Hiram Souza (Dissertação)


participantes do grupo. Nós somos um grupo que preza pela família e pelo bem da



Baixar 5.01 Kb.
Pdf preview
Página3/3
Encontro30.03.2021
Tamanho5.01 Kb.
1   2   3

participantes do grupo. Nós somos um grupo que preza pela família e pelo bem da 
sociedade.  Quando  nós  organizamos  os  passeios  e  viagens  a  gente  quer  que  as 
nossas famílias também nos acompanhem. Se não pode ir de moto, vai no carro de 
apoio junto com as crianças. A gente só quer ter bons momentos curtindo a família e 


94 
 
as boas amizades. Eu mesmo quando estou com vontade, pego a minha “motinha” e 
acompanho  eles  também!  Eu  tenho  52  anos  e  posso  te  garantir  que  tem  muita 
mulher  participando  desse  movimento  também!  Tem  muita  mulher  que  usa  a  moto 
para  ir  trabalhar  e  estudar,  e  quando  estão  numa  moto  elas  são  muito  mais 
respeitadas.  Nós  somos  um  grupo  que  quer  tirar  esse  estigma  do  motociclista 
bandido, tatuado, cara de mau, arruaceiro e barulhento. Não! Motociclista não é isso 
não! Nas nossas viagens ninguém bebe, nós respeitamos todas as leis de trânsito... 
Nós somo todos iguais, de diferentes classes sociais mas utilizamos o motociclismo 
pelo  bem  comum.”  (Doro,  entrevista  concedida  no  final  do  Outono  de  2012,  em 
Lauro de Freitas, Bahia). 
 
Black  Sabbath  endossou  esse  discurso  lembrando  que  antes  dele  incentivar 
que o filho fundasse um M.C. próprio, fez com que Motorhead o acompanhasse em 
muitas  viagens  e  passeios  para  que  pudesse  aprender  e  entender  o  “verdadeiro 
espírito”  da  coisa,  o  espirito  de  liberdade,  de  camaradagem  e  de  valorização  da 
família  e  dos  amigos.  Após  essa fala  pude perceber,  pela primeira  vez  entre  todos 
os M.C.s entrevistados até então, um discurso que se aproximasse um pouco mais 
dos  preceitos  da  contracultura.  No  entanto,  o  assunto  prosseguiu  e  eu  acabei  não 
tocando nesse tema com os motociclistas.  
Black Sabbath prosseguiu lembrando-se de uma situação, ocorrida antes que 
o “Cometas Gam M.C.” fosse oficialmente formado pelo seu filho, em que ele decidiu 
dar  uma  volta  com  os  “meninos”  que  iriam  compor  esse  grupo  para  saber  se  ele 
estava mesmo fazendo a coisa certa em “apadrinhá-los”. Durante essa viagem, eles 
pararam em um posto de gasolina, e Black Sabbath, como já era integrante de um 
M.C.,  era  o  único  que  estava  vestindo  um  colete  portando  aqueles  símbolos 
característicos  do  motociclismo.  Apareceram  outros  dois  motociclistas,  trajando 
coletes,  que  passaram  diretamente  pelos  “meninos”,  que  mais  tarde  iriam  fundar  o 
“Cometas Gam M.C.”, e foram cumprimentar Black Sabbath. Segundo o motociclista, 
naquele momento o filho pode entender a importância e a responsabilidade que se 
tem  ao  vestir  um  colete  com  os  brasões  de  um  M.C.,  que  para  Black  Sabbath  é 
como uma “cédula de identidade”. 
Como Black Sabbath havia mencionado sobre o “apadrinhamento” do grupo, 
pedi para que ele me explicasse o que significa isso, exatamente. Quem respondeu 
foi  o  Motorhead,  dizendo  que  para  ser  devidamente  reconhecido,  um  M.C.  precisa 


