História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia


Partido político ou bode expiatório



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Partido político ou bode expiatório: um estudo
sobre a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), 1965-1979. Rio
de Janeiro: Mauad X, 2009.
HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural na esfera pública:
investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Rio
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Isto É, São Paulo, (maio, jun., ago., out.) 1976.
LIPPMANN, Walter. Public Opinion. New York: Harcourt, Brace
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MIGUEL, Luís Felipe. Os meios de comunicação e a prática política.
Lua Nova, São Paulo, n. 55-56, p. 155-184, 2002.
NAPOLITANO, Marcos. Cultura e poder no Brasil contemporâneo.
Curitiba: Juruá, 2002.
NORA, Pierre. O retorno do fato. In: LE GOFF, Jacques; NORA,
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TRINDADE, Hélgio. Bases da democracia brasileira: lógica liberal
e práxis autoritária (1822/1945). In: ROUQUIÉ, Alain;
LAMOUNIER, Bolívar; SCHWARZER, Jorge (Orgs.). Assim
renascem as democracias. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 46-72.


História do Tempo Presente:oralidade, memória, mídia
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Sobre tempos digitais:
Tempo Presente, História e Internet
Dilton Cândido Santos Maynard
O historiador precisa mesmo ser um expert em computadores
para explorar a Internet? Neste texto apresentamos algumas
observações sobre este “falso dilema”, sugerindo uma concepção
do historiador como uma figura mais próxima do ogro, o temido
ser de lendas infantis, personagem da cultura europeia imortalizado
no conto O pequeno polegar, de Charles Perrault (1628-1703), e
nas ilustrações de Gustave Doré (1832-1883), distanciando-a tanto
da imagem de um hacker ou nerd, profundo conhecedor dos
segredos das novas tecnologias, quanto do geek, que nos últimos
anos apareceu como o típico usuário das novas tecnologias.
Defendemos a ideia de que, para aventurar-se pela História do
Tempo Presente, o pesquisador não necessita ser uma espécie de
maestro de computadores, um autômato insensível aos seus dias e
aos acontecimentos.
De início, precisamos reconhecer que o nosso convívio com as
tecnologias digitais e com a Internet é relativamente recente. É
certo, temos muito a aprender com elas. Como já nos foi lembrado,


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se toda história humana fosse condensada em 24 horas, as mídias,
como nós conhecemos hoje, teriam aparecido nos 2 minutos antes
da meia-noite (COHEN, 2011, p. 38). Mas, desde que começaram
a se popularizar entre os acadêmicos, elas não deixaram de seduzir
e provocar o surgimento de “neoluditas” ou “tecnocéticos”, por
um lado, e “ciberentusiastas”, de outro.
Os primeiros denunciam a todo custo os riscos apocalípticos
dos computadores e da Internet. Na verdade, os neoluditas já nos
acompanham há certo tempo. O que dizer dos críticos do cinema,
do rádio e do ensino a distância, por exemplo? Para eles, estas
novas tecnologias da comunicação, cada uma em seus primeiros
dias de uso, seriam um engodo, uma fraude, uma ferramenta de
potencial limitado, principalmente quando concebida para fins
educacionais. Marc Ferro (1992, p. 83) mencionou as referências ao
cinematógrafo como passatempo de iletrados, media dos idiotas.
Evgeny Morozov (2010, p. 207), por sua vez, aponta as muitas críticas
recebidas pelo telégrafo por sua aparente capacidade de divulgar
assuntos banais no século XIX. Para alguns, este invento seria capaz
até mesmo de acabar com as guerras. Com um aparelho que podia
fazer qualquer mensagem correr o mundo e tocar os pontos mais
extremos da Terra a uma velocidade inimaginável, possibilitada pela
eletricidade, não havia razão para a descrença na paz, na capacidade
de produzir consensos ou para os avanços diplomáticos. A ideia era
a de que o diálogo entre os homens ganharia, com o telégrafo, um
poderoso aliado. O novo invento apresentava potencial para
aproximar o mundo. Mas o influxo da popularização dos
computadores sobre os historiadores parece ter sido ainda maior.
Talvez o melhor exemplo do segundo grupo – aquele dos otimistas
– seja a previsão feita por Emmanuel Le Roy Ladurie num artigo
publicado no Le Nouvel Observateur, em 8 de maio de 1968. Nele
o autor afirmava: “o historiador do futuro será programador ou
não será” (LADURIE, 2011, p. 207-210)
1
. Ainda que tendo o
1
O artigo foi publicado originalmente em 08 de maio de 1968. Depois teve
versão em livro em Le Territorien de l’historien (Paris: Gallimard, 1973).


