História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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participantes do Invisible College trocavam informações,
compartilhavam seus resultados e inquietações. Os resultados deste
segundo grupo reforçam a ideia de que precisamos considerar que
a ciência é feita por meio de operações solidárias, em trabalhos
coletivos em rede, em cooperação. É assim que ela dá saltos.
Olhando por esta ótica, a preservação e a privatização dos
arquivos merecem, ambas, estudos cuidadosos, mas parece-nos
que, no segundo caso, ficou mais difícil monopolizar registros, não
impossível. Isto implica em uma quebra de centro, em um poderoso
deslocamento de forças nas Academias. E possivelmente esta
modificação encontre-se relacionada a novas dinâmicas culturais.
Se considerarmos as dimensões continentais de um país como o
Brasil, por exemplo, esta mudança possui um efeito democratizador
sem precedentes.
Indubitavelmente a mudança de uma cultura de escassez para
uma cultura de abundância é uma marca destes tempos digitais.
Em lugar de relíquias, temos uma riqueza atordoante de fontes. O
caso Wikileaks, pelo embate de forças envolvidas nele, é
possivelmente o exemplo mais representativo desta mudança: 251
mil documentos roubados em um CD, numa operação que antes
dos tempos digitais não poderia ser suscitada sem considerar o uso
de alguns caminhões (MAYNARD, 2011). E tal metamorfose faz
emergir uma pergunta fundamental: quem é o responsável por
preservar o registro histórico na era digital? Afinal de contas,
digitalização e preservação não são baratos. E, ao mesmo tempo,
o presente eletrônico, conforme advertiu Ginzburg, pode apagar o
passado. O quadro pode ficar ainda mais angustiante se
considerarmos que, além disto tudo, também precisamos atentar


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para o fato de que muito do que hoje está sendo feito simplesmente
será perdido para sempre. De um modo ou de outro os historiadores
enfrentarão desafios na era digital. A seguir, alguns deles são
sumariamente colocados.
Um primeiro desafio diz respeito à preservação de material
digitalizado. Há décadas, diferentes documentos têm sido
digitalizados sob o argumento central de que a preservação deles é
necessária. Iniciativas resultantes de importantes missões de estudos,
intercâmbios acadêmicos, dispendiosos projetos de pesquisa
ofereceram como produtos principais rolos e rolos de microfilmes,
CDs e mais recentemente DVDs com uma infinidade de registros,
alocados em prestigiosos lugares de memória do mundo. A questão
mais preocupante não é como navegar nesta maré de dados, mas
como se dará a preservação daquilo que suporta tais documentos,
que os exibe, que os faz visíveis para o pesquisador. Ou seja, além
de preservar, precisamos refletir sobre e planejar o acesso e o uso
destes registros.
Mas, se os problemas são grandes com o material convertido
para o formato digital, não são menores para aqueles que já nascem
assim. Como arquivar blogs, reportagens ou vídeos produzidos na
Internet? A quem caberá tal função? O debate sobre a conservação
precisa levar em conta as exigências da preservação de material
nascido digital.
Outro importante desafio está na migração para novos formatos
diante da rápida obsolescência de hardwares e softwares. Devido
à dinâmica em suas transformações, registros digitais necessitarão
de ferramentas que possibilitem o acesso às informações neles
contidas, embora os suportes para leituras muito provavelmente já
tenham se tornado obsoletos. Deste modo, como ler as mensagens
deixadas nos velhos disquetes de 5,25 polegadas? Ou como fazer
um site criado em 1998, idealizado para ser o mais interativo do
seu tempo, comportar-se dentro do que era esperado naquele ano?
Como aproximar o pesquisador da experiência de usar uma página
eletrônica em versão 1.0 da web? Como emular o passado
cibernético?


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Finalmente, a tarefa de ensinar por intermédio da rede talvez
seja o desafio mais admirável e inquietante. Se é certo que a rede
mundial de computadores apresenta um inegável potencial
democratizador, ela também pode limitar, ludibriar e colaborar
para o esquecimento do passado. Podemos tomar o exemplo usado
por Carlo Ginzburg, da jovem russa chamada por ele de “Diana”.
Quando a moça passou a sofrer ataques epiléticos, usou o Google
para encontrar uma resposta e viu-se como uma benandante,
(GINZBURG, 2001), tal qual aqueles mencionados em obras do
historiador italiano: em poucos minutos e graças ao Google, Diana
transitou por cinco séculos e diversos territórios (GINZBURG, 2010).
É justamente esta imensa capacidade de dissolver o passado,
fragilizar o presente, que exige atenção quanto ao ensino da História
em tempos de Internet.
Tais desafios certamente exigem dos historiadores muita destreza.
Ao mesmo tempo, nos colocam algumas tendências. Uma delas
está no fato de que historiadores do futuro que desejem utilizar
documentos nascidos digitais terão que desenvolver novas formas
de pesquisa e mesmo novas habilidades (WELLER, 2013, p. 12).
A consulta a sites fora de funcionamento, a jogos eletrônicos que
já não possuirão facilmente os seus consoles originais, a blogs e
redes sociais que caíram em desuso (pensemos, por exemplo, na
relação dos brasileiros com o Orkut), somente será viabilizada a


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