95 
 
ser “apadrinhado” por algum outro M.C. já existente, que no caso do “Cometas Gam 
M.C.”,  teve  Black  Sabbath,  do  “Alma  Cigana  M.C.”  como  seu  padrinho.  Motorhead 
mostrou que no lado esquerdo do colete de um integrante de M.C. estão dispostos o 
brasão do grupo e logo abaixo o brasão do M.C. “padrinho”. No lado direito podem 
ser  dispostos  todos  os  bótons  e  broches  dos  M.C.s  “parceiros  e  irmãos”.  Achei 
interessante essa explicação da simbologia do colete, e Black Sabbath também me 
explicou que existem mais três símbolos que geralmente constam em um colete de 
motociclista: a cruz de malta, a águia e a caveira. O motociclista fez questão de me 
explicar o significado de cada um desses três símbolos: a cruz de malta representa o 
símbolo do cavaleiro de cabeça pura, do guerreiro cristão que busca fazer o bem e 
ajudar  os  que  necessitam.  A  águia,  além  de  simbolizar  a  liberdade,  a  vontade  de 
alçar voos altos, representa também a irmandade e a camaradagem, pois segundo 
Black  Sabbath,  esse  animal,  em  uma  determinada  fase  da  vida,  precisa  da  ajuda 
dos outros indivíduos da espécie para fazer a troca do bico, das garras, e das penas, 
como um verdadeiro processo “regenerativo” que garante à ave um prolongamento 
da vida. E por fim, a caveira, que, nas palavras do motociclista “não tem nada a ver 
com  morte  ou  maldade.  A  caveira  simboliza  que  por  debaixo  da  pele,  das  roupas 
que usamos, ou das motos que pilotamos, somos todos iguais”.  
Black Sabbath informou que seria publicada uma matéria sobre o significado 
desses símbolos no jornal “Motoinformativo”. Segundo o motociclista, esse periódico 
vem  sendo  desenvolvido  por  ele  em  parceria  com  o  seu  filho  com  o  intuito  de 
divulgar e promover o motociclismo na Bahia. É um publicação quinzenal onde são 
expostas  matérias  e  entrevistas  que  abordem  a  ação  dos  M.C.s  pelo  estado.  O 
jornal é lançado em versão impressa e eu ganhei as duas últimas versões para que 
eu pudesse conferir o trabalho desenvolvido por eles. 
Por  fim,  mas  não  menos  importante,  quis  saber  a  opinião  dos  dois 
motociclistas sobre as relações que os agregados identitários dos M.C.s engendram 
com  a  cidade,  com  o  trânsito,  com  a  vida  urbana.  Motorhead  afirmou,  de  maneira 
taxativa, de que os motociclistas são desrespeitados no trânsito. Ele reconhece que 
existem  muitos  “motoqueiros”  que  mancham  a  imagem  do  “motociclista”  e  que  por 
isso,  faz  com  que  a  sociedade,  de  uma  forma  geral,  se  volte  contra  eles.  O 
motociclista afirma que motoristas de carros grandes ou ônibus parecem possuir um 
prazer  “sádico”  em  atirar  seus  veículos  na  direção  dos  motociclistas.  Motorhead 
lembra  que  essa  situação  é  minimizada  quando  ele  está  trajando  o  colete  de  seu 


96 
 
M.C..  “Parece  que as pessoas  nos  respeitam  mais  por  saberem  que  somos  de um 
Moto Clube”.  
Em  relação  às  vias  de  circulação,  à  sinalização  de  trânsito  e  à  legislação, 
ambos  os  motociclistas  afirmaram  que  é  praticamente  nula  a  ação  dos  poderes 
públicos para por em práticas melhorias que estimulem o uso da motocicleta como 
meio  de  transporte,  que  como  lembra  Black  Sabbath,  “por  si  só  já  mais 
ecologicamente  correto,  por  que  não  polui  que  nem  o  carro  e  nem  causa  tantos 
engarrafamentos”. Motorhead lembra que, recentemente, eles perderam um grande 
amigo motociclista vítima de um acidente fatal no qual o motorista de um carro, que 
segundo  eles  estava  embriagado,  acertou  em  cheio  a  moto  do  “irmão”.  A  mãe  de 
Motorhead,  participando  mais  uma  vez,  lembra  que  a  situação  é  tão  caótica  que  o 
motorista  do  carro  já  havia  sido  liberado  antes  mesmo  que  o  motociclista  viesse  a 
óbito no hospital. Nesse momento senti certa comoção no ambiente. Black Sabbath 
enfatiza  que  vem  buscando  se  articular,  junto  a  outros  M.C.s,  utilizando  de  meios 
como  o  “Motoinformativo”  para  que  possam  organizar  as  suas  reivindicações  para 
serem  encaminhadas  aos  poderes  públicos  estadual  e  municipal  com  vistas  à 
melhorias para a circulação da motos nas estradas e rodovias, bem como nas ruas e 
avenidas das cidades.  
 
“A  prioridade  é  sempre  a  segurança.  Em  todos  os  sentidos.  Segurança  contra 
roubos,  assaltantes...  segurança  no  trânsito,  maior  fiscalização  contra  a  bebida 
alcóolica...  enfim,  todas  essas  questões”.  (Black  Sabbath,  entrevista  concedida  no 
final do Outono de 2012, em Lauro de Freitas, Bahia). 
 
