos Estados Unidosdas origens ao século
XXI, misto de história e historiografia, escrito por Leandro Karnal,
Sean Purdy, Luiz Estevam Fernandes e Marcus Vinícius de Morais
(2010)
4
.
O texto de Gerson Moura (1995) foi produzido na década de
1980, mas registra uma periodização da história da historiografia
estadunidense ainda hoje conservada nos EUA: “história científica”,
“história progressista”, “consenso” e “tendências recentes”.
Considerando que alguns temas são retomados em novas
abordagens, inventariamos apenas o que Moura listou como típico
dessa última tendência, ou seja, da produção relativa às décadas
de 1960, 1970 e 1980: migrações, industrialização, trabalhadores
e vida urbana. Isso em relação à história social. Para a história
intelectual, minoritária, Moura destaca, como objetos: filosofia,
movimento intelectual, ideologias e mentalidades coletivas
(MOURA, 1995).
Quanto ao trabalho capitaneado por Leandro Karnal, chama
atenção a periodização da obra que, por si só, já nos revela os
temas considerados fundamentais para o conhecimento da
experiência dos EUA no século XX: “a era progressista” (1900-
1920) –  progressivismo; “décadas da discordância” (1920-1940)
– que inclui o Crash de 1929, Grande Depressão, New Deal e II
Guerra Mundial; “a Segunda Guerra e os EUA como ‘World Cop’”
– II Guerra Mundial e Guerra Fria; “rupturas do consenso” (1960-
4
A primeira edição veio a público em 2007.


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1980) – anticomunismo (Cuba, Vietnã, América do Sul e Oriente
Médio), direitos civis e contracultura; encerrando-se como
“Globalização e nova direita” (1980-2000) – neoliberalismo,
neoimperialismo, nova direita e movimentos sociais, mídia, cultura
pop e guerras culturais.
Por essa pequena amostra, é fácil encontrar recorrências e certos
marcos cronológicos. Evidentemente, as expectativas de
aprendizagem são abertas e gerais, explorando causas, cursos,
consequências, ideias, atores e importância etc., mas é possível
perceber a manutenção de temas clássicos instituídos pelas
tendências objetivista e progressivista, citadas por Moura (1995) e
Novick (1998), junto às preocupações dominantes entre historiadores
liberais e conservadores, como exploram Iggers (2005) e Alexander
(1996), por exemplo. Vejamos agora a vulgata histórica proclamada
pelos currículos, respeitando as distinções escalares de história dos
EUA, história do mundo e história local, e o quanto esta última se
incorpora à primeira.
A vulgata da história transnacional
Considerado o acontecimento como “o que, ao acontecer, faz
a ação avançar”, ou seja, como uma “variável da intriga”
(RICOEUR, 2007, p. 255), e contabilizadas as recorrências nos
programas de trinta e dois Estados, que permitem a extração dos
conteúdos substantivos, chegamos ao resultado expresso no Quadro
1. Em primeiro lugar, há, sim, uma vulgata histórica para a história
transnacional, ou seja, um conjunto de acontecimentos considerados
fundamentais ao aprendizado histórico da escolarização básica. O
nosso maior problema não foi, entretanto, encontrar os
acontecimentos, mas arbitrar o ponto de corte. Se entendermos
por vulgata o que está presente em ¼ dos Estados (insuficientes
estatisticamente), serão dezesseis os acontecimentos. Entretanto,
levando em conta a presença em 50% dos Estados ou mais, como
arbitramos ser mais seguro, a vulgata histórica transnacional reduz-
se a quatro acontecimentos.


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Quadro 1 - Vulgata histórica transnacional nos currículos prescritos dos EUA
Obs.: Produzido pelo autor a partir dos programas estaduais para o ensino de
história nos EUA.
O mais representativo é a II Guerra Mundial, presente em 75%
dos estados. Mas o que, da II Guerra, deve ser conhecido, segundo
os programas?
Causa e efeito são os constituintes do acontecimento mais
explorados. O glossário é variado – causa, efeito, objetivo, curso,
importância, líderes – mas a “explicação” mediante causa-efeito,
ou causa-curso-efeito, é a relação mais valorizada. Tais elementos
– causa e efeito –, isolados ou relacionados, também nos permitem
concluir que a II Guerra constitui vulgata apenas na menção ao
acontecimento. A abordagem e a interpretação variam. Há, por
exemplo, Estados que incluem a descrição das principais batalhas
(Pearl Harbor e Okinawa, por exemplo – Massachusetts e Louisiana)
e a ação dos grandes líderes (Churchill, Roosevelt, Mussolini –
Louisiana e Texas). Outros abordam o evento por meio de
explicações concorrentes, por exemplo, sobre o lançamento das
bombas atômicas no Japão: teoria tecnológica, teoria do “grande
homem” e teoria do maquiavelismo (Arkansas). Outros, ainda,
exploram as ideologias políticas (totalitarismo, democracia) e as
estratégias militares – guerra aérea, campos de concentração,


