Hiram Souza (Dissertação)


partir dos fundamentos do  punk tradicionais, como em Long Island e Nova



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partir dos fundamentos do  punk tradicionais, como em Long Island e Nova 
Jersey, onde o consumismo desenfreado e o tédio constante combinam-se 
para  empurrar  habitantes  em  uma  busca  desesperada  por  algo  "real". 
(Greenwald, 2003, p. 55). 
 
Não foi possível  prosseguir  com  o  aprofundamento  do  trabalho  com o  grupo 
do emos, pois, no decorrer de minhas pesquisas de campo, cheguei à conclusão de 
que este grupo não está mais se reunindo, da mesma forma como fazia até meados 
do ano de 2010 (ano em que se deu início à pesquisa), e os jovens que “pertenciam” 
ao grupo, não se reconhecem mais enquanto emos. Ao que parece, reconhecer-se 
como  emo  tornou-se  démodé,  pelo  menos  em  Salvador.  Os  comportamentos, 
vestuários  e  músicas,  apesar  de  permanecerem  os  mesmos,  (salvo  algumas 
“mutações e inovações”), não são mais admitidos como característicos do grupo, o 
que  para  mim  comprova  o  caráter  transitório  e  híbrido  dessa  manifestação 
identitária, que caracteriza as “multiterritorialidades”.  
Foram  várias  tentativas  de  busca  por  pessoas,  em  um  território,  que  se 
encaixavam  no  perfil  do  grupo  para  serem  entrevistadas  e  acompanhadas,  mas 
todas elas não se mostraram adequadas para a situação da pesquisa. Foram feitas 
tentativas,  inclusive,  em  shows  e  eventos  de  bandas  reconhecidamente  Emocore, 
como, por exemplo, o show da banda “Restart”
2
, que aconteceu no dia 16/10/2011, 
no  Othon/Salvador.  Também  foram  realizadas  pesquisas  nas  redes  sociais  que 
                                                 
2
 
A banda Restart é tradicionalmente reconhecida pelo movimento Emo.
 


15 
 
indicaram  que  é  praticamente  nula  a  existência  dessa  manifestação  identitária, 
enquanto  agregado  identitário  em  Salvador,  nos  dias  atuais.  Não  encaro  esse  fato 
como um problema, pois é possível concluir que o caráter extremamente efêmero e 
híbrido desta manifestação identitária não permitiu que o grupo se estabelecesse e 
se  essencializasse  no  território  como  é  o  caso  do  grupo  dos  motociclistas 
organizados em Moto Clubes. Tal constatação trouxe à luz o questionamento, que é 
fruto  da  comparação  inicial  entre  os  “tipos”  de  manifestações  identitárias,  se 
somente  aqueles  grupos  que  em  seu  arcabouço  ideológico  e  nas  suas  práticas 
territoriais  possuem  um  discurso  mais  essencialista  é  que  estão  aptos  a  se 
estabelecerem  no  espaço  urbano  da  metrópole  em  contraposição  dialética  com  a 
“nova urbanidade”.
 
Anteriormente,  para  descrever  os  agregados  identitários  abordados  nessa 
pesquisa,  me  apoiei  no  conceito  de  “estilo  de  vida”.  Nesse  sentido,  recorro  à 
sociologia de Giddens (1991) e a de Bourdieu (1983) para referenciar o conceito por 
mim utilizado. Bourdieu esclarece que: 
 
Às  diferentes  posições  no  espaço  social  correspondem  estilos  de  vida, 
sistemas  de  desvios  diferenciais  que  são  a  retradução  simbólica  de 
diferenças objetivamente inscritas nas condições de existência. As práticas 
e as propriedades constituem uma expressão sistemática das condições de 
existência (aquilo que chamamos de estilos de  vida) porque são  o produto 
do  mesmo  operador  prático,  o  habitus,  sistema  de  disposições  duráveis  e 
transponíveis  que  exprime,  sob  a  forma  de  preferências  sistemáticas,  as 
necessidades objetivas das quais é produto. (BOURDIEU, 1983, p. 82). 
 
Já Giddens apresenta uma ideia para estilo de vida um tanto quanto distinta e 
menos  atrelada  a  outros  conceitos  (como  em  Bourdieu  está  atrelada  à  ideia  de 
habitus), a saber: 
 
Um  estilo  de  vida  pode  ser  definido  como  mais  ou  menos  integrado  à  um 
conjunto de práticas que o indivíduo estabelece. Não apenas por que essas 
práticas  complementam  necessidades  úteis,  mas  porque  elas  conferem 
uma  forma  material  a  uma  narrativa  particular  de  identidade  própria.
3
 
(GIDDENS, 1991, p. 81). 
 
Acredito  que  os  grupos  reproduzem  e  assumem  comportamentos  estéticos 
oriundos de outras formações socioculturais que não as de Salvador, na Bahia. No 
                                                 
3
 A lifestyle can be defined as a more or less integrated set of practices which an individual embraces, not only because such 
practices fulfill utilitarian needs, but because they give material form to a particular narrative of self-identity. (GIDDENS, 1991, p. 
81). 


16 
 
entanto, ambos os comportamentos citados acima produzem formas de identificação 
que irão dar origem às identidades. Cabem aqui as contribuições de Costa & Costa 
(2007)  que  consideram  a  identidade  como  um  processo  reflexivo  construído  por 
relações  sociais.  Os  autores  enfatizam  que  as  identidades  “são  construídas  e 
manipuladas  constantemente  a  partir  de  relações  sociais  estabelecidas  em 
diferentes  grupos  com  que  os  indivíduos  convivem  em  seu  cotidiano”.  (COSTA  & 
COSTA, 2007, p.2). 
Tendo  em  vista  a  importância  da  possibilidade  de  estudar  temas  “marginais” 
na  Geografia,  como  o  tema  proposto  neste  trabalho,  torna-se  relevante  buscar 
compreender  as  espacialidades  das  manifestações  culturais  identitárias  que 
produzem  e  reproduzem  os  territórios  e  as  suas  respectivas  territorialidades.  É 
sabido que esta temática não está entre as mais estudadas na Geografia Brasileira 
na atualidade, principalmente em relação aos trabalhos que tratem das identidades 
que  não  estejam  diretamente  ligadas  às  identidades  sociais  de  classe,  de  gênero, 
regionais  ou  de  cunho  religioso.  No  entanto  é  de  se  destacar  que  este  tema  tem 
crescido  nos  últimos  anos,  principalmente  com  as  produções  de  grupos  como  o 
NEPEC  e  o  NEER.  Tal  tema  tem  a  característica  ímpar  de  contribuir  com  o 
desenvolvimento,  ampliação  e  visibilidade das  ideias  que  advogam  a favor  de  uma 
abordagem cultural na Geografia Humana. Essa abordagem busca trazer à tona “o 
fato  de  que  os  processos  sociais,  econômicos  ou  políticos  dependem  das  culturas 
onde eles atuam”. (CLAVAL, 2008, p. 28). 
Além  disso,  a  pesquisa  possui  relevância  prática  na  constituição  do 
conhecimento  a  respeito  das manifestações  culturais dos  agregados  identitários  ao 
se  territorializarem.  Tal  relevância  é  evidenciada  por  Serpa  (2008)  ao  lembrar  a 
sugestão de Michel de Certeau; 
 
[...]  de  proceder  a  uma  análise  fenomenológica  e  praxeológica  das 
trajetórias  culturais  dos  grupos  que  produzem  e  reproduzem  ideias  de 
cultura  alternativas  à  cultura  dominante,  apreendendo  a  composição  dos 
lugares onde estes grupos atuam, bem como a inovação que modifica estes 
lugares ao atravessá-los, por sua abrangência de atuação. Saber quem faz 
uso  dessas  formas  de  expressão  cultural  de  oposição  e  de  que  maneira 
elas são utilizadas deve se constituir, portanto, no cerne das pesquisas em 
Geografia  Humana,  vislumbrando  futuros  imaginados  e  quem  sabe 
possíveis (SERPA, 2008, p. 66). 
 
É  de  se  destacar  que  importantes  geógrafos  brasileiros,  que  se  dedicam  a 
estudos sobre a abordagem cultural da geografia, tais como, Angelo Serpa, Benhur 


17 
 
Pinos da Costa, Rogério Haesbaert, Alessandro Dozena e Maria Geralda de Almeida 
vêm  angariando  muitos  seguidores  na  área  da  Geografia  Humana  com  o 
desenvolvimento  de  importantes  trabalhos,  pesquisas  e  contribuições  acadêmicas 
no que se refere às questões identitárias e suas implicações territoriais.  
Tendo  em  vista  o  tema  que  apresento  nessa  dissertação  de  mestrado, 
exponho  o  objetivo  geral  que  norteou  a  elaboração  e  realização  da  pesquisa, 
reelaborado  a  partir  da  exclusão  do  grupo  dos  emos:  Compreender  as  estratégias 
territoriais  dos  grupos  de  motociclistas  organizados  nos  M.C.s  a  partir  das 
identidades  territoriais  que  resultam  na  formação  de  territorialidades  culturais  no 
espaço intra-urbano da cidade de Salvador.  
Em  decorrência  da  necessidade  do  alcance  a  este  objetivo  geral,  foram 
desenvolvidos os seguintes objetivos específicos:  
Identificar  e  descrever  as  áreas  de  estudo,  levantando  os  territórios  fixos, 
móveis e eventuais referentes às manifestações identitárias; explorar e compreender 
as  relações  entre  o  cotidiano  e  o  espaço,  na  formação  das  territorialidades; 
compreender a gênese e constituição dos grupos de motociclistas organizados nos 
M.C.s  na  cidade  de  Salvador;  desvendar  o  “apego”  entre  os  grupos  e  seus 
correspondentes  territórios  oriundos  da  sobreposição  entre  o  lugar,  manifestações 
identitárias e a cultura dos agregados identitários. 
 
 
1.2 Metodologia 
 
Nessa  pesquisa  estabeleço  minhas  análises  através  da  compreensão  do 
método  dialético  em  uma  abordagem  cultural  da  Geografia  Humana.  Tal  tarefa 
demonstra-se desde já um grande desafio a se empreender na pesquisa geográfica, 
no  entanto,  pode  trazer  uma  visão  mais  ampla  e  compreensiva  do  real.  Lefebvre 
(1979),  ao  tratar  da  dialética  hegeliana,  afirma  que  se  o  real  está  em  movimento, 
nosso  pensamento  também  deve  ter  um  comportamento  ditado  pelo  movimento  e 
que na verdade seja justamente o pensamento do movimento, da historicidade e das 
contradições inerentes aos fenômenos humanos. E se o real é contraditório, faz-se 
necessário  que  o  pensamento  seja,  justamente,  o  pensamento  “consciente  da 
contradição”. 


18 
 
Baseando-se nos preceitos da dialética, do confrontamento das opiniões, dos 
pontos  de  vista,  dos  diferentes  aspectos  do  problema  e  das  oposições  e 
contradições,  busco  compreender  através  desse  método  as  contradições  que  se 
apresentam  em  duas  dimensões  no  tema  da  pesquisa,  a  saber:  a  formação  / 
surgimento  /  (des)aparecimento  das  múltiplas  identidades  e  dos  processos  de 
identificação  no  cotidiano  moderno  das  metrópoles  em  conivência  com  o  avanço 
cada  vez  maior  de  comportamentos  individualistas  dos  seres  humanos  que  os  têm 
levado  à  reclusão.  Essa  dimensão  pode  ser  sintetizada  pelo  par  dialético 
“Sociabilidade x Reclusão”, tal como abordarei mais especificamente no decorrer do 
trabalho.  E  a  outra  dimensão  é  a  da  análise  do  surgimento  das  manifestações 
identitárias  que  se  apresentam  no  plano  do  local  a  partir  da  influência  das  lógicas 
globais,  diferindo  das  características  da  mesma  manifestação  identitária  em  nível 
global, pelas suas especificidades locais. 
Buscar a essência dos temas e dos sujeitos por mim pesquisados foram meus 
objetivos  nos  trabalhos  estudados  e  que  se  deram  através  das  descobertas  da 
dialética.  Spósito  (2004)  ao  lembrar  Dilthey,  reforça  que  as  “formas  de  cultura,  no 
curso  da  história,  devem  ser  apreendidas  através  da  experiência  íntima  de  um 
sujeito;  cada  produção  espiritual  é  somente  o  reflexo  de  uma  cosmovisão  e  toda 
filosofia é uma ‘filosofia de vida’”. (SPOSITO, 2004, p.35). 
 
Serpa  (2006)  reafirma  a  respeito  da  necessidade  de  superação  das 
dicotomias  e  ambiguidades  que  são  características  da  Geografia,  tendo  a  chave 
para  essa  superação,  o  próprio  trabalho  de  campo  em  Geografia.  O  autor  lembra 
que 
 
[...]  é  necessário  enfatizar  as  múltiplas  possibilidades  da  dialética,  como  a 
arte  do  falar  e  do  pensar  filosóficos,  em  nada  incompatíveis  com  uma 
abordagem  fenomenológica  ou  mesmo  com  procedimentos  indutivos  (ou 
dedutivos)  na  operacionalização  da  pesquisa  e  do  trabalho  de  campo  em 
Geografia.  Assumir  as  contradições  na  produção  do  espaço  não  elimina  a 
possibilidade  de  buscar  a  essência  dos  fenômenos  nos  seus  diferentes 
recortes,  nem  a  utilização  de  procedimentos  que  objetivem  alcançar  (e 
explicitar)  uma  totalidade,  a  partir  do  raciocínio  indutivo  ou  dedutivo.  A 
unidade  e  a  interpenetração  dos  contrários,  características  básicas  do 
método dialético, devem ser levadas [...] às suas últimas consequências, no 
sentido  de  evitar  os  riscos  presentes  na  produção  do  conhecimento 
científico, 
rechaçando 
os 
“determinismos”, 
“mecanicismos” 

“evolucionismos”  e  incorporando  ao  desenvolvimento  das  pesquisas 
geográficas a importância dos sujeitos e de suas visões de mundo em sua 
dimensão mais profunda (SERPA, 2006, p. 22-23). 
 


19 
 
No  que  diz  respeito  aos  procedimentos  metodológicos  que  foram  utilizados, 
ressalto que os trabalhei buscando me aproximar do real, mas sem perder de vista o 
estranhamento  necessário  por  parte  do  sujeito  pesquisador  como  uma  maneira  de 
compreender  as  questões  que  se  apresentaram  na  pesquisa.  Segundo  Oliveira 
(2010), a “‘participação observante’ possibilita a eclosão da capacidade de surpresa 
e retifica a empatia como forma de descobrir o outro” (OLIVEIRA, 2010, p. 30). Posto 
isso,  os  procedimentos  metodológicos  que  utilizei  estão  distantes  dos  ideais 
positivistas  de  “neutralidade  científica”,  e  desta  forma,  busquei  tornar  visíveis  as 
situações  de  vida  que  estão  camufladas,  mas  que  puderam  vir  à  tona  juntamente 
com os anseios, as vozes e carências de cada grupo. 
Inicialmente,  foi  feito  o  levantamento  bibliográfico  sobre  a  gênese  e  a 
constituição  dos  agregados  sociais  dos  motociclistas  levando  em  consideração  o 
momento em que passaram a manifestar seus sonhos, anseios e representações a 
partir  das  (micro)territorialidades  na  cidade  de  Salvador  baseando-se  em  uma 
abordagem  cultural  da  Geografia  Humana,  tal  como  sugerem  Claval  (2008), 
Haesbaert  (2008)  e  Heidrich  (2008).  Ao  mesmo  tempo,  foram  aprofundadas  as 
pesquisas  para  o  aporte  teórico  do  tema  que  envolve  as  identidades  territoriais, 
“tribos  urbanas”,  (micro/multi)territorializações,  reclusão  territorial  e  o  uso  e 
acessibilidade aos espaços públicos da cidade por esses agregados identitários.  
Posteriormente,  realizei  os trabalhos  de  campo,  sem,  no  entanto,  abandonar 
as  pesquisas  teóricas  e  os  levantamentos  bibliográficos  descritos  anteriormente. 
Para  esses  trabalhos  empíricos  realizei  entrevistas  semiestruturadas  e  conversas 
informais com membros de seis grupos de motociclistas com organizações distintas 
em  Salvador,  e  também  em  nível  nacional,  a  fim  de  compreender,  de  forma 
aprofundada,  as  aspirações  gerais  de  cada  grupo  e  como  esses  grupos  se 
organizam  espacialmente  na  capital  baiana.  Dentre  esses  grupos,  cinco  se 
constituem  enquanto  “Moto  Clubes”  (M.C.s).  Chegamos  ao  número  de  cinco  M.C.s 
através da amostragem aleatória simples (DIONNE; LAVILLE, 1999), que representa 
30% dos M.C.s reconhecidos pela Associação dos Motociclistas do Estado da Bahia 
(AMO-BA). Um dos focos foi o de entender as diferentes concepções ou pontos de 
vista referentes à questão da identidade entre os membros de um mesmo grupo e o 
que  pensam  esses  grupos  a  respeito  da  importância  do  papel  das  identidades 
culturais  “territorializadas”  que  acompanham  um  movimento  de  cultura  que  se 


20 
 
apresenta  como  uma  alternativa  à  da  cultura  dominante  na  constituição  da 
autonomia individual e coletiva na metrópole contemporânea. 
Por  fim,  na  etapa  dos  “trabalhos  de  gabinete”,  os  dados  e  informações 
relevantes  coletados  e  obtidos  através  dos  levantamentos  bibliográficos  e  dos 
trabalhos  de  campo, foram  compilados  para  auxiliarem  na  elaboração  da  análise  e 
da  escrita  desse  trabalho,  em  especial,  em  relação  ao  capítulo  4,  que  discute  de 
maneira aprofundada os resultados obtidos nas pesquisas de campo. 