 
Como  já estava ficando  tarde e  eu  já  havia  estado  ali  por praticamente  uma 
hora,  iniciei  as  despedidas  e  agradeci  imensamente  pelas  informações  prestadas. 
Pude  perceber,  mais  uma  vez,  que  nem  todos  os  grupos  de  motociclistas  estão 
fadados  a  se  enquadrarem  segundo  normas  rígidas  que  lembrem  um  regime 
militarista, tampouco precisam assumir um estereótipo de “rebeldia”, agressividade e 
maldade.  A  meu  ver,  os  M.C.s  encabeçados  por  Motorhead  e  Black  Sabbath,  o 
“Cometas Gam M.C.” e o “Alma Cigana M.C.”, respectivamente, se aproximam muito 
do  “Falcões  Raça  Liberta  M.C.”  no  que  diz  respeito  à  “multiterritorialidade”, 
constituindo grupos mais flexíveis, abertos ao diálogo e ao intercâmbio cultural que a 
sociedade urbana promove. 


97 
 
Após  a  análise  das  entrevistas  com  todos  os  grupos  abordados  nessa 
pesquisa,  apresento  um  quadro  que  sintetiza  as  diferenças  e  semelhanças  entre 
cada um deles, a fim de que se possa dirimir as dúvidas de que os grupos, apesar 
de que no senso comum possam ser, comumente, taxados de “iguais”, apresentam 
diferenças  substanciais  em  suas  constituições,  objetivos  e  modos  de  se  relacionar 
na  sociedade  e  no  espaço,  seja  com  outros  grupos  similares,  ou  completamente 
distintos. O quadro, além de tudo, se constitui como uma importante ferramenta para 
análise das considerações finais que seguem no capítulo seguinte. 
 
 
Tipo de 
Moto 
Organização 
Ponto de 
Encontro 
Identidade 
Território 
Admissão de 
novos 
membros 
“Vermelho” 
M.C. 
Harley 
Davidson 
Hierárquica 
Sede do 
Grupo 
Não há 
(“Livre”) 
Território 
Nação 
Pré-observação 
da conduta do 
pretendente 
HOG 
Harley 
Davidson 
Livre. A 
marca 
organiza os 
encontros 
Passeios 
diversos 
organizados 
pela marca 
--
26
 
Locais onde 
o grupo 
realiza seus 
passeios 
Através da 
aquisição de 
uma “Harley” e 
cadastramento 
no site do HOG. 
Harleyros 
M.C. 
Harley 
Davidson 
Livre. Não 
hierárquica 
Bares 
diversos da 
cidade. 
“Harleyros” 
Os bares 
onde se 
encontram 
Pré-observação 
da conduta do 
pretendente 
Falcões 
Raça 
Liberta M.C. 
Acima de 
500cc. 
Hierárquica 
Largo da 
Mariquita 
“Falcões” 
Constituem 
apenas um 
“espaço”, 
um “lugar”. 
Pré-observação 
da conduta do 
pretendente 
Cometas 
GAM M.C. 
Comet 
GTR 250. 
(Kasinski) 
Hierárquica 
Largo da 
Mariquita 
Motociclista 
de M.C. 
“Não 
constituem” 
Pré-observação 
da conduta do 
pretendente 
Alma 
Cigana M.C. 
Qualquer 
moto. 
Hierárquica 
Largo da 
Mariquita 
Motociclista 
de M.C. 
“Não 
constituem” 
Pré-observação 
da conduta do 
pretendente 
 Quadro comparativo dos grupos de motociclistas abordados na pesquisa. 
 Elaboração: Hiram Souza Fernandes, 2012. 
 
Por  fim,  para  que  se  possa  ter  uma  noção  maior  da  localização  das 
territorializações  constituídas  pelos  M.C.s  abordados  nessa  pesquisa  na  cidade  de 
Salvador,  apresento  o  mapa  (Figura  9)  elaborado  com  base  nas  informações 
prestadas pelos motociclistas entrevistados durante esse trabalho. 
                                                 
26
 Essa informação não foi direta e claramente obtida. No entanto, é possível inferir que os integrantes do HOG se identifiquem 
como motociclistas pertencentes ao HOG, já que fazer parte desse grupo confere alto grau de status aos participantes dentro 
do universo do motociclismo. 


