Historia social da argentina 08 05 v indd



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APRESENTAÇÃO 

Sérgio Eduardo Moreira Lima

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A presente versão, em português, do livro História Social da 



Argentina Contemporânea, de autoria do Professor Torcuato S. 

Di Tella, constitui iniciativa editorial para promover no Brasil o 

conhecimento do nosso grande vizinho e parceiro no Mercosul. 

Embora a relação com a Argentina seja estratégica para o Brasil 

e para o processo de integração regional, existe ainda uma lacuna 

bibliográfica nos dois países, nas respectivas línguas, português e 

espanhol, a respeito de narrativas e análises históricas que facilitem 

o entendimento mútuo.

Esta edição busca contribuir para o preenchimento desse 

vazio. Representa, igualmente, uma homenagem ao autor, 

grande intelectual, sociólogo e estudioso argentino, cujo pai, de 

origem italiana, fundou o Instituto que se tornou a conceituada 

Universidade Torcuato di Tella, e cujo irmão, Guido, foi chanceler 

na gestão do Presidente Menem, no período 1991 a 1999. A ideia 

da segunda edição era poder contar com um posfácio do Professor 

Di Tella, que atualizasse a narrativa histórica, estendendo-a até a 

eleição do Presidente Macri. Tive o prazer de conversar com ele 

Presidente da Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG).




algumas vezes por telefone e visitá-lo em 2016 em seu apartamento 

em Buenos Aires, acompanhado da Secretária Fernanda Soares dos 

Santos, da Embaixada do Brasil. Pudemos testemunhar, então, seu 

entusiasmo pelo empreendimento, sobretudo diante da perspectiva 

de ajudar na aproximação entre Brasil e Argentina por meio de 

dados e análises capazes de gerar o interesse em compreender a 

formação e o desenvolvimento de seus povos. 

Infelizmente, esse esforço pelo lado argentino não pôde ser 

concluído como desejávamos em razão do falecimento de Di Tella. 

Diante da importância do livro e de seu autor, a Funag decidiu 

ultimar a revisão do texto e editá-lo, acrescentando o prólogo do 

conhecido jornalista Ariel Palacios, correspondente em Buenos 

Aires há muitos anos e conhecedor da realidade argentina. 

A publicação cobre, assim, desde as raízes históricas da 

Argentina, a gênese de sua formação social, cultural e econômica, 

até o final do século XX e o início do governo de Néstor Kirchner. O 

autor narra de forma crítica, com a ironia que lhe era característica, 

a epopeia da formação da Argentina contemporânea. Nesse 

percurso, são tratados o processo de independência, a consolidação 

do Estado argentino, o apogeu do regime oligárquico, as reformas 

eleitorais, o peronismo, os períodos militares e a redemocratização. 

Este livro se soma à Integração Brasil-Argentina: história de 



uma ideia na “visão do outro”, de Alessandro Candeas, cuja 2ª edição 

revisada foi publicada recentemente pela Funag, ainda em meio às 

comemorações dos trinta anos da Declaração do Iguaçu, que marca 

o processo de aproximação entre os dois países, já no contexto 

da redemocratização e da criação das condições para a integração 

regional. 

Gostaria de registrar meu agradecimento ao Ministro 

Alessandro Candeas, então Diretor do IPRI, e ao seu sucessor, 

o Ministro Paulo Roberto de Almeida, que deram sequência ao 



projeto, bem como ao analista de Relações Internacionais Rafael 

Pavão pela revisão do livro e redação das notas de rodapé. Expresso 

ainda o reconhecimento ao Doutor Luiz Antônio Gusmão pela 

revisão técnica final da obra; e, especialmente, ao jornalista Ariel 

Palacios pelo elucidativo prólogo, que tão bem contextualiza o 

trabalho de Di Tella e instiga o leitor a avançar em sua leitura. A 

ideia do projeto original é do Embaixador Carlos Henrique Cardim, 

ainda quando Diretor do IPRI.

O estudo da história social da Argentina permite, ademais, 

ao leitor preparar-se para melhor compreender a evolução do 

relacionamento com o Brasil. O objetivo da Funag, instituição 

vinculada ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil, é 

contribuir para formar uma opinião pública sensível aos problemas 

da convivência internacional.  Estou certo de que o livro que ora 

apresentamos ao leitor brasileiro constitui subsídio útil para 

conhecer nossos vizinhos e parceiros argentinos e, a partir daí, 

poder avaliar as perspectivas de um destino comum. 




PRÓLOGO

Seu sobrenome constituía uma “grife” na Argentina – era um 

Di Tella – que o blindava de críticas de neoliberais (seu pai havia sido 

um poderoso empresário, um dos emblemas do capital argentino), 

que o salvava dos ataques dos nacionalistas (sua família havia 

sido um dos bastiões da burguesia nacional) e dos intelectuais de 

esquerda (seu pai, um imigrante italiano, havia financiado desde 

Buenos Aires o antifascismo durante a Era Mussolini e ele e seu 

irmão Guido fundaram o Instituto Di Tella, o mais importante 

centro de arte de vanguarda da América Latina nos anos 60).

O portenho Torcuato Di Tella, antes de fazer 25 anos, havia se 

casado com uma indiana – Kamala – e fundado o Clube Socialista 

de Hyderabad, na Índia. Mas, o governo local considerou que 

ele estava se intrometendo na política e não renovou seu visto. 

Di Tella teve que partir. Este foi um dos diversos momentos 

de polêmica e de globe-trotter que Di Tella teve em sua vida. Na 

sequência foi a Londres, voltou à Argentina, morou nos Estados 

Unidos, foi embaixador na Itália, além de ser professor em diversas 

universidades em todo o planeta, entre diversas outras funções.



Mas, além de seu pedigree familiar, ele tinha seus quilates 

intelectuais próprios. Escreveu trinta livros nos quais disseca a 

história e a economia argentina com didatismo e elegante sarcasmo.

Di Tella ironizava as diversas gerações que tentaram enxergar 

no país realidades inexistentes: “uma geração acreditava que Paris 

estava em cada esquina de Buenos Aires [...] e outra achava que 

Sierra Maestra estava presente em cada favela argentina”.

Qual é a grande vantagem para um não argentino ler uma 

obra de Di Tella? É a de que Di Tella não militava nos setores que 

geralmente protagonizam os antagonismos argentinos. Ele é uma 

daquelas escassas vozes que não se alinham automaticamente e 

integralmente a um dos lados em feroz conflito com outro.

A diferença da Argentina para o Brasil é que este, na maior 

parte de sua história independente, foi o país do consenso político 

e do sincretismo cultural (e religioso). Foi a terra dos arranjos 

políticos onde havia espaço para boa parte do leque partidário se 

acomodar em cargos públicos. Foi também o país do “deixa disso”. 

O antagonismo em terras brasileiras havia sido (e, repito, na maior 

parte da sua história) algo raro.

Mas a vizinha meridional, a Argentina, na contramão do 

Brasil, foi na totalidade do tempo um país onde o antagonismo 

foi o leitmotiv. Ou melhor, um furibundo antagonismo. Desde os 

tempos da independência argentina a atitude de consensuar (ou 

conciliar) foi uma ação desconhecida. Não era sequer malvista. 

Simplesmente inexistia. Era inimaginável. Enquanto o Brasil era 

comandado por um imperador, as várias partes da Argentina eram 

controladas por caudilhos que lutavam entre si. 

Morenistas versus saavedristas foram substituídos por outros 

grupos no ringue político argentino: federais versus unitários. 

Estes foram seguidos pelos conservadores contra os radicais. Na 




sequência a briga foi entre radicais e peronistas. Depois vieram os 

kirchneristas versus os antikirchneristas.

Mas os livros de Torcuato salvam-se desse binarismo brega. 

Di Tella possuía o que os espanhóis chamam de desparpajo, isto 

é, aquele jeito de falar ou agir sem timidez e que poderia parecer 

insolência ou ironia, mas que consiste, no fundo, em pura 

sinceridade. Quando, em maio de 2004, o escritor Horacio Salas 

renunciou ao posto de diretor da Biblioteca Nacional argentina, 

declarou que nunca sabia quando Di Tella (na época secretário da 

Cultura, seu chefe direto) falava com ele seriamente ou quando 

estava zombando de sua cara. Na realidade Di Tella estava fazendo 

as duas coisas ao mesmo tempo, já que dizia coisas sérias em tom 

cômico. Parafraseando o ditado, Di Tella podia perder um amigo 

mas não perdia a oportunidade de fazer uma piada (uma piada de 

tom acadêmico, com grande embasamento teórico, à qual dedicava 

longos minutos).

Di Tella tinha aquele grácil jeitão dos poucos intelectuais 

ricos de berço que podem se dar ao luxo de dizer cruamente o que 

pensam sobre o governo de plantão sem correr o risco de perder o 

emprego ou algum subsídio. “Bom, como eu tenho uma situação 

econômica sólida, não me importa dizer as coisas que eu digo, 

mesmo que por isso perca o emprego”, disse em uma entrevista no 

início deste século. Sua última mulher, Tamara Di Tella, que tinha 

uma rede de academias de pilates, explicou o assunto de forma 

mais crua, embora sorrindo com encanto: “Ter 10 mil alqueires de 

fazendas sempre ajuda!”.

Di Tella geralmente desprezava os governos. E, quando 

pronunciava algum raro elogio sobre alguma gestão presidencial 

(inclusive a dos Kirchners, para os quais trabalhou), a frase tinha 

uma ácida ironia camuflada no meio das palavras. Mas esse 




polêmico intelectual também era saborosamente cético sobre as 

oposições de plantão.

Na época em que foi secretário de Cultura (de maio de 2003 a no- 

vembro de 2004) disparou uma série de frases que escandaliza- 

ram simultaneamente integrantes do governo Kirchner e da oposição:

•  “O país é uma casa que está pegando fogo e a cultura é 

o galinheiro dos fundos”  (em alusão à crise econômica 

e social argentina, indicando que a cultura não era a 

prioridade quando no país milhões passavam fome).

•  “Mais do que os bumbos dos sindicatos reclamando, 

me preocupam o roubo de tantos livros da Biblioteca 

Nacional” (indicando que os protestos dos sindicalistas 

com seus tradicionais e ensurdecedores bumbos não lhe 

incomodavam em comparação com a angústia que lhe 

havia gerado o sumiço de milhares de históricos livros da 

biblioteca mais importante do país).

•  “Para entender a Argentina é preciso entender o pero-

nismo, que é um mistério [...] Na Itália acham que o 

peronismo tem a ver com o fascismo [...] mas não é assim. 

O peronismo tem elementos de direita [...] mas tampouco 

é isso” (explicando a cidadãos italianos o intrincado e 

contraditório funcionamento do movimento peronista).

•  “Para entender o peronismo é preciso apelar à teoria do 

rabanete: se a gente quer removê-lo da terra, não pode 

puxá-lo pelas folhas, porque se quebra. É preciso cavar na 

terra, mas sem machucar as folhas, porque é por aí que 

o rabanete respira. As folhas verdes do rabanete podem 

não demonstrar, mas o rabanete é vermelho” (explicando 

o peronismo a cidadãos italianos que riam às gargalhadas 

em Roma, perante um grupo de militantes peronistas 

que olhavam com evidente desgosto).



E, já que este é um livro escrito por alguém que estava 

“empapado” de Argentina ao mesmo tempo em que a observava 

com o distanciamento de um E.T., o História social da Argentina 




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