21 
 
2.  Identidades  e  Identidade  Territorial:  contextualização 
teórica 
 
 
2.1 Identidade + Território = Identidade Territorial? 
 
Os  conceitos  chaves  que  nortearam  essa  pesquisa  foram  o  território  e  a 
identidade  territorial.  O  território,  sendo  compreendido  e  determinado  através  de 
relações  de  poder,  é  eminentemente  político.  No  entanto,  a  vertente  a  qual  nos 
filiamos  para  a  realização  desse  trabalho  acredita  que  o  território  possui  três  vias 
distintas  no  que  tange  às  relações  de  poder:  As  do  poder  mais  material  -  político 
e/ou  econômico;  e  a  do  poder  mais  simbólico,  expresso  pelas  relações  de  ordem 
cultural.  Saliento  que  segundo  a  minha  visão,  não  pretendo  aqui  estabelecer  uma 
separação  ou  mesmo  hierarquização  dessas  dimensões,  por  acreditar  que  cultura, 
política e economia estão sempre atreladas umas às outras, podendo-se considerar, 
inclusive,  uma  “Economia  do  Simbólico”  ou  um  “Poder  Simbólico”.  Seguindo  essa 
corrente  de  pensamento,  Haesbaert  (1997,  1999,  2004,  2007),  avança,  a  meu  ver, 
nas discussões sobre o território de Raffestin (1993) e Souza (1995), pois para ele, o 
território pode ser entendido 
 
[...]  a  partir  da  concepção  de  espaço  como  um  híbrido  –  híbrido  entre 
sociedade  e  natureza,  entre  política,  economia  e  cultura,  e  entre 
materialidade  e  idealidade,  numa  complexa  interação  tempo-espaço  (...)  o 
território pode ser concebido a partir da imbricação de múltiplas relações de 
poder,  do  poder  mais  material  das  relações  econômico-políticas  ao  poder 
mais  simbólico  das  relações  de  ordem  mais  estritamente  cultural 
(HAESBAERT, 2004, p. 79).  
 
Haesbaert (1997) aponta ainda que o território 
 
[...]  envolve  sempre,  ao  mesmo  tempo  (...),  uma  dimensão  simbólica, 
cultural, através de uma identidade territorial atribuída pelos grupos sociais, 
como  forma  de  “controle  simbólico”  sobre  o  espaço  onde  vivem  (sendo 
também,  portanto,  uma  forma  de  apropriação),  e  uma  dimensão  mais 
concreta,  de  caráter  político  disciplinar  [e  político-econômico,  podemos 
acrescentar]: a apropriação e ordenação do espaço como forma de domínio 
de disciplinarização dos indivíduos (HAESBAERT, 1997, p. 42). 
 
Busquei,  nessa  pesquisa,  compreender  o  conceito  de  identidade  e  atrelá-lo 
aos estudos em geografia de uma maneira que o vê como “processo”. Baseando-me 
em Hall (2007), que considera que o sujeito, como tendo uma identidade unificada e 


22 
 
estável, “está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias 
identidades, algumas contraditórias ou não-resolvidas” (HALL, 2007, p. 12). O autor 
lembra que, em essência, as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram 
o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando 
o  indivíduo  moderno,  até  aqui  visto  como  um  sujeito  unificado.  Esse  conceito,  que 
para  o  autor  é  considerado  como  “demasiadamente  complexo  e  muito  pouco 
compreendido  na  ciência  social”,  deve  ser  abordado  enquanto  um  processo 
histórico,  formado  ao  longo  do  tempo,  caracterizado  por  estar  sempre  “sendo 
formado”  e  por  isso  mesmo,  devendo-se  considerá-lo  como  “processos  de 
identificação” (Hall, 2007). E complementa: 
 
[...] A identidade torna-se uma “celebração móvel”: formada e transformada 
continuamente  em  relação  às  formas  pelas  quais  somos  representados  ou 
interpelados  nos  sistemas  culturais  que  nos  rodeiam.  É  definida 
historicamente,  e  não  biologicamente.  O  sujeito  assume  identidades 
diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao 
redor  de  um  “eu”  coerente.  Dentro  de  nós  há  identidades  contraditórias, 
empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações 
estão sendo continuamente deslocadas (HALL, 2007, p. 12-13). 
 
Ainda  referindo-me  a essa  “fragmentação”  a  que  está  sujeito  o  indivíduo  em 
seus  processos  de  identificação,  Santos  (1997)  considera  a  fragmentação  como  o 
resultado de um embate entre a necessidade e a liberdade que se dá pela “luta entre 
uma  organização  coercitiva  e  o  exercício  da  espontaneidade”.  A  fragmentação  do 
território em Santos (2000) é fruto de uma ideologia trazida pela globalização de que 
a  fluidez  é  um  bem  comum,  sendo  que,  na  verdade,  está  distribuída  de  forma 
desigual  no  mundo,  de  acordo  com  os  interesses  das  empresas  e  do  capital,  que 
buscam apenas a expansão e não a união ou homogeneidade do território. 
Para  “geografizar”  a  abordagem  sobre  as  identidades  faz-se  necessário  que 
se  considere  a  formação  dos  espaços  de  referência  identitária  a  partir  da  atuação 
das  identidades,  que  passarão  a  se  “territorializar”.  Essa  “territorialização”  das 
identidades dá fundamento a um dos conceitos chave dessa pesquisa que é o das 
“identidades territoriais”. Para Haesbaert (1999), a identidade, que ao se manifestar 
faz  uso  de  elementos  espaciais,  símbolos  ou  representações,  constitui  uma 
“identidade territorial”. Nas palavras do autor; 
 
[...] trata-se de uma identidade em que um dos aspectos fundamentais para 
a  sua  estruturação  está  na  alusão  ou  referência  a  um  território,  tanto  no 


23 
 
sentido  simbólico  quanto  concreto.  Assim,  a  identidade  social  é  também 
territorial  quando  o  referente  simbólico  central  para  a  construção  desta 
identidade parte do ou transpassa o território (HAESBAERT, 1999, p. 178). 
 
As  identidades  territoriais,  ao  imprimirem  suas  ações  simbólicas  no  espaço, 
constituirão  o  que  denominamos  de  “territorialidade”.  Podemos  entender  a 
territorialidade,  portanto,  como  a  dimensão  simbólica  imposta  em  um  território 
dominado  por  relações  de  identidade  territorial.  Para  Serpa  (2007),  este  conceito 
pode  ser  definido  a  partir  do  “sistema  de  relações  com  a  alteridade”,  ou  como  os 
laços de identidade que buscam tornar os territórios homogêneos e “dotá-los de uma 
área/superfície  minimamente  igualizantes,  seja  por  identidade  territorial,  seja  por 
uma fronteira definidora de alteridade” (SERPA, 2007, p. 20). 
Para  este  trabalho, a análise da  territorialidade pode  ser mais eficaz  através 
de  uma  perspectiva  “microgeográfica”  que  irá  identificar  as  “(micro)territorialidades” 
(COSTA,  2005).  Isso  porque  as  identidades  territoriais  analisadas  neste  trabalho 
constituem  grupos  pequenos  e  restritos  em  suas  práticas  sociais.  Ainda  segundo 
Costa  (2005),  essas  (micro)territorialidades  se  apropriam  de  pequenas  partes  do 
espaço (geralmente público) singularizando-o através de uma convivência específica 
ou  pela  presença  do  agregado  identitário.  Dessa  forma,  as  (micro)territorialidades 
produzem  fronteiras  flexíveis,  por  vezes  permeáveis,  com  outros  grupos  que  às 
vezes está sobreposto ou divide o espaço em tempos distintos. Esse é o caso dos 
motociclistas, que utilizam os espaços como as praças ou parques e até mesmo os 
espaços que não são espaços públicos, como postos de gasolina e bares. 
A  constituição  das territorialidades  a  partir dos  grupos  identitários abordados 
na  pesquisa  também  podem  ser  discutidos  através  da  ideia  sobre  o  conceito  de 
“regionalizações cotidianas”, que é apresentada pelo geógrafo suíço Benno Werlen 
(1993,  2000,  2004,  2009),  baseada  em  uma  perspectiva  do  fazer  geográfico 
centrado  na  ação.  Segundo  essa  perspectiva,  é  necessário  que,  conceitual  e 
metodologicamente, se transfira o ponto de partida das abordagens geográficas do 
espaço  para  a  ação.  “De  acordo  com  a  tese  central  da  modernidade,  o  sujeito 
conhecedor  e  agente  deve  estar  no  centro  da  visão  de  mundo  geográfica 
contemporânea e adequada e – como já foi mencionado – não mais o espaço ou as 
regiões”.  (WERLEN,  2000,  p.  21).  Segundo  Werlen  (2000),  as  regionalizações 
cotidianas  podem  ser  compreendidas  como  processos  de  vida  cotidiana  dos 
sujeitos.  Para  o  autor,  o  sujeito  é  espacial  e  espacializa  o  mundo  através  do  seu 


24 
 
modo  de  ser,  das  suas  ações  cotidianas.  Esse  conceito  pode  ser  entendido  ainda 
como  a  manifestação  da  espacialidade  dos  sujeitos  nas  relações  face  a  face 
cotidianas. “Os corpos dos atores encaram os outros diretamente como campos de 
expressão da consciência do ego e do alter ego” (WERLEN, 2000, p. 11). 
  
2.2 Contextualização dos agregados identitários abordados na pesquisa 
 
 
Os  grupos  de  motociclistas  que  se  congregam  nos  chamados  Moto  Clubes 
têm  origem  nos  Estados  Unidos,  no  período  pós  II  Guerra,  que  remonta  à 
contracultura, por ser o momento onde se deu início à mobilização e a contestação, 
principalmente pelos jovens, em busca de uma transformação positiva na sociedade. 
Segundo Mesquita; Maia (2007);
  
 
Os  grupos  vindos  dos  movimentos  de  contracultura,  e  que  atualmente  são 
chamados  de  tribos  urbanas,  são  manifestações  passageiras,  ou  seja, 
englobam  a  faixa  de  transição  para  a  vida  adulta  e  esta,  quando  chega, 
força o pertencente a abandonar sua tribo (MESQUITA; MAIA, 2007, p. 134-
135). 
 
Naquele momento, os grupos de motociclistas eram taxados pela maior parte 
da  sociedade  norte-americana  como  “gangues  de  marginais”,  como  relata 
Thompsom  (2004)  em  sua  instigante  obra  sobre  o  mais  renomado  e 
internacionalmente conhecido Moto Clube: o Hell´s Angels. Thompson utiliza o termo 
“motoqueiro-fora-da-lei” para se referir àquele grupo que surgia nos anos 1940 e que 
hoje se encontra espalhado pelos cinco continentes: 
 
O  conceito  de  motoqueiro-fora-da-lei  era  tão  exclusivamente  norte-
americano quanto o jazz. Nunca havia existido nada parecido. Por um lado 
eles  pareciam  ser  uma  espécie  de  anacronismo  degenerado,  um 
remanescente humano da era do Velho Oeste. Porém, por outro lado, eles 
eram tão novos quanto a televisão (THOMPSON, 2004, p. 75). 
 
Sobre aquele contexto, de surgimento e fortalecimento do grupo, a mídia e a 
imprensa  norte-americanas  exerceram  o  papel  principal,  juntamente  com 
autoridades políticas e policiais, no intuito de endemoniar o grupo dos motociclistas 
e trata-los como verdadeiros inimigos públicos da sociedade americana.  


25 
 
A revista Newsweek publicou, em 1965, uma nota sobre a Jornada do Dia do 
Trabalho  realizada  pelos  Moto  Clubes  californianos  em  direção  à  Porterville,  que 
Thompson (2004), fez questão de transcrevê-la integralmente:  
 
Uma  multidão  estrondosa  de  200  motociclistas  de  jaqueta  preta  convergiu 
para a pequena e sossegada cidade de Porterville, no sul da Califórnia. Eles 
fizeram  tumultos  em  bares,  gritando  obscenidades.  Pararam  carros  e 
abriram suas portas, tentando passar a mão nas  passageiras.  Algumas de 
suas companheiras de botas deitavam no meio da rua e mexiam o corpo de 
forma  sugestiva.  Em  um  bar,  seis  deles  espancaram  brutalmente  um 
homem de 65 anos e tentaram raptar a garçonete. Somente depois que 71 
policiais  de  cidades  vizinhas,  a  patrulha  rodoviária,  cães  policiais  e 
mangueiras  de  água  entraram  em  ação  os  motociclistas  pularam  em  suas 
Harley-Davidsons  e  deixaram  a  cidade  em  meio  ao  ronco  dos  motores. 
(THOMPSON, 2004, p. 35). 
 
Thompson (2004) é eficaz ainda ao comprovar que a maioria das acusações, 
detenções  e  prisões  realizadas  contra  integrantes  de  grupos  de  motociclistas  da 
Califórnia  naquele  período,  que  compreende  as  décadas  de  1940  a  1960,  foram 
infundadas  e  em  sua  maioria  resultou  na  não  condenação  por  falta  de  provas  ou 
mesmo por provas suficientes que comprovassem a inocência nos casos.  
No Brasil os Moto Clubes passam a se expandir a partir da década de 1960, 
com  o  surgimento,  em  São  Paulo,  no  ano  de  1963,  do  Zapata  M.C.,  e  do  Balaios 
M.C., em 1969, no Rio de Janeiro. No entanto, é a partir da transição das décadas 
de  1980  e  1990  que  o  movimento  tem  a  sua  expansão  efetivada.  Em  1989  é 
fundado em São Paulo o maior M.C. brasileiro até os dias de hoje, o Abutres M.C.. 
Esse  grupo  conta  com  mais  de  6000  membros  cadastrados,  em  um  total  de  178 
“facções”  espalhadas  pelas  27  Unidades  da  Federação.  Nesse  período,  a 
importação de motos no Brasil atinge níveis de crescimento inéditos, bem como um 
aumento  da  produção  nacional,  o  que  fez  com  que  crescesse  o  número  de 
motociclistas e aficionados pelo motociclismo em todas as partes do país, como em 
Salvador, que teve na década de 1990, o surgimento de um expressivo número de 
M.C.s. 
Como já foi apontado anteriormente, os grupos de motociclistas organizados 
em M.C.s se territorializam na cidade de Salvador, nos tempos atuais, em busca de 
reconhecimento 

visibilidade, 
constituindo 

que 
denominamos 
de 
(micro)territorialidades, com base nas contribuições de Costa (2005). 


26 
 
Este  tipo  de  análise  está  apoiado  numa  abordagem  cultural  da  Geografia 
Humana.  Claval  (2008)  defende  essa  abordagem  por  acreditar  que  não  há  como 
dissociar  a  esfera  cultural  quando  da  análise  social,  econômica  ou  política  de  um 
recorte  espacial.  Esta  abordagem  conduz  a  uma  reestruturação  na  Geografia 
Humana trazendo-nos a uma compreensão maior do “papel das representações, da 
dimensão  subjetiva  da  percepção,  do  papel  da  emotividade,  dos  sentidos  e  da 
significação do corpo na vida humana e social”. (CLAVAL, 2008, p. 27). Para o autor, 
os  geógrafos  que  se  interessarem  por  essa  abordagem  devem  estar  prontos  a 
“explorar todas as avenidas que ela abre para a pesquisa”. (CLAVAL, 2008, p.29). 
Haesbaert  (2008)  também  se  apoia  nessa  inovadora  abordagem  ao 
denominá-la  de  “abordagem  cultural  integradora”,  que,  repito,  não  autonomiza  a 
dimensão  cultural  em  relação  às  dimensões  social,  econômica,  política,  etc.,  pois, 
para  este  autor,  tratar  da  esfera  cultural  compreende  “múltiplas  e  indissociáveis 
articulações com outras dimensões, como a econômica e a política”. Para enfatizar, 
o autor aponta que 
 
[...] não há espaço produzido que não o seja através da cultura dos grupos 
que  o constituem, seja no  sentido mais amplo ou lato da cultura  – como o 
conjunto  de  relações  que  nos  distinguem  e  ao  mesmo  tempo  compõem 
nossa  interação  com  uma  (primeira)  “natureza”  -,  seja  no  sentido  mais 
estrito  –  como  tudo  aquilo  que  se  refere  à  produção  de  significados,  à 
dimensão simbólica do mundo (HAESBAERT, 2008, p. 396). 
 
Dessa  maneira,  desenvolvi  uma  pesquisa  para  compreender  a  utilização  do 
espaço  a  partir  das  (micro)territorialidades  dos  motociclistas  em  Salvador  com 
ênfase na dimensão da experiência vivida, baseando-se em uma abordagem cultural 
da Geografia Humana. 
Com  base  em  observações  prévias,  que  impulsionaram  o  desejo  por  essa 
pesquisa, constatei que essas manifestações identitárias podem se manifestar com 
características distintas quanto ao grau de essencialização e rigidez, ou num sentido 
oposto,  de  abertura  e  flexibilidade.  Os  conceitos  de  “reclusão  territorial”  e 
“multiterritorialidade” apresentados por Haesbaert (2007) são esclarecedores.  
Em  Salvador,  como  puderam  ser  observados  durante  a  pesquisa,  alguns 
grupos  de  motociclistas  organizados  em  M.C.s  invocam  noções  essencialistas  e 
exclusivistas  em  suas  lutas  por  reconhecimento  e  dominação  territorial.  Isso 
caracteriza  a  noção  de  “reclusão  territorial”  exposta  por  Haesbaert  (2007),  que  é 


27 
 
impulsionada pelo fechamento ao intercâmbio cultural ou pelo temor pelo “novo” e o 
imprevisível  que  a  sociedade  da  mobilidade  promove.  Por  conta  disso,  esses 
agregados  identitários  podem,  ao  utilizarem  os  espaços  públicos,  concretizar  a 
chamada “apropriação seletiva e diferenciada” dos espaços públicos denunciada por 
Serpa  (2007).  Para  este  autor,  no  processo  de  territorialização,  alguns  grupos  ou 
usuários  privatizam  o  uso  dos  espaços  públicos  “através  da  ereção  de  barreiras 
simbólicas,  por  vezes  invisíveis”  (SERPA,  2007,  p.  36),  que  limita  o  uso 
concomitante por indivíduos não pertencentes a esse agregado identitário. 
Essas  identidades,  caracterizadas  pela  reclusão  territorial,  são  claramente 
evidenciadas 
pela 
proliferação 
de 
fundamentalismos, 
notadamente 
os 
fundamentalismos nacionalistas, étnicos e religiosos. No entanto, devemos salientar 
que  Moto  Clubes  que  se  apresentam  arraigados  e  exclusivistas  com  os  seus 
territórios,  de  forma  a  caracterizar  a  “reclusão  territorial”,  não  são  a  regra.  Na 
materialização  da  manifestação  identitária  de  alguns  outros  determinados  M.C.s, 
verificamos  que  esses  grupos  apresentam  uma  flexibilidade  considerável  ao  se 
territorializar, o que nos leva ao conceito da “multiterritorialidade”. Esta é oriunda de 
uma  mobilidade  crescente  na  contemporaneidade  aliada  à  complexidade  atual  das 
relações  espaço-tempo  (destacando  a  influência  do  ciberespaço),  que  levam  à 
constituição  de  territorialidades  mais  móveis  e  de  caráter  múltiplo,  que  permitam  a 
co-presença  de  demais  grupos  ou  agregados  identitários  distintos.  Segundo 
Haesbaert  (2007),  as  identidades  “multiterritorializadas”  passam  a  ter  “vínculos 
identitários com mais de um território ao mesmo tempo, ou com os territórios que em 
si mesmos manifestam características muito mais instáveis, múltiplas e/ou híbridas”. 
(HAESBAERT, 2007, p. 49).  
Um  exemplo  revelador  deste  tipo  de  prática  é  quando  membros  de  alguns 
M.C.s  constituem  uma  (micro)territorialidade  temporária  através  de  encontros 
semanais  em  espaços  múltiplos  e  híbridos,  por  estarem  disponíveis  ao  uso  e 
frequentação de todos, como no caso de Salvador, em uma praça pública localizada 
no Bairro do Rio Vermelho, conhecido como “Largo da Mariquita”. Este largo abarca 
em  seus  limites  frequentadores  das  mais  múltiplas  constituições  identitárias  e  de 
classe social, sendo um local, inclusive, de alta frequentação por parte dos turistas 
que  visitam  a  capital  baiana.  Em  síntese,  podemos  entender  a  multiterritorialidade 
desses agregados identitários característicos das grandes cidades como: 
 


28 
 
[...] a  possibilidade  de  acessar ou conectar  diversos  territórios, o que  pode 
se  dar  tanto  através  de  uma  “mobilidade  concreta”,  no  sentido  de  um 
deslocamento  físico,  quanto  “virtual”,  no  sentido  de  acionar  diferentes 
territorialidades  mesmo  sem  deslocamento  físico,  como  nas  novas 
experiências  espaço-temporais  proporcionados  pelo  chamado  ciberespaço 
(HAESBAERT, 2004, p. 343-344). 
 
