História da Urologia. Visão panorâmica. Breves notas



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“História da Urologia. Visão panorâmica. Breves notas” (1) 

Manuel Mendes Silva, Médico urologista (Fevereiro de 2015) 

É  muito  verdadeiro  o  conhecido  aforismo  de  Abel  Salazar  quando,  no  primeiro  quartel  do 

século XX dizia que “o Médico que só sabe Medicina, nem Medicina sabe”. 

A Medicina sem Cultura, nem é Medicina! O Médico, com M maiúsculo, tem de, necessita de, 

ser culto! Pois o Médico é muito mais que o técnico da medicina ou o funcionário do centro de 

saúde ou do hospital. E nessa cultura tem de estar incluída a História Universal, a História da 

Medicina, a História da Especialidade. Recordar o passado, não (só) para o glorificar, mas para 

explicar o presente e para conduzir o futuro. Já há 25 anos afirmávamos que “o Médico que 

não  sabe  a  História  da  Medicina,  e  da  Especialidade  à  qual  se  dedicou,  não  é  um  Médico 

completo. Gostando-se verdadeiramente duma Especialidade Médica ou Cirúrgica, sentimos a 

premente  necessidade  de  saber  das  suas  origens,  da  sua  evolução  e  de  conhecer  os  seus 

protagonistas”. 

A  Urologia  é  a  Especialidade  médico-cirúrgico-técnica  que  estuda  e  trata  dos  problemas  e 

doenças do aparelho urinário e sexual masculino. Etimologicamente significa “ciência”, estudo 

(logos), da urina, do aparelho urinário (uro). O termo “Urologie” foi criado por Leroy d´Etoilles, 

em  Paris,  cerca  de  1840.  Mas,  se  a  Urologia  existe  como  especialidade  médico-cirúrgica 

independente  há  menos  de  século  e  meio,  desde  tempos  imemoriais  que  se  conhecem 

vestígios de patologias urinárias e genitais em pedras urinárias, em múmias, em testemunhos 

em pinturas e, posteriormente, em escritos, descrevendo-as, ou então desenhos de cirurgias 

urológicas externas simples nos genitais, por motivos religiosos (circuncisão), ou de justiça, ou 

para  “produzir”  eunucos  para  haréns  de  poderosos  (castração),  na  China,  na  Índia  e  em 

algumas  civilizações  medio  orientais.  Também  existem  representações  de  actos  terapêuticos 

como sondagem da bexiga – chineses, punção da bexiga com agulhas – hindus, litotomia por 

talha  –  assírios e  gregos. No  antigo  Egipto,  os  papiros  de Ebers e  de  Smith  descrevem  várias 

doenças que hoje são do foro urológico. 

Mas  a  História  da  Urologia  confunde-se  com  a  História  da  Medicina  e  com  a  História  da 

Cirurgia,  repercutindo-se  os  grandes  passos  e  avanços  da  História  da  Medicina  e  Cirurgia 

também na História da Urologia.  

É  com  Hipócrates  (séc.  V  AC)  que  nasce,  na  Grécia,  a  Medicina,  que  posteriormente  Galeno 

(séc.  I  DC)  confirmará,  definindo  os  preceitos  e  a  prática  da  Medicina  com  a  descrição  de 

numerosas  afecções,  algumas  “urológicas”,  com  base  em  agrupamentos  de  sintomas  e  na 

correcta observação, incluindo a observação da urina, a uroscopia.  

Para Hipócrates, a Medicina não incluía a Cirurgia, como era a “talha”. Com a sua teoria dos 

humores, enfatizava, no seu conhecido juramento, o primado do doente. Galeno estabeleceu a 

relação  entre  a  lesão  e  a  função  alterada  e  provou  a  origem  renal  da  urina,  sendo  a  sua 

observação muito importante no contexto da teoria dos humores. 

uroscopia era um meio semiológico fundamental desde essa época clássica até ao séc. XIX 

(sendo  às  vezes  até  utilizada  ainda  hoje…),  mas  também  era  muito  utilizada  por  charlatães 

para  revelar  múltiplas  coisas,  como  gravidez,  sexo  do  feto,  e  até  castidade…  Para  além  da 



observação  visual  em  ambiente  iluminado,  em  repouso  e  após  agitação,  em  recipientes 

apropriados,  as  “matulas”,  de  vidro  transparente,  bojudos  e  de  colo  mais  estreito  embora 

largo, era também incluído o cheiro, o tacto e o gosto da urina. As várias características dessa 

observação eram explicadas pela teoria dos humores como consequência de doenças variadas.  

No dealbar do séc. I, a Escola de Alexandria, sob controle dos Romanos, praticava a cirurgia, 

nomeadamente a litotomia com o “pequeno aparelho” (faca e poucas pinças), como descreve 

Cornelius Celsus. Por essa época Dioscórides escreve uma farmacopeia, com numerosas drogas 

de origem mineral, vegetal e animal, que marcará mais de um milénio. 

