História da arquitetura grega



Baixar 248.76 Kb.
Pdf preview
Página12/15
Encontro25.05.2021
Tamanho248.76 Kb.
1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   15
A DEMOCRACIA E A ÁGORA 

 

A  terceira    etapa  mostra    o  estabelecimento  da  democracia  e  o  surgimento  da  ágora  na 



cidade  não  mais  como  o  espaço  de  reunião  da  assembléia  dos  guerreiros,  mas  como  o 

espaço público por vocação onde se reúnem os cidadãos e onde a palavra e a retórica geram 

o  conceito  de  cidadão  livre,  consciente  do  seu  lugar  social,  a  cidade  clássica.  A  força  da 

palavra  estava  embasada  no  sentido  de  igualdade  entre  os  cidadãos  e  marcava,  em  todo 

conjunto social e urbano, o equilíbrio próprio desta fase da civilização grega, como lemos 

em Vernant (1998): 

 

“O  que  implica  o  sistema  da  polis  é  primeiramente  uma 



extraordinária  preeminência  da  palavra  sobre  todos  os  outros 

instrumentos  do  poder.  Torna-se  o  instrumento  político  por 

excelência  ,  a  chave  de  toda  autoridade  no  Estado,  o  meio  de 

comando e de domínio sobre outrem... A palavra não é mais o termo 

ritual,  a  fórmula  justa,  mas  o  debate  contraditório,  a  discussão,  a 

argumentação.” ( pág 41 ) 




 

25 


 

Se a polis  se instituiu  no século  VIII  a.C.  através da  aristocracia  e da ágora como espaço 

para a assembléia, foi a partir do século VI a.C.- pelas reformas de Sólon – que a sociedade 

grega  encontrou  este  equilíbrio  do  demos,  o  povo,  nas  suas  expressões  materiais  e 

espirituais. 

Se é verdade que a sociedade entre iguais, cidadãos livres das cidades, foi uma sociedade 

de  poucos,  também  é  verdade  que  a  transformação  da  civilização  grega  atingiu  pontos 

fundamentais para ela e para a civilização ocidental. A filosofia, as formas de arte e técnica, 

e a democracia, nasceram deste processo vital de busca de uma capacidade de decisão sobre 

o destino de suas próprias vidas.  

A polis clássica era um universo equilibrado dos direitos de cada cidadão , refletindo este 

equilíbrio  em  suas  diversas  formas,  fosse  na  construção  de  casas  e  templos,  fosse  na 

construção de cidadãos pela educação. 

A  sociedade  clássica  grega  foi  um  momento  de  contradições  intensas  ,  mas  equilibradas, 

resultando numa unidade impressionante. 

Corpo e espírito, artificialidade e natureza, razão e paixão, são formas de uma contradição 

constante  mas  transparente  no  homem  grego  e  seu  sentido  de  unidade.  O  demos  tinha  as 

suas  instituições  expostas  na    díade  cidade  –sociedade,  unidade  referente  à  pátria,  que 

congregava os seus sentimentos e intenções. Defender a pátria era defender a cidade e o que 

ela representava, seus antagonismos e paixões, consensos e razões. 

Razão e paixão são os elementos que constituíam os discursos e debates na agora, coração 

pulsante da cidade clássica. Historia e contemporaneidade estavam presentes nas presenças 

distintas da ágora e da acrópole, pois se na primeira se debatiam as políticas, na segunda se 

confinavam  os  destinos.  Homens  e  deuses  formam  o  coração  e  a  mente  da  civilização 

clássica. 

A acrópole ainda guardava os seus aspectos de fortificação – herança física e espiritual do 

passado  micênico  –  e  a  ela  os  habitantes  podiam  correr  como  última  defesa  da  cidade, 

embora  fosse,  naquele  momento,  o  recinto  dos  deuses  e  seus  templos.  Mas  são  os  deuses 

que  comandam  o  destino  humano  e  nossa  existência  trágica  no  teatro  das  nossas 

vicissitudes, a vida. 




 

26 


A  ágora  guardava,  do  período  da  aristocracia,  apenas  o  debate  e  a  força  da  palavra  e 

continha o desejo de futuro no calor das decisões filosóficas, políticas, civis. Nela podia-se 

ver  a  vida  civil  retratada  nas  suas  mais  diversas  formas  de  mercadores  a  filósofos,  de 

políticos a soldados, decisões da vida comum – pendengas  entre cidadãos – e decisões da 

vida pública - colônias e guerras – que serão a sua grandeza e a sua desgraça. 

Todos os espaços da cidade, próprios da vida civil, eram abertos e acessíveis aos cidadãos. 

As casas se misturavam com as áreas públicas e religiosas, e não havia distinção de classes 

sociais, fosse pela relevância da arquitetura ou pela localização na cidade. 