98 
 
 


99 
 
 
5. Considerações Finais 
 
A proposta inicial deste trabalho era a de estabelecer um estudo comparativo 
entre  dois  agregados  identitários  bastante  distintos  entre  si,  segundo  os  critérios 
expostos por Haesbaert (2007) para caracterizar as identidades territoriais, que vão 
da  “reclusão  territorial”  à  “multiterritorialidade”.  Os  grupos  identitários  escolhidos 
eram  o  dos  jovens  denominados  de  emos  e  o  dos  grupos  de  motociclistas 
organizados em associações denominadas de Moto Clubes
27
.  
No  decorrer  da  execução  deste  trabalho,  percebi  que  estava  concentrando 
esforços excessivos para realizar o contato com integrantes que se reconhecessem 
enquanto  pertencentes  à  identidade  “emo”.  Frente  às  sucessivas  tentativas  mal 
sucedidas de estabelecer estes contatos e poder dar o prosseguimento necessário à 
evolução da pesquisa, decidi, com o consentimento e aprovação do orientador e dos 
membros  da  banca  examinadora,  pela  exclusão  do  agregado  identitário  dos  emos 
do  cerne  central  do  trabalho,  focando  os  esforços  apenas,  na  manifestação 
identitária  dos  motociclistas.  Desta  maneira  o  foco  passou  para  as  comparações 
dentre os diferentes grupos de motociclistas existentes. 
Mesmo  concentrando-me  apenas  com  os  grupos  de  motociclistas,  devo 
reconhecer  que  encontrei,  também,  constantes  dificuldades  para  a  realização  dos 
contatos,  conversas  e  entrevistas  que  pudessem  dar  embasamento  ao  meu 
trabalho.  Em  geral,  os  grupos  de  motociclistas  são  fechados,  e  à  primeira  vista, 
passam a impressão de serem pouco simpáticos aos ideais de trocas heterogêneas 
ou  com  o  desejo  de  conversar  com  pessoas  diferentes  e  desconhecidas  nos 
momentos  em  que  manifestam  a  sua  identidade  territorial  através  dos  encontros 
com  seus  semelhantes.  Dessa  maneira,  procedi  com  as  tentativas  de  providenciar 
contatos  em  comum  com  membros  de  alguns  grupos,  ou  então  através  do  contato 
prévio pelos escassos meios que alguns dos M.C.s disponibilizam na internet, para 
que  pudesse  ser  previamente  apresentado  à  eles,  antes  de  prosseguir  com  as 
entrevistas. 
                                                 
27
 No decorrer da pesquisa descobrimos a existência de outros tipos de associação de motociclistas, que não os M.C.s, como é 
o  caso  do  HOG,  um  grupo  organizado  pela  marca  norte-americana  de  motocicletas,  Harley  Davidson,  para  reunir  os 
compradores e proprietários das motos da marca. 


100 
 
Reconheço  que  o  número  de  M.C.s  entrevistados  possa  ser  considerado 
reduzido,  mesmo  estando  dentro  dos  parâmetros  de  uma  porcentagem  mínima 
requerida  para  os  procedimentos  de  cálculo  do  tamanho  da  amostra  através  da 
amostragem  simples.  No  entanto,  para  minimizar  a  baixa  quantidade  de  indivíduos 
entrevistados,  decidi,  em  consenso  com  o  meu  orientador,  proceder  com  o  relato 
das experiências de modo a extrair o máximo possível de detalhes que visassem o 
seu  enriquecimento.  Tal  procedimento  acabou  por  concretizar  uma  aproximação 
fenomenológica do objeto, buscando através desse aprofundamento de detalhes, a 
compreensão dos fenômenos através de sua essência. 
Os grupos abordados nessa pesquisa foram os Moto Clubes “Vermelho” M.C., 
“Harleyros  M.C.”,  “Falcões  Raça  Liberta  M.C.”,  “Cometas  GAM  M.C.”  e  o  “Alma 
Cigana  M.C.”,  além  do  grupo  organizado  pela  fabricante  norte-americana  de 
motocicletas para congregar os seus consumidores, o HOG. Após a elaboração do 
relato  das  experiências  que  constituíram  o  trabalho  de  campo  da  pesquisa  e  que  
constam no Capitulo 4 desta dissertação, é possível concluir que alguns grupos são 
extremamente  distintos  entre  si.  Como  regra  está  apenas  o  ideal  que  os  une  e  os 
fundamenta,  que  é a paixão  pelas motocicletas  e o  desejo  de  compartilhar  com os 
“irmãos” essa mesma paixão. 
É preciso deixar claro, que mesmo após os intensos trabalhos de campo, que 
possibilitaram um maior entendimento do objeto da pesquisa, não posso, tampouco 
pretendo  enquadrar, de  maneira  pragmática,  os  grupos  de motociclistas  abordados 
nessa  pesquisa  quanto  à  “multiterritorialidade”  ou  à  “reclusão  territorial”.  De  um 
modo  geral,  poderíamos,  apenas,  considerar  que  o  “Vermelho”  M.C.  tende  à 
“reclusão  territorial”,  tendo  em  vista  o  discurso  exclusivista  e  auto-segregador  de 
alguns  de  seus  membros,  e  que  os  M.C.s  frequentadores  das  reuniões  dos 
motociclistas de Salvador no Largo da Mariquita tendem à “multiterritorialidade”, pois 
se  demonstram  mais  abertos  ao  intercâmbio  com  outros  grupos,  bem  como  a 
interação  com  outras  esferas  da  sociedade  através  de  ações  e  campanhas  de 
solidariedade  realizadas  com  algumas  instituições  que  atendam  às  faixas  da 
população  desprivilegiadas  econômica  e  socialmente.  O  quadro  elaborado  para  o 
fechamento  do  capítulo  com  os  relatos  dos  resultados  obtidos  no  campo  pode  ser 
utilizado  para  que  se  compreenda  um  pouco  mais  sobre  todas  essas  diferenças,  e 
mesmo  as  similaridades,  sintetizadas  segundo  os  seguintes  fatores:  tipo  de  moto, 