A Idade Média na Europa representou muitos séculos de letargia, de feitiçaria, com laivos de 

astrologia  e  de  alquimia.  Os  conventos  guardaram  e  copiaram,  todavia,  informações  da 

antiguidade,  algumas  delas  aproveitadas  posteriormente  no  Renascimento.  A  Escola  de 

Salerno,  seguindo  os  conceitos  de  Hipócrates  e  Galeno,  foi  contudo  um  marco  nesta  época 

medieval. Praticava a dissecção animal em porcos e, curiosamente, os preceitos desta escola 

eram redigidos em verso. Para o final da Idade Média começam a surgir as Universidades em 

cidades que hoje são de Itália, França, Alemanha, Países-Baixos, Inglaterra, Espanha e Portugal, 

e  também  os  primitivos  Hospitais  (Hospícios)  em  que  se  separavam  os  Físicos  (médicos),  os 

Cirurgiões e os Boticários. 

No médio oriente, norte de África e Espanha, a medicina árabe (e também alguma cirurgia) foi 

bastante desenvolvida e ficaram para a História nomes como Rhazes, Avicena e Averroes. Em 

Bagdad,  Cairo  e  Córdoba,  sedes  de  califados,  a  medicina  árabe  atingiu  expoentes  de 

desenvolvimento,  e  é  reconhecida  a  importância  da  Escola  de  Córdoba  na  Península  Ibérica. 

Avicena, no séc XI, seguia os ensinamentos de Hipócrates e Galeno e a biologia de Aristóteles; 

em  relação  à  urologia,  no  seu  livro  “Canône  de  Medicina”,  descreve  com  pormenor  sondas 

uretrais.   

Na Europa dessa época praticava-se a litotomia, sobretudo em Espanha, França e Alemanha. 

Era realizada por talha perineal mediana, através do “grande aparelho” (faca e várias pinças de 

vários  feitios).  Ficaram,  neste  campo,  nomes  como  Mariano  Santo,  e  vários  membros  da 

família  Collot  e  Tollet  (até  ao  séc.  XVII).  Havia  também  litotomistas  itinerantes,  que  iam  de 

terra em terra (de feira em feira) tratando os doentes locais que a isso se dispunham. Devia ser 

muito grande o sofrimento provocado pela doença, para a tal “cura” se disporem os doentes, 

pois  só  de  olhar  os  instrumentos  do  “grande  aparelho”  nos  arrepiamos  como  quando  vimos 

instrumentos de tortura… 

No Renascimento (séc. XVI) aparece e realça-se a experimentação versus a tradição, a prática 

versus  a  teoria.  Na  Medicina,  existem  avanços  significativos  na  Anatomia,  com  Vesálio,  na 

Cirurgia,  com  Ambroise Paré  e  na  renovação/revolução  da Medicina  clássica,  (de  Hipócrates, 

Galeno e Avicena), com Paracelso. Em relação à Urologia, realçamos uma curiosidade histórica 

que exemplifica as diferenças entre o séc. XV e o séc. XVI relativamente à próstata: no célebre 

desenho de Leonardo da Vinci “a cópula”, de 1492, não está referenciada a próstata, apenas a 

uretra  e  a  bexiga  masculina.  Só  em  1555  André  Vesálio  a  representa  e  a  descreve,  como 

“carnosidades da verga”.  




Nos  séculos  XVII  e  XVIII  existem  avanços  significativos  em  relação  às  ciências  da  natureza. 

Aparecem  as  primeiras  Associações  Científicas  e  as  Academias.  Na  Medicina  são  de  realçar 

nomes como Bacon, Harvey – descobridor da circulação sanguínea, Sydenham, Van Helmont, 

Sylvius, Bichat, na Fisiologia, e, com a descoberta do microscópio, Malpighi na microcirculação, 

Leeuwenhoeck na microbiologia e Morgagni na anatomia-histologia patológica. 

A  Urologia,  nos  séculos  XVI  a  XVIII,  ainda  primitiva  e  não  especializada,  fazia  o 

reconhecimento,  na  prática,  de  poucas  afecções,  através  de  complexos  de  sintomas  e  da 

observação e análise da urina – a Uroscopia, e o seu tratamento através de águas e de algumas 

drogas  de  origem  mineral,  vegetal, ou  animal,  segundo  Dioscórides  (séc.  I)  e  Garcia  de  Orta, 

que  no  séc.  XVI  trouxe  para  a  farmacopeia  numerosas  drogas  medicinais  do  Oriente.  Em 

relação  à  cirurgia  continuava  a  praticar-se  a  cirurgia  externa  dos  genitais,  dos  herniados  e 

potosos,  a  sondagem  da  bexiga  e  a  litotomia  vesical pelos  litotomistas.  Com  a  expansão  das 

doenças  venéreas  e  suas  sequelas  –  os  apertos  da  uretra,  desenvolve-se  a  instilação, 

exploração e dilatação da uretra, e são de realçar nomes como Amato Lusitano, Filipe Velez, 

André  Laguna,  com  a  técnica  das  “velinhas”  (séc.  XVI)  e  de  Francisco  Diaz,  que  publicou  em 

Espanha,  no  séc.  XVI  o  1º  Tratado  de  Urologia  “Las  enfermedades  de  los  riñones,  vexiga  y 

carnosidades de la verga”.  

As doenças venéreas, nomeadamente a blenorragia (gonorreia) e a sífilis, eram muitas vezes 

consideradas  a  mesma  doença.  Tratavam-se  com  anti-flogísticos  externos,  instilações  e 

lavagens da uretra (blenorragia), fumigações com enxofre e mercúrio, injecções com arsénico 

(“Salvarsan”),  este  já  no  início  do  séc.  XX  (sífilis).  Os  tratamentos  só  mudariam  com  a 

antibioterapia.  

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