Além  disso,  é  importante  destacar  que  as  manifestações  identitárias  dos 
motociclistas  produzem  festas,  reuniões  e  eventos  em  espaços  públicos  e/ou 
privados e que estas festas atuam como as mais articuladas formas de produção e 
afirmação  da  identidade,  em  busca  de  visibilidade  e  reconhecimento,  tal  como 
descreve  Bezerra  (2007)  no  estudo  sobre  realização  de  festas  e  espetáculos  na 
busca da diferença e identificação no mercado de cidades. 


29 
 
3. A “nova urbanidade” e a formação das identidades 
 
 
3.1 Entendendo o cotidiano 
 
Proponho  para  o  início  desse  capítulo,  realizar  uma  discussão  sobre  o 
cotidiano  a  fim  de  obter  maior  amplitude  na  compreensão  das  relações  dialéticas 
entre  a  “nova  urbanidade”  e  os  processos  de  identificação  que  se  engendram  na 
contemporaneidade.  Essas  relações  fundamentam  o  par  dialético  “sociabilidade  x 
reclusão”,  que  por  sua  vez  embasa esse trabalho  e  será  recorrido  outras  vezes  no 
decorrer da dissertação.  
Em  termos  específicos,  é  possível  afirmar  que  existe  em  Salvador  um 
cotidiano “roqueiro”, dos aficionados do Rock, que em sua materialização dá origem 
a  diversos  agregados  identitários,  que  se  identificam  ou  se  reconhecem  como 
diferentes  de  acordo  com  um  código  de  símbolos  e  condutas  específico.  Esses 
grupos  se  congregam  pela música através  da  “cena”,  ou  “cenário”.  A  existência  de 
bares,  casas  noturnas,  pontos  de  encontro  e  a  realização  de  shows,  eventos  e 
festivais,  bem  como  as  discussões  em  fóruns  e  redes  sociais  através  da  internet, 
caracteriza  esse  cotidiano  roqueiro  e  fundamenta  a  “cena”.  Esse  conceito  ainda  é 
pouco explorado no Brasil, mas segundo Stahl (2004) apud Fernandes; Filho (2006) 
é  entendido  como  “um  tipo  específico  de  contexto  cultural  urbano  e  prática  de 
codificação espacial” (STAHL, 2004 apud FERNANDES; FILHO, 2006, p. 29). 
 
[A  cena]  oferece  meios  diferenciados  para  compreender  os  complexos 
circuitos,  afiliações,  redes  e  pontos  de  contato  que  informam  as  práticas 
culturais  e  as  dinâmicas  identitárias  dos  grupos  juvenis,  no  contexto  dos 
espaços  urbanos  contemporâneos.  A  natureza  versátil  das  cenas 
problematiza  a  noção  de  que  um  simples  determinante  (classe,  gênero, 
raça)  agiria  como  princípio  organizador  da  expressão  cultural  coletiva. 
Graças  ao  seu  caráter  flexível  e  antiessencialista,  às  suas  conotações  de 
fluxo  e  corrente,  movimento  e  mutabilidade,  o  conceito  permite  uma 
abordagem  mais  ampla  tanto  dos  contextos  industrial,  institucional, 
histórico,  social  e  econômico  como  das  estratégias  estéticas  e  ideológicas 
que  sustentam  a  produção  musical  urbana.  (STAHL,  2004  apud 
FERNANDES; FILHO, 2006, p. 29). 
 
A  discussão  sobre o  cotidiano  que trago  neste  capítulo  será,  principalmente, 
apoiada no pensamento Lefebvriano, com especial atenção à obra “A vida cotidiana 
no  mundo  moderno”  (1991),  na  qual  o  autor  nos  incita  a  compreender  o  cotidiano 


30 
 
através  de  uma  metáfora  que  induz  o  leitor  a  tentar  decifrar  a  maneira  como  as 
pessoas comuns viveram um determinado dia qualquer, ou seja, as suas ocupações, 
preocupações, seus anseios, sonhos, seus trabalhos e seus divertimentos. Lefebvre 
busca relações ao apoiar-se na literatura e nos recursos da linguagem, que segundo 
ele  “vão  ser  empregados  para  que  se  exprima  a  cotidianidade,  com  sua  miséria  e 
sua riqueza” (LEFEBVRE, 1991, p. 7). 
Para  Lefebvre,  o  tempo  é  característica  fundamental  na  compreensão  do 
cotidiano.  O  tempo  é  o  tempo  da  mudança,  das  transições  e  dos  efêmeros,  dos 
conflitos,  da  dialética  e  do  trágico.  É  através  desse  tempo  que  o  cotidiano  irá 
manifestar  as  suas  diversas  facetas,  principalmente  sobre  a  esfera  do  mundo 
dominado pelo conteúdo urbano. As cidades são apropriadas pelos que a habitam. 
As  pessoas  de  uma  determinada  cidade  produzem  o  seu  espaço,  mas  ao  mesmo 
tempo  sofrem  a  ação  deste.  “O  homem  inseguro  que  parece  vagar  pela  cidade 
recolhe os fragmentos e aspectos dispersos dessa dupla adequação.” (LEFEBVRE, 
1991,  p.  9).  Talvez  por  conta  dessas  dinâmicas  urbanas,  o  autor  esclareça  que  o 
cotidiano  se  compõe  de  ciclos  e  entra  em  ciclos  mais  largos.  Os  começos  são, 
então, recomeços e renascimentos. 
O  tempo  também  é  lembrado  pela  geógrafa  brasileira  Silvana  Pintaudi  nas 
análises e estudos que abordam o cotidiano, que em trabalho recente lembra que;  
 
[...]  nossa  vida  cotidiana  está  eivada  do  repetitivo,  cuja  predominância  é 
inquestionável,  e,  por  essa  mesma  razão  não  lhe  damos  a  importância 
devida para melhor compreendê-lo  e, assim, compreender os espaços nos 
quais reproduzimos nossa vida (PINTAUDI, 2011, p. 169). 
 
A  autora  lembra  ainda  que  são  próprios  e  específicos  o  tempo  e  o  espaço 
onde  cada  cotidiano  se  desenvolve.  Dessa  maneira,  o  cotidiano  se  realiza  através 
das  múltiplas  ações  que  o  homem  empreende  diariamente  para  se  reproduzir 
enquanto  sociedade.  “Existe,  portanto,  uma  relação  direta  entre  a  maneira  como 
produzimos a sociedade e o cotidiano, que é seu produto” (PINTAUDI, 2011, p.169). 
Em  se  tratando  ainda  de  considerar  o  tempo  e  a  repetição  para a  descrição 
do conceito de cotidiano, Lefebvre, em seu trabalho “De lo rural a lo urbano” (1978), 
reforça que a vida cotidiana está pautada na repetição de gestos como acordar pela 
manhã, tomar o café, percorrer o mesmo percurso em direção ao trabalho ou escola, 
utilizar os mesmo meios de transporte, misturar-se em meio à multidão habitante das 


31 
 
cidades, ler as notícias diárias, chegar sempre à mesma fábrica, escritório, local de 
trabalho ou estudo. (LEFEBVRE, 1978).  Até mesmo o acaso passa a integrar esse 
domínio da repetição, conforme aponta Lefebvre no seguinte trecho: 
 
[...] o cotidiano se apresenta também como domínio da sorte e do infortúnio, 
da  causalidade  e  do  destino  e  suas  surpreendentes  revelações.  O 
novelesco e o extraordinário se juntam ainda à causalidade e à trivialidade. 
É de se notar também que há certo tempo as técnicas modernas se aplicam 
ao  cotidiano  e  restringem  os  limites  do  domínio  do  homem.  Muitos 
instrumentos,  ferramentas  tradicionais  melhoradas  ou  novos  aparatos  têm 
modificado  o  cotidiano,  sem,  no  entanto,  fazer  desaparecer  o  caráter 
repetitivo. O aspirador de pó acelera o trabalho doméstico; a pessoa que faz 
a  limpeza  doméstica  não  deixa  de  repetir  com  frequência  repetida  os 
mesmos gestos, ela apenas passa a ter mais tempo livre. Para fazer o que? 
Às  vezes  para  fazer  futilidades  ou  trivialidades.  A  técnica  invade  a  vida 
cotidiana e a altera sem metamorfoseá-la (LEFEBVRE, 1978, p. 87) [nossa 
tradução]
4

 
Na vida cotidiana é de se destacar também a importância das necessidades e 
dos desejos para a sua melhor compreensão. Na vida cotidiana no mundo moderno, 
as  necessidades  passam  a  se  converter  em  desejos,  e,  para  Lefebvre  (1978  e 
1991),  é  o  publicitário  o  especialista  que  mais  entende  e  compreende  os  desejos 
humanos,  passando  inclusive  a  criá-los  ou  manipulá-los.  Mais,  inclusive,  do  que 
sociólogos,  antropólogos  ou  psicólogos.  Nossa  sociedade  atual,  ou  “sociedade  do 
consumo  dirigido”  passa  a  ser  regida  pelas  regras  da  publicidade.  O  publicitário 
passa  a  ser  o  “demiurgo  da  sociedade  moderna,  o  mágico  todo-poderoso  que 
concebe  vitoriosamente  a  estratégia  do  desejo”.  (LEFEBVRE,  1991,  p.  63).  Com 
esse  poder,  a  publicidade  passa  a  produzir  necessidades,  modelar  o  desejo  a 
serviço  dos  produtores  e  capitalistas.  As  necessidades  estão  presentes  de  uma 
maneira  geral  na  vida  do  homem:  necessidade  de  se  alimentar,  a  necessidade 
sexual,  a  necessidade  por  moradia  e  vestuário,  a  necessidade  pelos  jogos  e  por 
atividades  de  lazer,  etc..  Os  desejos  se  individualizam  em  função  de  um 
determinado  grupo.  (LEFEBVRE,  1978).  E  é  desta  maneira  que  encontramos  a 
riqueza da cotidianidade, pois é nela que “se esboçam as mais autênticas criações, 
                                                 
4
  “Lo  cotidiano  se  descubre  también  como  dominio  de  la  suerte  y  la  desgracia,  de  la  casualidad  y  el  destino  y  sus 
sorprendentes  combinaciones.  Lo  novelesco  y  lo  extraordinario  se  mezclan  en  ella  con  la  trivialidad.  Hay  que  hacer  notar 
también que desde hace poco tiempo las técnicas modernas (las “artes domesticas”) se aplican a lo cotidiano y restringen los 
límites  del  dominio  del  hombre.  Mil  instrumentos,  herramientas  tradicionales  mejoradas  o  artilugios,  han  modificado  la 
cotidianidad. No le han arrebato el carácter repetitivo. El aspirador acelera el trabajo doméstico; la mujer que hace su limpieza 
no  deja  de  repetir  cada  día  los  mismos  gestos,  solamente  posee  más  tiempo  libre.  ¿Para  hacer  qué?  A  veces  para  hacer 
tonterías o para aburrirse. La técnica invade la cotidianidad y la cambia sin metamorfosearla. (LEFEBVRE, 1978, p. 87). 
 


32 
 
os estilos e modos de vida que enlaçam os gestos e palavras comuns com a cultura” 
(LEFEBVRE, 1978, p. 86). 
É nessa tônica da sociedade burocrática do consumo dirigido, pelas regras da 
publicidade,  que  se  dá  a  vida  cotidiana  no mundo moderno,  com  as  possibilidades 
de agir sobre o consumo e por meio do consumo, ou seja, “de estruturar e organizar 
a vida cotidiana em função do consumo” (LEFEBVRE, 1991, p. 67), com a finalidade 
de cibernetizar a sociedade pelo caminho do cotidiano. 
Tomo a liberdade de utilizar uma extensa citação para a melhor compreensão 
do trecho anterior:  
 
O  cotidiano  não  é  um  espaço-tempo  abandonado,  não  é  mais  o  campo 
deixado  à  liberdade  e  à  razão  ou  à  bisbilhotice  individuais.  Não  é  mais  o 
lugar em que se confrontavam a miséria e a grandeza da condição humana. 
Não é mais apenas um setor colonizado, racionalmente explorado, da vida 
social,  porque  não  é  mais  um  “setor”  e  porque  a  exploração  racional 
inventou formas mais sutis que as de outrora. O cotidiano torna-se objeto de 
todos  os  cuidados:  domínio  da  organização,  espaço-tempo  da  auto-
regulação  voluntária  e  planificada.  Bem  cuidado,  ele  tende  a  constituir  um 
sistema com um bloqueio próprio (produção – consumo – produção). Ao se 
delinear  as  necessidades,  procura-se  prevê-las;  encurrala-se  o  desejo.  [...] 
A  cotidianidade  se  tornaria  assim,  em  curto  prazo,  o  sistema  único,  o 
sistema perfeito, dissimulado sob os outros que o pensamento sistemático e 
a  ação  estruturante  visam.  Nesse  sentido,  a  cotidianidade  seria  o  principal 
produto da sociedade dita organizada, ou de consumo dirigido, assim como 
a sua moldura, a Modernidade. (LEFEBVRE, 1991, p. 81 – 82). 
 
A  cotidianidade  verificada  na  sociedade  do  consumo  dirigido,  bem  como  as 
diversas  sociedades,  apresenta  as  suas  heterogeneidades,  que  para  Lefebvre  se 
traduz  nos  mais  diversos  grupos  sociais,  como  as  mulheres,  jovens,  e  intelectuais, 
que  consomem  diferentemente,  e  possuem  variáveis  graus  de  percepção  do 
consumo  e  da  cotidianidade,  mas  que  são  similares  no  que  diz  respeito  à 
“satisfação”,  pois  essa,  é  o  fim,  o  objetivo  e  a  legitimação  oficial  de  toda  a  nossa 
sociedade. 
Quanto aos jovens, Lefebvre (1991) afirma que esse grupo busca o consumo 
rápido,  e  o  querem  fazer  agora,  e  por  isso,  o  mercado  foi  logo  detectado  e 
explorado,  de  modo  que  os  “jovens”  tendem  a  se  estabelecer  numa  vida  cotidiana 
paralela,  a  deles,  e  única,  hostil  à  dos  pais,  mas  semelhante  a  ela  o  máximo 
possível.  
 
No  entanto,  como  “jovens”,  eles  permanecem  marginais.  Não  chegam  a 
formular seus quadros de valores, e menos ainda a impô-los. Assim, o que 


33 
 
eles  consomem  de  maneira  ao  mesmo  tempo  negativa  e  maciça  são  os 
objetos  dos  adultos  que  os  cercam  com  a  sua  existência  material  e  os 
signos (LEFEBVRE, 1991, p. 100 – 101). 
 
O  consumo  dos  jovens,  dessa  forma,  acaba  se  dando  de  maneira  marginal. 
Os  novos  ganhos  referem-se  ao  consumo  rápido,  instantâneo,  que  tende  a 
estabelecer  os  jovens  numa  vida  cotidiana  paralela.  Quanto  aos  jovens  na 
cotidianidade,  Lefebvre  (1991)  também  lembra  a  respeito  dos  protestos, 
contestações  e  reivindicações  que  não  cessam  e  não  podem  desaparecer.  Os 
grupos contestam, mas não sem tentar tirar partido da situação. O mais significativo, 
em  se  tratando  desse  aspecto,  é  a  recusa  oposta  pelos  grupos  minoritários,  mas 
sempre  renovados,  de  jovens  a  essa  sociedade.  Dessa  maneira,  acredito  que  a 
formação  dos  agregados  identitários,  tais  como  os  grupos  de  motociclistas,  é 
correlata com essa ideia exposta por Lefebvre: 
  
Os grupos que recusam desdobram-se, como se sabe, em violentos e não-
violentos. A recusa supõe uma tentativa de sair do cotidiano e procurar uma 
outra vida que seja obra, apropriação. Essa “outra vida” é experimentada de 
diversas  maneiras:  vagabundagem,  drogas,  signos  de  adesão  e  de 
cumplicidade etc. (LEFEBVRE, 1991, p. 102).  
 
Para  se  compreender  o  cotidiano  de  forma  completa,  destaco  ainda,  como 
importantes,  os  questionamentos  que  envolvem  a  dualidade  entre  a  filosofia  e  o 
cotidiano, pois a vida cotidiana se apresenta como não-filosófica, como mundo real 
em  relação  ao  ideal.  Em  contrapartida,  a  vida  filosófica  pretende  ser  superior,  e 
descobre que é vida abstrata e ausente, distanciada, separada (Lefebvre, 1991). E 
por isso o filósofo questiona se vamos separar definitivamente a pureza filosófica e a 
impureza cotidiana, sendo que o próprio Lefebvre nos traz a resposta: O conceito de 
cotidianidade provém da filosofia e não pode ser compreendido sem ela. É por isso 
que é feita a sugestão de se ir mais longe que Hegel 
 
[...] buscando a unidade entre a razão (filosófica) e  a realidade (social), ou 
seja,  buscando  a  realização  da  filosofia,  procurando  desde  então  uma 
transformação  não  apenas  do  Estado,  da  vida  política,  da  produção 
econômica  ou  da  estrutura  jurídica  e  social,  mas  também  do  cotidiano 
(LEFEBVRE, 1991, p. 20). 
 