101 
 
tipo  de  organização,  ponto  de  encontro,  a  identidade,  o  território  e  o  procedimento 
para a aceitação de novos membros. 
Além  do  estudo  comparativo  entre  os  grupos  de  motociclistas  que  revelou 
diferenças  e  similaridades  que  se  mostraram  úteis  para  a  desmistificação  do 
agregado identitário, e para compreendê-lo em sua essência, procurei discutir nessa 
pesquisa  a  maneira  como  o  modo  de  vida  urbano  contemporâneo,  caracterizado 
pela  “nova  urbanidade”  (CARLOS,  1997),  e,  cada  vez  mais,  por  um  “recuo  da 
cidadania”  (GOMES,  2006),  se  relaciona  com  as  identidades  territoriais  agindo 
diretamente  no  surgimento  /  crescimento  /  desaparecimento  dessas  manifestações 
na contemporaneidade. 
Não  se  faz  extremamente  necessária  uma  vasta  gama  de  estudos  e 
argumentações aprofundadas para se chegar a um consenso de que a vida urbana 
nas cidades brasileiras nos dias de hoje está cada vez mais homogênea, tendendo a 
segregação,  individualização  e  negando  os  encontros  de  sociabilidade.  Nossos 
contatos  com  os  vizinhos  de  um  mesmo  andar  em  um  edifício  de  apartamentos 
estão  cada  vez  mais  escassos.  Nas  cidades  médias,  onde  não  se  supõe  a 
necessidade  para  se proteger  da  “violência”,  alarmada  através  de  falsos discursos, 
vemos  ampliar  o  número  de  condomínios  fechados  destinados  às  altas  classes 
médias,  tais  como,  há  alguns  anos,  só  existiam  nas  grandes  cidades.  As  crianças 
são  cada  vez  mais  seduzidas  pelos  computadores,  video-games,  iPhones,  iPads  e 
iPods  e  já  não  mais  ocupam  as  ruas  que  outrora  eram  ocupadas  para  as 
brincadeiras  em  grupo.  Os  adultos  são  cada  vez  mais  seduzidos  por  um  consumo 
“pasteurizado”  de  bens,  que  em  sua  maioria,  são  supérfluos  tidos  como 
necessidades.  Nossos  contatos  diários,  quando  escassamente  existem,  se  dão  no 
âmbito dos ambientes de trabalho e estudo, e não mais do que isso. Entendo que, 
identificar-se  com  um  grupo,  congregar-se  com  um  determinado  agregado 
identitário,  torna-se  um  trunfo  da  sociabilidade  frente  à  homogeneização  cada  vez 
mais característica da “nova urbanidade”. No entanto, é necessário ressaltar que até 
as  identidades  territoriais,  podem,  através  da  progressão  de  seus  grupos, 
especialmente no espaço público, atuarem dialeticamente nesse processo, negando 
a sociabilidade e a co-presença do “outro”.  
Apesar  das  manifestações  que  caracterizam  a  “nova  urbanidade”  e  o  “recuo 
da  cidadania”  serem  cada  vez  mais  latentes  nas  metrópoles  e  grandes  cidades, 
inclusive  na  cidade  de  Salvador,  gerando  processos  que  encolhem  e  desfiguram  o 


