História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia


parte da imprensa falada e escrita, diversas especulações



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parte da imprensa falada e escrita, diversas especulações.
Comentários de público e de imprensa apontavam como causa da
ação e solicitação de medida restritiva a referência ao acidente
sofrido pelo artista, que teria ocasionado a amputação de uma
das pernas. É fato conhecido que Roberto Carlos é portador de
uma perna mecânica, porém o compositor não fala sobre o assunto
em entrevistas. Seu silenciamento sobre o episódio que causou a
perda deste membro encontra-se também associado a outros
“mistérios” da época em que se tornou conhecido como ícone da
juventude brasileira no trio do iê-iê-iê. Neste contexto, Roberto
Carlos, a cantora Vanderléa e o parceiro Erasmo Carlos são
mencionados como parte de um suposto triângulo amoroso,
excedente à performance artística e musical.


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Figura 1: Imagem da capa de Roberto Carlos em detalhes
Fonte: Acervo da autora.
Em defesa de sua posição de autor, Paulo Cesar de Araújo
declarou-se surpreso com a reação de impedimento à divulgação e
circulação do livro que escrevera, afirmando-se como um admirador
do artista, um fã de seu trabalho, ao mesmo tempo em que
destacava o aspecto público das fontes utilizadas no trabalho de
pesquisa, documentação resultante da investigação em revistas e
jornais de ampla circulação.  Para espanto do autor, o desfecho
deste primeiro episódio resultou em acordo pelo qual a editora
deixava de defender seu interesse na publicação, devolvendo os
direitos do texto ao autor, assim como os exemplares não
distribuídos/vendidos ao biografado.
A polêmica sobre o caso reacendeu em 2011, com o projeto de


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lei do deputado Newton Lima, na Câmara Federal, que propunha
alterações no artigo 20 da Lei 10.406, para garantir “a divulgação
de informações biográficas sobre pessoas de notoriedade pública,
cuja trajetória pessoal tenha dimensão pública ou cuja vida esteja
inserida em acontecimentos de interesse da coletividade”
(PROJETO, 2011). Na prática, o projeto liberaria de autorização
prévia a publicação de obras biográficas dos personagens citados
acima, em concordância com a Constituição brasileira, que diz,
em seu artigo 5º, que é livre e independente de censura ou licença
a manifestação intelectual, artística e científica.
Ainda que esta situação esteja em suspenso, deixa explícito o
interesse editorial e midiático por publicações do gênero biográfico
dos mais diversos personagens e temas, de ídolos do futebol a
consagrados escritores brasileiros, envolvendo autores de diferentes
formações e práticas profissionais, porém com maior incidência
entre jornalistas e editoras.
Sobre tal aspecto, a presidenta do Sindicato Nacional dos
Editores de Livros (SNEL), Sônia Machado Jardim, em 2013 disse
acreditar que a aprovação parcial do projeto de lei na Câmara foi
uma grande conquista, e declarou que o sindicato iria manter contato
com os parlamentares para tentar derrubar o recurso e manter a
tramitação original, diretamente para o Senado. Afirmou, então:
Quando há restrição de publicação das histórias de pessoas públicas,
a preservação do conhecimento se perde. É uma questão maior do
que angariar divisas financeiras e buscar o lucro. Trata-se de garantir
para as futuras gerações o conhecimento da história do Brasil (apud
CHIARELLI, 2013)
Em compasso com esta nova perspectiva e contexto surgiu,
em 2014, o livro de Paulo Cesar de Araújo intitulado O réu e o rei:
minha história com Roberto Carlos, em detalhes (num claro
trocadilho com o título da biografia proibida), editado pela
prestigiada, e por que não dizer cobiçada, editora Companhia das
Letras. A capa do livro brinca com a afirmação de identidade,
alternando, na diagramação, o nome do autor, que se aproxima
do rei, e o do artista, que se aproxima do réu.


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Figura 2: Imagem da capa de O réu e o rei
Fonte: Acervo da autora.
Se no primeiro livro Araújo evocava o termo “detalhes” numa
alusão ao nome da canção de enorme sucesso de Roberto Carlos,
como exemplar da notoriedade deste compositor, neste segundo
momento a referência soa como advertência, e até mesmo ameaça
ao conteúdo do texto
3
: propõe-se a explicitar os bastidores do
3
A letra da canção Detalhes: “Não adianta nem tentar /Me esquecer /Durante
muito tempo em sua vida /Eu vou viver /Detalhes tão pequenos de nós dois
/São coisas muito grandes pra esquecer /E a toda hora vão estar presentes /
Você vai ver /Se um outro cabeludo aparecer na sua rua /E isto lhe trouxer
saudades minhas /A culpa é sua /O ronco barulhento do seu carro /A velha
calça desbotada ou coisa assim /Imediatamente você vai lembrar de mim /