34 
 
Em resumo, pode-se declarar que a vida cotidiana é objeto da filosofia, e para 
isso  apresento  os  esclarecimentos  que  considero  cruciais  para  a  compreensão  do 
cotidiano e da vida cotidiana que Lefebvre nos traz: 
 
Há  no  cotidiano  o  ressurgimento  das  emoções,  e  dos  sentimentos 
despercebidos,  retorno  dos  momentos  acabados,  evocação  das  ausências 
e das exigências distantes, na música e pela música. Como no imaginário e 
na arte em geral. [...] É no cotidiano,  no  entanto, que as pessoas  nascem, 
vivem  e  morrem.  Vivem  bem  ou  mal.  É  no  cotidiano  que  eles  ganham  ou 
deixam  de  ganhar  sua  vida,  num  duplo  sentido:  não  sobreviver  ou 
sobreviver,  apenas  sobreviver  ou  viver  plenamente.  É  no  cotidiano  que  se 
tem prazer ou se sofre. Aqui e agora (LEFEBVRE, 1991, p. 26- 27). 
 
Por fim, é preciso que se deixe claro que além do tempo, é também o espaço 
uma importante variável a ser considerada na compreensão do cotidiano. A vida é a 
mesma  em  todos  os  lugares?  É  diferente  ou  é  específica?  Pois,  como  se  sabe,  é 
possível que exista a imitação ou simulação dos estilos de vida presentes em mais 
diversas cotidianidades. Pois como afirma M. A. de Souza, (1995), citada por Santos 
(2006, p. 314), “todos os lugares são virtualmente mundiais”. É por isso que Santos 
(2006)  considera  que  a  partir  da  ampliação  do  alcance  da  informação  e  da 
comunicação em todos os aspectos da vida social, o cotidiano passa a se enriquecer 
de  novas  dimensões,  sendo  a  principal  delas  a  dimensão  espacial.  Santos  (2006) 
cita  Daniels  (1993)  para  quem  as  telecomunicações  possuem  uma  capacidade  de 
diminuir as distâncias. Santos (2006) lembra ainda que a informação proporciona a 
possibilidade  de  fluir  quase  que  instantaneamente,  generalizando  a  comunicação 
entre os lugares sem nenhuma defasagem.  
 
 
3.2 O que é a “Nova Urbanidade”? 
 
Para  a  compreensão  da  ideia  da  “nova  urbanidade”,  que  é  chave  nesse 
trabalho  para  o  entendimento  das  relações  que  se  engendram  entre  essa  e  a 
formação  ou  desaparecimento  dos  grupos  identitários,  recorri  a  uma  melhor  e 
aprofundada  descrição  do  conceito  de  cotidiano,  pois  a  Nova  Urbanidade  é 
permeada através da produção, (re)produção e transformação da vida cotidiana na 
cidade. 


35 
 
Nas  palavras  de  Ana Fani  A.  Carlos, a  cidade  é  o  lugar  dos  conflitos,  sejam 
eles permanentes ou renovados. “Lugar do silêncio e dos gritos, expressão da vida e 
da  morte,  da  emergência  dos  desejos  e  das  coações,  onde  o  sujeito  se  encontra 
porque  se  reconhece  nas  fachadas,  nos  tijolos  ou,  simplesmente  porque  se  perde 
nas formas sempre tão fluídas e móveis” (CARLOS, 1997, p. 212). A autora lembra-
se  ainda  de  Thiery  Paquot  que  ressalta  que  é  na  cidade  que  o  “homus  urbanus” 
“toma  consciência  da  artificialidade  do  mundo,  da  desaparição  progressiva  das 
zonas naturais, da amplitude dos simulacros que ocultam a nudez do ser” (CARLOS, 
1997, p. 212). 
Tuan (2005) destaca que a cidade sempre foi a grande aspiração do homem 
em  se  tratando  da  busca  por  uma  ordem  perfeita  e  harmônica,  tanto  no  que  se 
refere  aos  laços  sociais  presentes  na  forma  do  urbano  quanto  em  sua  estrutura 
arquitetônica.  As  origens  da  cidade  estão  atreladas  a  uma  ideia  de  perfeição física 
com padrões geométricos simples, que representavam o anseio pela estabilidade e 
harmonia  da  sociedade.  Existe  um  ideal  de  que  se  as  pessoas  de  procedências 
diferentes  habitassem  em  plena  harmonia  um  mesmo  espaço,  todas  as  vezes  que 
isso  acontecesse,  a  cidade  seria,  durante  esse  tempo,  uma  altiva  realização 
humana.  No  entanto,  como  aponta  o  próprio  Tuan  (2005),  com  o  desenvolvimento 
da  humanidade,  a  cidade  passa  a  se  caracterizar  por  abrigar  uma  sociedade  cada 
vez  mais  complexa,  de  pessoas  com  características  cada  vez  mais  heterogêneas, 
vivendo perto umas das outras de forma que não podemos considerar como estável 
ou mesmo harmônica. 
Na  verdade,  a  cidade  percorre  sua  realização  histórica  acompanhando  a 
história  da  humanidade,  uma  vez  que  se  trata  de  sua  maior  realização  material  e 
espacial, e hoje pode se apresentar através de formas mais caóticas, complexas e 
heterogêneas, como, por exemplo, a metrópole, que é o recorte abordado para esse 
trabalho, com a pesquisa sobre as relações entre a nova urbanidade e os agregados 
identitários na metrópole baiana, Salvador. Segundo Carlos (1994), há a criação de 
uma nova identidade na metrópole que aponta para o mundial como tendência e que 
escapa  ao  nacional,  em  decorrência  do  processo  de  metropolização  que  acarreta 
em  profundas  mudanças  espaciais  do  espaço  urbano.  “A  metrópole  guarda  uma 
centralidade  em  relação  ao  resto  do  território,  dominando  e  articulando  áreas 
imensas.” (CARLOS, 1994, p. 192).  


36 
 
A  metrópole  passa  então  a  ser  vista  como  um  símbolo  do  mundo  moderno, 
uma centralidade onde a vida flui com a velocidade do tempo, o que nos dizeres de 
Ana  Fani  A.  Carlos  impõe  um  ritmo  alucinante  e  também  a  banalização  de  tudo 
como  fruto  do  processo  de  homogeneização  das  heterogeneidades  presentes  na 
metrópole.  Esse  processo  de  homogeneização  pode  ser  considerado  como 
característica  central  do  cotidiano  metropolitano,  produto  da  globalização  que  com 
seus  modelos  estéticos,  gostos,  moda,  estilos  de  vida,  se  constitui  como  elemento 
fundamental  da  reprodução  das  relações  sociais  na  contemporaneidade.  No 
cotidiano  da  metrópole  a  vida  aparece  pulverizada,  mas  ao  mesmo  tempo  super-
organizada.  “Campo da  auto-regulação  voluntária e  planificada o cotidiano  aparece 
enquanto construção na sociedade, que se organiza segundo uma ordem fortemente 
burocratizada; preenchido por repressões e coações” (CARLOS, 1994, p. 194).  
Esse cotidiano, por sua vez, está em constante formação, tendo as relações 
sociais  sendo  sempre  mediadas  através  da  mercadoria  o  que,  juntamente  com  o 
processo  de  mundialização  da  sociedade  citado  anteriormente,  aprofunda  os 
processos de fragmentação do espaço e da vida do homem. 
 
A globalização e a fragmentação dão-se no plano do indivíduo, tanto quanto 
no  espaço.  Na  sociedade  essa  fragmentação  dá-se  através  da  dissolução 
de relações sociais que ligavam os homens entre si, na vida familiar e social 
bem  como  na  sua  relação  com  novos  objetos,  dentre  eles  a  TV,  que 
banaliza  tudo,  da  religião  à  política,  através  de  seu  poder  hipnótico 
extraordinário  que  consegue  transformar  a  guerra  num  aparato  cênico.  [...] 
no processo de homogeneização do homem, as pessoas “pasteurizadas 
tornam-se  idênticas”,  presas  ao  universo  do  cotidiano,  submissas  ao 
consumo e à troca, capturadas pela mídia, encontram-se diante do efêmero 
e do repetitivo como condição da reprodução (CARLOS, 1994, p. 192-193) 
[grifo nosso]. 
 
O  trecho  citado  anteriormente  da  obra  de  Ana  Fani  A.  Carlos  retrata  com 
clareza  o  modo  como  a  vida  passou  a  se  organizar  na  metrópole  contemporânea 
que  dá  origem  à  ideia  que  discuto  nesse  trabalho,  proposta  pela  própria  Carlos 
(1997),  a  “Nova  Urbanidade”,  mas  que  também  possui  um  importante  correlato  na 
obra de Paulo Cesar da Costa Gomes (2006) com o trabalho que discute o problema 
do “recuo da cidadania”. 
Paquot citado em Carlos (1997) alerta que os habitantes das grandes cidades 
participam  de  um  “gigantesco  balé  regulado  por  uma  mecânica  da  rejeição  do 
encontro, da fobia do tocar, na crença do dever de se falar” (CARLOS, 1997, p. 201). 


37 
 
E  isso  se  torna  extremamente  marcante  até  nas  relações  familiares,  nas  quais  a 
família  passa  a  ser  definida  como  o  conjunto  de  pessoas  que  têm  a  chave  do 
mesmo lugar. Esse tipo de comportamento advém das vinculações, no cotidiano da 
metrópole, entre o modo de produção capitalista e a sociedade, a partir do consumo, 
sendo que as relações deixam de ser entre os sujeitos, mas entre os sujeitos e os 
objetos. As relações entre as pessoas, que anteriormente eram pautadas pelo “ser”, 
são agora imbuídas pelo “ter”, pois os objetos/mercadorias seduzem cada vez mais 
e não deixam de reinar absolutas numa metrópole que pode ser considerada como 
uma  imensa  vitrine.  Marx  (2012)  em  “O  Capital”  nos  lembra  que  as  mercadorias 
podem  até,  à  primeira  vista,  parecer  com  algo  simples  e  de  fácil 
compreensão/apreensão,  no  entanto,  são  dotadas  de  conteúdo  e  finalidades  e  por 
isso são objetos “endemoniados”. 
Uma  das  marcas  cruciais  da  presença,  cada  vez  maior,  da  mercadoria 
atuando de maneira central na relação entre as pessoas na contemporaneidade, é a 
difusão  dos  empreendimentos  chamados  shopping  centers  em  diversos  centros 
urbanos.  Os  shoppings  centers  enquanto  símbolos  constituem  uma  das  principais 
marcas  do  comportamento  ditado  pelas  relações  que  priorizam  o  objeto  e  a 
mercadoria na nossa atual sociedade do consumo. É com os shoppings centers que 
vemos como nossa sociedade passa a uma só vez da cultura da escassez para a da 
abundância  e  do  consumismo,  esta  constituída  pela  multiplicação  dos  objetos  e  o 
aumento do consumo de mercadorias cada vez menos úteis. Dessa forma, o homem 
passa a ser visto e pensado apenas enquanto um mero consumidor dominado pelo 
valor de troca, que substitui a ideia do homem criativo, ser social que busca através 
do  convívio  com  o  seu  semelhante  o  aprimoramento  e  o  seu  desenvolvimento.  O 
espaço será produzido como valor de troca, como objeto e como mercadoria. Carlos 
(1997) alerta que; 
 
A  mercadoria  se  autonomizou  face  ao  sujeito,  determinando  as  relações 
entre  as  pessoas  uma  vez  que  o  processo  de  reprodução  das  relações 
sociais  dá-se  cada  vez  mais  fora  da  fábrica,  na  cidade,  englobando  a 
sociedade  e  o  espaço  inteiros,  invadindo  o  cotidiano  e  produzindo  o  que 
Granou chamou de reino da mercadoria (CARLOS, 1997, p. 203).  
 
Dessas  vinculações  entre  o  modo  de  produção  capitalista  e  a  sociedade 
moderna no cotidiano das metrópoles, vemos surgir a “nova urbanidade” bem como 
o  “recuo  da  cidadania”,  que  além  de  afetar  as  relações  humanas,  tornando  o 


38 
 
comportamento  dos  habitantes  metropolitanos  (e  também  dos  de  cidades  que  não 
constituem metrópoles) cada vez mais individualistas e individualizados, que tendem 
à fragmentação, segmentação, segregação e, por fim, a violência. Além disso, esse 
processo  da  “nova  urbanidade”  apresenta  suas  características  estendidas  a  outras 
manifestações espaciais, como, por exemplo, a maneira como se retrai e se aniquila 
o  espaço  público  na  cidade  contemporânea,  bem  como  as  novas  formas  de 
circulação,  com  total  privilégio  dado  aos  automóveis  particulares  que  negam  o 
convívio social e, também, às novas formas de morar e habitar, que emuralham as 
cidades, apropriando-se e privatizando o espaço público. 
A consciência e os ideais modernos de vida urbana são dissipados à medida 
que  
 
[...] o habitar hoje a metrópole tem um sentido diverso, mudando hábitos e 
comportamentos,  bem  como  formas  de  apropriação  do  espaço  público, 
além da dissolução de antigos modos de vida e relações entre as pessoas. 
Bairros  inteiros  foram  descaracterizados  ou  mesmo  destruídos  pelas 
necessidades  de  expansão  desenfreada  proveniente  da  acumulação  do 
capital  que  reproduz  o  espaço  metropolitano  mudando  referenciais  e 
comportamentos (CARLOS, 1994, p. 193). 
 
Tais  características  têm  origem  no  século  XX,  que  testemunhou  o 
crescimento desenfreado das cidades, o que consequentemente acarretou em uma 
série  de  problemas,  como  resultado  da  fragmentação,  que  vão  desde  aqueles  de 
infraestrutura básica àqueles de questões mais pessoais, “como as de depressão e 
ansiedade que hoje afetam enormemente a população por razões que também são 
variadas e envolvem as relações sociais” (PINTAUDI, 2011, p. 168).  
Segundo  Carlos  (1997),  os  indivíduos  passam  a  se  fechar  em  si  mesmos, 
presos em algo que os protege de qualquer contato, aprisionando-os num interesse 
egoísta  e  indiferente  ao  bem  comum  do  mundo  contemporâneo.  Nas  grandes 
cidades,  as  pessoas  passam  pelas  ruas  sem  se  ver,  ninguém  parece  ser 
especialmente notável  nesse  mar  do  anonimato.  “O não  se  olhar,  o não  se falar, o 
exacerbado individualismo produzem uma nova polidez que se baseia na recusa do 
outro”  (CARLOS,  1997,  p.  202).  Muitas  crianças  já  não  interagem  mais  entre  si, 
ocupando  as  ruas,  praças,  parques  ou  calçadas  com  as  brincadeiras  que  eram 
brincadas em gerações passadas. As relações da infância agora são intermediadas, 
quase  que  totalmente,  pela  técnica,  com  os  computadores,  videogames,  e  a 
televisão, inclusive nas classes mais baixas.  


39 
 
Sabemos  que  as  características  desses  novos  padrões  de  comportamento 
observados nas metrópoles e descritos anteriormente têm origem nas relações dos 
objetos  e  mercadorias  com  a  sociedade  urbana,  impostas  pelo  modo  de  produção 
capitalista.  Mas  além de  serem  “consequência”,  elas  são  também  “causa”  de  outra 
característica  marcante  que  pretendo  discutir  aqui,  a  saber:  o  confinamento  dos 
terrenos de sociabilidade com um recuo do espaço público. Esse por sua vez evolui 
à medida que cresce o “emuralhamento da cidade com as novas formas de morar” e 
“o uso do automóvel particular em detrimento do transporte público”, que caracteriza 
a “lógica do automóvel”.  
Analisar  as  dinâmicas  sociais  e  espaciais  e  compreender  as  relações  de 
causa e consequência que se engendram dialeticamente entre si, torna-se essencial 
no desenvolvimento da ciência geográfica, pois, segundo Gomes (2006); 
 
[...]  o  espaço  geográfico  é,  simultaneamente,  o  terreno  onde  as  práticas 
sociais  se  exercem,  a  condição  necessária  para  que  elas  existam  e  o 
quadro  que  as  delimita  e  lhes  dá  sentido.  Desse  ponto  de  vista,  um  olhar 
geográfico  sobre  o  espaço  público  deve  considerar,  por  um  lado,  sua 
configuração física, e por outro, o tipo de práticas e dinâmicas sociais que aí 
se  desenvolvem.  Ele  passa  então  a  ser  visto  como  um  conjunto 
indissociável  das  formas  com  as  práticas  sociais.  É  justamente  sob  esse 
ângulo  que  a  noção  do  espaço  público  pode  vir  a  se  constituir  em  uma 
categoria de análise geográfica. Aliás, essa parece ser a única maneira de 
se estabelecer uma relação direta entre a condição de cidadania e o espaço 
público,  ou  seja,  sua  configuração  física,  seus  usos  e  sua  vivência  efetiva 
(GOMES, 2006, p. 172). 
 
