História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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best-sellers escritos sobre temas históricos não são obras de
membros da corporação.
Sendo assim, o que podemos aprender com tais mudanças
quantitativas? Nós podemos chegar a mais pessoas, obter e produzir
mais material histórico para as salas de aulas, oferecer aos
estudantes mais acesso a documentos antes enclausurados, ouvir
diferentes perspectivas. Mas, se tais transformações afetam o
aspecto quantitativo, também atingem substancialmente a
qualidade dos registros. As mudanças nesse aspecto podem ser
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Exemplo pode ser conferido em projetos como o Open The Archives,
desenvolvido por meio de uma parceria entre a Brown University e a
Universidade Estadual de Maringá. O projeto foi lançado com 2.000
documentos digitalizados, produzidos de 1963 a 1977. Tais documentos
são digitalizações de material do Departamento de Estado dos EUA. O site
disponibiliza digitalizações com endereços disponíveis nas páginas da UEL
e da Brown.


História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
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pensadas a partir do conceito de manipulabilidade, entendido como
a possibilidade de engendrar dados por meio do uso de ferramentas
eletrônicas, conduzindo a descobertas que antes não estavam
evidentes. Softwares podem permitir a ampliação e a distorção de
imagens. Para o estudo de documentos, por exemplo, a
possibilidade de aplicar o zoom ao registro, recortar a parte que
imediatamente interessa, girá-la, criar a partir dela uma galeria,
compará-la, melhorar a sua resolução, são processos proveitosos
no andamento de qualquer pesquisa. Porém, esta capacidade de
manipular a fonte pode promover experimentos de diferentes fins e
tipos
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.
A relação com o público ganha na preocupação com a
interatividade um destaque importante. Afinal de contas, ela
estabelece diferentes e múltiplas formas de diálogo histórico. Temos
aí uma imensa possibilidade de transformação da prática histórica,
de ampliar as formas de levantamento de fontes, de troca de
informação, de redução nos custos das pesquisas e na ampliação
no compartilhamento de trabalhos. A rede trouxe consigo um leitor
que se encontra em posição diferenciada. Se o texto chega ao
ciberespaço, este novo público pode colaborar com o envio de
dados, divulgar e até corrigir a pesquisa.
Por fim, temos a hipertextualidade, uma espécie de princípio
constitucional da web. Ela exige refletir sobre um paradigma antes
pautado nas ideias de centro, hierarquia e linearidade. Entram em
cena multilinearidade, nós, links, redes de trabalho. Embora
permaneça ainda claro que a História, em sua narrativa, para ser
comunicada precisa ter uma estrutura que mantenha o circuito
começo, meio e fim, a forma clássica e linear de exposição tende
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Exemplo pode ser visto na campanha publicitária do jornal sul-africano
The Cape Times, realizada em 2013. Uma série de registros fotográficos
históricos, como o beijo de Times Square, ou Winston Churchill e sua
clássica foto com um charuto, por exemplo, foram transformados em selfies
na campanha do jornal. A chamada era “You can’t get any closer to the
news” ou “você não pode ficar mais perto da notícia”. Sobre isto ver
KIEFABER (2013).


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História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
a se modificar em ambientes digitais. Esta nova forma, que
certamente atordoará a muitos, permite ao leitor acompanhar a
produção do conhecimento histórico: ler as fontes que foram
utilizadas, talvez ouvir a música que se menciona, assistir ao vídeo
que foi criticado e, deste modo, realizar ele mesmo a crítica ao
trabalho lido. Tudo isto sem que a estrutura básica da arquitetura
argumentativa seja perdida. E também sem uma inflação nos
custos. O que é o hipertexto, senão a pretensão de oferecer a
experiência da leitura do registro em três dimensões?
Apesar da paisagem de avanços e vantagens, é preciso salientar
que os empecilhos também não são poucos. Por isto, gostaria de
tocar em apenas alguns dos estorvos no horizonte da pesquisa e
do ensino da História quando o assunto são vestígios eletrônicos.
O primeiro deles diz respeito a algo que tira o sono de qualquer
historiador: a qualidade do registro. Neste novo universo, os
tradicionais repositórios de informação irão manter o seu status?
Como avaliar as fronteiras da qualidade histórica e da autenticidade
na web? Uma coisa a se considerar é que a discussão em torno da
qualidade, autenticidade e autoridade pré-data à Internet.
Consequentemente, nossos debates sobre fontes históricas, sobre
heurística, sobre os procedimentos de crítica não podem ser postos
de lado. Porém, eles precisam ser, em certos casos, atualizados.
Concordamos com o argumento de Weller (2013) de que, se a
mídia digital abalou a confiança e a autoridade de certos registros,
já que agora tudo pode ser manipulado e postado na Internet,
cabe a nós, como historiadores, restabelecer os procedimentos de
legitimação, discernimento e autoridade. Afinal de contas, os
historiadores já fizeram isto outras vezes, quando enfrentaram os
desafios provocados, por exemplo, pelos filmes (FERRO, 1992).
Outro problema é a durabilidade, já que os tempos digitais
abrem generosamente as portas ao sonho de tudo preservar. No
entanto, a preservação e o arquivamento de material histórico são
problemas que nos impelem a pensar o que deve ser preservado e



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