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processo judicial que teve por conclusão a censura ao livro anterior,
ao mesmo tempo em que exacerba o tratamento desigual a que
foi submetido, em caráter de Justiça, em função da figura pública
e sacralizada do “rei” Roberto Carlos, tendo em vista o tratamento
midiático dispensado ao cantor e compositor. Citando a introdução
de Paulo Cesar de Araújo (2014, p. 9):
[...] Um esquema especial de segurança tinha sido montado para
garantir a tranquilidade do cantor no fórum da Barra Funda. Desde
o meio-dia, grades e faixas de proteção eram vistas ao redor da área
interna onde ele iria circular. Além disso, um destacamento de doze
policiais militares foi requisitado para acompanhá-lo ao local.
Roberto Carlos se dirigiu ao fórum a bordo de um Escort preto, um
dos carros de sua coleção que mais usa, especialmente em São
Paulo. “Máquinas fotográficas e celulares com câmera estão nas
mãos de quase todos os funcionários-fãs que abandonaram o
trabalho para tentar ver o ‘Rei’”, relatou o site G1. Ele chegou
acompanhado da secretária Maria Carmosina da Silva, a Carminha,
e de seus seguranças pessoais, e foi recepcionado pelos policiais no
estacionamento. Dali foi direto para uma entrada pelos fundos do
prédio, evitando os fãs e jornalistas que já o aguardavam na porta
principal. Sorridente, acenava para as pessoas, enquanto era
conduzido a um dos elevadores que, por dez minutos, ficou
reservado exclusivamente para ele.
Eu sei que um outro deve estar falando ao seu ouvido / Palavras de amor
como eu falei, mas eu duvido! /Duvido que ele tenha tanto amor /E até os
erros do meu português ruim /E nessa hora você vai lembrar de mim /A noite
envolvida no silêncio /Do seu quarto /Antes de dormir você procura /O meu
retrato /Mas da moldura não sou eu quem lhe sorri /Mas você vê o meu
sorriso mesmo assim /E tudo isso vai fazer você lembrar de mim /Se alguém
tocar seu corpo como eu /Não diga nada /Não vá dizer meu nome sem
querer /À pessoa errada /Pensando ter amor nesse momento /Desesperada
você tenta até o fim /E até nesse momento você vai /Lembrar de mim /Eu sei
que esses detalhes vão sumir / Na longa estrada / Do tempo que transforma
todo amor /Em quase nada /Mas “quase” também é mais um detalhe /Um
grande amor não vai morrer assim /Por isso, de vez em quando você vai /Vai
lembrar de mim /Não adianta nem tentar me esquecer/Durante muito tempo
em sua vida /Eu vou viver /Não, não adianta nem tentar /Me esquecer.”
(LETRAS, 2014).


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Logo depois, eu entrei no outro elevador, que subiu com lotação
máxima. Um dos passageiros, um moreno alto, usava algemas e,
segundo comentários, estava ali porque participara de uma chacina
na periferia de São Paulo. Também me contaram que naquele mesmo
fórum o Coronel Ubiratan Guimarães tinha sido julgado pela morte
dos 111 presos no tenebroso episódio do massacre do Carandiru.
E que anos depois ali também estiveram Suzane von Richthofen e
os irmãos Cravinhos, autores do bárbaro assassinato do casal Von
Richthofen. Só aí tive a dimensão do que estava acontecendo comigo.
Eu nunca tinha sido processado por alguém e jamais havia
frequentado fóruns de Justiça, muito menos criminal. (...)
Encaminhando para a conclusão desta comunicação, quero
destacar aqui aspectos do perfil do biógrafo/historiador/jornalista
Paulo Cesar de Araújo, e do biografado/cantor/compositor Roberto
Carlos. Sobre Paulo Cesar de Araújo, cito o texto informado pelo
próprio, na identificação do Currículo Lattes; destaco os trechos
da descrição que, conforme o texto consultado, foram apresentados
em caixa alta.
PAULO CESAR DE ARAÚJO É HISTORIADOR, JORNALISTA,
MESTRE EM MEMÓRIA SOCIAL E DOUTORANDO EM CIÊNCIA
POLÍTICA.  ESTUDIOSO DA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR
BRASILEIRA, COLABORA COM OS PRINCIPAIS VEÍCULOS DE
COMUNICAÇÃO DO PAÍS E ATUA COMO PALESTRANTE NO
BRASIL E EXTERIOR. É AUTOR DA BIOGRAFIA ROBERTO
CARLOS EM DETALHES (EDITORA PLANETA, 2006), E DO LIVRO
EU NÃO SOU CACHORRO NÃO – MÚSICA POPULAR CAFONA E
DITADURA MILITAR (EDITORA RECORD, 2002), OBRAS
CONSIDERADAS REFERÊNCIA NA HISTORIOGRAFIA DA MPB.
PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
DA PUC-Rio. (CURRÍCULO LATTES, 2014)
Sobre Roberto Carlos, pode-se afirmar que é considerado um
ícone da música popular brasileira, tendo iniciado sua carreira
musical ao final da década de 1950, no estertor do movimento
bossa-novista, logo se encaminhando para as primeiras
manifestações de rock autoral no Brasil. Um dos precursores deste
gênero musical no país, tornou-se muito conhecido a partir do
Programa Jovem Guarda, da televisão Record, no qual se