A  cidadania,  segundo  Gomes  (2006)  diz  respeito  a  um  pacto  social  que  é 
estabelecido,  ao  mesmo  tempo,  como  uma  relação  de  pertencimento  a  um 
determinado grupo e de pertencimento a um determinado território. Trata-se de um 
“pacto  associativo  e  formal”  que  visa  fazer  valer  os  direitos  e  deveres  de  cada 
indivíduo. No espaço, que também é objeto de um pacto formal, ocorre a coabitação 
dos indivíduos que “instaura limites, indica usos, estabelece parâmetros e sinaliza as 
interdições”  (GOMES,  2006,  p.  174).  Ainda  segundo  Gomes  (2006),  esse  tipo  de 
normatização do espaço é a origem do espaço público e o locus de reprodução da 
vida  coletiva.  O  autor  esclarece  que  a  partir  do  momento  que  surgem  ações  que 
busquem  quebrar  ou  “subverter  a  existência  desse  espaço  ou  transformar  seu 
estatuto”,  temos  configurado,  dessa  maneira,  um  retrocesso  no  contrato  inicial  que 
funda a cidadania. “Recuo que é tanto da institucionalização das práticas sociais que 


40 
 
compõem  um  quadro  de  vida  democrático  e  cidadão  quanto  físico,  do  arranjo 
material que limita e qualifica as ações” (GOMES, 2006, p. 174). 
Quando  o  espaço  público  passa  a  ter  seu  alcance  reduzido,  seu  uso 
delimitado a determinados estratos da sociedade, ou quando se verifica o ataque às 
ruas, e o avanço, cada vez maior, dos espaços comuns, mas não públicos, de uso 
coletivo,  porém  excludente,  temos  configurado  o  “recuo  da  cidadania”.  Esse  é  o 
“processo  de  redefinição  nos  quadros  da  vida  social  coletiva  que  vem, 
gradativamente,  modificando  o  estatuto  das  práticas  sociais  e  espaciais  de  forma 
geral no mundo contemporâneo” (GOMES, 2006, p. 175). 
As  dinâmicas  de  recuo  do  espaço  público  constituem  dinâmicas  complexas 
que possuem relações com o sistema e a organização da esfera política, a situação 
econômica,  bem  como  o  processo  de  urbanização.  Pode  se  dar  através  da 
apropriação privada dos espaços comuns e o emuralhamento da vida social, sendo 
que nenhuma forma é independente da outra. 
A  apropriação  privada  dos  espaços  comuns  se  dá  de  diversas  maneiras, 
desde  uma  simples  ocupação  da  calçada  até  o  fechamento  de  ruas  ou  de  bairros 
inteiros. Essa apropriação pode acontecer através de estruturas físicas fixas, como, 
por  exemplo,  os  camelôs  não  regularizados,  ou  mesmo  através  de  instrumentos 
simbólicos e temporários. O que caracteriza esse tipo de manifestação é a perda do 
livre  acesso.  De  acordo  com  Gomes  (2006),  “[o]  livre  acesso  pressupõe  a  não 
exclusividade  de  ninguém  ou  de  nenhum  uso  diferente  daqueles  que  são  os  de 
interesse  comum.  Na  prática,  no  entanto,  o  que  ocorre  é  uma  apropriação  desses 
espaços”  (GOMES,  2006,  p.  177).  O  autor  enumera  ainda  outros  exemplos  de 
dinâmicas  que  ocupam  ou  atravessam  os  espaços  públicos  e  que  são  notáveis  na 
maioria das grandes cidades brasileiras:  
 
As  ações  dos  guardadores  de  carros,  que  se  tornam  ‘donos  da  rua’  [...] 
caminhões  que  estacionam  para  vender  mercadorias,  apresentando  suas 
promoções  por  meio  de  microfones  em  níveis  altíssimos,  pequenos 
comerciantes que colocam sobre as calçadas mercadorias e bancas, bares 
que  estabelecem  uma  projeção  sobre  a  calçada  e  passam  a  utilizar  as 
mesmas  como  uma  extensão  física  do  estabelecimento.  A  degradação  do 
espaço nessas invasões é física, mas também, em grande parte, construída 
pelos usos que são substitutivos à ideia de um espaço público, um espaço 
de  convivência  e,  sobretudo,  um  espaço  de  respeito  ao  outro  (GOMES, 
2006, p. 180). 
 


41 
 
Em  se  tratando  do  emuralhamento  da  vida  social,  que  diz  respeito  às 
manifestações de isolamento e recusa aos contatos de sociabilidade, este pode se 
dar de diversas maneiras para transformar o homem em inacessível para o contato 
social.  Uma  das  mais  características  dessas  maneiras  é  a  utilização  dos  fones  de 
ouvido na rua. Nas décadas de 1980 e 1990 tínhamos o uso frequente do walkman 
e, posteriormente, do discman. A partir dos anos 2000 vemos se ampliar o uso dos 
aparelhos  reprodutores  de  arquivos  de  áudio  digitais,  como  o  Mp3  Player.  Nos 
tempos  atuais  vemos  se  expandir  o  uso  dos  iPhones,  iPods  e  iPads
5
  como 
instrumentos  técnicos  que  possibilitam  a  audição  de  músicas  ou  visualização  de 
filmes  e  vídeos  com  a  utilização  dos  fones  do  ouvido.  Em  verdade,  os  novos 
equipamentos  técnicos  têm  invadido  as  residências,  principalmente  com  o  uso  da 
internet  e  da  televisão,  que  hoje  são  adquiridos  mesmo  pelos  baixos  estratos  das 
classes médias urbanas. Dessa forma, o mundo passa a chegar até nós, e com isso 
passamos  a  suprir  grande  parte  de  nossas  necessidades  básicas,  (como  fazer 
compras e pagar contas), ou de lazer, sem que para isso precisemos sair de casa e 
nos relacionar com os demais habitantes da cidade. 
Esse  fenômeno  passa  a  ter  sérias  consequências  e  a  principal  delas  diz 
respeito  ao  uso,  cada  vez  menor,  do  espaço  da  cidade,  gerando  um  crescente 
esvaziamento  das  ruas,  intensificando  as  relações  entre  sociabilidade  e  reclusão, 
que  fundamentam  esse  trabalho  a  partir  do  estudo  das  identidades  territoriais  dos 
grupos de motociclistas.  
 
 
3.2.1. A “lógica do automóvel” 
 
As  vias  públicas  se  tornaram,  exclusivamente,  vias  de  circulação  dos 
automóveis,  que  cumprem  com  a  função  apenas  de  passagem.  Os  automóveis 
levam  as  pessoas,  isoladamente,  de  um  lugar  específico  para  outro.  Isso,  em  se 
tratando de médias e grandes cidades, dará origem aos tão noticiados problemas de 
tráfego e congestionamento, caracterizando o que já mencionei anteriormente como 
a  “lógica  do  automóvel”.  O  uso  dos  automóveis  particulares na metrópole baiana é 
                                                 
5
 É interessante perceber que o próprio nome desses objetos técnicos faz referência ao indivíduo “EU” (no inglês “I” – iPhone, 
iPad, etc.), ressaltando o caráter que prega o isolamento e o individualismo presentes na modernidade com a difusão desses 
objetos. 


42 
 
quase  regra  para  aqueles  que  têm  condições  de  ter  um  carro,  que  dessa  maneira 
passam  a  se  trancar  em  suas  “carapaças  privativas”  (GOMES,  2006).  A  cidade 
passa,  em  virtude  disso,  a  dar  o  privilégio  cada  vez  maior  para  o  espaço  de 
circulação  dos  automóveis  particulares  em  detrimento  de  outros  usos  possíveis  e 
coletivos,  e  isso  é  notado  nas  práticas  da  administração  tanto  municipal,  quanto 
estadual.  A  rua  é  destruída,  segundo  Caldeira  (2003),  como  espaço  para  a  vida 
pública.  “O  planejamento  modernista  também  minou  a  diversidade  urbana  e  a 
possibilidade de coexistência de diferenças” (CALDEIRA, 2003, p. 311). 
O  uso  cada  vez  mais  frequente  dos  automóveis  particulares  nas  grandes 
cidades  em  detrimento  do  transporte  público  tem  sua  origem  na  tendência  ao 
individualismo e do medo tal como abordado por Tuan (2005). O medo da violência 
(principalmente), dos ruídos, das aglomerações, da multidão, do fogo e do contato e 
do convívio social e da interação com os mais pobres. Isso caracteriza uma relação 
catastrófica e esquizofrênica (para não utilizar outros termos) que se apresenta nas 
grandes cidades atualmente que é a lógica do automóvel: 
 
As  carruagens  aparecem  nas  cidades  europeias  no  século  XVI.  Umas 
poucas vielas foram alargadas e endireitadas para facilitar sua passagem, o 
que teve como efeito benéfico a melhoria da circulação e permitiu a entrada 
de mais luz  e ar. Porém, elas logo acrescentaram às ruas seu próprio tipo 
de caos e perigo. Pela primeira vez, nas ruas, os ricos foram separados dos 
pobres.  Os  fregueses  das  carruagens  desfrutavam  de  privacidade  e 
segurança,  enquanto  seus  veículos  colocavam  em  perigo  os  pedestres 
(TUAN, 2005, p. 243). 
 
Nessa lógica do automóvel, os pedestres e aqueles que utilizam do transporte 
público  (que  em  países  como  o  Brasil  é  de  péssima  qualidade)  são  postos  em 
segundo plano e os donos dos automóveis se sentem donos de si e do mundo por 
estarem  isolados  dentro  de  suas  cápsulas  velozes  sobre  rodas,  protegidos  do 
exterior com películas nos vidros e do calor com os seus condicionadores de ar. O 
tipo de espaço que ela cria promove uma desigualdade cada vez mais explícita.  
 
Como as pessoas de classe média e alta circulam em seus próprios carros 
e os outros, ou andam a pé, ou utilizam o transporte  público, existe pouco 
contato  público  entre  as  pessoas  de  classes  sociais  diferentes.  Não  há 
espaços comuns que os ponham juntos (CALDEIRA, 2003, p. 315). 
 
Exemplo  de  tamanha esquizofrenia  e  inversões  da  lógica  de uma  sociedade 
pautada na cidadania é o mecanismo de funcionamento dos semáforos. Em intensos 


43 
 
cruzamentos de vias de circulação, a prioridade é dada quase que integralmente aos 
veículos,  quaisquer  que  sejam  as  vias  em  que  estejam,  restando  ao  pedestre 
esperar  por  cerca  de  cinco  minutos  (quando  não  mais  do  que  isso)  para  ter  que 
atravessar  todas  as  vias  desses  intensos  cruzamentos  em  cerca  de  quinze 
segundos (quando não menos do que isso). 
A  lógica  do  automóvel  promove  a  segregação  escancarada  nas  grandes 
cidades.  Promove  o  isolamento  e  o  individualismo,  pois  apenas  com  uma 
observação  cuidadosa,  constata-se  que  a  taxa  de  ocupação  dos  veículos  muito 
dificilmente  é  igual,  ou  superior  a  dois  ocupantes.  A  lógica  do  automóvel  se 
apresenta ainda como característica marcante da “nova urbanidade” e um recuo da 
cidadania, e, por isso, como um entrave à busca pelas relações sociais harmônicas 
e  solidárias  na  metrópole  contemporânea,  tais  como  os  encontros  de  sociabilidade 
promovidos por agregados identitários. 
Ainda  lembrando  Caldeira  (2003),  que  faz  referências  ao  trânsito  como  um 
dos  mais  fortes  indicadores  de  qualidade  da  vida  pública,  a  autora  enfatiza  que  o 
trânsito é um dos piores aspectos da vida metropolitana, considerando o desrespeito 
às leis e aos direitos das outras pessoas como sendo a norma. “Há pouca civilidade, 
já que uma parte significativa da população age como se as leis de trânsito fossem 
obstáculos  à  livre  movimentação  dos  indivíduos  e  reage  desrespeitando-as” 
(CALDEIRA, 2003, p. 321). 
Retorno  ao  filósofo  francês  Henri  Lefebvre  (1991),  que  aponta  o  automóvel 
como  o  principal  subsistema  que  erige  da  sociedade  dita  de  consumo  na 
contemporaneidade,  acarretando  nos  problemas  de  recuo  da  cidadania,  como 
emuralhamento da vida social. Tomo a liberdade de transcrever essa longa citação 
da  obra  de  Lefebvre  por  acreditar  que  esse  trecho  é  extremamente  esclarecedor 
sobre toda a “contra-lógica” que está por trás da “lógica do automóvel”: 
 
O  automóvel  é  o  Objeto-Rei,  a  Coisa-Piloto.  Esse  Objeto  por  excelência 
rege  múltiplos  comportamentos  em  muitos  domínios,  da  economia  ao 
discurso.  O  trânsito  entra  no  meio  das  funções  sociais  e  se  classifica  em 
primeiro lugar, o que resulta na prioridade dos estacionamentos, das vias de 
acesso,  do  sistema  viário  adequado.  [...]  Concebe-se  o  espaço  de  acordo 
com  as  pressões  do  automóvel.  O  Circular  substitui  o  Habitar.  É  verdade 
que,  para  muitas  pessoas,  o  carro  é  um  pedaço  de  sua  “moradia”,  até 
mesmo o fragmento essencial. No trânsito automobilístico, as pessoas e as 
coisas  se  acumulam,  se  misturam  sem  se  encontrar.  É  um  caso 
surpreendente de simultaneidade sem troca, ficando cada elemento na sua 
caixa, cada um bem fechado na sua carapaça. Isso contribui também para 
deteriorar a vida urbana e para criar a “psicologia”, ou melhor, a psicose do 


44 
 
motorista.  [...]  De  fato  e  na  verdade  não  é  apenas  a  sociedade  que  o 
automóvel  conquista  e  “estrutura”,  mas  também  o  cotidiano.  O  Automóvel 
impõe sua lei ao cotidiano, contribui fortemente para consolidá-lo, para fixá-
lo no seu plano: para planificá-lo. O cotidiano, em larga proporção hoje em 
dia, é ruído dos motores, seu uso “racional”, as exigências da produção e da 
distribuição dos carros etc. (LEFEBVRE, 1991, p. 110 – 111). 
 
Por  fim,  Lefebvre  ainda  lembra  que  o  automóvel  cria  as  hierarquias  e 
aprofunda  a  desigualdade na metrópole,  pois  se  revela  todo  um  sistema  de  signos 
que  se  esconde  por  trás  da  “lógica  do  automóvel”.  “A  hierarquização  é  ao  mesmo 
tempo dita e significada, suportada e agravada pelos simbolismos. O carro é símbolo 
de posição social e prestígio” (LEFEBVRE, 1991, p. 112).  A existência do automóvel 
enquanto um instrumento de circulação e utensílio de transporte é, portanto, apenas 
uma porção das suas funcionalidades.  
 
 
3.2.2. A “lógica da motocicleta” 
 
É  possível  que  se  fale  também,  como  uma  marca  característica  da  “nova 
urbanidade”, em uma “lógica da motocicleta”. O uso da moto
6
 tem se difundido, cada 
vez  mais,  em  diversas  cidades  brasileiras,  não  só  entre  os  aficionados  por 
motociclismo  que  se  associam  aos  M.C.s  para  expressar  um  estilo  de  vida,  mas 
também  entre  trabalhadores  em  geral,  que  buscam  na  motocicleta  a  agilidade  e 
facilidade  para  o  deslocamento,  garantindo,  dessa  maneira  a  fluidez.  Para  Santos 
(2006),  a  exigência  pela  fluidez  é  uma  das  principais  características  do  mundo 
moderno.  Essa  fluidez  é  requerida  pela  contemporaneidade  para  a  circulação  de 
ideias, mensagens, documentos, produtos ou dinheiro, interessando, dessa maneira, 
principalmente aos atores hegemônicos.  
 
A  fluidez  contemporânea  é  baseada  nas  redes  técnicas,  que  são  um  dos 
suportes  da  competitividade.  Daí  a  busca  voraz  de  ainda  mais  fluidez, 
levando  à  procura  de  novas  técnicas  ainda  mais  eficazes.  A  fluidez  é,  ao 
mesmo tempo, uma causa, uma condição e um resultado. (SANTOS, 2006, 
p. 274). 
 
Utilizada  como  objeto  para  garantir  fluidez  no  trânsito  automobilístico  das 
grandes  cidades,  as  motocicletas,  no  entanto,  e  a  meu  ver,  não  podem  ser 
                                                 
6
 Termo mais comumente utilizado para se referir à motocicleta. 


45 
 
equiparadas aos automóveis no que diz respeito ao agravamento e aprofundamento 
do  “recuo  da  cidadania”.  Em  geral,  motocicletas  possuem  uma  relação 
“deslocamento / uso do combustível”, muito mais vantajosa e econômica do que os 
carros,  sem  contar  o  fato  de  poder  transportar  até  duas  pessoas  ocupando  um 
espaço  muito  menor  do  que  o  que  duas  pessoas  ocupariam  em  um  carro,  e,  sem 
ainda, se isolar demasiadamente dos pedestres e demais usuários das vias públicas 
como se isolam os proprietários dos veículos com quatro rodas. 
Além  de  serem  caracterizadas  por  uma  incessante  busca  por  fluidez,  as 
motocicletas  estão  carregadas  de  símbolos  que  podem  ser  decifrados  no  cotidiano 
urbano. O modelo, a marca ou o tamanho da motocicleta são exemplos de símbolos 
atrelados  às  motocicletas  que  se  apresentam  no  trânsito  da  cidade.  Modelos  de 
motos  com  125  cilindradas  são  geralmente  atreladas  à  classe  trabalhadora, 
operária, como os motoboys, por serem motos ágeis e baratas. Modelos esportivos 
como  as  motos  utilizadas  em  disputas  de  ‘motovelocidade’  são  robustas, 
barulhentas, velozes, e por isso, ligadas aos indivíduos jovens, majoritariamente, do 
sexo  masculino.  Essas  motocicletas  são  características  ainda,  por  dificultarem  o 
transporte  de  um  segundo  passageiro,  pois  a  garupa  é  anatomicamente 
desconfortável. É possível, por conta de toda essa carga de simbolismos ligada às 
motocicletas,  encontrar  discursos,  proferidos  por  usuários  das  vias  de  circulação, 
como  os  pedestres,  motoristas  dos  carros  ou  dos  ônibus,  tais  como:  “motociclista 
pilotando uma moto X é imprudente e por isso eu não o respeito”. 
Por  conta  dessa  diferenciação  através  dos  tipos  e  estilos  de  motos,  pude 
notar  que  um  determinadas  motocicletas, as  da marca  “Harley  Davidson”,  exercem 
uma verdadeira relação de fetiche em seus compradores. Tal fato aponta para uma 
grande  diferenciação  em  relação  aos  proprietários  das  motos  de  125  cilindradas, 
mais  baratas  e  utilizadas  para  o  trabalho,  pois  são  adquiridas  por  conta  da 
necessidade, e não do fetiche. Essa discussão sobre o fetiche em relação às motos 
Harley Davidson e todas essas nuances ligadas às motocicletas e aos motociclistas, 
serão largamente exploradas na continuidade do trabalho, durante o Capítulo 4. 
 
