História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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Presente, periódico vinculado ao Grupo de Estudos do Tempo Presente
(GET) da Universidade Federal de Sergipe, e a revista Tempo e Argumento,
mantida pelo PPGH-UDESC.


História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
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Presente que estão a merecer, aliás, estudo detido.
Este livro vem, assim, se somar às demais publicações
diretamente promovidas pelo Programa. Tem origem no II
Seminário Internacional História do Tempo Presente, realizado entre
13 e 15 de outubro de 2014, em Florianópolis, no campus Itacorubi
da UDESC
2
. Como na primeira edição, o evento contou com
conferências, mesas redondas e simpósios temáticos. No Seminário
Internacional de 2011, as falas dos conferencistas e de alguns dos
palestrantes acabaram por se transformar em artigos do dossiê
História e Historiografia do Tempo Presente, que integrou o número
1 do volume 4 da revista Tempo e Argumento
3
Em relação ao
evento de 2014, pensou-se em reunir em livro as falas dos dois
conferencistas e dos treze palestrantes
4
. Porém, por motivos diversos,
apenas oito deles puderam disponibilizar seus textos para a
coletânea.
Entre os autores, houve quem preferisse manter seu texto próximo
ao registro da fala, nele deixando, por consequência, marcas mais
visíveis do momento para o qual fora preparado. Outros optaram
por versões revistas das apresentações feitas no Seminário
Internacional, tendo, em alguma medida, incorporado elementos
2
Apenas a conferência de abertura foi realizada em outro local da capital
catarinense (o Teatro Governador Pedro Ivo).
3
Artigos de François Dosse (História do Tempo Presente e Historiografia),
Michèle Lagny (Imagens audiovisuais e História do Tempo Presente), Leonor
Arfuch (Narrativas del yo y memórias traumáticas), Pablo Alejandro Pozzi
(Esencia y práctica de la História Oral) e Hernán Ramirez (Política e tempo
presente na historiografia das ditaduras do Cone Sul da América Latina).
4
Conferencistas: Henry Rousso e Alexander Freund; palestrantes da mesa
redonda Ensino de História, usos do passado e cultura histórica: Ana Maria
Monteiro, Itamar Freitas e Cristiani Bereta da Silva; palestrantes da mesa
redonda Memória e Tempo Presente: Gerardo Necoechea Gracia, Igor
Alexis Goicovic Donoso, Pablo Alejandro Pozzi e Luiz Felipe Falcão;
palestrantes da mesa redonda História Política: Carlos Fico, Eliana de Freitas
Dutra e Reinaldo Lohn; palestrantes da mesa redonda História do Tempo
Presente: perspectivas sobre um campo em expansão: Francisco Carlos
Teixeira da Silva, Dilton Maynard e Márcia Ramos de Oliveira.


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das discussões que naquela ocasião foram estimuladas por suas
intervenções. Diferenças houve até mesmo no uso da palavra
História e das expressões História do Tempo Presente e História
Oral: por vezes aparecem com as letras iniciais maiúsculas, outras
vezes, minúsculas
5
; quanto a isso, houve atenção à lógica dos textos
e às opções dos autores
6
.
No caso específico do texto da conferência final de Alexander
Freund, convém salientar que resultou em artigo bastante ampliado,
publicado em 2015 no periódico The Oral History Review. Fica
aqui o registro de agradecimentos à Sra. Emma Thornton, da Oxford
University Press (casa publicadora da The Oral History Review),
pela permissão de publicação do texto de Freund neste livro; estendo
os agradecimentos ao próprio autor, por intermediar os contatos
feitos a este respeito. Diferentemente dos textos de Gerardo
Necoechea Gracia e Pablo Pozzi, mantidos na língua em que foram
originalmente produzidos (o espanhol), o longo texto de Alexander
Freund foi traduzido do inglês para o português por Maria Cristina
Itokazu.
Há que levar em conta o intervalo entre o encaminhamento
dos textos – todos enviados à organizadora em 2015, à exceção
do texto de Alexander Freund, disponibilizado para tradução em
2016 – e o momento de publicação, marcado por expressivas
transformações na ordem política nacional e internacional, que
obviamente não foram contempladas no livro.
5
O mesmo texto pode adotar, por exemplo, História e história, diferenciando
o campo disciplinar do processo histórico. Também aí não houve consenso.
6
Convém indicar que foram também efetuadas modificações nos textos em
decorrência da adoção, em todo o livro, do sistema de referências autor-
data, bem como de normas brasileiras para publicação de textos de caráter
acadêmico, o que provocou, na maioria dos textos enviados, alterações nas
notas de rodapé, na forma de apresentação das citações e na realização
das indicações bibliográficas. Acréscimos, com função de esclarecimento,
foram igualmente efetuados, e aparecem indicados entre colchetes, no corpo
do texto, ou em notas de rodapé (neste último caso indicadas como notas
da organizadora ou da tradutora).


