História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia


partidárias: investiram na defesa de sua atuação como parte



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partidárias: investiram na defesa de sua atuação como parte
indispensável na estruturação daquela que seria chamada de
sociedade civil. Alguns episódios marcaram essa atuação.
Em primeiro lugar, destaque-se certa narrativa histórica acerca
do desmantelamento do Estado Novo, que acentua o papel da
imprensa, em particular o episódio da célebre entrevista do liberal
paraibano José Américo de Almeida a Carlos Lacerda, no início
de 1945, publicada no jornal Correio da Manhã (22 fev. 1945, p.
14). O entrevistado proclamou que “todos devem intervir da vida
pública”, defender a “opinião democrática” e a “iniciativa particular”
contra a intervenção do Estado e, assim, combater uma possível
continuidade de Getúlio Vargas no poder.
Outro momento marcante foi a reação a uma proposta de Lei
de Imprensa apresentada durante o governo de Juscelino
Kubitscheck, em 1956. Grandes jornais defenderam a “unidade
da imprensa livre”, em favor da liberdade de imprensa como pilar
para a democracia. Em nome da “opinião pública”, aquela
efetivamente informada e consciente, como aponta Flávia Biroli
(2004), pretendiam se opor à ação das massas pretensamente
manipuladas pelo Estado e, no caso em particular, pelo varguismo.
A estrita vinculação entre imprensa autônoma, liberdade,
democracia e mercado de opiniões, movida contra a proposta de
Lei de Imprensa de 1956, estaria presente, praticamente com os
mesmos personagens, no crescente processo de desestabilização e
de contumaz defesa da deposição de João Goulart em 1964.
Na sequência do golpe, a ditadura militar não interrompeu,
pelo contrário, tomou medidas que intensificaram as possibilidades
de um mercado de bens culturais no Brasil e, assim, ensejou a
melhoria do desempenho dos grandes empresários do setor. Em
vários ramos da indústria cultural houve a exploração de
possibilidades inovadoras, e as políticas oficiais de estímulo e


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financiamento à produção cultural não cessaram, mas obviamente
adquiriram o sentido de um dirigismo que pretendia acentuar traços
e valores que estivessem de acordo com os ditames do regime.
Durante a ditadura, no âmbito específico da imprensa de
informação, a circulação dos grandes jornais continuou a aumentar,
em conformidade à própria dinâmica da sociedade, bem como
apareceram novas oportunidades de negócio, como as revistas
semanais de informação geral. Tais publicações, diferentes dos
periódicos ilustrados até então comuns, eram voltadas
prioritariamente para o exercício do jornalismo, com a construção
de um noticiário seletivo e aprofundado em comparação ao dos
jornais diários.
Tampouco a ditadura fechou completamente as possibilidades
de exercício político, posto que deveria assegurar, na administração
pública, os espaços e cargos necessários para suprir as demandas
dos agentes civis que lhe davam sustentação. Por mais restrito que
fosse, o regime procurava mover-se segundo uma “lógica liberal”
(TRINDADE, 1985), com a manutenção limitada de instituições
pretensamente representativas da sociedade, especialmente o
parlamento, o judiciário e a imprensa, as quais, ainda que
precariamente, funcionaram mesmo sob a vigência do Ato
Institucional Número 5 (AI-5), imposto em 1968, quando se
defender do arbítrio dos militares tornou-se impraticável para os
que se opunham abertamente. Mantinha-se a possibilidade de certo
âmbito de discussões políticas, que não punham em questão a
existência da ditadura, mas que eram alvo da cobertura da imprensa
e atraíam a atenção de um público leitor mobilizado a participar
de eleições parlamentares, cujos resultados, em princípio, pouco
deveriam surpreender.
A imprensa veio a transformar-se num dos vértices do triângulo
que era ainda composto pelo regime e pelo sistema partidário.
Estava, assim, delimitado o campo no interior do qual deveriam
atuar os agentes políticos com legitimidade para ocupar uma esfera
pública e os interlocutores das relações políticas que tramariam a
redemocratização: o regime, por meio da fala dos Generais, o


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sistema partidário e a “opinião pública”, cujo representante era a
grande imprensa, com foco no calendário eleitoral, cuja relevância
acentuou-se depois daqueles resultados. Iniciava-se ali um processo
que dotaria os processos eleitorais de relevância, com a reabilitação
da política e do voto popular. De certo modo, em resposta ao
regime e à supressão de liberdades próprias da cidadania (civil,
política e social), os processos eleitorais apareceram não mais apenas
como mecanismos formais de uma democracia de fachada, mas
como meios de expressão consciente da população e de elaboração
de uma cultura política democrática. A política de massas e o
voto popular foram reabilitados, pois mesmo o partido oficial do
regime militar, a ARENA, viu-se na necessidade de moldar sua
atuação em função das pressões eleitorais (GRINBERG, 2009).
Isto É começou a circular quase dois anos depois do célebre
anúncio, por parte do General Ernesto Geisel, em 1974, de que
não aceitaria “pressões indevidas” dos que pensavam “poder
apressar” as alterações no regime por meio de um “jogo de pressões
manipuladas sobre a opinião pública e, através desta, contra o
governo”. Ameaçara que tais pressões apenas serviriam para “provocar
contrapressões de igual ou maior intensidade, invertendo-se o processo
de lenta, gradual e segura distensão”. Assim, foi sob a condição de
que quaisquer pressões consideradas inaceitáveis poderiam fazê-lo
retroceder, que houve a proposição, por parte do regime, de relações
políticas que visavam a “institucionalização do ideário da Revolução
de 64” (Folha de S. Paulo, 30 ago. 1974, p. 1).
O primeiro número de Isto É, em maio de 1976, trouxe um
artigo de Marcos Sá Corrêa que destacava: as eleições de 1974,
quando o MDB havia obtido uma surpreendente vitória na
composição do Congresso Nacional, tornaram “todas as próximas
[eleições] definitivamente mais estimulantes”. Se, até então, a única
emoção despertada no “público” dizia respeito à expectativa sobre
se os sufrágios efetivamente ocorreriam, depois daquele resultado
surpreendente, “mudou tudo”. Derrotas eleitorais da ARENA, a


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