 
 


46 
 
3.2.3. Os “enclaves fortificados” 
 
Além  da  “lógica  do  automóvel”  e  da  “lógica  da  motocicleta”,  outra  grande 
marca  produtora  do  emuralhamento  da  vida  pública  na  cidade  contemporânea  é  o 
avanço  cada  vez  maior  das  novas  formas  de  morar,  nos  quais  os  seus  ideais 
baseiam-se  em  preceitos  retrógrados  de  segregação  em  busca  de  uma  falsa  ideia 
de  “qualidade  de  vida”,  que  abrange  segurança  e  bem-estar.  Essas  formas,  na 
verdade, vêm produzindo o que Davis (1993) e Gomes (2006) acharam conveniente 
denominar de apartheid urbano. Os condomínios residenciais fechados constituem a 
principal manifestação na cidade moderna de novas formas de morar que negam a 
sociabilidade  e  promovem  o  isolamento.  Tanto  Davis  (1993)  quanto  Gomes  (2006) 
produziram  trabalhos  referentes  a  essas  manifestações;  o  primeiro  com  um 
minucioso estudo sobre a cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, e o segundo 
com exemplos sobre a cidade do Rio de Janeiro. Porém, outro importante trabalho 
nesse  campo  é  o  de  Caldeira  (2003)  que,  com  uma  brilhante  pesquisa  sobre  a 
cidade de São Paulo, conclui que esta é hoje, uma “cidade de muros”.  
A autora utiliza um termo específico para se referir aos condomínios fechados 
que  emuralham  e  segregam  a  vida  urbana  pública:  os  enclaves  fortificados.  Para 
Caldeira (2003): 
 
Nos  enclaves,  o  objetivo  é  segregar  e  mudar  o  caráter  da  vida  pública, 
transferindo atividades antes realizadas em espaços públicos heterogêneos 
para espaços privados que foram construídos como ambientes socialmente 
homogêneos,  e  destruindo  o  potencial  das  ruas  de  fornecer  espaços  para 
interações anônimas e tolerantes (CALDEIRA, 2003, p. 313). 
 
Segundo Caldeira (2003) “as cidades modernas foram sempre marcadas por 
desigualdades  sociais  e  segregação  espacial,  e  seus  espaços  são  apropriados  de 
maneiras  bastante  diferentes  por  diversos  grupos,  dependendo  de  sua  posição 
social  e  poder”  (CALDEIRA,  2003,  p.  303).  Dessa  forma,  as  classes  mais 
favorecidas  economicamente  tendem,  cada  vez  mais,  para  as  moradias  nos 
enclaves  fortificados.  Esses  enclaves  negam  e  se  apropriam  indevidamente  dos 
espaços  e  vias  públicas  e  não  fazem  nenhum  gesto  em  direção  à  abertura, 
indeterminação  e  acomodação  das  diferenças,  mas,  ao  invés  disso,  toma  a 
desigualdade,  fragmentação  e  segregação  como  seus  valores  estruturantes.  Ainda 
segundo  Caldeira  (2003),  esses  enclaves  esvaziam  as  ruas  com  a  retirada  dos 


47 
 
pedestres e suas interações anônimas na rua, que passa a ser dedicada quase que 
exclusivamente à circulação dos veículos particulares. Essa destruição da rua, como 
espaço  para  a  vida  e  o  convívio  público  e  a  interação  social,  também  destrói  a 
diversidade  urbana  e  a  possibilidade  da  coexistência  das  diferenças  que  pode  ser 
manifestada  através  das  identidades  territoriais,  pois  os  habitantes  das  cidades 
tornam-se,  cada  vez  mais,  homogêneos.  Enfatizo  que  é  devido  a  isso  que  busco 
relacionar a heterogeneidade manifestada através das diferenças, o que fundamenta 
os  agregados  identitários,  tais  como  grupos  de  motociclistas,  com  essas 
características  marcantes  do  modo  de  vida  urbano  contemporâneo  expresso  pela 
“nova urbanidade”. 
Os  enclaves  fortificados  são  vendidos,  cada  vez  mais,  como  cidades  dentro 
da  cidade,  mas  se  constituem  como  ambientes  cada  vez  mais  homogêneos  e 
isolados e  isoladores. O  discurso principal é  o  da  “segurança”  e  o  da  qualidade  de 
vida,  e  por  isso,  procuram  reproduzir  ao  máximo,  dentro  de  seus  limites,  todos  os 
equipamentos  urbanos  possíveis.  Com  o  isolamento,  e  o  discurso  da  segurança, 
esses  enclaves  são  cercados  por  muros  altíssimos  e  desproporcionais,  cercas 
elétricas, câmeras de vídeo e vigilância eletrônica, cães, guardas e guaritas, o que 
na verdade só aprofunda as desigualdades e produz, cada vez mais, a sensação de 
insegurança fruto da própria segregação social. 
Os  limites  com  o  mundo  externo  são  perfeitamente  bem  demarcados  e  o 
controle e a vigilância são fundamentais ao funcionamento dos enclaves fortificados. 
A  entrada  e  permanência  nesses  espaços  são  restritas  aos  seus  moradores  e  aos 
seus convidados, sendo que é o padrão monetário que determina a possibilidade de 
ingresso.  “O  arremedo  de  cidade  dá  lugar  ao  nascimento  de  uma  cidadania 
fragmentada ou, sem exagero, a um simulacro da condição de cidadania” (GOMES, 
2006, p.187). Vê-se que com os enclaves fortificados existe uma recusa de se viver 
em  uma  sociedade  variada  e  multifacetada.  Eles  jamais  conseguiriam  estabelecer 
uma verdadeira vida urbana democrática, pois negam os seus princípios. 
 
Esses  espaços,  cópias  da  cidade,  funcionam  de  fato  como  a  sua  antítese, 
na  medida  em  que  recusam  a  diferença,  a  liberdade  de  entrada,  a 
possibilidade  do  encontro  com  o  diverso,  a  construção  de  uma  verdadeira 
individualidade  dentro  de  uma  coletividade  variada  e  múltipla  (GOMES, 
2006, p. 188). 
 


48 
 
Davis  (1993)  discorre  sobre  a  demanda  paranoica  pela  segurança.  A 
“violência”  passa  a  ser,  na  verdade,  um  produto,  incentivado  pelo  mercado  de 
“segurança” e pelos próprios empreendimentos imobiliários.  
 
A  “segurança”  se  torna  um  bem  posicional  que  se  define  por  um  nível  de 
renda  que  permite  o  acesso  a  “serviços  de  proteção”  privados,  e  torna  o 
cliente  membro  de  um  enclave  residencial  rígido.  [...]  Como  símbolo  de 
prestígio  e,  algumas  vezes,  como  limite  decisivo  entre  os  que  estão 
meramente bem e os “verdadeiramente ricos”, a “segurança” tem menos a 
ver com a proteção de cada um do que com o grau de isolamento pessoal. 
[...] (DAVIS, 1993, p. 206). 
 
Esses enclaves tendem a constituir verdadeiras “fortalezas”, fazendo com que 
haja  um  esvaziamento  crescente  da  rua,  deixada  à  margem  das  ações  das 
administrações  públicas,  que  por  consequência  são  relegadas  às  classes  mais 
pobres,  que  por  sua  vez,  encontram  um  espaço  público  abandonado,  pobre  em 
opções  de  lazer  e  sociabilidade,  onde  a  presença  dos  pedestres  é  desencorajada, 
constituindo uma verdadeira “dinâmica anti-pedestre” (DAVIS, 1993): 
 
A percepção social da ameaça se torna uma função da própria mobilização 
por  segurança,  e  não  dos  verdadeiros  índices  de  criminalidade.  Onde  há 
uma curva real ascendente de violência na rua, a maior parte da carnificina 
é autoconfinada dentro de fronteiras étnicas ou de classe (DAVIS, 1993, p. 
206). 
 
Como  pode  ser  percebido  através  da  citação  transcrita  de  Davis  (1993), 
utilizar-se  do  discurso  do  medo  e  da  violência  como  justificativa  para  a  busca  de 
novas  formas  de  morar  enclausuradas  e  segregadas  constitui  mais  uma  grande 
esquizofrenia das classes médias e altas da cidade contemporânea, pois, segundo o 
autor, “o medo prova a si mesmo” nas grandes cidades e metrópoles fazendo com 
que  aumente  essa  “sensação”  de  violência,  tal  como  pode  ser  comprovado  em 
Salvador.  A  seguir  apresentarei  um  breve  relato  de  como  essas  marcas  da  “nova 
urbanidade”, expostas até aqui nesse capítulo se apresentam na capital baiana. 
 
 
 
 
 


49 
 
3.3 Marcas da “nova urbanidade” em Salvador 
 
Os  trabalhos  que  utilizei  para  me  basear  sobre  a  discussão  da  nova 
urbanidade e do recuo da cidadania foram realizados sobre as cidades de São Paulo 
(CARLOS, 1997), (CALDEIRA, 2003); Rio de Janeiro (GOMES, 2006) e Los Angeles 
(DAVIS, 1993), (CALDEIRA, 2003). Não encontrei nenhum estudo específico sobre 
as  marcas  desses  processos  na  Salvador  contemporânea.  No  entanto,  através  de 
minhas  vivências  na  cidade  e  com  a  pesquisa  bibliográfica  em  outros  trabalhos 
menos específicos, mas que se relacionam com a temática, concluo que a cidade de 
Salvador  apresenta  as  mesmas  características  oriundas  desses  processos  que 
foram apontados nessas outras cidades, salvo as especificidades locais. 
 
Para Henri Lefebvre, não é necessário um exame muito atento das cidades 
modernas,  das  periferias  urbanas  e  das  novas  construções  para  constatar 
que  tudo  se  parece.  [...]  O  repetitivo  substitui  a  unicidade,  o  factual  e  o 
sofisticado prevaleceram sobre o espontâneo e o natural, o produto sobre a 
produção. Esses espaços repetitivos resultam de gestos e atitudes também 
repetitivos,  transformando  os  espaços  urbanos  em  produtos  homogêneos, 
que  podem  ser  vendidos  ou  comprados.  Não  há  nenhuma  diferença  entre 
eles,  a  não  ser  a  quantidade  de  dinheiro  neles  empregada.  Reina  a 
repetição e a quantificação (SERPA, 2007, p. 19). 
 
De  uma  forma  geral,  podemos  considerar  que  o  espaço  metropolitano  de 
Salvador  é  marcado  pela  segregação.  Na  cidade  percebemos  que  o  trânsito  de 
veículos  é  caótico,  tendo  as  vias  voltadas  quase  que  exclusivamente  para  a 
circulação  dos  automóveis  particulares.  Há  um  déficit  de  equipamentos  para  a 
circulação  dos  pedestres,  tais  como  passarelas,  faixas  de  pedestres,  calçadas  e 
semáforos.  Em um  teste  ocasional  realizado  por  mim em  um  semáforo da Avenida 
Anita  Garibaldi,  localizada  em  região  central  da  cidade,  constatou-se  que  o  sinal 
permanece verde aos veículos por 5m30s, sendo que para a travessia de pedestres, 
o sinal permanece verde por 12s. Segundo dados do Sistema Renavam, a frota de 
total  de  veículos  em  Salvador,  em  Maio  de  2012,  era  de  713.932  veículos 
(DENATRAN)
7
,  sendo  que  os  carros  totalizam  493.979  unidades,  o  que  confere  à 
cidade, uma marca de, aproximadamente, 1 carro para cada 5 habitantes. Já para a 
frota de ônibus coletivos, há um verdadeiro déficit, com uma frota operante total em 
                                                 
7
 Fonte: Sistema Renavam / Módulo Veículos (DENATRAN) 


50 
 
Dezembro de 2011 de 2.451 veículos
8
. Tendo em vista que a cidade ainda não conta 
com  um  transporte  público  de  massas,  como  metrô,  e  que  seu  sistema  de  trens  é 
defasado e sucateado, podemos analisar todos esses dados e concluir que Salvador 
vive  de  acordo  com  a  lógica  do  automóvel,  que  segrega  a  população  entre  os  que 
têm veículos particulares e se isolam, e os que precisam do transporte público para 
se  locomover  e  o  têm  em péssimas  condições  de utilização.  Caldeira  (2003) alerta 
que  essas  e  outras  transformações  similares  podem  ser  detectadas  em  muitas 
cidades  do  mundo,  o  que  “compromete  os  valores  de  abertura  e  liberdade  de 
circulação  e  põe  em  risco  as  interações  anônimas  e  impessoais  entre  pessoas  de 
diferentes grupos sociais” (CALDEIRA, 2003, p. 328). 
As  motocicletas  em  Salvador,  assim  como  na  maioria  das  grandes  cidades 
brasileiras, são utilizadas em larga escala para se garantir a fluidez e velocidade nos 
deslocamentos.  Como  dito  anteriormente,  o  trânsito  da  capital  baiana  encontra-se 
em  situação  agravada  pelo  alto  número  de  veículos  particulares,  pelo  déficit  no 
transporte público e pelas precárias condições das vias de circulação, o que faz com 
que  uso  das  motos  com  a  finalidade  do  trabalho  seja  um  verdadeiro  trunfo, 
especialmente  nas  classes  trabalhadoras.  Segundo  dados  do  DENATRAN  (Maio, 
2012), a frota de motocicletas da cidade é de 91.800 unidades. Comparando com as 
outras grandes capitais da Região Nordeste, Fortaleza e Recife, esse número pode 
ser considerado baixo, tendo em vista que em Fortaleza a frota de motos no mesmo 
período é de 194.808 unidades. Talvez, o que possa explicar tamanha discrepância 
em cidades de níveis populacionais similares, é o fato de que na capital cearense, o 
transporte através dos Moto-Taxis é regularizado.  
Os enclaves fortificados constituem outra característica marcante da presença 
desses novos comportamentos oriundos da nova urbanidade na cidade de Salvador. 
Analisando  os  lançamentos  imobiliários  voltados  paras  as  classes  média  e  alta  da 
cidade, constatamos facilmente que uma crescente parte desses empreendimentos 
caracteriza-se por ser do tipo “condomínio fechado”. Estão presentes todos aqueles 
itens  descritos  anteriormente  quando  da  discussão  sobre  os  enclaves  fortificados. 
Muros  altos,  guaritas,  seguranças,  cães  de  guarda  e  vigilância  eletrônica  –  para 
garantirem  a  segurança.  Piscina,  quadra  poliesportiva,  “garage  band”,  varanda 
gourmet e o playground - para garantir o lazer. 
                                                 
8
 Fonte: TRANSALVADOR – Superintendência de Trânsito e Transporte de Salvador. 


51 
 
Com  tudo  isso  se  tem  uma  perda  crescente  dos  espaços  públicos  de 
sociabilidade  entre  pessoas  de  diferentes  estratos  sociais  na  rua,  bem  como  uma 
segregação  cada  vez  maior,  como  pode  ser  comprovada  com  o  fato  desses 
empreendimentos  estarem,  cada  vez  mais,  localizados  em  lugares  específicos  e 
estratégicos.  Em  Salvador,  nota-se  o  crescimento,  em  forma  de  “ilhas”,  onde  há  a 
preferência  para  a  localização  desses  empreendimentos  de  alto  padrão,  como  a 
“Avenida Paralela” e a região do “Litoral Norte”, conforme apontou Henrique (2009): 
 
No  caso  de  Salvador,  a  vista  (para  o  mar),  a  localização  da  Av.  Paralela 
(certa distância dos bairros mais populares e a proximidade da praia – não 
em  frente)  e  a  infraestrutura  (patrocinada  pelo  Estado)  atraem  os 
investimentos  do  mercado  imobiliário,  criando  na  cidade,  espaços 
“luminosos”  do  ponto  de  vista  técnico-científico-informacional.  [...]  Na 
Avenida  Paralela  encontram-se  vários  empreendimentos  imobiliários,  o 
maior deles com 18 torres de apartamentos em uma área de 100mil m², que 
alia  a  ideia  da  natureza,  que  está  presente  até  no  nome  em  francês  do 
empreendimento,  com  as  inúmeras  possibilidades  de  lazer  que  serão 
oferecidas, fazendo com que o morador desfrute de todas as atividades de 
um resort sem sair de casa (HENRIQUE, 2009, p. 151). 
Salvador  se  torna,  a  exemplo  da  Los  Angeles  dos  anos  1980  e  1990,  mais 
uma  das  “cidades  fortalezas”  (DAVIS,  1993),  que  passam  a  ser  “brutalmente 
divididas entre ‘células fortificadas’ da sociedade afluente e ‘lugares de terror’ onde a 
polícia guerreia contra o pobre criminalizado” (DAVIS, 1993, p. 206). 
Com  todos  esses  fenômenos  em  curso,  que  caracterizam  o  processo  de 
reprodução  do  espaço  urbano  em  Salvador,  nota-se  um  recuo  e  a  destruição  do 
espaço  público  e  uma  tendência  latente  de  separação  e  divisão  dos  habitantes  na 
cidade,  que,  como  aponta  Carlos  (1997),  se  dá  devido  às  formas  de  apropriação 
determinadas pela existência da propriedade do solo urbano: 
 
Cada  um  num  endereço  específico,  apontando  para  uma  segregação 
espacial bem nítida, passível de ser observada na paisagem como produto 
da  articulação  entre  uma  hierarquia  social  e  uma  hierarquia  espacial,  que 
caracteriza  os  usos  no  espaço  urbano.  Essa  delimitação,  bem  marcada, 
separando a casa da rua, reduzindo o espaço público apagando a vida nos 
bairros  onde  cada  um  se  reconhecia,  por  que  este  era  o  espaço  da  vida, 
torna  a  cidade  mais  fria,  anônima,  funcional  e  institucionalizada  (CARLOS, 
1997, p. 208). 
 
Por fim, gostaria de me ater aos espaços públicos de lazer, como os parques 
e jardins públicos, bem como as praias. Serpa (2007) desenvolveu uma importante 
contribuição  para  a  Geografia  no  que  tange  a  essa  temática.  Para  o  autor,  a 
distribuição  e  a  frequentação  dos  parques  e  jardins  públicos  em  Salvador  “podem 


52 
 
revelar  todas  as  nuances  da  organização  socioespacial  da  metrópole”  (SERPA, 
2007,  p.  90),  com  um  padrão  que  tende  ao  claro  agravamento  das  desigualdades 
entre os diferentes bairros da cidade, resultado das políticas públicas empreendidas 
na  cidade.  Para  as  praias  o  padrão  permanece  o  mesmo.  Elas  ainda  podem  ser 
consideradas como um importante local de sociabilidade das classes populares, mas 
as  praias  da  orla  atlântica,  por  exemplo,  sofrem  a  “requalificação  e  revalorização 
estética”,  enquanto  outras,  localizadas  na  orla  suburbana,  ainda  segundo  Serpa 
(2007),  são  destinadas,  quase  que  exclusivamente,  ao  público  do  bairro  e  das 
localidades  próximas,  e  que  por  isso  ainda  permaneçam  abandonadas  pelos 
poderes públicos. 
 
 
3.4 A relação dialética entre a “nova urbanidade” e a formação das identidades 
 
Na materialização dos agregados identitários no espaço urbano, constituindo, 
no  cotidiano  metropolitano,  as  suas  mais  diversas  territorialidades,  existe  uma 
relação dialética que se engendra com a “nova urbanidade”. 
Num  mundo  onde  o  efêmero  se  impõe,  os  simulacros  estão  por  todas  as 
partes  e  as  relações  de  sociabilidade  estão  abaladas,  podemos  dizer  que  a 
progressão  das  identidades  territoriais  atua  como  intensificadora  do  recuo  da 
cidadania  observado  com  a  nova  urbanidade.  Essa  progressão  das  identidades 
territoriais  diz  respeito  à  afirmação  das  identidades  na  cidade  (GOMES,  2006). 
Gomes  é  taxativo  ao  apontar  as  identidades  e  suas  progressivas  territorializações 
como  um  fenômeno  que  fundamenta  o  recuo  da  cidadania,  apontando  que  estas 
resultam  no  recuo  ou  apropriação  do  espaço  público.  Sua  argumentação  se  dá  da 
seguinte maneira: 
 
O  território  próprio  ao  grupo  é  concebido  como  um  terreno  onde  as  regras 
que  fundam  a  identidade  gozam  de  uma  absoluta  e  indiscutível  validade. 
[...].  O  espaço  é,  sob  essa  dinâmica,  sempre  objeto  de  conflitos,  pois 
estabelecer  um  território  de  domínio  de  um  grupo  significa  a  afirmação  de 
sua  diferença  em  oposição  aos  demais.  Esse  fenômeno  é  também 
conhecido como tribalização e é em parte o responsável pela transformação 
da imagem da cidade contemporânea (GOMES, 2006, p. 181). 
 


53 
 
Alguns  exemplos  desse  tipo  de  manifestação  são  citados  pelo  autor  como 
estando  diretamente  associados  a  muitos  fenômenos  de  redução  dos  espaços 
públicos,  a  saber:  as  gangues  territorializadas  de  jovens  que  invadem  a  “área 
inimiga”;  as  comunidades  evangélicas,  que  com  um  grande  número  de 
representantes colonizam e se apropriam de praças para a pregação de seus cultos; 
os narcotraficantes que controlam completamente seus territórios de dominação; as 
torcidas  organizadas  de  clubes  de  futebol,  que,  em  dia  de  jogos,  ocupam 
virtualmente  partes  da  cidade  através  de  uma  dinâmica  tribal,  que  erige  sobre  o 
espaço  público  “uma  ideia  de  território  identitário  fechado  e  exclusivo”  (GOMES, 
2006,  p.  182).  Podemos  adicionar  a  essa  lista,  ainda,  os  territórios  ocupados  por 
garotas de programa ou os chamados transgêneros, que, segundo Oliveira (2010), é 
permeado  através  de  códigos  específicos  que  determinam  o  seu  uso  e  o  seu 
controle.  A  idade,  ou  o  tempo  que  as  Trans
9
  atuam  nas  ruas  podem  ser 
considerados  como  um  desses  códigos  que  exprimem  o  controle  e  o  uso  do 
território,  caracterizados  por  dominação,  e  consequentemente  o  recuo  do  espaço 
público. Segundo o autor: 
 
O controle no território da prostituição é disseminado, de forma antagônica, 
e  muitas  vezes  complementar,  pelas  Trans  mais  velhas.  Seu  tempo  de 
batalha  as  qualifica  no  campo  do  poder  e  de  influência.  A  mais  velha  é 
aquela  que  possui  experiência  e  respaldo  espacial.  Ela  conhece  e 
reconhece  os  pontos  de  prostituição,  tanto  as  suas  entradas,  suas  saídas, 
quanto  a  velocidade  da  fluidez  dos  processos  que  ali  se  desdobram 
(OLIVEIRA, 2010, p. 181). 
 
 Posso  afirmar  que  concordo  com  o  pensamento  de  Gomes  (2006)  sobre  a 
maneira  como  a  progressão  das  identidades  territoriais  na  cidade  contemporânea 
atua  na  redução  dos  espaços  públicos  tornando-se  um  processo  acelerador  do 
“recuo  da  cidadania”,  característico,  portanto,  da  “nova  urbanidade”;  os  exemplos 
utilizados  foram  elucidativos.  Dando  sequência  ao  seu  trabalho  Gomes  (2006), 
afirma: 
 
A  noção  de  um  espaço  identitário  é  a  negação  do  ideal  de  mistura  e  de 
respeito à diferença no qual se baseia o espaço público. Do ponto de vista 
conceptual,  essas  duas  características  possuem  um  estatuto  de  oposição 
absoluta;  do  ponto  de  vista  concreto  e  físico,  o  aumento  de  territórios 
identitários  significa  uma  diminuição  dos  espaços  públicos  na  cidade 
(GOMES, 2006, p. 182). [grifo nosso] 
                                                 
9
 Termo usado por Oliveira (2010) para se referir às diferentes acepções das transgêneros. 


54 
 
Com  isso,  gostaria  de  incluir  a  ressalva,  de  que  em  minha  concepção,  nem 
todos  os  agentes  ou  agregados  identitários  erigem  barreiras  simbólicas  no  espaço 
público  que  determinam  a  não  co-presença  do  “outro”.  É  possível  que  exista  o 
desejo,  por  parte  do  “outro”,  de  não  compartir  o  espaço  público  com  grupos 
“diferentes”, desejo este, que para mim, é motivado por preconcepção. Como pude 
constatar  na  pesquisa  de  campo,  que  será  explorada  no  capítulo  seguinte,  ao 
contrário  do  que  o  senso  comum  poderia  imaginar,  existem  grupos  que  em  suas 
práticas  territoriais  estimulam  o  convívio  com  outros  agregados  identitários, 
relatando, inclusive, que não existe necessidade para a regulamentação do uso do 
espaço público por diferentes agregados identitários. Tal desejo por um uso comum 
do  espaço  urbano,  sem  o  parcelamento  em  pequenos  territórios,  caracteriza  a 
complementaridade  dialética  existente  nesse  processo  e  nas  relações  que  se 
engendram entre a nova urbanidade e as identidades territoriais. 
Conforme destaquei na citação anterior de Gomes (2006), o autor demonstra 
não  acreditar  na  existência  de  outro  lado  da  moeda.  Um  lado  que  complementa  a 
nova  urbanidade  dialeticamente.  Um  lado  onde  existam  grupos  de  identidade  que 
respeitem  as  diferenças  e  a  interação  com  o  outro  quando  de  suas  práticas 
espaciais cotidianas, especialmente no espaço público. Serpa (2007) lembra que as 
identidades  “constroem-se  sempre  a  partir  do  reconhecimento  de  uma  alteridade. 
Isso,  no  entanto,  só  pode  acontecer  onde  há  interação,  transações,  relações  ou 
contatos entre grupos diferentes” (SERPA, 2007, p. 20). O autor conclui, ainda, que 
é através das relações com a alteridade que a territorialidade pode ser definida. Já 
Caldeira (2003) corrobora com esse pensamento ao expor o seguinte: 
 
No espaço da cidade moderna, diferentes cidadãos negociam os termos de 
suas  interações  e  de  fato  interagem  socialmente  a  despeito  de  suas 
diferenças  e  desigualdades.  Esse  ideal  da  cidade  aberta  tolerante  às 
diferenças sociais e às negociações em encontros anônimos cristaliza o que 
chamo  de  espaço  publico  moderno  e  democrático  (CALDEIRA,  2003,  p. 
307). 
 
A  rua  é  o  local  de  manifestação  real  dessas  diferenças,  ou  seja,  das 
identidades.  O  planejamento  modernista  aos  moldes  da  nova  urbanidade,  com  as 
ruas  voltadas  para  os  carros  e  moradias  cercadas  por  muros  tende  a  reforçar  as 
fronteiras  e  destruir  as  ruas,  aumentando  a  sensação  de  insegurança  e  medo, 


55 
 
desencorajando  os  encontros  heterogêneos  e  com  isso  a  diversidade  urbana  e  a 
possibilidade da coexistência das diferenças. 
Caldeira (2003), apoiando-se no clássico de Jane Jacobs, The Death and Life 
of  Great  American  Cities  (1961),  comprova  a  esquizofrenia  presente  no 
planejamento  modernista  empregado  pelos  poderes  públicos  na  cidade 
contemporânea  para  se  enquadrar  a  esses  moldes  da  nova  urbanidade  de  uma 
cidade que sente medo e se volta, quase que exclusivamente, para a circulação dos 
carros particulares e para as formas de morar enclausuradas das classes média. A 
autora  lembra-se  de  uma  ideia  que  dá  fundamento  ao  pensamento  de  Jacobs,  os 
“olhos  sobre  a  rua”,  que  se  caracteriza  pela  densidade,  uso  contínuo,  ampla 
diversidade  de  usos  e  uma  clara  demarcação  entre  o  espaço  público  e  espaço 
privado.  Com  esse  uso  intenso  das  ruas  e  dos  espaços  públicos  e  a  mistura  de 
funções, a segurança passa a ser mantida. Em outras palavras, é pelo engajamento 
da sociedade, e não pelo seu isolamento que é a segurança é conservada. 
Apesar  de  termos,  cada  vez  mais,  notado  que  as  experiências  do  espaço 
público  parecem  correr  na  direção  oposta  à  de  uma  vida  pública  moderna  e 
democrática  (CALDEIRA,  2003),  a  metrópole  caracteriza-se  ainda  por  ser  o  lugar 
onde  se abrem  as perspectivas  do encontro,  da  coabitação  pacífica  e  heterogênea 
das diferenças. Tal é o desejo de alguns agregados identitários em especial alguns 
grupos  de  motociclistas,  ao  constituírem  seus  “espaços  de  referência  identitária” 
(HAESBAERT,  1999),  e  suas  “(micro)territorialidades”  (COSTA,  2005).  No  entanto, 
ainda  existem  grupos  que  preferem  se  isolar  e  negar  a  convivência  com  outros 
grupos  distintos,  tal  como  apresento  no  capítulo  seguinte  com  as  discussões  do 
trabalho de campo. 


56 
 
4.  Identidades  Territoriais.  Como  atuam  os  grupos  de 
motociclistas em Salvador? 
 
 
Nesse capítulo buscarei apresentar as discussões decorrentes do trabalho de 
campo  que  compôs essa  pesquisa de mestrado. Todas as  entrevistas  e  conversas 
presenciais  foram  combinadas  e  agendadas  previamente  através  de  contatos 
telefônicos que surgiram a partir de terceiros, conhecidos em comum. Além destas, 
pude  realizar  também  uma  entrevista  através  do  uso  de  ferramentas  da  internet. 
Durante  as  entrevistas  eu  buscava  me  apresentar  o  mais  tranquilo  e  “curioso” 
possível, deixando o entrevistado à vontade, para me apresentar o seu universo e se 
me prender severamente ao roteiro pré-estabelecido. Com exceção do primeiro com 
quem  tive  contato,  todas  as  outras  entrevistas  se  deram  de  maneira  “tranquila”  e 
amistosa,  e  os  motivos  pelos  quais  o  primeiro  grupo  se  diferiu  dos  demais, 
explanarei  na  sequência  deste  capítulo.  É  importante  ressaltar  que  as  opiniões 
expressas  nos  depoimentos  aqui  relatados  referem-se  única  e  exclusivamente  às 
opiniões  dos  entrevistados,  não  havendo,  da  minha  parte,  apologia  a  um  ou  outro 
determinado grupo identitário. 
Como  apontado  anteriormente,  o  objeto  central  da  pesquisa  são  os 
agregados  identitários  dos  motociclistas  organizados  nos  M.C.s  na  cidade  de 
Salvador. No decorrer do texto pretendo apresentar o que pude perceber através do 
contato  com  diferentes  M.C.s  da  cidade,  e  discutir  os  fenômenos  apreendidos  na 
prática  e  relacioná-los  com  as  temáticas  teóricas  discutidas  até  aqui,  no  que  diz 
respeito  aos  conceitos  e  ideias  chaves  do  trabalho,  como  a  identidade  territorial  – 
discutida no Capítulo 2 – e a “nova urbanidade” – discutida no capítulo 3.  
Os  diferentes  grupos  de  motociclistas  abordados  por  essa  pesquisa 
constituem  diferentes  identidades  territoriais  e  que  em  suas  práticas  espaciais 
apresentam  diferentes  formas de  se  relacionar  com  o  espaço  urbano da  cidade de 
Salvador.  Esses  grupos  demonstram,  em  suas  variadas  estratégias,  como  as 
relações  dialéticas  com  a  “nova  urbanidade”  acontecem  na  prática,  ora  tendendo 
mais  a  um  resgate  da  sociabilidade,  resultando  em  um  convívio  com  múltiplas 
identidades nos  espaços  da  cidade  (multiterritorialidade),  ora  caracterizando-se  por 
serem um tanto quanto mais exclusivistas com seus territórios, havendo uma recusa 


57 
 
à  sociabilidade  e  à  troca,  com  o  ideal  de  se  “preservar”  a  identidade  (reclusão 
territorial). 
 
 
4.1  O  agregado  identitário  dos  motociclistas  em  Salvador.  Anseios, 
perspectivas,  estratégias  de  ocupação  do  espaço  e  o  relacionamento  com  a 
cidade. 
 
Para  a  realização  dos  trabalhos  de  campo,  a  aproximação  com  o  objeto  de 
estudo  se  deu  através  de  três  diferentes  vertentes:  1)  Um  Moto  Clube  que 
representa, em Salvador, uma “filial” de um dos mais antigos e reconhecidos M.C.s 
do mundo. A origem desse M.C. remonta aos Estados Unidos da década de 1940. 
Por  razões  que  explicaremos  a  seguir,  esse  M.C.  será  referido  aqui  com  o 
pseudônimo  de  “Vermelho”;  2)  O  grupo  “HOG”  (Harley  Owners  Group
10
),  existente 
em diversas partes do mundo e que se caracteriza por ser um grupo de motociclistas 
que difere dos M.C.s convencionais, por ser organizado pela marca Harley Davidson 
afim  de  que  os  consumidores  e  proprietários  de  motocicletas  da  marca  possam 
trocar  experiências;  3)  Moto  Clubes  devidamente  cadastrados  junto  à  Associação 
dos Motociclistas do Estado da Bahia (AMO-BA
11
). 
Essa estruturação do trabalho de campo não se deu previamente, mas surgiu 
à medida que os contatos eram feitos, as dificuldades foram surgindo e o objeto de 
pesquisa era desvendado em suas múltiplas facetas. Portanto, feitas as ressalvas de 
que  não  se  tratou  de  algo  intencional,  tal  fato  pode  ser  caracterizado  como  uma 
aproximação  de  cunho  fenomenológico  do  objeto,  visto  que  em  virtude  da 
dificuldade  para  a  realização  dos  contatos  e  entrevistas  com  os  grupos  de 
motociclistas,  resolvi  proceder,  com  aqueles  que  obtive  contato,  uma  aproximação 
fenomenológica.  Dessa  maneira,  pude  investigar  o  fenômeno  a  partir  das 
experiências vividas pelos sujeitos da pesquisa e com isso obtive as descrições mais 
aprofundadas  desses  sujeitos  a  respeito  da  sua  experiência,  o  que  significa  dizer 
que com o trabalho de campo, passei a ter em mãos, embora o reduzido número de 
entrevistados, relatos significativos e passíveis de serem compreendidos e revelados 
em sua essência. 
                                                 
10
 Grupo dos Proprietários de motos Harley Davidson. 
11
 Associação dos motociclistas do Estado da Bahia. 


58 
 
A  noção  fenomênica  merleaupontiana 
(segundo  o  filósofo  Merlau-Ponty),
 
seguindo  os  passos  da  husserliana
 
(segundo  o  filósofo  Edmund  Husserl) 
propõe  o 
retorno  às  coisas  mesmas,  buscando  nos  objetos  as  suas  essências,  qualidades. 
Essas coisas vistas como parte de um mundo vivido e experienciado, que constitui o 
“mundo  do  irrefletido”,  sobre  o  qual  se  constroem  as  ciências  (MERLAU-PONTY, 
1945).  Considero  que  estas  são  as  concepções  fundantes  da  fenomenologia 
merleaupontiana,  que  busca  uma  compreensão  do  homem  como  ser  em  situação, 
que  nunca  está  totalmente  livre,  no  entanto,  encontra-se  num  mundo  que  também 
nunca está totalmente acabado. 
 
 
 
4.1.1 Sobre o “Vermelho” M.C.. 
 
 
O “Vermelho” M.C. representa em Salvador uma das mais novas filiais de um 
dos  mais  reconhecidos  e  emblemáticos  Moto  Clubes  da  história.  Esse  M.C.,  de 
origem  estadunidense,  tem  a  marca  consolidada  nos  dias  atuais  e  possui  filiais 
espalhadas  por  mais  de  30  países,  totalizando  cerca  de  150  filiais  (Figura  1),  ou 
como  se  referem  alguns  jornalistas  e  escritores  sobre  o  assunto,  “facções”
12
.  A 
história  desse  M.C.  é  repleta  de  mistérios  e  controvérsias,  devido  ao  fato  de  que 
vários indivíduos reivindicam a sua fundação e diferentes versões sobre a formação 
do  grupo  são  fornecidas.  Há  um  consenso  no  que  tange  às  influências  de  origem, 
que  são  baseadas  em  grupamentos  aéreos  do  exército  norte-americano  que 
atuaram tanto na I Guerra Mundial, quanto na II Guerra. Conta-se que os primeiros 
membros  eram  ex-combatentes  que  ao  retornarem  da  guerra  encontraram  nas 
motocicletas um meio para buscar realizar o espírito de liberdade, transformando-se 
em  ícones  de  uma  era  de  camaradagem  e  lealdade.  Em  contrapartida,  alguns 
jornalistas  e  políticos  da  época  os  consideravam  como  um  verdadeiro  bando 
criminoso  e  violento  de  “motoqueiros  fora  da  lei”,  um  estorvo  na  sociedade. 
(THOMPSON, 2004). 
 
 
                                                 
12
 Nem mesmo o próprio site oficial do M.C. “Vermelho” informa com exatidão quantas filiais existem atualmente no mundo. O 
termo  utilizado  na  língua  inglesa  pelo  M.C.  para  se  referir  a  uma  filial  é  charter,  que  em  tradução  livre  significa  “alvará”,  ou 
“carta de direito”, o que remete a uma autorização concedida a uma filial em representar a matriz do M.C.. 


