História: Debates e Tendências V. 17, n. 1, jan./jun. 2017, p. 157-179



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História: Debates e Tendências – v. 17, n. 1, jan./jun. 2017, p. 157-179

Resumo

*

  Doutor em História, Professor Adjunto de História 



na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul

Brasil, e-mail: fabianoqr@yahoo.com.br

O abastecimento de água na perspectiva da 

historiografia europeia e hispano-americana

The water supply from the perspective of european and spanish-american historiography

El suministro de agua en perspectiva de la historiografia europea y hispano-americana



Fabiano Quadros Rückert*

No decorrer das últimas décadas do 

século XX, o abastecimento de água foi 

gradualmente recebendo maior aten-

ção dos historiadores que abordaram o 

tema a partir de diferentes perspectivas 

teóricas e metodológicas e com múlti-

plas escalas espaciais. Considerando a 

valorização  do  tema  na  historiografia 

contemporânea, o texto apresenta um 

panorama dos estudos sobre a história 

do abastecimento de água na Europa e 

na América Latina, destacando aspectos 

como as relações entre a oferta de água 

e o capital privado, os conflitos de inte-

resse existentes na gestão dos recursos 

hídricos e o papel do poder público na 

criação e administração de sistemas mo-

dernos de abastecimento. A primeira se-

ção do artigo destaca pesquisas realiza-

das na Inglaterra e França – dois países 

pioneiros nos estudos sobre a história do 

abastecimento de água. Na sequência, 

o artigo explora trabalhos produzidos 

pela historiografia espanhola. A terceira 

seção contempla experiências de moder-

nização do abastecimento de água no 

México e na Argentina. 



Palavras-chaves: Abastecimento de água. 

História. Historiografia.

Introdução

A história do abastecimento de água 

possui uma longa temporalidade. No Im-

pério Romano as técnicas de canalização e 

distribuição de água possibilitaram a cons-

trução de aquedutos que abasteciam fon-

Recebido em 11/04/2016 - Aprovado em 10/12/2016

http://dx.doi.org/10.5335/hdtv.17n.1.




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tes públicas, prédios do governo, casas de 

banho e residências da elite. Os estudos de 

autores como Evans e Malissard destacam a 

importância social, cultural e econômica do 

abastecimento de água para as antigas cida-

des romanas (EVANS, 1997; MALISSARD, 

1996). Documentos da antiguidade, como a 

obra de Sextus Julius Frontinus, escrita ori-

ginalmente no primeiro século da era cristã 

(FRONTINUS, 1983), registram o empenho 

do governo romano na manutenção dos 

aquedutos  e  na  fiscalização  do  volume  de 

água consumido.

A experiência dos antigos romanos na 

criação de técnicas, de leis e de procedimen-

tos administrativos, para organizar a cap-

tação e a distribuição de águas, representa 

uma etapa importante na história do abaste-

cimento das cidades. No entanto, o uso das 

águas na antiguidade romana não está con-

templado pelo recorte cronológico do estu-

do. Proponho, neste artigo, uma abordagem 

focada nos séculos XIX e XX, período em que 

ocorreram grandes mudanças nas relações 

entre os grupos humanos e a água. A com-

preensão dessas mudanças implica no estu-

do das relações entre o binômio urbaniza-

ção/industrialização e a valorização da água 

nos centros urbanos. Igualmente importante 

para o recorte cronológico fixado, é a reflexão 

sobre a transformação da água em produto 

comercial e a sua aplicação para manutenção 

da higiene e da salubridade urbana.

Na segunda metade do século XIX, 

ampliar a oferta de água potável para as 

cidades  tornou-se  um  desafio  para  as  au-

toridades políticas, sobretudo nos núcleos 

urbanos que estavam inseridos no processo 

de expansão da Revolução Industrial. Sem 

água em abundância, as populações urbanas 

estavam mais expostas às doenças endêmi-

cas e epidêmicas e o desenvolvimento das 

indústrias poderia ser comprometido. Na 

intenção de promover a salubridade urbana 

e de assegurar a viabilidade do desenvolvi-

mento econômico, o poder público e o capi-

tal particular promoveram ações voltadas 

para a modernização dos sistemas de capta-

ção, tratamento e distribuição de água.

O processo de criação e expansão de 

redes de abastecimento ganhou forma inicial 

na Europa e estava relacionado à disponibi-

lidade de capitais e à existência de uma de-

manda por água em grande quantidade. Na 

América Latina do século XIX, também hou-

ve crescente demanda por água nos princi-

pais centros urbanos e surgiram empresas 

voltadas para o abastecimento de água; no 

entanto, a maior parte dos capitais disponí-

veis – muitos procedentes do exterior – foi 

aplicada em setores mais dinâmicos da eco-

nomia, como ferrovias, mineração, cultivos 

para exportação e títulos da dívida pública. 

Tanto na Europa, quanto na América Lati-

na, o poder público ofereceu incentivos para 

os interessados na exploração do abasteci-

mento de água. Criou-se, assim, uma con-

juntura favorável para negociações entre o 

poder público – responsável pela definição 

de prioridades de uso das águas – e o capital 

particular – responsável pelos investimentos 

e pela comercialização do produto.

Diante do que foi exposto nesta intro-

dução, importa reconhecermos que o abaste-

cimento de água para as cidades dos séculos 

XIX e XX apresentou diferentes ritmos de 

desenvolvimento e foi influenciado por con-

junturas políticas de âmbito nacional ou in-




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ternacional. Considerando a diversidade de 

experiências ocorridas durante a busca pela 

universalização do abastecimento de água, 

o artigo apresenta uma revisão bibliográfica, 

focada em estudos sobre o respectivo tema 

em três países da Europa (França, Inglater-

ra e Espanha) e em dois países da América 

Latina (México e Argentina). Cabe ressaltar 

que o objetivo principal do artigo é cons-

truir um panorama sobre “o estado da arte” 

e identificar temas e problemas destacados 

pela bibliografia.

A história do abastecimento de água na 

França e na Inglaterra

Na década de 1980, surgiram na França 

os primeiros estudos de história sobre o abas-

tecimento de água. Em 1984, André Guiller-

me publicou o livro Le Temps de l’eau: La cité, 






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