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Como toda coletânea, esta espelha a diversidade de pontos de
vista, interesses, formas de pensar e de se expressar dos autores
aqui reunidos. Lançando mão de uma metáfora musical, entendo
que o livro se apresenta à maneira de uma partitura com baixo
contínuo, que atravessa e condiciona a escrita de ponta a ponta,
garantindo uma mesma ambiência à discussão (nesse caso, a
História do Tempo Presente); em suas várias partes, sobre essa
linha de continuidade sobrepuseram-se outros temas, mas, com
mais ênfase, oralidade, memória e mídia, como indicado no
subtítulo do livro.
No primeiro capítulo, Gerardo Necoechea, embora não oculte
certo desconforto com a expressão “História do Tempo Presente”,
examina o lugar do presente nas reflexões dos historiadores
ao considerar o papel dos testemunhos na produção de memórias
tornadas centrais em processos sociais e políticos contemporâneos.
Ao tomar como referência dois relatos testemunhais publicados
em 1998 e 2003 (de José Woldenberg e de Fernando Pinera
Ochoa, respectivamente), Necoechea ressalta o caráter simpli-
ficador das duas narrativas frente à complexidade dos embates e
das interações no interior da esquerda mexicana, sobretudo nos
anos 1970. Ao mesmo tempo, aponta que essas narrativas tanto
influenciam o cenário político coevo como são influenciadas
por ele (Woldenberg e Pinera Ochoa certamente levaram em
conta, nos relatos, acontecimentos posteriores àqueles por eles
narrados, tais como a emergência do Partido da Revolução
Democrática e do Exército Zapatista de Libertação Nacional).
A análise desses relatos acaba por indicar que o historiador,
segundo Necoechea, “não faz unicamente a pergunta clássica
sobre como o passado produziu o presente, mas interroga
também como o presente produz uma visão do passado”. Inevitável
lembrar, a partir desse comentário, de debate iniciado décadas
atrás, no âmbito da historiografia brasileira, a partir das
contribuições de Edgar de Decca (1988) e Carlos Alberto
Vesentini (1997), que, em exercícios de história a contrapelo,
buscaram indicar e superar as armadilhas espalhadas pela memória


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História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
hegemônica da chamada Revolução de 30
7
.
As relações entre memória e testemunho – especificamente, a
memória operária e o relato oral – também são alvo das reflexões
contidas no segundo capítulo. A partir de entrevistas feitas na
Argentina com cinco operários, nos anos de 1987 e 1988, Pablo
Pozzi põe em destaque o “problema entre a articulação dialética
da memória, da experiência particular e da preservação de tradições
que permitem a identidade de classe”. Enfocando a memória
operária relativa ao período da ditadura militar argentina, ressalta
aspectos que indicam a resistência à repressão e à desagregação
da classe, em contraposição a uma narrativa consolidada que
afirmava não só ter havido o refluxo da mobilização, a despo-
litização e a dissolução de relações de solidariedade entre os
trabalhadores, como também ter existido a colaboração operária
com a ditadura. Similarmente ao que foi observado no texto de
Gerardo Necoechea, o de Pozzi assinala o quanto os relatos foram
influenciados pelo presente do momento em que foram produzidos
(presente marcado, no caso enfocado por Pozzi, como acima
indicado, pela vigência de uma narrativa hegemônica acerca da
submissão ou mesmo colaboração da classe operária em relação
à ditadura). A atenção do historiador, em vez de concentrada no
inventário (e no cotejo) de acontecimentos, desloca-se para seus
significados nos quadros de uma experiência coletiva, o que exige
reflexões mais alentadas acerca das dimensões subjetivas da
memória. Uma memória que busca ser base da coesão da classe,
não somente como construção identitária, mas também como
motor de lutas presentes e futuras
8
.
7
Os livros em questão são resultantes das teses de doutorado dos autores; a de
De Decca foi defendida em 1979 e a de Vesentini, em 1983, ambas na
Universidade de São Paulo (USP).
8
Vê-se que as considerações do autor desse capítulo podem ser aproximadas
às do pesquisador Alessandro Portelli, em seus estudos sobre a memória
operária de trabalhadores de Terni (Itália) e, particularmente, sobre a
reelaboração de alguns episódios marcantes de sua história (como a morte
do líder operário Luigi Trastulli – PORTELLI, 1993).


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O terceiro capítulo, de autoria de Reinaldo Lohn, traz
continuidades em relação aos dois anteriores no que tange à
preocupação com a política e ao período histórico privilegiado na
abordagem, bem como quanto ao interesse em examinar formas
de produção da memória. O foco passa a ser o Brasil e o (lento)
processo de redemocratização brasileiro, durante o qual também
começou a ser forjada uma memória pública sobre as características
e os agentes fundamentais desse mesmo processo. É destacado o
papel cumprido pela imprensa na construção dessa memória, ao
criar uma narrativa bastante limitada sobre a redemocratização,
no que se refere à compreensão da democracia (quase
exclusivamente identificada a eleições) e à identificação dos
supostos protagonistas.
O quarto capítulo, de autoria de Dilton Maynard, permite saltar
para outro momento das relações com os meios de comunicação,
ao interrogar a relação dos historiadores com a cibercultura, quer
como tema de estudo, quer como ferramenta de trabalho. No texto,
o autor apresenta o que considera desafios no tempo presente


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