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apresentava como integrante – junto com Vanderléa e Erasmo
Carlos – do trio “da Jovem Guarda”. O sucesso no disco, no rádio
e na televisão teve repercussão no cinema, tendo estrelado três
filmes, nos quais deu vazão à performance criativa e à expressão
da canção, definindo sua participação no meio musical e
mercadológico enquanto intérprete e compositor.  A partir dos anos
70, reformulou seu repertório, assumindo em definitivo a carreira
solo e tornando-se um cantor e compositor de música essencialmente
romântica, ainda com algumas canções de evocação religiosa,
católica. Em 2010, completou 50 anos de carreira artística,
recebendo as mais variadas homenagens, de diferentes gerações
de fãs, especialmente do público feminino. Continua trabalhando
ativamente, principalmente realizando shows com sua própria
orquestra, em turnês pelo país e fora dele.
O longo período de sua atuação no mercado musical e na
cena midiática reitera sua inserção na indústria cultural e no estreito
vínculo com a tradição e a memória musical do país, justificando,
em parte, o título de “rei da música popular brasileira”, como é
lembrado. Neste sentido, acho importante observar o peso que sua
presença assume enquanto figura pública e em referência à
identidade cultural brasileira, especialmente quando é lembrada a
centralidade da oralidade nesta sociedade e, neste caso, associada
à manifestação da canção popular.
***
Diante do exposto, venho colocar algumas considerações, a
título de finalização, quanto aos acontecimentos que cercaram a
censura ao texto biográfico sobre Roberto Carlos escrito por Paulo
Cesar de Araújo, apontando para a possibilidade de que tal tema
possa e deva ser tratado sob a perspectiva da história do tempo
presente.
A partir da construção biográfica e dos acontecimentos
associados à publicação Roberto Carlos em detalhes, existe,
exemplarmente, um embate sobre a imagem do artista diante do
público, assim como sobre a representação do historiador/jornalista/


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biógrafo diante da interdição à publicação de seu texto, o que
implica, em última instância, tornar esta narrativa pública e, por
meio dela, outra construção sobre o artista biografado.
À medida que constrói o biografado/personagem, o historiador
torna-se parte do processo, legitimando/autorizando representações,
desvelando ou criando os fatos que dão contorno aos personagens
por sua atuação, diante da base documental.  Junto a isso, a
figura do historiador, para além do expectador e/ou observador/
investigador distanciado, também pode tornar-se alvo de polêmica
acerca do que descreve, assumindo a condição de sujeito e
personagem na história. O embate de memórias que assim se
apresenta traz à tona a discussão também sobre a presença do
historiador na esfera pública – neste caso, tendo em vista que o
trabalho de pesquisa foi resultado da dupla formação e atuação
de Paulo Cesar de Araújo, enquanto historiador e enquanto
jornalista.
Ao realizar a publicação de 2014, Araújo definiu como título a
expressão “o réu e o rei”, numa clara alusão ao signo, ou mesmo
à função social e política que o título de “rei” carrega. Tal expressão
mescla ironia e reconhecimento ao termo utilizado, especialmente
quanto ao seu aspecto conservador, pouco irreverente, muito
diferente do artista em início de carreira. Em entrevista editada na
matéria Editoras param as máquinas à espera da Lei das Biografias
(CHIARELLI, 2013), publicada no Portal PUC-Rio Digital, Araújo
declarou:
Posso dizer que, em termos de censura, conheço na prática e na
teoria. No primeiro livro, analiso e revelo a censura na música
brasileira
4
; com o segundo livro, fui vítima da censura em pleno
Estado democrático de direito. Mas acredito que o meu caso está
contribuindo positivamente para a mudança da lei.
A publicação do livro pela editora Companhia das Letras
também pode ser associada a outros projetos cerceados desta
4
Refere-se ao livro e à pesquisa sobre a música brega e a censura musical
durante a ditadura, resultado de sua dissertação em História.


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mesma editora; a fala de Paulo Cesar de Araújo soa como um
manifesto em repúdio à restrição daquelas publicações, como em
outro caso exemplar de biografia proibida: Garrincha, a estrela



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