História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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sobre um campo em expansão, composta também pelos professores doutores
Francisco Carlos Teixeira da Silva (UFRJ) e Dilton Cândido Maynard (UFS),
durante o II Seminário Internacional História do Tempo Presente, promovido
pelo PPGH-UDESC (Florianópolis, SC, UDESC, 13 a 15 de outubro de
2014).


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UDESC, e tendo por parâmetro pesquisas anteriores, resultantes
da minha formação, que tiveram a biografia por referência quando
da análise de trajetórias de músicos, grupos e movimentos musicais
do cancioneiro brasileiro
2
.
Pretende-se, diante disso, esboçar algumas definições sobre a
biografia enquanto gênero e possibilidade metodológica, finalizando
com uma breve apresentação de estudo de caso, a exemplo de
prática de investigação possível no estudo do tempo presente, tendo
por referência a polêmica desencadeada acerca da publicação da
biografia do cantor e compositor Roberto Carlos.
***
Ao escrever o artigo A ilusão biográfica, Pierre Bourdieu (2006)
definiu como sentença a impossibilidade de desenvolvimento da
biografia como uma forma narrativa que pudesse ser considerada
enquanto produção crítica, acadêmica, científica. A imediata
associação do uso deste termo ao senso comum, provocativamente
apresentada nesse texto, provavelmente desencorajou um
considerável número de pesquisadores a seguir essa perspectiva de
análise como forma de compreensão sobre o sujeito inserido em
uma determinada realidade histórica e/ou sociológica.  A atuação
social, segundo tal perspectiva, seria desprovida de qualquer forma
de intencionalidade que pudesse conduzir esse indivíduo no percurso
do que imaginou ser sua história de vida. Diante dessa constatação,
brindou com a descrença o pesquisador interessado e o sujeito-
tema da investigação. No modelo apresentado por Bourdieu, pode-
se entrever o ceticismo revelado pelo século XX, associado ao final
das utopias. Como, então, explicar o acentuado número de
2
Destaco, como principais trabalhos desenvolvidos, dissertação e tese
defendidas no PPG em História/UFRGS, tematizadas pela biografia do
compositor popular Lupicínio Rodrigues e sua produção musical. Outros
trabalhos vieram a somar-se, entre os quais destaco os estudos de caso que
analisam a atuação do artista catarinense Mozart Régis e o compositor
Jards Macalé.


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biografias que atualmente avolumam-se, na forma de publicações,
nas produções de cinema, nas narrativas dramáticas, midiáticas e
literárias?
Todo esse conjunto de manifestações trouxe à tona o caráter
ficcional da biografia, entendida desta forma como um gênero
literário, contrastando com a posição apresentada por Bourdieu e,
direta ou indiretamente, com algumas aproximações da
historiografia, no sentido de buscar sua compreensão e, até mesmo,
sua instrumentalização como uma metodologia possível de ser
aplicada neste campo de análise. Uma rápida revisão sobre o tema
entreviu a aproximação de historiadores, sociólogos, antropólogos,
filósofos, entre outros, que, ao abordarem o assunto, revelaram
aproximações e diferenças.
Paul Ricoeur (1994), ao ocupar-se da reflexão sobre a afirmação
da consciência, da vontade pessoal como forma de perceber e
interagir no mundo, de certa maneira recoloca a questão sobre a
possibilidade da construção biográfica. Nada que lembre um modelo
a ser seguido, como aquele que outrora dera vazão aos grandes
vultos e heróis da historia magistra, porém revitalizando outra
presença e forma de interação no mundo, entre a ficção e a razão.
Aproximando-se dessa perspectiva, que enfatiza a importância
da presença do indivíduo na história, Sabina Loriga (2011) trouxe
o tema à tona quando apresentou o seu “pequeno x”, também
contrapondo a história individual à afirmação do gênio biografado
e aos usos públicos do passado e da construção do tempo histórico.
Com relação à afirmação dos grandes modelos estruturais e do
relativismo na história, marcados pela ausência dos indivíduos,
afirma que “O preço ético e político dessa desertificação do passado
é muito alto” (LORIGA, 2011, p. 13).
Outro exemplo desta linha de abordagem pode ser percebido
nos trabalhos de Peter Gay (1999) e Norbert Elias (1995), ao
observarem, na conflitante trajetória de Mozart, também o viés
psicológico na construção e representação do biografado. O texto
de Peter Gay principia com a frase “A vida de Mozart é o triunfo
do gênio sobre a precocidade” (GAY, 1999, p. 9). Michael Schröter,


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como organizador da publicação póstuma dos escritos de Norbert
Elias sobre Mozart, revela sua própria presença como personagem:
Do lado de Elias, a colaboração implicava, acima de tudo, um grau
único de confiança, que cresceu à medida que ele foi se convencendo,
por uma série de pequenos fatos, de que eu era capaz de realizar a
tarefa da maneira que ele desejava. [...] No trabalho de Mozart,
continuei a usar o mesmo método, como se a morte do autor nada
tivesse mudado. Hoje em dia, acho que foi uma tentativa de negar a
morte de um velho amigo muito querido. [...] O presente ensaio
sobre a “sociologia de um gênio”, que fala de maneira tão comovente
de uma relação pai-filho e do entrelaçamento antagônico entre as
necessidades de realização de ambos, é o meu epitáfio para um
reverenciado professor e amigo. (ELIAS, 1995, p. 144)
Nas palavras de Schröter, a relação pai-filho na biografia de
Mozart aproxima-se da que teve com o autor, Norbert Elias.
Na produção brasileira, a elaboração de biografias atingiu em
boa parte o período colonial, como definiu Maria da Glória de
Oliveira, ao apresentar seu livro Escrever vidas, narrar a história: a
biografia como problema historiográfico no Brasil oitocentista, no
qual desenvolveu uma metodologia específica dessa forma de
representação do período. Todo um conjunto de vultos
representativos do período monárquico no país, alvo da curiosidade
de boa parte de público – e por que não dizer, também de
pesquisadores –, na compreensão entre o perfil exótico e histórico
destes governantes e associados.
Ainda como abordagem teórica e metodológica no campo da
historiografia, vale salientar a afirmação de Benito Schmidt (2012),
ao declarar que a intensa procura por esta proposta de literatura
pode ser percebida como fenômeno de público, especialmente
quando “o impulso de valorização da biografia como forma de se
(re)escrever a história brasileira partiu especialmente de jornalistas”
(SCHMIDT, 2012, p. 202).
O grande sucesso editorial de vendas associado às biografias
escritas desencadeou um intenso debate no campo da história,
acompanhado de muitos questionamentos, especialmente com


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relação à esfera de atuação do historiador enquanto profissional
da história, de ofício, e com formação institucional acadêmica. A
discussão ganhou força, especialmente em vista das deliberações
envolvendo a questão dos direitos autorais – a partir da legislação
em vigor –, o interesse de autores e editoras, os embates de memória
e as publicações autorizadas e não autorizadas.
Dito isso, acrescento que esta comunicação se encaminha para
a sintética apresentação de um estudo de caso, que revelou, em


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