História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia


parte de um sistema de representação política que pretendia definir



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parte de um sistema de representação política que pretendia definir
a agenda da democratização. Tal condição adviria do
aprofundamento das liberdades democráticas, como ocorria em
países que serviam de exemplo a ser alcançado. Diante da crescente
rejeição à censura, empresas e uma parte dos jornalistas com mais
destaque perceberam-se como integrantes de um mesmo campo e
desenvolveram noções próprias que acentuavam sua influência e
importância no âmbito político.
Com a possibilidade de acompanhar com menores restrições o
processo político a partir da segunda metade da década de 1970,


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a grande imprensa brasileira passará a identificar e, de certo modo,
legitimar o círculo daqueles agentes capazes de conduzir a abertura.
Isto É listou os nomes dos que formavam o restrito círculo dos
negociadores da transição. Além de Geisel, figura proeminente do
processo, estava Ulysses Guimarães, que se destacara por sua
anticandidatura à Presidência, em 1974. Mas ainda foram citados
Paulo Brossard, Teotônio Vilela, José Sarney, Tancredo Neves,
Petrônio Portela, Magalhães Pinto, Dinarte Mariz, Amaral Peixoto,
Daniel Krieger e mais alguns poucos que poderiam fazer parte deste
seleto grupo de “grandes ruminadores da política” (Isto É, out.
1976). Além desses nomes, o articulista Bolívar Lamounier listou
os temas em torno dos quais girariam a redemocratização: eleições,
predomínio da gestão econômica sobre a direção política,
constitucionalização do país, necessidade de ordem, direitos
humanos, uma “voga neoliberal no mundo” e a promissora
“moderação da revolução portuguesa”.
A grande imprensa converteu-se numa das vozes privilegiadas
da redemocratização e construtora de uma narrativa histórica que
consagrou determinados agentes políticos e estabeleceu uma
agenda.
Naqueles anos, mesmo entre marchas e contramarchas, como
se dizia na época, e aqui deve ser referido o Pacote de Abril de
1977, Isto É acompanhou detidamente as iniciativas e arranjos
das invectivas do governo ditatorial para moldar um processo de
transição que não pusesse em risco as bases do poder estabelecido.
Enquanto isso, a oposição ganharia legitimidade nas páginas de
jornais e revistas, a partir de um programa de ação comum entre a
maior parte da oposição e setores cada vez mais amplos da grande
imprensa.
A grande imprensa empresarial, na condição de cronista e
elaboradora dos registros políticos de então, contribuiu para a
definição de marcos divisórios entre passado e presente e para
apontar o futuro, além de sublinhar interlocutores e analistas do
processo, por meio de um agenciamento narrativo junto à chamada
oposição liberal à ditadura militar e, mesmo, aos governantes que,


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embora sob um regime autoritário, buscaram legitimidade social.
Por fim, é possível sugerir que esta capacidade para intervir na
agenda do processo de redemocratização e de, pretensamente,
suprir a subinformação da chamada opinião pública, não seria
abandonada pela grande imprensa brasileira. Além de atuar no
mercado da informação, grandes jornais, revistas e emissoras de
televisão reiterariam, a partir da legitimidade adquirida durante a
redemocratização, ao longo dos anos seguintes até nossos dias,
sua participação, às vezes decisiva, na estruturação de um sistema
democrático restrito à representação política, pouco permeável à


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