História do Tempo Presente: oralidade, memória, mídia



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semanais no Brasil (1960-1980), organizado por Sílvia Maria Fávero Arend
e com capítulos escritos por Cristiani Bereta da Silva, Luciana Rossato,
Marlene de Fáveri, Paulino de Jesus Francisco Cardoso e Reinaldo Lindolfo
Lohn, além de orientandos, orientandas e bolsistas. O presente texto é resultado
das reflexões contidas em capítulo publicado naquele livro, mas com
abordagem diversa.


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para a compreensão dos fenômenos sociais que marcam a
sociedade brasileira atual.
Sabe-se que, em pelo menos duas dimensões fundamentais
para a escrita de uma História do tempo presente, as mídias
apresentam-se como elementos de relevo.
É preciso referir-se, em primeiro lugar, ao seu papel enquanto
estruturadoras do tempo histórico. Pierre Nora (1988, p. 181-188),
em texto hoje clássico, chamou a atenção para o “retorno do fato”
como uma problemática necessária para uma historiografia
renovada. Para o autor, o tempo histórico ganhou contornos e
dinâmica novos a partir da intervenção dos meios de comunicação
de massa e da presença constante de acontecimentos em nossas
experiências.
As mídias conduzem uma fabricação permanente de novidades,
na forma de acontecimentos, que contribuem para organizar a
vivência da temporalidade. Nora acentua que não se refere ao
acontecimento que fora subsumido pela historiografia que
predominou em boa parte do século XX, mas a outro tipo de
acontecimento, construído nos marcos da sociedade de massas e
de seus meios de comunicação.
Como segunda dimensão a ser destacada, deve-se observar
que, ao imporem imediatamente o vivido como História, os meios
de comunicação de massa também atuam na elaboração de uma
escrita própria da História, que antecede a elaboração historiográfica
e lhe estabelece, inclusive, limites e possibilidades. Quantos foram
os momentos em que coube às próprias mídias nos afirmar que
vivíamos uma situação digna de registro histórico? Quantos foram
os momentos em que coube às mídias afirmar marcos que
diferenciaram tempo passado e tempo presente? Nesse sentido, os
meios de comunicação organizam a temporalidade vivida por meio
da oferta de uma narrativa que é diariamente compartilhada,
simultaneamente, por diferentes estratos da sociedade, individual
ou coletivamente. Cada jornal, cada telejornal ou cada revista
propõem uma coleção de eventos dignos de registro e que serão
memoráveis e constroem imediatamente um acervo de notícias


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que conformam acontecimentos.
Essa organização da temporalidade e de sua narrativa opera
por meio de uma fragmentação sistemática do real, reduzido ao
acontecimento, e sua recomposição em temáticas específicas, nas
quais política, economia, cotidiano, comportamento, relações
internacionais, entre outras, ganham cada qual um espaço próprio
e restrito, o que faz com que suas interdependências e relações
sejam raramente perceptíveis e, no mais das vezes, simplificadas.
Para as situações em que é necessário amarrar e garantir uma
visão de conjunto de temas mais vastos recorre-se aos especialistas
ou aos grandes articulistas que, em suas colunas, apresentam ao
leitor um rearranjo desses fragmentos num todo verossimilhante.
Isso ocorre, segundo Nora, porque a enorme quantidade de
fragmentos na forma de notícias gera uma “superinformação
perpétua”, o que tem como contraface a “subinformação crônica”.
A quantidade e a fragmentação afetam a capacidade de conhecer
o que ocorre e ocorreu. É neste par inseparável (superinformação e
subinformação) que reside a importância de produtos dos mass
media como as revistas semanais nas sociedades contemporâneas.
As revistas semanais apresentam-se como as portadoras da
capacidade de dar conta da superinformação do dia a dia, ao
organizar e classificar os acontecimentos e, pretensamente, minorar
a subinformação crônica de seus leitores.
No caso da esfera das relações políticas, essas constatações
são de fundamental importância. Os acontecimentos políticos
tradicionais assumiram as características de que lhes dotaram os
meios de comunicação de massa e conjugaram-se a uma
“teatralidade” imposta pelas novas formas de apreensão do vivido
e do imediato.
Um agenciamento ordenador dos acontecimentos ocorre por
meio da elaboração constante de discursos narrativos que produzem
efeitos de real e são geradores de significado. Um de seus fatores
distintivos está na condição “preditiva” de que são capazes, ao
operarem as narrativas contemporâneas. O discurso narrativo prediz.
Para Roland Barthes (1972, p. 35-44), é como se afirmasse todo o


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tempo: “se você agir de tal maneira, se você escolher tal alternativa,
eis o que vai obter”. Há então um conjunto de prescrições implícito
em instruções e padrões, que servem como guias para a atribuição
de sentido às experiências sociais de coletividades e indivíduos.
As narrativas jornalísticas são, assim, participantes da ordenação
da temporalidade contemporânea. A comunicação de massas e a
instantaneidade possibilitaram à imprensa a participação na trama
narrativa do tempo presente.
Ao considerar a junção dessas duas grandes dimensões – o
pretenso papel de intermediárias entre a superinformação e a
subinformação, e a elaboração de um discurso narrativo preditivo
e ordenador da temporalidade – encontraremos nas revistas
semanais brasileiras, a partir de meados da década de 1970, uma
intensa atividade no sentido de constituir-se como parte dos
acontecimentos que marcaram o processo que ficaria conhecido
como de redemocratização de nosso sistema político.
Sabe-se que a longa transição brasileira obedeceu a limites
estabelecidos por uma ampla negociação. Diferente da queda de
regimes congêneres, a redemocratização brasileira não foi um
processo abrupto e pareceu muito mais com uma
institucionalização, passo a passo, de acordos que estabeleceram
a agenda, o calendário e o ritmo das mudanças adotadas, em
relação aos quais o processo político amoldou-se.
Um dos personagens políticos atuantes nesse processo foi a
própria grande imprensa que, ao longo das décadas de 1970 e
1980, acentuou sua importância sociocultural no Brasil, tanto pelas
mudanças tecnológicas, então ocorridas no campo das
comunicações, quanto pelas configurações da sociedade brasileira,
que passou por um processo de urbanização acelerado, com
destaque para as camadas médias no conjunto da população e a
disseminação de estilos de vida ajustados ao consumo de bens e
serviços modernos.
A mediação entre os agentes políticos e o público de leitores
envolveu a construção de um repertório interpretativo que acentuou
o protagonismo de determinados agentes sociais e políticos, num


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processo de elaboração de uma memória histórica sobre a
democratização brasileira e a superação da ditadura militar. Este
repertório era composto por uma terminologia política que alcançou
valor simbólico ao longo do período e que alimentou os oponentes
ao regime: democracia, voto, justiça eleitoral, cidadania, direitos,
liberdade de imprensa, entre outros.
A transição, assim montada, procurou limitar o processo de
democratização brasileiro às disputas eleitorais e aos mecanismos
institucionais derivados dos acordos conduzidos entre o governo,
representado politicamente pela ARENA (Aliança Renovadora
Nacional — posteriormente, PDS: Partido Democrático Social) e
a maior parte da oposição, que se abrigava sob a legenda do MDB
(Movimento Democrático Brasileiro — posteriormente, PMDB:


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