História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia


Partido do Movimento Democrático Brasileiro), além de outros



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Partido do Movimento Democrático Brasileiro), além de outros
partidos políticos criados depois de 1979. Sabe-se que a mídia
jornalística se apresenta como uma das instâncias organizadoras
do social e, ao narrar e atribuir significados, angaria legitimidade
como uma das estruturas definidoras do que deve ser lembrado ou
esquecido.
Há uma renovada discussão acerca das interpretações
predominantes sobre a transição para um sistema político
democrático no Brasil, até aqui concentradas basicamente em torno
de três eixos: o retorno aos valores liberais-democráticos que
estariam em disputa no momento do golpe civil-militar de 1964; a
ruptura com o autoritarismo que marcara o regime, como um
contraponto aos seus relativos êxitos econômicos; por fim, o pacto
que teria sido firmado entre governo e oposição, com a atuação de
um amplo conjunto de forças sociais (ABREU; LATMAN-
WELTMAN, 2006, p. 69).
Para os fins deste texto, será tomado o caso de uma revista
semanal que surgiu exatamente durante este período histórico.
Trata-se de uma revista ainda em circulação e que já passou por
diversas fases. Em certos momentos, especialmente no início de
suas atividades, chegou a ser uma publicação influente, condição
que perdeu, ao menos em parte, ao longo do tempo: a revista Isto É.


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Publicada pela Editora Três, empresa fundada em 1972 pelo
argentino naturalizado brasileiro Domingo Alzugaray, a revista veio
a público em 1976, sob a editoria do jornalista Mino Carta, que
recentemente havia deixado, em meio a controvérsias, a revista
Veja. É possível identificar, nas páginas das primeiras edições da
revista, a construção de elementos da narrativa que comporia a
compreensão do processo de redemocratização e que deveria ser
apresentada ao “público”. Isto É foi inicialmente uma revista de
colunistas e de especialistas e, dada sua condição de circular entre
jornalistas e os assim chamados “formadores de opinião”, as
posições da revista, naquele momento, são relevantes para uma
interpretação histórica das ideias políticas que moldaram o repertório
comum que mediou as negociações entre regime autoritário e
oposição.
A redemocratização brasileira situou-se no estreito caminho
imposto por uma ditadura militar, limitada a um calendário de
resultados eleitorais que, sendo progressivamente favoráveis a uma
oposição consentida, deveriam ser aceitos pelas partes envolvidas
de modo a assegurar legitimidade a um jogo político que não
ameaçasse a ordem. Coube reduzir ao máximo o alcance das
possíveis demandas advindas de um processo de democratização
social e restringi-lo a determinados momentos demarcados pelas
negociações. Associar democracia, tão só, a eleições regulares para
todos os níveis do Executivo e do Legislativo, foi uma operação a
que governo e oposição dedicaram-se e cujos tramados podem ser
detectados nas páginas de jornais e revistas semanais.
Naquele momento é possível identificar a construção de
elementos da narrativa que compôs e organizou a compreensão
do processo de redemocratização por parte do “público”, entendido
como uma imagem ideal do que seria o conjunto da população
interessada nas negociações políticas em curso e, assim, participante
da esfera de circulação de informações circunscrita entre o governo,
o sistema partidário e a grande imprensa.
É necessário atentar para um processo histórico de grande
amplitude e que interfere nos mecanismos sociais que estou


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analisando. Entendo ser importante compreender mais detidamente
o fenômeno sociocultural da conversão do “público” em “opinião
pública”, para melhor situar o papel assumido pela imprensa. Cabe
indicar que Jürgen Habermas (1984, p. 29-33) localiza, entre os
séculos XVIII e XIX, a emergência de uma esfera pública
pretensamente autônoma em relação ao poder público, na “trilha
da troca de mercadorias”, quando uma série de atividades, antes
restritas ao privado, tornaram-se “publicamente relevantes”. Como
momento decisivo dos desdobramentos desse processo, a
massificação da produção industrial levaria uma cultura impressa
a se transformar rapidamente numa indústria cultural abrangente.
Nesse processo, o público ganhou a condição de “opinião pública”,
como um novo e tangível agente dos jogos de poder. Em 1922,
nos Estados Unidos, Walter Lippmann identificou a opinião pública
como motor principal da democracia e sua condição de existência
seria a imprensa, capaz de suprir as informações que as políticas
do Estado tendem a restringir.
Em torno destas duas bandeiras, defesa da opinião pública e
da liberdade de imprensa, ao longo do século XX a grande imprensa
brasileira, aos poucos, construiu uma narrativa própria que a
localizou como parte necessária nos avanços e recuos de nossa
democracia, bem como moldou um programa de ação que
influenciaria tomadas de posição política.
Em contraposição à massa desinformada, a “opinião pública”
aparece como uma dimensão da sociedade formada por um círculo
de leitores bem informados e dotados de ação política racional,
mas geralmente minoritários.
Na defesa da autonomia da opinião pública, grandes
companhias empresariais do ramo das comunicações e da produção
de noticiário arrogaram-se o papel de porta vozes privilegiados da
sociedade, na contraposição a certos governantes.
No Brasil, a expansão e diversificação de um amplo público
consumidor de bens culturais e o acesso à informação por meio de
impressos, ofertados em grande escala a um mercado dinâmico,
ocorreram em paralelo, e sob influências recíprocas, com os conflitos


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em torno da estruturação de um sistema político que fosse mais
ou menos refratário ou submetido às demandas populares.
Grandes empresários do setor compreenderam a extensão de
seu papel político, não apenas como integrantes de coalizões


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