História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia


partir dali, poderiam significar interrogações no “programa político”



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partir dali, poderiam significar interrogações no “programa político”
de Geisel e seu compromisso com a distensão e a “normalidade”.


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Com as eleições, o General desejava “manter em suas mãos as
rédeas” do processo político. Percebe-se, assim, a consciência de
que a redemocratização pela via das eleições pressupunha um
processo lento e controlado de transição, interpretação corrente na
época entre analistas como Bolívar Lamounier e Fernando Henrique
Cardoso, citados pelo articulista. Estava posto que as eleições não
deveriam apontar para rupturas: caso contrário, poderiam indicar
riscos ao tramado da redemocratização.
O artigo de Marcos Sá Corrêa mobiliza um conjunto de
informações e ordena um tramado argumentativo que é revelador
da construção da narrativa da redemocratização construída pela
imprensa e que sobreviveria ao passar do tempo. A centralidade
da figura de Geisel como elemento-chave da distensão e
comandante do processo de redemocratização estaria presente em
diversos relatos posteriores, a ponto de tornar-se personagem
principal de obras de grande repercussão, como as escritas pelo
jornalista Élio Gaspari (2002). Contudo, Celso Castro e Maria Celina
D’Araújo, que organizaram o Dossiê Geisel (CASTRO; D’ARAÚJO,
2002, p. 23-30), com parte do acervo documental deixado pelo
General-Presidente, afirmam que “a imagem do governo Geisel
que sai desses papéis é a que enfatiza o controle político, a repressão
à esquerda e à oposição e a censura à imprensa”, contraposta à
representação fixada pelos órgãos de imprensa, que “mostra um
Brasil mais aberto”.
Na edição seguinte (Isto É, jun. 1976), Tão Gomes Pinto
destacou o debate entre estatização e privatização, um tema que
ganhou relevância no governo Geisel, dadas as propensões
nacionalistas do General. O artigo mencionou as preocupações do
Senador Magalhães Pinto, um dos principais conspiradores que
atuaram no golpe de 1964. O Senador via, na expansão do Estado,
“perigosos germens totalitários”. Nessa discussão, era acompanhado
por um contingente de empresários que se manifestaram
publicamente contra o intervencionismo estatal e chegariam mesmo
a referir-se criticamente ao “modelo político autoritário”, num
momento de desaceleração do crescimento econômico.


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A estatização da economia e o AI-5 apareciam nessas narrativas
como elementos inter-relacionados; Estado e sociedade civil, esta
representada por entidades autônomas, são descritos como
elementos antitéticos no conjunto das frágeis condições de
“institucionalização política da sociedade brasileira”. Estava em
jogo “a consolidação da hegemonia liberal no processo imediato
de transição”, conforme aponta Marcos Napolitano (2002, p. 154-
158), e o jornalista Villas-Bôas Corrêa não deixou de notar que,
quanto à inexistência de transparência, pouco mudara nas relações
entre o regime e a sociedade desde o anúncio da distensão: o
projeto político de Geisel seguia como “o mais bem guardado
segredo do país”. Mas, mesmo em condições tão precárias, Villas-
Bôas Corrêa (Isto É, ago. 1976) notava que a imprensa contribuía
para tornar a distensão “um fato, uma realidade acima da dúvida,
abstração transmudada pelo passe de mágica das esperanças, no
concreto e no palpável”. O articulista afirmava que apenas a
“imaginação criadora” poderia perscrutar o porvir, “suprir os vazios
e fincar as estacas do provável”. Com muito esforço, havia sido
possível, “agregando, somando, juntando, costurando,
amalgamando os materiais recolhidos”, levantar intenções e
“colocar de pé, um tanto troncho e desengonçado, o boneco da
distensão”. Advertia que este se tratava apenas de uma “silhueta
recortada ao lusco fusco” e sem “traços nítidos”.
Villas-Bôas Corrêa parece descrever a junção de um conjunto
de fragmentos esparsos com os quais a imprensa, e o conjunto das
mídias, formavam conjuntos na forma de fatos noticiosos, que
viriam a configurar o acontecimento distensão e, de modo mais
abrangente, a abertura e a redemocratização. Está aí o novo tipo
de acontecimento a que se refere Pierre Nora, configurado pelos
meios de comunicação de massa de nosso tempo.
O articulista acreditava, contudo, que depois das eleições
municipais de 1976 “o projeto político [seria] lançado ao mar,
velas pandas, rumo ao porto de regime novo”. Portanto, regime,
imprensa, sistema partidário, todos mantidos na condicionalidade
do resultado das urnas. As eleições ganhavam a dimensão de


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calendário e medidor do pulso da redemocratização e o eleitor,
“tão desacostumado do exercício do dever cívico” estaria
“deliberando sobre o futuro do país”.
A organização da temporalidade e da agenda da
redemocratização brasileira ganhava uma forma coerente, na forma
de um projeto que agiu sobre a temporalidade política então vivida.
Uma narrativa preditiva indicava o caminho: eleições após eleições,
que não deveriam indicar rupturas, um novo regime político seria
construído.
Gestos e movimentos de governo e oposição formavam uma
trama passível de interpretação, sendo que à imprensa coube a
posição de identificar e autenticar os passos dos agentes
considerados fundamentais para a abertura. Um círculo pequeno
de atores ganhava relevância e a estes as atenções deveriam estar
voltadas. As indiscrições e as informações esparsas dotavam a
imprensa do papel de decifradora do tramado político e dos códigos
distinguíveis, num “jogo sutil e pleno de negaças e escaramuças”.
Daí o “recurso da hipótese”, e o testar hipóteses passava a ser o
meio para fazer chegar ao público a interpretação do processo
político e a narrativa de seus desdobramentos (Isto É, out. 1976).
Uma das características do papel exercido pelas revistas
semanais nesse processo foi sua decisiva contribuição no sentido
de fixar marcos de narrativas que concertaram ações e ordenaram
interpretações acerca do ciclo histórico iniciado em 1974.
Ao longo do processo de abertura, paralelamente ao campo
político, a grande imprensa assegurou condições para constituir
uma “visão legítima do mundo social”. O poder político por
excelência “é o poder de fazer grupos, de manipular a estrutura
objetiva da sociedade”, conforme Bourdieu (1990, p. 161-167).
Os dispersos e nem sempre coerentes pronunciamentos e ações do
governo autoritário passavam a ganhar sentido e interlocutores
autorizados para interpretá-los.
Governo e oposição encaminhavam um lento consenso sobre
o futuro a ser trilhado, o que impactou na constituição da memória
histórica do processo. Para Carlos Fico (2010), “as etapas do


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processo de ‘abertura’ foram planejadas para atender ao ritmo
cauteloso estabelecido por Ernesto Geisel”. A imprensa assumiu
uma posição central, portadora de elementos considerados
fundamentais para uma cultura política democrática, como a
liberdade de expressão e a defesa da opinião pública.
Os meios de comunicação atuam, conforme Luís Felipe Miguel
(2002), como uma “esfera da representação política”. Com tal
configuração, são capazes de “formular as preocupações públicas”
ao passo em que fornecem os “esquemas narrativos que permitem
interpretar os acontecimentos”, além de mostrar-se como
“representantes das vozes da sociedade”. É importante levar tal
característica em consideração ao observar o processo de
constituição dos agentes que debatiam em público a abertura
política em meados da década de 1970.
O sistema partidário brasileiro havia sido rearticulado pela ação
de força da ditadura, quando da imposição do bipartidarismo, a


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