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cuidado de restringir a sua observação ao campo da História
Quantitativa, Ladurie esboça certa tecnofilia que parece ter tomado
os trabalhadores de Clio por um tempo. O quanto isto alterou
nosso modo de pensar? Provavelmente seja ainda muito cedo para
que tenhamos uma resposta. Porém, evitar o debate não nos parece
a estratégia acertada. Propomos o contrário: vamos a ele.
Ensaiemos reflexões sobre o ofício do historiador diante das novas
mídias, em dias de Internet.
Deste modo, quais as ressonâncias das novas tecnologias na
prática histórica? Esta pergunta põe em relevo a necessidade de
aprofundarmos a discussão sobre o fazer história na era digital.
Ela encontra mais força ainda no fato de que os nossos alunos,
em sua maioria, são agora do tipo digital born (nativos digitais):
devotados ao repetitivo exercício de responder, sempre rapidamente,
a dezenas de mensagens de textos e e-mails durantes as aulas,
atualizar redes sociais, encontrar informações sobre eventos, mas
também sobre a vida privada dos seus professores na Internet. Os
estudantes, jovens em sua maioria, dispensam muito tempo
“cutucando”, curtindo, postando, comentando e principalmente
compartilhando. Mesmo assim, o ciberespaço ainda é um país
estrangeiro para parte significativa dos historiadores que, em lugar
de nativos, são antes imigrantes digitais e, por mais que se esforcem
para dominar a linguagem, sempre falarão com certo sotaque.
É, pois, um distanciamento inquietante. Um silêncio sem
sentido. A era digital tem afetado todos aqueles que praticam e
estudam a história profissionalmente. Todavia, o mais correto seria
considerar que historiadores não necessitam aprender novas
tecnologias ou dominar os intrincados códigos de computadores;
não precisam se tornar cientistas de computadores; não precisam
obrigatoriamente ser hackers ou geeks. Talvez resida aí um primeiro
erro, como explica Toni Weller (2013, p. 1): parte considerável do
problema reside nesta ênfase em discussões técnicas, distantes dos
debates sobre as habilidades realmente imprescindíveis ao
historiador. Tamanha exigência, tamanha distorção, acabou antes
por afastar os historiadores em lugar de aproximá-los de aliados


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como os computadores, as novas mídias e a Internet. Tentemos
entender como este quadro se desenhou.
Resultante de um processo iniciado ainda ao final da década
de 1950, a Internet se tornou comercial por volta de setembro de
1993 (março de 1994, para outros). Portanto, já experimentamos
duas décadas de convivência. De lá para cá, a rede deixou de ser
um reduto de nerds e militares e foi colonizada pela gente comum,
por não especialistas (BRIGGS; BURKE, 2004). As palavras de
Marc Zuckerberg, um dos fundadores do Facebook, afirmando que
“um esquilo morrendo na porta da tua casa pode ser mais
importante para os seus interesses agora do que pessoas morrendo
na África” (apud PARISIER, 2011, p. 1), dão a dimensão da
banalidade e do olhar para o presente contínuo que a rede adotou.
Tudo está na Internet agora ou, ao menos, é esta a nossa impressão.
Certa vez, Norbert Elias nos lembrou que “o aparecimento mais ou
menos súbito de palavras e línguas quase sempre indica mudanças
na vida do próprio povo, sobretudo quando os novos conceitos
estão destinados a se tornarem fundamentais e de longa duração
como esses” (ELIAS, 1994, p. 68). Ora, a Internet gerou verbos
próprios (google metwitt memail me, por exemplo), criou as
suas próprias palavras, suas próprias doenças, rearranjou a esfera
pública, as relações pessoais, a economia e até mesmo a política.
Historiadores como Carlo Ginzburg, Roger Chartier, Peter Burke
e Robert Darnton abordaram as influências da Internet. Para
Ginzburg (2010), a Internet, mais especificamente o Google, é um
poderoso instrumento de pesquisa histórica e, ao mesmo tempo,
um poderoso instrumento de cancelamento da História. Enquanto
para Roger Chartier (2009, p. 60-61) os expedientes clássicos do
ofício parecem inalterados, Darnton (2005, p. 40-89) chama a
atenção para possíveis riscos de uma privatização da Internet. Este
último, inclusive, enquanto diretor da Biblioteca da Harvard
University, bateu-se contra o Google e seu projeto de digitalização
das obras com copyright daquela instituição, propondo algo mais
democrático e gratuito. Mas os trabalhos destes pesquisadores não
constituem estudos exaustivos, e pesquisas de fôlego ainda são


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pouco conhecidas em língua portuguesa. As reflexões de autores
como Ginzburg e Burke são principalmente impressões que não se
pretendem como coordenadas para a pesquisa. Apesar disto, o
desafio do estudo dos usos da Internet entre historiadores continua
relegado a conversas, aos cafés, a breves artigos – como também
lembrou Toni Weller (2013). O quadro tem sido transformado numa
velocidade bem abaixo do esperado. Todos concordamos que algo
precisa ser feito, mas, de fato, sabemos o quê?
Se nos voltarmos à paisagem nacional, a imagem não é lá
muito diferente. Nossas vulgatas mais conhecidas têm evitado
abordagens aprofundadas sobre o tema. Pouco se avançou. Se
tomarmos alguns dos mais conhecidos manuais, quase nada
encontraremos sobre computadores, novas tecnologias da
informação ou a Internet. Por exemplo, em Os métodos da História
(BRIGNOLI; CARDOSO, 1983), obra basilar de Ciro Flamarion
Cardoso escrita em parceria com Héctor Pérez Brignoli, percebe-se
certo encantamento pelos computadores como colaboradores das
pesquisas históricas. Por sua vez, os dois volumes dos Domínios da



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