102 
 
espaço público, com apropriações, invasões, ocupações etc., vale salientar que nem 
tudo está “perdido”, pois o espaço da cidade é um espaço aberto para ser usado e 
aproveitado por todos. 
É  preciso  garantir,  segundo  Caldeira  (2003),  que  esses  espaços  promovam 
interações entre os habitantes da cidade com base na cidadania, para que cada um 
possa  conhecer  e  respeitar  o  direito  do  outro,  fazendo  valer  os  ideais  liberais 
modernos,  com  expansão  dos  direitos,  da  liberdade,  a  justiça  e  a  igualdade,  bem 
como pela busca de modelos que incluam os excluídos. É necessário, portanto, uma 
busca  pela  recuperação  dos  encontros  de  sociabilidade  que  outrora  existiram  nas 
cidades,  mesmo  em  cidades  já  consideradas  grandes,  como  a  São  Paulo  das 
décadas de 1970 e 1980. 
Ana Fani Alessandri Carlos, autora em quem mais me apoio para comprovar 
a  “nova  urbanidade”  que  permeia  e  desconstrói  as  relações  humanas  nas  grandes 
cidades,  é  a  minha  fonte  de  inspiração  também  para  crer  que  nem  tudo  é 
desagregação e isolamento. Segundo Carlos (1997), enquanto o individualismo e o 
isolamento  crescem,  emergem  aqui  e  ali,  na  metrópole,  movimentos  contrários.  A 
autora faz referência a bairros tradicionais de São Paulo, onde ainda hoje perdura o 
sistema  de  “compra  com  caderneta”  permeando  as  relações  diretas  entre  as 
pessoas,  bem  como  as  feiras  livres  que  ainda  persistem  ao  avanço  dos 
hipermercados  e  shopping  centers,  não  só  como  local  de  compras,  mas  também 
enquanto ponto de encontro. Tais movimentos, que complementam dialeticamente a 
“nova  urbanidade”,  são  permeados,  principalmente,  pela  ação  dos  agregados  de 
identidade.  “É  decididamente  o  irredutível  que  não  se  deixa  matar,  o  residual  que 
não será nunca suprimido” (CARLOS, 1997, p. 211). Movidos por um ideal solidário 
que não se perdeu, esses grupos resistem por guardarem a identidade que os uniu.  
Desta  maneira,  finalizo  este  trabalho,  que  apesar  de  ter  apresentado  suas 
dificuldades,  e,  por  consequência,  suas  fragilidades,  constituiu  uma  importante 
ferramenta  na  consolidação  da  minha  formação  profissional,  que,  além  de  tudo, 
acredito ser útil para a expansão dos conhecimentos em Geografia, bem como nas 
Ciências  Humanas  de  uma  maneira  geral,  por  expor  e  compartilhar  ideias  que 
advogam  por  uma  vida  humana  com  mais  igualdade  que  possa  ser  garantida  pela 
promoção da sociabilidade, mesmo com as diferenças e a enorme heterogeneidade 
que caracterizam os seres humanos. 


103 
 
Referências Bibliográficas 
 
BEZERRA,  Amélia  Cristina  Alves.  Festa  e  identidade:  a  busca  da  diferença  para  o 
mercado de cidades. In: ARAUJO, F. G. B. de; HAESBAERT, R. (orgs.) Identidades 
e territórios: questões e olhares contemporâneos. Rio de Janeiro: Access, 2007. 
p. 69-92. 
 
BOURDIEU,  Pierre.  Gostos  de  classe  e  estilos  de  vida.  In:  Ortiz,  Renato  (org.). 
Pierre Bourdieu. São Paulo: Ática, 1983, p. 82-121. 
 
CALDEIRA, T. P. do R.. Cidade de muros. crime, segregação e cidadania em São 
Paulo – SP. 2. Ed. São Paulo: Edusp, 2003. 399 p. 
 
CARLOS.  Ana  Fani  Alessandri.  A  natureza  do  espaço  fragmentado.  In:  SANTOS, 
M.;  SOUZA,  M.A.A.  de  et  SILVEIRA,  M.L.  (orgs.).  Território:  Globalização  e 
fragmentação. Hucitec/ANPUR: São Paulo, 1994. 
 
______.  A  construção  de  uma  “nova  urbanidade”.  In:  SILVA,  J.  B.;  COSTA,  M.  C.; 
DANTAS, E. W. (orgs.) A cidade e o urbano. Fortaleza: EdUFC, 1997. p.199-212. 
 