A igualdade de direitos era, também, um direito de lugar, um direito de falar e um direito de 

estar. As práticas públicas , religiosas e civis, congregavam a todos por mais diferentes que 

fossem, mas que, diante do sentimento comum e das relações de direito, se assemelhavam  

e criavam a unidade da polis. 

O  comedimento  das  construções  e  das  cidades  era  o  comedimento  do  comportamento  do 

homem  clássico    que,  regrado  por  um  sentimento  de  domínio  sobre  si  mesmo,  entendia  a 

sua presença como extensão da sua sociedade. Os atos heróicos do guerreiro não eram mais 

a noção de virtude em batalha, mas eram, então, a dedicação da vida pessoal na defesa do 

seu  lugar  na  batalha  ,  seu  lugar  social,  sua  cidade.  Surge  um  novo  guerreiro,  o  hoplita, 

fortemente  armado,  e  que  combate  em  grupo,  em  formação  cerrada,  em  falange,  como 

relata Vernant (1998): 

“Mas o hoplita já não conhece o combate singular; deve recusar, se se 

lhe  oferece,  a  tentação  de  uma  proeza  puramente  individual.  É  o 

homem  da  batalha  de  braço  a  braço,  da  luta  ombro  a  ombro.  Foi 

treinado  em  manter  a  posição,  marchar  em  ordem,  lançar-se  com 

passos  iguais  contra  o  inimigo,  cuidar,  no  meio  da  peleja,  de  não 

deixar  seu  posto....  Até  na  guerra,  a  Eris,  o  desejo  de  triunfar  do 

adversário,  de  afirmar  sua  superioridade  sobre  outrem,  deve 

submeter-se à Philia, ao espírito de comunidade.” (pág 51) 

 

Esta comunidade do braço a braço é um sentimento pátrio que se estende à defesa de seu 



território  como  em  fatos  acontecidos  nas  guerras  persas,  relatadas  por  Heródoto.    Vemos 

um relato surpreendente desta compreensão da virtude em guerra e da estrutura psicológica 




 

27 


do  cidadão-combatente,  cuja  virtude  abarca  todos  os  sentidos  da  vida  social,  ainda  em 

Vernant (1998): 

 

“Heródoto,  ao  mencionar,  após  cada  narrativa  de  batalha,  os  nomes 



das  cidades e dos  indivíduos  que se mostraram  os  mais valentes  em 

Platéia,  dá  a  palma,  entre  os  espartanos,  a  Aristodamo:  o  homem 

fazia  parte  dos  trezentos  lacedemônios  que  tinham  defendido  as 

Termópilas; só ele tinha voltado são e salvo; preocupado em lavar o 

opróbio  que  os  espartanos  ligavam  a  essa  sobrevivência,  procurou  e 

encontrou  a  morte  em  Platéia  ao  realizar  façanhas  admiráveis.  Mas 

não  foi  a  ele  que  os  espartanos  concederam,  com  o  prêmio  da 

bravura,  as  honras  fúnebres  devidas  aos  melhores;  recusaram-lhe  a 



aristeia  porque,  combatendo  furiosamente,  como  um  homem 

alucinado pela lyssa (exaltação), tinha abandonado o seu posto.” (pág 

51) 

 

A  medida  da  bravura  é  uma  linha  arquimediana  entre  o  desejo  de  morte  e  o  desejo  da 



sobrevivência, pois se a morte pode ser a medida do soldado, a sobrevivência deve ser a da 

sua pátria, da sua cidade. 

Assim se definem os contornos da cidade clássica. Não pode ser medida pelos seus limites 

de  defesa,  mas  deve  ser  compreendida  pela  força  tensional  entre  os  elementos  e  espaços 

que a constituem : a vida pública, a vida privada, e a vida religiosa.  

Na cidade micênica o pátio e o palácio eram circundados pela muralha que dava contorno 

ao  espaço  urbano  e  ao  conteúdo  da  vida  urbana.  Na  cidade  clássica,  ao  contrário,  os 

elementos  da  vida  cívica  modelam  a  personalidade  do  homem  grego  e  moderam  a  vida 

urbana, social.  

O cidadão soldado  também  é filosofo e poeta, a  vida na polis  fornece  a substância do ser 

político,  indivíduo  público.  Arquíloco  foi  poeta  e  soldado,  Sólon  foi  poeta  e  homem  de 

Estado,  Tales  foi  Homem  de  Estado  e  filósofo.  Não  é  mistura  ou  síntese,  é  contradição  e 

unidade. Uma unidade que se formou no tempo e no ideal de educação. 

 



 

28 





Compartilhe com seus amigos:
1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   15


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal