Hist ria e Geografia 1 pmd



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Curriculares Nacionais. 2. ed. Brasília, DF, c2000. 10 v.
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Documenta
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Documenta,  Brasília, DF, n. 464, p. 3-83, maio 2000.
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Documenta
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II. Eixos conceituais que
estruturam o ENCCEJA
O ENCCEJA se vincula a um conceito
mais estrutural e abrangente do
desenvolvimento da inteligência e
construção do conhecimento. Essa
concepção, de inspiração fortemente
construtivista, acha-se já amplamente
contemplada nos textos legais que
estruturam a educação básica no Brasil.
Tais concepção privilegia a noção de que
há um processo dinâmico de
desenvolvimento cognitivo mediado pela
interação do sujeito com o mundo que o
cerca. A inteligência é encarada não como
uma faculdade mental ou como expressão
de capacidades inatas, mas como uma
estrutura de possibilidades crescentes de
construção de estratégias básicas de ações
e operações mentais com as quais se
constroem os conhecimentos.
Nesse contexto, o foco da avaliação
recai sobre a aferição de competências e
habilidades com as quais transformamos
informações, produzimos novos
conhecimentos, reorganizando-os em
arranjos cognitivamente inéditos que
permitem enfrentar e resolver novos
problemas.
Estudos mais avançados sobre a avaliação
da inteligência, no sentido da estrutura
que permite aprender, ainda são pouco
praticados na educação brasileira.
Ressalte-se, também, que a própria
definição de inteligência e a maneira
como tem sido investigada constituem
pontos dos mais controvertidos nas áreas
da Psicologia e da Educação. O que se
constata é que alguns pressupostos
aceitos no passado tornaram-se
gradativamente questionáveis e, até
mesmo, abandonados diante de
investigações mais cuidadosas.
Em que pese os processos avaliativos
escolares no Brasil caracterizarem-se,
ainda, por uma excessiva valorização da
memória e dos conteúdos em si, aos
poucos essas práticas sustentadas pela
psicometria clássica vêm sendo
substituídas por concepções mais
dinâmicas que, de um modo geral, levam
em consideração os processos de
construção do conhecimento, o
processamento de informações, as
experiências e os contextos socioculturais
nos quais o indivíduo se encontra.
A teoria de desenvolvimento cognitivo,
proposta e desenvolvida por Jean Piaget
com cuidadosa fundamentação em dados
empíricos, empresta contribuições das
mais relevantes para a compreensão da
avaliação que se estrutura com o Encceja.
Para Piaget (1936), a inteligência é um
“termo genérico designando as formas
superiores de organização ou de equilíbrio
das estruturas cognitivas (…) a inteligência
é essencialmente um sistema de
operações vivas e atuantes”. Envolve uma
construção permanente do sujeito em sua
interação com o meio físico e social. Sua
avaliação consiste na investigação das
estruturas do conhecimento que são as
competências cognitivas.
Para Piaget, as operações cognitivas
possuem continuidade do ponto de
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vista biológico e podem ser divididas
em estágios ou períodos que possuem
características estruturais próprias, as
quais condicionam e qualificam as
interações com o meio físico e social.
Deve-se ressaltar que o estágio de
desenvolvimento cognitivo que
corresponde ao término da escolaridade
básica no Brasil denomina-se período das
operações formais, marcado pelo
advento do raciocínio hipotético-
dedutivo.
É nesse período que o pensamento
científico torna-se possível,
manifestando-se pelo controle de
variáveis, teste de hipóteses, verificação
sistemática e consideração de todas as
possibilidades na análise de um
fenômeno.
Para Piaget, ao atingir esse período, os
jovens passam a considerar o real como
uma ocorrência entre múltiplas e
exaustivas possibilidades. O raciocínio
pode agora ser exercido sobre enunciados
puramente verbais ou sobre proposições.
Outra característica desse período de
desenvolvimento, segundo Piaget,
consiste no fato de as operações formais
serem operações à segunda potência, ou
seja, enquanto a criança precisa operar
diretamente sobre os objetos,
estabelecendo relações entre elementos
visíveis, no período das operações
formais, o jovem torna-se capaz de
estabelecer relações entre relações.
As operações formais constituem,
também, uma combinatória que permite
que os jovens considerem todas as
possibilidades de combinação de
elementos de uma dada operação
mental e sistematicamente testem cada
uma delas para determinar qual é a
combinação que os levará a um
resultado desejado.
Em muitos dos seus trabalhos, Piaget
enfatizou o caráter de generalidade das
operações formais. Enquanto as
operações concretas se aplicavam a
contextos específicos, as operações
formais, uma vez atingidas, seriam gerais
e utilizadas na compreensão de qualquer
fenômeno, em qualquer contexto.
As competências gerais que são
avaliadas no ENCCEJA estão
estruturadas com base nas
competências descritas nas operações
formais da Teoria de Piaget, tais como a
capacidade de considerar todas as
possibilidades para resolver um
problema; a capacidade de formular
hipóteses; de combinar todas as
possibilidades e separar variáveis para
testar a influência de diferentes fatores;
o uso do raciocínio hipotético-dedutivo,
da interpretação, análise, comparação e
argumentação, e a generalização dessas
operações a diversos conteúdos.
O ENCCEJA foi desenvolvido com base
nessas concepções, e procura avaliar para
certificar competências que expressam um
saber constituinte, ou seja, as
possibilidades e habilidades cognitivas por
meio das quais as pessoas conseguem se
expressar simbolicamente, compreender
fenômenos, enfrentar e resolver
problemas, argumentar e elaborar
propostas em favor de sua luta por uma
sobrevivência mais justa e digna.
A. RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS
Desde o princípio de sua existência o
homem enfrentou situações-problema
para poder sobreviver e, ainda, em seu
estado mais primitivo, desprovido de
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II. Eixos conceituais que estruturam ENCCEJA
qualquer recurso tecnológico, já buscava
conhecer a natureza e compreender seus
fenômenos para dominá-la e assim
garantir sua sobrevivência como espécie.
No entanto, à medida que, em seu
processo histórico, foi alcançando formas
mais evoluídas de organização social,
seus problemas de sobrevivência imediata
foram sendo substituídos por outros. A
cada novo passo de evolução, o homem
superou certos problemas abrindo novas
possibilidades de melhor qualidade de
vida, mas, ao mesmo tempo, abriu as
portas para novos desafios, importantes
para sua continuidade e sobrevivência.
A história do homem registra o
enfrentamento de contínuos desafios e
situações-problema, sempre superados
em nome de novas formas de
organização social, política, econômica
e científica, cada vez mais evoluídas e
complexas. Pode-se dizer que o
enfrentamento de situações-problema
constitui uma condição que acompanha
a vida humana desde sempre.
Cada vez mais tecnológica e globalizada,
a sociedade que atravessou os portais do
século XXI convida o homem à resolução
de grandes problemas em virtude das
contínuas transformações em todas as
áreas do conhecimento. Exige, ainda,
constantes atualizações, seja no mundo
do trabalho ou da escola, seja no ritmo e
nas atribuições de enfrentamento do
cotidiano da vida, como, também, uma
outra qualidade de respostas, à proporção
que assume características bem
diferenciadas daquelas que anteriormente
percorreram a história.
Durante muitos séculos, o homem, para
resolver problemas, contou com a
possibilidade de se orientar a partir dos
conhecimentos que haviam sido
construídos e adquiridos no passado, à
medida que ele podia contar com a
tradição ditada pelos hábitos e
costumes da sociedade de sua época,
com aquilo que sua cultura já
determinava como certo. As
características culturais, sociais, morais
e religiosas, entre outras, serviam-lhe
como referências, indicando-lhe
caminhos ou respostas.
Dessa maneira, ele orientava seu
presente pelo passado, tendo no
passado o organizador de suas novas
ações. Como resultado, ele podia
planejar seu futuro como se este já
estivesse escrito e determinado em
função de suas ações presentes.
O avanço tecnológico dos dias atuais
desencadeou uma nova ordem de
transformações sociais, culturais, políticas
e econômicas, imprimindo ao mundo
novas relações numa velocidade tal, que
traz para o homem, neste século, uma
outra necessidade: a de se pautar não só
nas referências que o passado oferece
como garantias ou tradições, mas,
também, naquilo que diz respeito ao
futuro.
Quanto mais as sociedades
contemporâneas avançam em seus
conhecimentos tecnológicos e
científicos, mais distanciado parece estar
o homem de sua humanidade. Quanto
mais conforto e comodidade a vida
moderna pode oferecer, mais se
acentuam as diferenças sociais, culturais
e econômicas, criando verdadeiros
abismos entre os povos e entre as
populações de um mesmo país. Quanto
mais se conhece e se aprende, mais fica
distanciada uma boa parte da população
mundial do acesso à escolaridade, de
modo que, muito antes de se erradicar o
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analfabetismo da face da Terra, já há a
preocupação com a exclusão digital.
Quanto mais se vivencia a globalização,
mais complicadas ficam as possibilidades
de entendimento e comunicação, pois os
ideais e valores – que preconizam a
liberdade do homem, a solidariedade
entre os povos, a convivência entre as
pessoas e o exercício de uma verdadeira
cidadania – não correspondem a ações
concretas e efetivas. Dessa forma, o
mundo se debate entre guerras,
terrorismo, drogas, doenças, ignorância e
miséria. Essa é a natureza das situações-
problema que o homem contemporâneo
enfrenta. Então, como preparar as
crianças e jovens com condições para
que possam aprender a enfrentar e
solucionar tais problemas, superando-os
em nome de um futuro melhor?
Pensando na educação dessas crianças e
jovens, tal realidade traz sérias
implicações e a necessidade de
profundas modificações no âmbito
escolar. Cada vez mais é preciso que os
alunos saibam como aprender, como
compreender fatos e fenômenos, como
estabelecer suas relações interpessoais,
como analisar, refletir e agir sobre essa
nova ordem de coisas. Hoje, por
exemplo, um conhecimento científico,
uma tecnologia ensinada na escola é
rapidamente substituída por outra mais
moderna, mais sofisticada e atualizada,
às vezes, antes mesmo que os alunos
tenham percorrido um único ciclo de
escolaridade. Dessa maneira, vivem-se
tempos nos quais os mais diferentes
países revisam seus modelos
educacionais, discutem e implementam
reformas curriculares que sejam mais
apropriadas para atender às demandas
da sociedade contemporânea, uma
sociedade que, em termos de
conhecimento, está aberta para todos os
possíveis, para todas as possibilidades.
O homem do século XXI, portanto, está
diante de quatro grandes situações-
problema que implicam necessidades de
resolução: aprender a conhecer,
aprender a ser, aprender a fazer e
aprender a conviver. Como conhecer ou
adquirir novos conhecimentos? Como
aprender a interpretar a realidade em
um contexto de contínuas
transformações científicas, culturais,
políticas, sociais e econômicas? Como
aprender a ser, resgatando a sua
humanidade e construindo-se como
pessoa? Como realizar ações em uma
prática que seja orientada
simultaneamente pelas tradições do
passado e pelo futuro que ainda não é?
Como conviver em um contexto de
tantas diversidades, singularidades e
diferenças e em que o respeito e o amor
estejam presentes?
Em uma perspectiva psicológica, e,
portanto, do desenvolvimento, conhecer
e ser são duas formas de compreensão, à
medida que se expressam como maneiras
de interpretar ou atribuir significados a
algo, de saber as razões de algo, do
ponto de vista do raciocínio e do
pensamento, exigindo do ser humano a
construção de ferramentas adequadas a
uma leitura compreensiva da realidade.
Fazer e conviver são formas de
realizaçâo, pois se expressam como
procedimentos, como ações que visam a
um certo objetivo. Por sua vez, realizar
e conviver implicam que o ser humano
saiba escrever o mundo, construindo
modos adequados de proceder em suas
ações. Por isso, é preciso que preparemos
as crianças e jovens para um mundo
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II. Eixos conceituais que estruturam ENCCEJA
profissional e social que os coloque
continuamente em situações de desafio,
as quais requerem cada vez mais
saberes de valor universal que os
preparem para serem leitores de um
mundo em permanente transformação.
É preciso, ainda, que os preparemos
como escritores de um mundo que pede
a participação efetiva de todos os seus
cidadãos na construção de novos
projetos sociais, políticos e econômicos.
Portanto, do ponto de vista
educacional, tais necessidades implicam
o compromisso com uma revisão
curricular e pedagógica que supere o
modelo da simples memorização de
conteúdos escolares que hoje se mostra
insuficiente para o enfrentamento da
realidade contemporânea. Os novos
tempos exigem um outro modelo
educacional, voltado para o
desenvolvimento de um conjunto de
competências e de habilidades essenciais,
a fim de que crianças e jovens possam
efetivamente compreender e refletir
sobre a realidade, participando e agindo
no contexto de uma sociedade
comprometida com o futuro.
B. AS ORIGENS DO TERMO
COMPETÊNCIA
O sentido original da palavra
competência é de natureza jurídica, ou
seja, diz respeito ao poder que tem uma
certa jurisdição de conhecer e decidir
sobre uma causa. Gradativamente, o
significado estendeu-se, passando o
termo a designar a capacidade de
alguém para se pronunciar sobre
determinado assunto, fazer determinada
coisa ou ter capacidade, habilidade,
aptidão, idoneidade.
Recentemente, competência tornou-se
uma palavra difundida, com freqüência,
nos discursos sociais e científicos.
Entretanto, Isambert-Jamati (1997)
afirma que não se trata simplesmente de
modismo porque o caráter
relativamente duradouro do uso dessa
noção e a existência de uma certa
congruência em relação ao seu
significado, em esferas como as da
educação e do trabalho, podem ser
reveladores de mudanças na sociedade e
na forma como um grupo social partilha
certos significados. Nesse sentido, o
termo competência não é só revelador
de certas mudanças como também pode
contribuir para modelá-las, ou seja,
comparece no lugar de certas noções,
ao mesmo tempo em que modifica seus
significados. Pode-se dizer que, no
geral, o termo competência vem
substituindo a idéia de qualificação no
domínio do trabalho, e as idéias de
saberes e conhecimento no campo da
educação.
As razões da invasão do termo
competência, segundo Tanguy (1997),
nas diferentes esferas da atividade social,
são difíceis de precisar, embora, no caso
da educação e do trabalho, possam estar
associadas a uma série de movimentos
geradores de concepções nesses dois
campos, bem como das inter-relações
entre eles. Dentre tais concepções ou
crenças, podemos destacar: necessidade
de superar o aspecto da instrução pelo
da educação; reconhecimento da
importância do poder do conhecimento
por todos os meios sociais e de que a
transmissão do conhecimento não é
tarefa exclusiva da escola;
institucionalização e sistematização de
princípios sobre formação contínua fora
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do âmbito escolar; exigência de superar
a qualificação profissional precária e
mecânica; necessidade de rever o ensino
disciplinar e o saber academicista ou
descontextualizado; preocupação de
colocar o aluno no centro do processo
educativo, como sujeito ativo.
A intervenção desses elementos sobre a
problemática da formação e
aprendizagens profissionais, além da
necessidade de novas adaptações ao
mundo do trabalho e da escola,
acabaram por proporcionar uma
apropriação geral da noção de
competência em vários países,
provavelmente na expectativa de
atribuir novos significados às noções
que ela pretende substituir nas
atividades pedagógicas. Mais
especificamente, no entanto, esse
referencial sobre a noção de
competência tem-se imposto nas
escolas, inicialmente, por meio da
avaliação. Essas inter-relações
produziram uma contaminação de
significados, e o termo competência
passou a ser usado com freqüência no
sistema educativo, no qual ganhou
outras conotações.
Dado esse caráter polissêmico da noção
de competência, trata-se de precisar em
que sentido pretendemos utilizá-la.

NOÇÃO
 
DE
 
COMPETÊNCIA

A
 
QUE
 
SE
 
APLICA
?
Embora o uso do termo competência seja
comum, é difícil precisar o seu
significado. Se tentarmos descrever uma
das nossas competências,
conseguiremos, no máximo, elencar uma
série de ações que realizamos para
enfrentar uma situação-problema, tais
como uma análise de fenômeno, um ato
de leitura, ou a condução de um
automóvel. Mesmo tendo consciência
dessa série, não conseguiremos encontrar
algo que possa traduzir a totalidade
desses atos.
Por outro lado, do ponto de vista
externo, quando observamos os outros,
conseguimos, com relativa facilidade,
concluir sobre a existência desta ou
daquela competência. Ao fazê-lo, no
entanto, ultrapassamos a mera descrição
dos atos, significando que aquela série
de ações é interpretada na sua totalidade
ou no conjunto que a traduz. Supõe-se,
portanto, que há algo interno que
articula e rege as ações, possibilitando
que sejam eficazes e adequadas à
situação, conforme descreve Rey (1998).
Ao observarmos um bom patinador no
gelo, diz o autor, bastam alguns minutos
para concluirmos se ele sabe patinar, ou
seja, se ele é competente. Em outras
palavras, interpretamos que a sucessão
de seus movimentos não é meramente
uma série qualquer, mas que ela é
coordenada por um princípio dominado
pelo sujeito, residindo aí sua
competência. Ao atribuirmos esse poder
ao patinador, assumimos a idéia de que
seus futuros movimentos serão
previsíveis, no sentido de que serão
adequados e eficazes.
O que o autor quer mostrar é que a
competência revela um poder interno e se
define pela anterioridade, ou seja, a
possibilidade de enfrentar uma situação
problema está, de certa forma, dada pelas
condições anteriores do sujeito. Ao
mesmo tempo, essa previsibilidade dá-nos
a impressão de continuidade. A
competência não é algo passageiro, é algo
que parece decorrer natural e
espontaneamente.
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II. Eixos conceituais que estruturam ENCCEJA
Em síntese, a idéia de competência
retrata dois aspectos antagônicos mas
solidários, que podem ser traduzidos de
várias maneiras: interno e externo,
implícito e explícito, o da visibilidade
social e o da organização interna, o que
na ação é observável e mais
estandardizado e o que é mais ligado ao
sujeito, portanto, singular e obscuro.
Esses aspectos podem ser encontrados
nas teorias que fundamentam a noção
de competência, as quais abordam essa
questão em dois pólos opostos. No
primeiro pólo, estão as teorias que usam
o termo competência como referência a
atos observáveis ou comportamentos
específicos, empregados, sobretudo, na
formação profissional e na concepção da
aprendizagem por objetivos. No segundo
pólo encontram-se, autores que
analisam as capacidades do sujeito
resultantes de organização interna e
não-observáveis diretamente:
Assim, tanto a competência é concebida
como uma potencialidade invisível,
interna, pessoal, susceptível de engendrar
uma infinidade de “performances”, tanto
ela se define por componentes
observáveis, exteriores, impessoais.
(Rey, 1998, p.26)
Esses dois sentidos do termo
competência são usados e convivem
alternadamente, tanto no mundo do
trabalho como no mundo da escola.
A concepção de competência como
comportamento é a manifestação de um
modelo teórico que guarda parentesco
com o behaviorismo, o qual tem
embasado o uso da noção de
competência de duas formas. No sentido
mais restrito, competência é tida como
comportamento objetivo e observável e
que se realiza como resposta a uma
situação. Essa forma de entender
competência se manifesta no campo da
formação profissional quando pressupõe
que a cada posto de trabalho
corresponda uma lista de tarefas
específicas. No campo da educação, essa
noção de competência comparece
associada à pedagogia por objetivos
(Bloom,1972 e Mager, 1975), cuja idéia
central é a de que, para ensinar, é preciso
traçar objetivos claros e específicos, sem
ambigüidades, de tal forma que o
professor possa prever que seus alunos
serão capazes de alcançá-los. Para tanto,
as competências devem-se confundir
com o comportamento observável. Tal
concepção está, portanto, diretamente
associada às idéias de performance e
eficácia (Ropé e Tanguy, 1997), bem
como acaba por fomentar a elaboração
de listagens de comportamentos
exigíveis em diferentes níveis dos
programas de ensino. Na medida em que
a competência se reduz ao
comportamento observável, elimina-se
do mesmo o seu caráter implícito.
Esse mesmo modelo, no sentido mais
amplo, toma uma outra forma: a da ação
funcional, ou seja, ser competente não é
apenas responder a um estímulo e realizar
uma série de comportamentos, mas,
sobretudo, ser capaz de, voluntariamente,
selecionar as informações necessárias para
regular sua ação ou mesmo inibir as
reações inadequadas. Na realidade, essa
concepção pretende superar a falta de
sentido produzida na consecução de
objetivos. Ao introduzir a idéia de
finalidade ao comportamento, fato que a
pedagogia por objetivos desconsiderou,
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acentua-se que, subjacente a um
comportamento observável, consciente ou
automaticamente, existe uma organização
realizada pelo sujeito, da qual se depreende
a existência de um equipamento cognitivo
que organiza, seleciona e hierarquiza seus
movimentos em função dos objetivos a
alcançar. Em outras palavras, a
competência não é redutível aos
comportamentos estritamente objetivos,
mas está vinculada sempre a uma atividade
humana que, ligada à escola ou ao
trabalho, caracteriza-se por sua relação
funcional a tais atividades definidas
socialmente.
Em síntese, embora existam essas
variações no sentido de competência
como comportamento, em ambos ela é
vista no seu caráter específico e
determinado: no primeiro caso, é limitada
pelos estímulos que a provocam; no
segundo, pela função que apresenta na
situação ou contexto que a exige.
Como já dissemos, um outro pólo da
análise teórica sobre competência não a
identifica com comportamento; ela é
considerada como uma capacidade geral
que torna o indivíduo apto a
desenvolver uma variedade de ações
que respondem a diferentes situações.
Competência, nesse caso, refere-se ao
funcionamento cognitivo interno do
sujeito. Essa concepção de competência
foi formulada em contraposição à idéia
de competências como comportamentos
específicos, a partir das teorias de
competência lingüística, proposta por
Chomsky (1983) e da auto-regulação do
desenvolvimento cognitivo, proposta
por Piaget (1976). Embora divergindo a
respeito da origem das competências
cognitivas, esses autores têm em
comum a crença de que nenhum
conhecimento é possível sem haver uma
organização interna.
Para Chomsky (1983), a competência
lingüística não se confunde com
comportamento. Ela deriva de um poder
interno (núcleo fixo inato), expresso por
um conjunto de regras do qual o sujeito
não tem consciência, que possibilita a
produção de comportamentos lingüísticos.
Na abordagem piagetiana, a idéia de
competência está atrelada à organização
interna e complexa das ações humanas,
mas, diferentemente de Chomsky,
Piaget (1983) discorda do caráter inato
dessa organização e enfatiza a sua
dimensão adaptativa. Sustenta que a
progressividade do desenvolvimento
mental se apóia em um processo de
construção, no qual interferem o
mínimo de “pré-formações” e o máximo
de auto-organização. A competência,
nesse sentido, diz respeito à construção
endógena das estruturas lógicas do
pensamento que, à medida que se
estabelecem, modificam o padrão da
ação ou adaptação ao meio e que
Malglaive (1995) denomina de estrutura
das capacidades.
A abordagem piagetiana, como
sabemos, teve como preocupação
mostrar as estruturas lógicas como
universais. Mesmo afirmando que todo
conhecimento se dá em um contexto
social e descrevendo o papel da
interação entre os pares como
fundamental para o desenvolvimento do
raciocínio lógico, essa investigação não
privilegiou a forma de atuação do
contexto social ou das situações no
desenvolvimento das competências
cognitivas. A partir de contribuições da
sociologia e da antropologia, vários
estudos têm sido realizados no sentido
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II. Eixos conceituais que estruturam ENCCEJA
de mostrar as relações entre contextos
culturais e cognição, conforme descrito
por Dias (2002). Nesse sentido, vale
ressaltar as reflexões de Bordieu (1994),
quando afirma que a compreensão não é
só o reconhecimento de um sentido
invariante, mas a apreensão da
singularidade de uma forma que só
existe em um contexto particular.
C
OMPETÊNCIAS
 
COMO
 
MODALIDADES
ESTRUTURAIS
 
DA
 
INTELIGÊNCIA
A ressignificação da noção competência
– nos meios educacionais e acadêmicos –
está muito provavelmente atrelada à
necessidade de encontrar um termo que
substituísse os conceitos usados para
descrever a inteligência, os quais se
mostraram inadequados, quer pela
abrangência, quer pela limitação. No
primeiro caso, sabemos das dificuldades
de trabalhar com termos como
capacidade para expressar aquilo que
deve ser objeto de desenvolvimento, até
mesmo porque essa idéia carrega
conotações de aptidão, difíceis de
precisar. No segundo caso, a vinculação
da inteligência à aquisição de
comportamentos produziu uma visão
pontual e molecular que reduz o
desenvolvimento a uma listagem de
saberes a serem adquiridos. Como
contraponto, a noção de competência
surgiu no discurso dos profissionais da
educação como uma forma de
circunscrever o termo capacidade e
alargar a idéia de saber específico.
Nesse sentido, o construtivismo
contribuiu, de forma significativa, para
pensar a inteligência humana como
resultado de um processo de adaptações
progressivas, portanto não polarizado
no meio ou nas estruturas genéticas. Por
outro lado, o conceito de operações
mentais permite colocar a aprendizagem
no contexto das operações e não apenas
no do conhecimento ou do
comportamento.
C. AS COMPETÊNCIAS DO ENEM
NA PERSPECTIVA DAS AÇÕES OU
OPERAÇÕES DO SUJEITO
Considerando as características do
mundo de hoje, quais os recursos
cognitivos que um jovem, concluinte da
educação básica, deve ter construído ao
longo desse período? A matriz de
competências do ENEM expressa uma
hipótese sobre isso, ou seja, assume o
pressuposto de que os conhecimentos
adquiridos ao longo da escolarização
deveriam possibilitar ao jovem domínio
de linguagens, compreensão de
fenômenos, enfrentamento de situações-
problema, construção de argumentações
e elaboração de propostas. De fato, tais
competências parecem sintetizar os
principais aspectos que habilitariam um
jovem a enfrentar melhor o mundo, com
todas as suas responsabilidades e
desafios. Quais são as ações e operações
valorizadas na proposição das
competências da matriz? Como analisar
esses instrumentos cognitivos em sua
função estruturante, ou seja,
organizadora e sistematizadora de um
pensar ou um agir com sentido
individual e coletivo? Em outras
palavras, o que significam dominar e
fazer uso (competência I); construir,
aplicar e compreender (competência II);
selecionar, organizar, relacionar,
interpretar, tomar decisões, enfrentar
(competência III); relacionar, construir
argumentações (competência IV);
recorrer, elaborar, respeitar e considerar
(competência V)?
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Livro do Professor
D
OMINAR
 
E
 
FAZER
 
USO
A competência I tem como propósito
avaliar se o estudante demonstra
“dominar
dominar
dominar
dominar
dominar a norma culta da Língua
Portuguesa e fazer uso
fazer uso
fazer uso
fazer uso
fazer uso da linguagem
matemática, artística e científica”.
Dominar, segundo o dicionário, significa
“exercer domínio sobre; ter autoridade
ou poder em ou sobre; ter autoridade,
ascendência ou influência total sobre;
prevalecer; ocupar inteiramente”. Fazer
uso, pois, é sinônimo de dominar, já que
expressa ou confirma seu exercício na
prática.
Dominar a norma culta tem significados
diferentes nas tarefas de escrita ou
leitura avaliadas. No primeiro caso, o
domínio da norma culta pode ser
inferido, por exemplo, pela correção da
escrita, coerência e consistência textual,
manejo dos argumentos em favor das
idéias que o aluno quer defender ou
criticar. Quanto às tarefas de leitura, tal
domínio pode ser inferido pela
compreensão do problema e
aproveitamento das informações
presentes nos enunciados das questões.
Além disso, sabemos hoje que o mundo
contemporâneo se caracteriza por uma
pluralidade de linguagens que se
entrelaçam cada vez mais. Vivemos na
era da informação, da comunicação, da
informática. Basicamente, todas as
nossas interações com o mundo social,
com o mundo do trabalho, com as
outras pessoas, enfim, dependem dessa
multiplicidade de linguagens para que
possamos nos beneficiar das tecnologias
modernas e dos progressos científicos,
realizar coisas, aprender a conviver, etc.
Dominar linguagens significa, portanto,
saber atravessar as fronteiras de um
domínio lingüístico para outro. Assim,
tal competência requer do sujeito, por
exemplo, a capacidade de transitar da
linguagem matemática para a linguagem
da história ou da geografia, e dessas,
para a linguagem artística ou para a
linguagem científica. Significa ainda ser
competente para reconhecer diferentes
tipos de discurso, sabendo usá-los de
acordo com cada contexto.
O domínio de linguagens implica um
sujeito competente como leitor do
mundo, ou seja, capaz de realizar
leituras compreensivas de textos que se
expressam por diferentes estilos de
comunicação, ou que combinem
conteúdos escritos com imagens,
charges, figuras, desenhos, gráficos, etc.
Da mesma forma, essa leitura
compreensiva implica atribuir
significados às formas de linguagem que
são apropriadas a cada domínio de
conhecimento, interpretando seus
conteúdos. Ler e interpretar significa
atribuir significado a algo, apropriar-se
de um texto, estabelecendo relações
entre suas partes e tratando-as como
elementos de um mesmo sistema.
Dominar linguagens implica ainda um
sujeito competente como escritor da
realidade que o cerca, um sujeito que
saiba fazer uso dessa multiplicidade de
linguagens para produzir diferentes
textos que comuniquem uma proposta,
uma reflexão, uma linha de
argumentação clara e coerente.
Por isso, dominar linguagens implica
trabalhar com seus conteúdos na
dimensão de conjecturas, proposições e
símbolos. Nesse sentido, a linguagem
constitui o instrumento mais poderoso
de nosso pensamento, à medida que ela
lhe serve de suporte.
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II. Eixos conceituais que estruturam ENCCEJA
Por exemplo, pensar a realidade como
um possível, como é próprio do
raciocínio formal (Inhelder e Piaget,
1955), seria impraticável sem a
linguagem, pois é ela que nos permite
transitar do presente para o futuro,
antecipando situações, formulando
proposições. Não seria possível também
fazer o contrário, transitar do presente
para o passado, que só existe como uma
lembrança ou como uma imagem. Da
mesma maneira, raciocinar de uma
forma hipotético-dedutiva também
depende da linguagem, pois sem ela não
teríamos como elaborar hipóteses, idéias
e suposições que existem apenas em um
plano puramente representacional e
virtual.
C
ONSTRUIR

APLICAR
 
E
 
COMPREENDER
O objetivo da competência II é avaliar se o
estudante sabe “construir
construir
construir
construir
construir e aplicar
aplicar
aplicar
aplicar
aplicar
conceitos das várias áreas do
conhecimento para a compreensão
compreensão
compreensão
compreensão
compreensão de
fenômenos naturais, de processos
histórico-geográficos, da produção
tecnológica e das manifestações
artísticas”.
Construir é uma forma de domínio que,
no caso das questões das provas, pode
implicar o exercício ou uso de muitas
habilidades: estimar, calcular,
relacionar, interpretar, comparar, medir,
observar etc. Em quaisquer delas, o
desafio é realizar operações que
possibilitem ultrapassar uma dada
situação ou problema, alcançando
aquilo que significa ou indica sua
conclusão. Construir, portanto, é
articular um tema com o que qualifica
sua melhor resposta ou solução, tendo
que, para isso, realizar procedimentos
ou dominar os meios requeridos,
considerando as informações
disponíveis na questão.
Hoje, a compreensão de fenômenos,
naturais ou não, tornou-se
imprescindível ao ser humano que se
quer participante ativo de um mundo
complexo, onde coabitam diferentes
povos e nações, marcados por uma
enorme diversidade cultural, científica,
política e econômica e, ao mesmo tempo,
desafiados para uma vida em comum,
interdependente ou globalizada.
Compreender fenômenos significa ser
competente para formular hipóteses ou
idéias sobre as relações causais que os
determinam. Ou seja, é preciso saber que
um dado procedimento ou ação provoca
uma certa conseqüência. Assim, se o
desmatamento desenfreado ocorre em
todo o planeta, é possível supor que esse
evento, em pouco tempo, causará
desastres climáticos e ecológicos, por
exemplo.
Além disso, a compreensão de
fenômenos requer competência para
formular idéias sobre a explicação causal
de um certo fenômeno, atribuindo
sentido às suas conseqüências. Voltando
ao exemplo anterior, não basta ao sujeito
construir e aplicar seus conhecimentos
para saber que as conseqüências do
desmatamento serão os desastres
climáticos ou ecológicos, mas é preciso
também que ele compreenda as razões
que esse fato implica, ou seja, que
estabeleça significados para ele.
Para isso, é necessário determinar
relações entre as coisas, inferir sobre
elementos que não estão presentes em
uma situação, mas que podem ser
deduzidos por aquelas que ali estão,
trabalhar com fórmulas e conceitos.
Nesse sentido, também fazemos uso da
linguagem, à medida que formulamos
hipóteses para compreender um
fenômeno ou fato, ou elaboramos
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conjecturas, idéias e suposições em
relação a ele. Nesse jogo de elaborações
e suposições, trabalhamos, do ponto de
vista operatório, com a lógica da
combinatória (Inhelder e Piaget, 1955), a

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