CLAVAL, Paul. Uma, ou algumas, abordagem(ns) cultural(is) na Geografia Humana? 
In:  SERPA,  Ângelo  (org.)  Espaços  culturais:  vivências,  imaginações  e 
representações. Salvador: EdUFBA, 2008. p. 13-29. 
 
COSTA, Benhur Pinos da. As relações entre os conceitos de território, identidade, e 
cultura  no  espaço  urbano:  por  uma  abordagem  microgeográfica.  In:  ROSENDAHL, 
Z.  e  CORRÊA,  R.  L.  (orgs.).  Geografia:  temas  sobre  cultura  e  espaço.  Rio  de 
Janeiro: EdUERJ, 2005. p.79-114. 
 
COSTA,  Benhur  Pinos  da;  COSTA,  Diana  Ayla  Silva  da.  Geografia  das 
(micro)territorializações culturais nas praças do centro urbano de Manaus. In: Anais 
do  II Colóquio Nacional do Núcleo de Estudos em Espaço e Representações: 
espaços culturais: vivências, imaginações e representações. CD-ROM /  Instituto de 
Geociências,  Mestrado  em  Geografia  da  UFBA,  Departamento  de  Geografia  da 
UFPR. Salvador: EdUFBA, 2007. 
 
DAVIS,  M..  Cidade  de  quartzo.  Escavando  o  futuro  de  Los  Angeles.  São  Paulo: 
Scritta, 1993. 378 p. 
 
DIONNE,  Jean;  LAVILLE,  Christian.  A  construção  do  saber:  manual  de 
metodologia da pesquisa em ciências humanas. Porto Alegre: Artmed/UFMG, 1999. 
 
FERNANDES,  Fernanda  Marques;  FILHO,  João  Freire.  Jovens,  espaço  urbano  e 
identidade:  reflexões  sobre  o  conceito  de  cena  musical.  In:  FILHO,  João  Freire; 
JUNIOR, Jeder Janotti (orgs.). Comunicação e música popular massiva. Salvador: 
EdUfba, 2006. p. 25-40. 
 
GIDDENS,  Anthony.  Modernity  and  self-identity:  self  and  society  in  the  late 
Modern Age. Cambridge: Polity, 1991. 


104 
 
 
GOMES,  Paulo  Cesar  da  Costa.  A  condição  urbana:  ensaios  de  geopolítica  da 
cidade. 2. ed. Bertrand Brasil: Rio de Janeiro, 2006. 
 
GREENWALD, Andy. Nothing Feels Good: punk rock, teenagers and emo. New 
York: St. Martin´s Griffin, 2003. 
 
HAESBAERT,  R.  Identidades  territoriais.  In:  CORRÊA,  R.  L.;  ROSENDAHL,  Z. 
(orgs.) Manifestações da cultura no espaço. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999. p. 49-
58. 
 
______. Território, Cultura e Desterritorialização. In: CORRÊA, R. L.; ROSENDAHL, 
Z. (orgs.) Religião Identidade e Território. 1 ed. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001. p. 
115-144. 
 
______.  O  mito  da  Desterritorialização:  do  “fim  dos  territórios”  à 
multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. 400 p. 
 
______.  Identidades  territoriais:  entre  a  multiterritorialidade  e  a  reclusão  territorial 
(ou: do hibridismo cultural à essencialização das identidades). In: ARAUJO, F. G. B. 
de;  HAESBAERT,  R.  (orgs.)  Identidades  e  territórios:  questões  e  olhares 
contemporâneos. Rio de Janeiro: Access, 2007. p.33-56  
 
______.  Hibridismo,  mobilidade  e  multiterritorialidade  numa  perspectiva  geográfico-
cultural  integradora.  In:  SERPA,  Ângelo  (org.)  Espaços  culturais:  vivências, 
imaginações e representações. Salvador: EdUFBA, 2008. p. 393-419 
 
HALL,  S..  A  identidade  cultural  na  pós-modernidade.  Rio  de  Janeiro:  DP&A, 
2007. 104 p. 
 
HEIDRICH, A. L.. Sobre nexos entre espaço, paisagem e território em um contexto 
cultural.  In:  SERPA,  Ângelo  (org.)  Espaços  culturais:  vivências,  imaginações  e 
representações. Salvador: EdUFBA, 2008. p. 293-311.  
 
HENRIQUE, Wendel. O direito à natureza na cidade. Salvador: Edufba, 2009. 184 
p. 
 
LEFEBVRE, Henri. De lo rural a lo urbano. Barcelona: Península, 1978. 270 p. 
 
______.  Lógica  formal  /  Lógica  dialética. São Paulo:  Civilização  Brasileira,  1979. 
302 p. 
 
______. A vida cotidiana no mundo moderno. São Paulo: Ática, 1991. 216p. 
 
LIMA,  Paulo.  A  Harley  acelera.  Revista  Gol  Linhas  Aéreas  Inteligentes.  São 
Paulo. v. 118, p. 130-136, Janeiro, 2012. 
 
 
MARX, Karl. O Capital. Edipro: São Paulo, 2012. 
 


105 
 
MERLEAU-PONTY M. La phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. 
 
MESQUITA,  M.  E.  A.;  MAIA,  C.  E.  S.;  Territórios  e  territorialidades  urbanas  em 
Goiânia:  as  tribos  dos  moto  clubes.  In:  Boletim  Goiano  de  Geografia.  v.  27,  n.  3, 
jul/dez 2007. UFG: Goiânia, 2007. 
 
OLIVEIRA, M. F. de. Princesas do Sertão: o universo trans entre o espelho e as 
ruas  de  Feira  de  Santana-Ba.  Dissertação  de  Mestrado  em  Geografia. 
Universidade Federal da Bahia, 2010. 
 
PINTAUDI,  S.  M.  Os mercados públicos:  vestígios  de  um  lugar.  In:  CARLOS,  A.  F. 
A.; SOUZA, M. L. de.; SPOSITO, M. E. B. (orgs.). A Produção do Espaço Urbano: 
Agentes e processos, escalas e desafios. São Paulo: Contexto, 2011. P. 167-176. 
 
RAFFESTIN, C.. Por uma geografia do poder. Tradução de Maria Cecília França. 
São Paulo: Ática, 1993. 269p. 
 
SANTOS,  Milton.  Técnica,  espaço,  tempo:  globalização  e  meio  técnico-científico 
informacional. São Paulo: Hucitec, 1997. 
 
______.  Por  uma  outra  globalização:  do  pensamento  único  à  consciência 
universal. Rio de Janeiro: Record, 2000. 
 
______. Natureza do Espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed. 2. reimpr.- 
Edusp: São Paulo, 2006. 
 
SANTOS,  Milton;  SILVEIRA,  Maria  Laura.  O  Brasil:  território  e  sociedade  no  início 
do século XXI.  São Paulo: Record, 2001, 474p.. 
 
SERPA,  Angelo.  O  trabalho  de  campo  em  Geografia:  uma  abordagem  teórico-
metodológica. In: Boletim Paulista de Geografia. São Paulo, n. 84, 2006. p. 7-24. 
 
______. O espaço público na cidade contemporânea. São Paulo: Contexto, 2007. 
207 p. 
 
______.  Como  prever  sem  imaginar?  O  papel  da  imaginação  na  produção  do 
conhecimento  geográfico.  In:  ______.  (org.)  Espaços  culturais:  vivências, 
imaginações e representações. Salvador: EdUFBA, 2008. p. 59-67. 
 
SOUZA, M. L. de. O território. Sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvimento. 
In: Castro, I.; Gomes, P.C.; Correa, R.L.. (Org.). Geografia: Conceitos e temas. 1 
ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995, v. , p. 140-164. 
 
SPOSITO, E. S.. Geografia e Filosofia. Contribuições para o ensino do pensamento 
geográfico. São Paulo: Ed. UNESP, 2004, 218p. 
 
THOMPSON,  H.  S.  Hell’s  Angels:  medo  e  delírio  sobre  duas  rodas.  Tradução 
Ludimila Hashimoto. São Paulo: Conrad, 2004. 276 p. 
 
TUAN, Yi-Fu. Paisagens do medo. São Paulo: EdUnesp, 2005. 376p. 


106 
 
WERLEN, Benno. Society, Action and Space. New York: Routledge, 1993. 
 
______.  Regionalismo  e  sociedade  política.  Trad.  Rogério  Haesbaert.  In: 
GEOgraphia. Ano II, Nº 4, p. 7-25, Niterói: UFF, 2000. 
 
______. The making of globalized everyday Geographies. In: BAERENHOLDT, J.O.; 
SIMONSEN, K. (orgs): Space Odysseys. Aldershot: Ashgate, 2004. p. 153-167. 
 
______.  Everyday  Regionalisations.  In: 
KITCHIN,  R.;  THRIFT,  N..  International 
Encyclopedia of Human Geography. Amterdam/London/Oxford: Elsevier, 2009. p. 
286-293. 
 



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal