História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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quem deve preservar. Experiências como as do Internet Archive
(www.archive.org) revelam o esforço de permitir pesquisas em


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versões “antigas” de sites. No nascente século XXI, uma questão
fundamental gira em torno dos custos de manutenção e da
responsabilidade por arquivar e organizar estes registros.
O debate acima colocado se mostra estratégico, haja vista que
os historiadores já enfrentam o problema da inacessibilidade. E tal
dificuldade se dá por diferentes razões, sendo possível destacar
duas delas: a) Há um problema de letramento digital, já que nem
todos dominam os procedimentos básicos para a navegação em
alguns ambientes ou mesmo o uso de um computador; b) E, ainda,
os custos do acesso à Internet.  Todavia, ambas as variáveis tendem
a cair. No caso do acesso, a expansão de experiências de Internet
livre em praças, escolas, bibliotecas, universidades e outros locais
de pesquisa certamente colaborará para que os usos dos ambientes
digitais sejam ampliados. No que se refere ao domínio das novas
tecnologias, da capacidade de navegação da Internet, as contínuas
atualizações que máquinas e programas experimentaram nos
últimos anos, a preocupação com a criação de diferentes recursos
de acessibilidade – comandos por voz, telas em contraste,
ampliação de fontes etc. – sinaliza os ganhos no sentido de
transformar usuários originalmente analógicos em legítimos
imigrantes digitais.
Considerações finais
Diante deste cenário desafiador, vale lembrar que, no final das
contas, o ganho considerável diante da capacidade de reunir
diferentes tipos de registros merece celebração, não desespero e
temor, pois como observaram Jean Boutier e Dominique Julia,
“não pode haver História senão erudita; a coleta metódica dos
dados repousa sobre o recurso, frequente ainda que variável, segundo
as épocas e os lugares” (BOUTIER; JULIA, 1998, p. 37).
Evidentemente, é importante salientar que, embora seja possível
falar em uma história digital, as perguntas que tradicionalmente
surgem para o historiador permanecem as mesmas – quem, o
quê, quando, onde e por quê? –, continuam a nos inquietar e a


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movimentar nossas investigações. Ou seja, as antigas bases
metodológicas permanecem importantes, mas há novos aportes.
No caso da História do Tempo Presente e dos registros digitais, o
segredo é entender que eles são complementares, mas não
excludentes.
As ferramentas digitais têm alterado a produção e a
disseminação do conhecimento. Entretanto, é preciso ter consciência
de que o uso adequado de tais recursos implica a compreensão,
mas não necessariamente o domínio das mesmas. Temos aí
problemas importantes, complexos. Quem regulará a ideia de
autoria ou autenticidade? O acervo disponibilizado online será livre
ou, ao contrário, ficará à mercê de megacorporações?
Enfrentamos indubitavelmente o desafio de lidar com “novas
percepções do tempo e do espaço nas sociedades midiáticas
contemporâneas” (HUYSSEN, 2014, p. 16). Consequentemente,
fazer história digital é estabelecer uma nova estrutura por meio da
tecnologia, para que as pessoas experimentem, leiam e possam
seguir um argumento sobre um problema histórico. E, para colocar
o passado online, devemos lembrar do conselho de Marc Bloch:
no fim das contas, “são os homens que a história quer capturar.
Quem não conseguir isso será apenas, no máximo, um serviçal da
erudição. Já o bom historiador se parece com o ogro da lenda.
Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça” (BLOCH,
2001, p. 54).
Por fim, se for possível fazer um diagnóstico das ressonâncias
das novas tecnologias na pesquisa e no ensino da História,
poderíamos dizer:
1) Tais tecnologias, reforçamos, já não são assim tão novas;
2) A partir da emergência de suportes digitais temos problemas
de hierarquia, de autoria, de acesso, de arquivamento e
preservação que precisam ser enfrentados;
3) O historiador do presente envolve-se com uma tarefa em
que, quanto mais se compreende, mais se tem a necessidade
de procurar.
Como um lago que nunca se enche.... Portanto, o historiador


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deve se aproximar da Internet e dos tempos digitais dominando as
habilidades básicas do seu ofício, sem necessariamente ter que ser
um programador. O historiador precisa enfrentar estes desafios,
sem deixá-los aos colegas de outras áreas. Ele não precisa ser um



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