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bombas atômicas (Arizona).
As expectativas sugerem interpretações também conciliadoras
e/ou concorrentes, por exemplo, sobre as causas da guerra: as
“metas do Eixo para conquistar o mundo” (Alabama); o
imperialismo ou o “expansionismo” da Alemanha, Itália e Japão
(Califórnia e New Jersey); as ideias de “raça”, “nação” e o
“antissemitismo cristão” (Massachusetts e Flórida); as diferenças
entre valores “cívico-políticos dos EUA” e “nazistas” da Alemanha
e Japão (Michigan); a política de “pureza racial” dos nazistas
(Califórnia); a Grande Depressão (Arkansas) e, sobretudo, os
fracassos do Tratado de Versalhes e da Liga das Nações (Arkansas,
Michigan e Novo México).
Em termos de consequências, a variação é mais restrita. A II
Guerra, segundo os programas, foi responsável pela criação da
ONU e da OTAN (Arkansas), pela Guerra Fria, pelos julgamentos
de Nuremberg (Flórida), pela destruição física e econômica
(Massachusetts), pela Declaração dos Direitos do Homem
(Minnesota) e pelo início de uma “nova era” (Carolina do Norte).
Uma observação importante: Holocausto é citado ora como causa
ora como efeito da II Guerra Mundial, por vários Estados.
Sobre a I Guerra Mundial, presente em 72% dos programas
estaduais, a sofisticação e a diversidade são reduzidas. O binômio
causa-consequência, porém, permanece. Como causas são
recorrentemente apontados: imperialismo, militarismo,
nacionalismo, alianças secretas (Alabama, Arkansas, Flórida, New
Jersey, Dakota do Norte e Texas), conflitos étnicos, ideológicos e
políticos, violação dos direitos humanos, genocídio (Califórnia e
Novo México). No que diz respeito às consequências, são mais
abrangentes; o comum é apontar o Tratado de Versalhes e a
fundação da Liga das Nações como principais desdobramentos
(Alabama, Arkansas, Califórnia, New Jersey e Texas). Contudo,
são também citados acontecimentos de várias naturezas, como as
“desilusões culturais dos anos 1920” (Alabama), a Revolução Russa
(Arizona), os “Fourteen Points de Woodrow Wilson” (Califórnia),
as mudanças de posição entre as potências mundiais (Nevada), o


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genocídio armênio na Turquia (Massachusetts), a expansão de
“oportunidades para as mulheres” (Minnesota) e a mudança das
características da guerra (Texas).
Guerra Fria é acontecimento citado que engloba vários outros
acontecimentos de renome, a exemplo das guerras do Vietnã,
Coréia e dos “confrontos” no Chile, Angola, Irã e Guatemala
(Michigan). Entretanto, a relação de causa-efeito é pouco sugerida
pelos programas, que optam, em maior número, pela “descrição”
ou “compreensão” do(s) evento(s). As causas anunciadas estão
relacionadas às diferenças entre valores cívicos, políticos e ideologias
(Louisiana, Michigan), à expansão e contenção do comunismo de
origem soviética (New York e Michigan) e às políticas externas dos
EUA e da URSS (Michigan). A mesma economia notamos em
relação às consequências da Guerra Fria: corrida armamentista,
emergência de superpotências – EUA, URSS e China (Arizona,
Arkansas e Massachusetts) e o reordenamento das instituições de
Segurança Nacional nos EUA (Michigan).
Por fim, aparece a independência de ex-colônias na África,
Ásia, América Latina, Caribe e Oriente Médio. Presente em 50%
dos programas, esse evento –  referido como “movimentos de
independência”, “movimentos nacionalistas” ou os dois,
simultaneamente, na mesma expectativa – , é tratado de modo
ainda mais amplo (sem comprometimento) que o acontecimento
da Guerra Fria. Assim, são comuns: “analise”, “compare”,
“caracterize” os objetivos, os atores, os “sucessos e fracassos” e as
“mudanças”. Poucos programas explicitam posição, como nos
exemplos que se seguem, respectivamente dos programas de 2006
da Carolina do Norte e de Oklahoma:
Avalie as causas e a eficácia dos movimentos nacionalistas dos
séculos XIX e XX que desafiaram a dominação europeia na África,
Ásia e América Latina.
Avalie o impacto dos movimentos de independência na África nos
movimentos pelos direitos humanos e na expansão global da
democracia, incluindo os efeitos do Pan-Africanismo na mudança
de fronteiras políticas [...]


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A vulgata da história nacional
Empregando os mesmos critérios, isto é, os acontecimentos
nomeados pelas fontes e os pontos de corte em 25% e 50% (de
Estados que a eles fazem referência), constatamos que a dispersão
é muito maior em termos de experiência nacional. A dispersão é
tão expressiva que o número de acontecimentos presentes em ¼
dos programas cai de doze, na vulgata transnacional, para seis, na
vulgata nacional. Aqui já admitimos, também, a existência de um
conjunto de acontecimentos considerados fundamentais ao
aprendizado histórico para os alunos da high school.



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