História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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História (CARDOSO; VAINFAS, 1997; CARDOSO; VAINFAS,
2012), também organizados pelo mesmo Cardoso em parceria com
Ronaldo Vainfas, pouco espaço dedicam ao mundo digital. Se no
primeiro livro, de 1997, podemos explicar a defasagem no texto de
Luciano Figueiredo (1997, p. 419-440) pela experiência recente,
haja vista que a Internet ainda engatinhava entre os pesquisadores
brasileiros (o próprio autor nos avisa disto no capítulo que escreveu),
o mesmo não se pode dizer do volume dois, lançado após quinze
anos do primeiro. Lamentavelmente o único capítulo a se debruçar
sobre o assunto, assinado por Célia Tavares (2012, p. 301-317),
que reflete sobre a informática e sua relação com a produção e
divulgação do conhecimento histórico, limita-se a menções de
autores que abordaram a web de modo ocasional, deixando de
lado investigações mais recentes, articuladas e densas.
Ao que parece, experimentamos um curioso paradoxo. A
constatação se dá porque, embora a maioria dos historiadores
utilize cotidianamente a Internet e seus recursos em suas pesquisas


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(e-mails, listas de discussão, sites oficiais, sistemas de editoração
eletrônica, divulgação nas redes sociais), e até mesmo a maior
associação brasileira de professores e pesquisadores de História –
a ANPUH – disponha de um site (www.anpuh.org) para apontar
seleções, lançamentos e eventos, os docentes não costumam se
envolver com reflexões sobre recursos digitais. Consequentemente,
estudantes não são instigados a pensar sobre o digital, não são
motivados a aplicar as metodologias tradicionais da História ao
seu cotidiano digital e a experiências online.
No entanto, é sempre conveniente lembrar que a mudança é
uma marca da História enquanto campo do conhecimento. Ela
precisa ser pensada como uma prática social (PROST, 2009); como
algo construído, mediatizado, comunicado e que responde a
determinados anseios no tempo e no espaço. Indubitavelmente, a
História – enquanto um campo de saber, com regras próprias para
a sua produção – mudou no tempo. Mas a chegada de novas
mídias, da Internet, e o olhar apurado para o tempo presente não
retiram de nós a preocupação típica do historiador. Marc Bloch
(2001, p. 51) nos lembra que:
Se as ciências tivessem, a cada uma de suas conquistas, que buscar
por uma nova denominação para elas, que batismos e que perdas
de tempo no reino das academias! Mesmo permanecendo
pacificamente fiel a seu glorioso nome helênico, nossa história não
será absolutamente, por isso, aquela que escreveu Hecateu de Mileto;
assim como a física de Lord Kelvin ou de Longevin não é a de
Aristóteles.
É, portanto, História o que fazemos e nela deve residir a nossa
preocupação. É deste lugar que emitimos o nosso discurso. É da
História que elaboraremos as nossas questões. A inclusão de novas
mídias não deve exercer, no caso da História do Tempo Presente,
o papel de fiel da balança, embora seja inegável o seu influxo
sobre o campo (NORA, 1976, p. 179-193).
O observatório mais rico para pensarmos o tempo presente é
sempre aquele instalado nas produções culturais de cada época. É
isto que nos lembra a poesia de Drummond (1902-1987), que se


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empolga na ânsia de entender o tempo vivido: “O tempo é a minha
matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”
2
.
Conforme nos ensina Bloch (2001, p. 66), “o erudito que não tem
o gosto de olhar a seu redor nem os homens, nem as coisas, nem
os acontecimentos, merecerá talvez, como dizia Pirenne, o título
de um útil antiquário. E agirá sensatamente renunciando ao de
historiador”. E qualquer um que olhe ao seu redor verá um mundo
cada vez mais digital, cada vez imerso em cliques e alavancado
pela velocidade, estruturado entre bits e profundamente dependente
das trilhas eletrônicas da Internet (LÉVY, 1999).
Por falar em mudanças, um dos primeiros aspectos a serem
considerados no caso da web provavelmente é o tipo de prática
que ela implica e potencialmente amplifica. A cultura de
compartilhamento e participação baseia as normas deste novo
ambiente desde os seus primeiros dias, como nos mostraram
Manuel Castells, em sua Galáxia da Internet (2003), e Richard
Barbrook, em Futuros Imaginários (2009). Neste sentido, é
importante considerar quais as ressonâncias desta cultura para os
historiadores. Vejamos algumas delas.
Uma primeira constatação encontra-se no potencial
democratizador que a rede possui. Para aqueles que pesquisam e
ensinam História, certamente esta é uma tendência a ser
considerada. Um exemplo pode ser observado no Arquivo Nacional
britânico, por meio de iniciativas como a digitalização e
disponibilização de diários escritos por soldados que participaram
da Primeira Guerra Mundial (1914-1918)
3
.  Onde está a diferença?
2
Trecho final do poema “Mãos dadas”, de Carlos Drummond de Andrade
(1999, p. 118). (Nota da organizadora)
3
Conforme William Spencer, pesquisador ligado ao Arquivo Nacional
britânico: “Disponibilizar as páginas dos diários da Primeira Guerra Mundial
online permite que pessoas de todo o mundo descubram as atividades
diárias, histórias e batalhas de cada grupo. A iniciativa também oferece a
oportunidade de o público, dos interessados em História, familiares dos
soldados e historiadores explorarem informações que podem levar a novas
descobertas e perspectivas acerca desse importante período da história”.
(ARQUIVO, 2014). Consultar: .


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É possível identificar alguma mudança substancial? O que
distinguiu grupos como aquele do Invisible College (surgido no século
XVII) dos alquimistas foi provavelmente a cultura de
compartilhamento. Ambos usavam as mesmas ferramentas e
tinham acesso ao mesmo tipo de formação. Mas enquanto os
alquimistas envolviam seus procedimentos e descobertas em uma
névoa de segredos, em chaves e mais chaves de leitura, os


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