59 
 
Figura 1. Cartograma de localização dos países com filiais do “Vermelho” M.C.  
(Elaboração: Hiram Souza Fernandes, 2012). 
 
 
Símbolos  são  extremamente  característicos  do  M.C.  “Vermelho”.  A  maioria 
dos  significados  dessas  simbologias  só  é  compartilhada  aos  membros  efetivos  do 
grupo, o que já a primeira vista revela um caráter exclusivista e de reclusão. Esses 
símbolos se apresentam desde as vestimentas, com características específicas dos 
membros do grupo, fazendo lembrar verdadeiras insígnias militares. Embora não se 
tenha certeza sobre o significado específico de cada emblema utilizado no vestuário 
dos membros do M.C., é sabido que esses emblemas se referem, em sua maioria, 
às funções que o integrante deva cumprir, ou a sua posição atual na hierarquia do 
grupo. A maioria dos M.C.s do mundo inteiro tem peças como coletes ou jaquetas de 
couro  ou  jeans  como  item  obrigatório  no  vestuário  de  um  integrante,  onde  são 
fixados os emblemas de cada grupo. Em geral, quanto mais emblemas conterem na 
jaqueta,  maior  será  o  nível  do  integrante  na  escala  hierárquica  do  grupo.  Além 
desses  emblemas,  existe  uma  série  de  sinais  e  comportamentos  que  também 
determinam a posição hierárquica no grupo e o código de conduta a qual o membro 
deva seguir e respeitar. 
Signos  e  sinais  estão  por  toda  parte  no  cotidiano  urbano,  revelando  e 
condicionando  os  mais  diversos  comportamentos.  Lefebvre  (1978)  afirma  que  na 
vida  cotidiana  estamos  aptos  a  traduzir  (melhor  ou  pior)  a  linguagem  corrente  dos 
sistemas  complexos  de  signos  e  sinais.  “Se  não  soubermos  traduzi-los,  se 
ignorarmos algo, nos considerarão inusitados, ou forasteiros, ou fora do contexto da 


60 
 
História”
13
  (LEFEBVRE,  1978,  p.  89).  [nossa  tradução].  Para  o  filósofo  francês  os 
símbolos  são algo  mais  complexo  do  que  os  sistemas  de  sinais  e  signos,  pois  são 
ricos de um “sentido inesgotável”, além de serem expressivos e significativos.  
 
Na  cotidianidade  se  misturam  sistemas  de  signos  e  sinais  aos  quais  se 
juntam  símbolos  que  não  formam  sistemas.  Traduzem-se  todos  em  um 
sistema  parcial  e  privilegiado  a  um  tempo:  a  linguagem.  O  conhecimento 
crítico  da  vida  cotidiana  se  define  como  uma  parte  importante  de  uma 
ciência  que  chamamos  de  semântica  geral
14
  (LEFEBVRE,  1978,  p.  90) 
[nossa tradução]. 
 
Decidi começar com o relato da experiência que tive ao visitar a sede do M.C. 
“Vermelho”  em  Salvador,  por  ter  sido  a  primeira  atividade  que  exerci  na  ordem 
cronológica  dos  trabalhos  de  campo.  Além  disso,  credito  a  esse  grupo,  uma 
verdadeira referência em se tratando de Moto Clubes na contemporaneidade, o que 
de fato incentivou o meu interesse inicial por esse M.C.. O primeiro contato se deu 
através de um conhecido em comum com um membro do grupo, com o qual, após 
algumas tentativas, consegui marcar uma visita à sede do M.C., que se demonstrou 
muito profícua, tal como relato a seguir. 
A  sede  do  M.C.  “Vermelho”  fica  localizada  em  um  bairro  popular  e  de  alta 
densidade demográfica na cidade de Salvador. Em posse do endereço, me dirigi ao 
encontro que estava marcado para as 18:30h de uma sexta-feira do início do Verão 
de  2012.  Ao  chegar  ao  local  percebo  que  a  fachada  do  imóvel  destoa  das  demais 
residências da rua. Um alto muro vermelho e um grande portão de ferro na cor preta 
impedem  que  qualquer  pessoa  possa  ver,  a  partir  da  rua,  o  interior  do  imóvel. 
Quando “bati” ao portão percebi que duas câmeras de vigilância eram direcionadas 
a  quem  chega  e  quer  se  anunciar  como  visitante.  Aos  latidos  de  um  cachorro,  fui 
recebido  por  um  homem  de  cabelos  curtos  barba  por  fazer  e  um  sotaque  que 
demonstrava  claramente  se  tratar  de  um  estrangeiro.  Anunciei-me  e  informei  que 
gostaria de conversar com o Metallica
15
. O homem pediu para que eu aguardasse e 
retornou após um pouco mais de um minuto abrindo o portão para que eu pudesse 
entrar. Após a minha entrada, percebi que atrás dele estava um grande cachorro da 
raça  Pitbull.  Perguntei  sobre  os  riscos  que  corria  com  o  cão,  o  homem  me 
                                                 
13
 Si no sabemos traducirlos, si ignoramos algo, nos considerarán raros o forasteros, o fuera de la Historia. 
14
 En la cotidianidad se entremezclan sistemas de signos y señales, a los que se añaden símbolos que no forman sistemas. Se 
traducen  todos  en  un  sistema  parcial  y  privilegiado  a  un  tiempo:  el  lenguaje.  El  conocimiento  crítico  de  la  vida  cotidiana  se 
define como una parte importante de una ciencia que llamaremos semántica general.
  
15
 Utilizarei nomes de bandas conhecidas no cenário do Heavy Metal mundial como pseudônimos dos sujeitos envolvidos na 
pesquisa para que seja mantido o anonimato. 


61 
 
respondeu que eu não corria riscos, pois o cão era manso. De fato, o Pitbull chegava 
a ser “simpático” e manso, mas a sua presença, sempre curiosa perto de mim, ainda 
me passava certa insegurança, já que o animal dessa raça costuma ser agressivo. 
O  local  era  como  uma  grande  garagem  com  as  cores  vermelha  e  preta 
predominantes. No centro, um amplo espaço aberto, onde ao fundo do terreno duas 
grandes  motocicletas  Harley  Davidson  estavam  estacionadas.  Em  um  lado  havia 
uma  área  construída,  um  ou  dois  quartos  e  um  banheiro,  provavelmente.  Ao  lado 
dessa área construída do imóvel havia um espaço que parecia ser “multifuncional”, 
pois ao passo que poderia ser utilizada como oficina mecânica, também poderia ser 
utilizada como a área do palco dos shows que acontecem na sede. Do outro lado da 
área aberta existia o que parecia ser a “área de lazer”. Sem paredes ou divisórias, 
mas  com  a  cobertura  de  um  telhado,  nessa  área  estava  uma  mesa  de  sinuca, 
algumas mesas e cadeiras, bem como uma pia, um freezer e uma churrasqueira.  
Nessa área é que estava sentado o Metallica, conversando com uma garota. 
Cumprimentei-o,  cumprimentei  a  garota  e  fui  convidado  a  me  sentar  com  eles  na 
mesa onde fumavam um “narguilé”. Metallica e a garota continuaram a conversa que 
estavam  tendo  antes  de  minha  chegada.  Enquanto  isso  o  Pitbull  rondava  ao  meu 
lado e o homem que me recepcionou no portão sentou-se à mesa e me ofereceu um 
trago  do  narguilé.  Recusei,  agradeci  e  permaneci  calado.  Após  alguns  minutos, 
Metallica  encerrou  o  assunto  com  a  garota  e  mais  uma  vez  me  cumprimentou. 
Acendeu  um  cigarro  e  dessa  vez  me  apresentou  ao  AC/DC,  o  sul-americano  que 
havia me recepcionado na chegada. AC/DC ainda tragava o narguilé e mostrava-se 
muito  curioso  para  saber  o  motivo  da  minha  presença  no  local.  Percebi  que  na 
cadeira  onde  ele  se  sentava  havia  um  colete  de  couro  pendurado  no  encosto.  O 
colete apresentava-se  com um aspecto  “surrado”  e  continha os  emblemas do  M.C. 
costurados nas costas e outros símbolos costurados na frente. 
Após uma tragada no cigarro, Metallica finalmente tocou no assunto que me 
levava  até  ali.  Perguntou  o  que  era  exatamente  que  eu  queria  saber  sobre  o  Moto 
Clube.  Queria  saber  que  tipo  de  trabalho  eu  pretendia  realizar  ali.  Eu  estava  um 
tanto quanto nervoso. O Pitbull estava sempre perto de mim, e o ambiente tinha uma 
aura de intimidação. Tentei explicar de uma maneira bem clara e objetiva (não sei se 
obtive sucesso), que se tratava de uma pesquisa de mestrado que buscava entender 
como os grupos de motociclistas, enquanto agregado identitário, se relacionavam na 
cidade  e  manifestavam  a  sua  identidade.  Minha  explicação  não  gerou  qualquer 


62 
 
entusiasmo  ou  surpresa  tanto  para  o  Metallica,  quanto  para  o  AC/DC.  Continuei 
dizendo  que  tinha  um  questionário  para  realizar  com  pelo  menos um  integrante  do 
M.C., então Metallica me pediu para ver as perguntas. Peguei a folha de perguntas 
que  estava  dentro  da  minha  mochila  e  entreguei  a  ele.  Enquanto  ele  lia  as 
perguntas, sem esboçar qualquer tipo de reação, AC/DC se acomodou na cadeira e 
vestiu o colete
16
 que estava pendurado no encosto, a garota permanecia calada com 
o  olhar  vago,  e  o  Pitbull,  agora  um  pouco  menos  agitado  e  curioso  permanecia  ao 
meu lado.  
Acredito  que  o  Metallica  interrompeu  a  leitura  do  questionário  antes  mesmo 
de concluir todas as questões. Ele me perguntou, de uma maneira um tanto quanto 
intimidadora,  de  que  forma  esse  trabalho  seria  publicado  e  enquanto  eu  ainda 
respondia  que  seria  através  da  dissertação  de  mestrado,  ele  me  interrompeu 
dizendo que “eles não poderiam responder a praticamente nenhuma das questões”. 
Em seguida ele explicou o motivo; “pois se tratavam de coisas internas ao grupo” e 
por  isso  eles  não  poderiam  responder,  salvo  sob  a  condição  de  que  eu  assinasse 
um  “termo  de  compromisso”,  documento  esse,  segundo  ele,  produzido  de  maneira 
padronizada, pela própria matriz do M.C. para ser entregue a todos os jornalistas ou 
pesquisadores  que  queiram  fazer  entrevistas  sobre  o  grupo.  Enquanto  ele  dizia 
essas  coisas,  AC/DC  solicitou  o  questionário  e  enquanto  ele  lia  as  perguntas, 
Metallica,  repetia  os  motivos  pelos  quais  ele  não  poderia  me  ajudar,  como  quem 
quer demonstrar que não é por falta de vontade que ele não poderia me responder 
quase  nada.  Quando  o  AC/DC  terminou  de  ler  o  questionário,  tratou  de  confirmar 
tudo o que o “irmão”
17
 havia dito, e a partir desse momento ele passou a se dirigir a 
mim  mais  diretamente,  e  entre  um  trago  e  outro  no  narguilé,  disse  que  iria  me 
explicar  “basicamente”  o funcionamento  do M.C..  Metallica  concordou e  pediu  para 
se  retirar  para  acompanhar  a  garota  à  sua  residência.  A  partir  desse  momento, 
então, passei a estar sozinho na sede do M.C. com o AC/DC e o cachorro Pitbull. 
AC/DC  é  um  integrante  experiente  e  veterano  de  uma  filial  do  “Vermelho” 
M.C.  de  um  país  sul-americano.  Estava  viajando  pelo  Brasil,  e  me  explicou  que 
existe  uma  rede  que  articula  todas  as  sedes  do  “Vermelho”  M.C.  no  mundo.  Essa 
organização em rede possibilita que haja o intercâmbio entre membros de diferentes 
facções  do  M.C..  Como  característica  desse  intercâmbio,  é  imprescindível  que 
                                                 
16
 Importância da vestimenta na hora de responder e se dirigir ao outro. 
17
 Como pude perceber através das minhas pesquisas sobre os Moto Clubes, a relação entre os membros é dita como sendo 
uma relação de irmandade, na qual os membros de um mesmo grupo se tratam enquanto “irmãos”. 


63 
 
qualquer sede esteja apta a receber e dar abrigo a qualquer membro de outra sede 
que  esteja  de  passagem.  Seja  essa  viagem  realizada  de  motocicleta,  ou  não.  
AC/DC  estava  há dois  meses em  Salvador e  me disse  que  pretendia estender  sua 
estadia  por  ainda  um  mês.  Essa  organização  em  redes  nos  faz  lembrar  a 
“verticalidade”,  discutida  como  ideia  central  para  a  compreensão  do  conceito  de 
redes  em  Santos  (2006).  Segundo  o  autor,  a  verticalidade  é  caracterizada  pela 
combinação dos diferentes “nós”, que não se apresentam contiguamente no espaço, 
mas que se unem “externamente” através da existência do veículo integrador que é 
a  circulação.  Essa  circulação  pode  ser  de  pessoas,  bens,  mas,  sobretudo,  de 
informação.  A  forma  material  da  verticalidade  é  a  trama  da  rede  que  une  os  nós. 
Essa trama pode ser representada pelas redes de transporte, de comunicações etc.. 
(SANTOS, 2006). 
Em  seguida,  AC/DC  reiterou  que  toda  as  sedes  são  subordinadas  à  matriz 
norte-americana, e que por isso eles não poderiam responder a quaisquer questão 
que dissesse respeito ao conteúdo organizacional do M.C. sem autorização prévia. 
(Devido a esse impasse é que estou usando pseudônimos para me referir ao grupo 
e aos membros do grupo, como explicitei anteriormente). Ainda assim o motociclista 
pareceu disposto a dialogar um pouco, de certa forma, para esclarecer melhor essas 
regras e procedimentos. 
Segundo  ele,  o  “Vermelho”  é  o  único  Moto  Clube  “de  verdade”  existente  na 
cidade  da  Salvador.  Em  suas  palavras,  para  ser  considerado  Moto  Clube,  o  grupo 
precisa, antes de qualquer coisa, possuir uma sede, um espaço físico privado. Além 
disso, o M.C. precisa estabelecer regras para o ingresso de novos membros. Percebi 
que  existe  nesse  discurso  um  cunho  exclusivista  que  se  sustenta  através  do 
argumento  da  “autenticidade”,  o  que  por  consequência  gera  a  exclusão  do  “outro”, 
nesse  caso  os  demais  M.C.s,  não  considerados  por  AC/DC  como  um  M.C. 
“verdadeiro”.  
No “Vermelho” M.C. é preciso ser do sexo masculino e possuir a motocicleta 
de modelos específicos, com potência mínima do motor exigida. A informação exata 
sobre  a  potência  que  se  requere  das  motos  não  foi  obtida,  no  entanto,  com 
informações adquiridas por conhecedores e apreciadores do motociclismo e que são 
exteriores  ao  “Vermelho”  M.C.,  pude  descobrir  que  nesse  M.C.  só  são  aceitas  as 
motocicletas  americanas  Harley  Davidson,  informação  essa  que,  infelizmente,  não 
pude comprovar. No entanto, pude, dessa forma, estipular que as motocicletas dos 


64 
 
membros  do  “Vermelho”  M.C.  têm  potência  mínima  de  883  cilindradas,  (menor 
potência  de  uma  moto  da  marca  Harley  Davidson  disponível  no  mercado)  o  que  é 
considerada  alta,  superior,  inclusive,  a  algumas  motos  esportivas  de  marcas 
japonesas tais como Suzuki, Honda e Kawasaki. É interessante mencionar, também, 
os  preços  das  motocicletas  Harley  Davidson  vendidas  no  Brasil,  a  fim  de  que  se 
possa ter uma ideia sobre o perfil socioeconômico dos seus proprietários. Segundo a 
tabela  disponível  no  site  oficial  da  marca
18
,  o  modelo  mais  barato  é  o  Sportster® 
883Roadster,  com  preço  para  o  estado  de  São  Paulo  de  R$  27.700,00,  e  o  mais 
caro,  é  o  CVO™  Ultra  Classic®  Electra  Glide®,  com  preço  para  São  Paulo  de  R$ 
104.900.00. 
O  candidato  a  integrante  do  “Vermelho”  M.C.  passa  por  uma  espécie  de 
triagem,  que  pode  durar  até  dois  anos.  Período  em  que  ele  é  referido  como  um 
“Prospecto”.  Durante  esse  período  o  “Vermelho”  M.C.  analisará  e  conhecerá  o 
Prospecto e julgará se ele é realmente apto a seguir o código de ética e conduta do 
grupo,  e  por  isso,  ser  merecedor  dos  símbolos  emblemáticos  que  os  membros  do 
grupo ostentam em suas jaquetas e coletes. Esse mesmo período de testes e a fase 
de  “Prospecto”  acontecem  com  a  filial  que  deseja  receber  o  título  de  uma  facção 
oficial do “Vermelho” M.C.. 
Feito  esse  comparativo  sobre  o  “Vermelho”  M.C.  e  os  demais  M.C.s  que 
existem em Salvador, AC/DC, foi taxativo ao afirmar que eu não poderia abordar em 
uma  mesma  pesquisa,  por  se  tratarem  de  coisas  diferentes,  os  grupos  que  se 
rotulam  como  ‘Moto  Clubes’,  mas  que  não  possuem  sedes,  tampouco  regras 
estabelecidas para o ingresso de novos membros, e o “Vermelho” M.C., “filial de um 
‘autêntico’ e sexagenário M.C. espalhado pelo mundo todo”.  
AC/DC  foi  desenvolvendo  o  seu  relato,  me  explicando  essas  facetas  que 
julgava  não  serem  estritamente  confidenciais  e  eu  fui  ficando  mais  a  vontade, 
inclusive  para  fazer  perguntas  informais,  fora  do  roteiro  específico,  mas  que  me 
pudessem  trazer  à  luz  algumas  questões  que  pretendia  esclarecer  nesse  trabalho. 
Arrisquei  a  perguntar  como  se  dava  a  relação  com  outros  grupos  de  motociclistas. 
Ele  me  respondeu  que  a  convivência,  quando  existe,  se  dá  de  maneira  tranquila  e 
formal.  Segundo  AC/DC  eles  não  possuem  rivais  com  os  quais  tenham  disputas 
territoriais, mas também preferem não estimular o convívio, pois segundo os códigos 
de  conduta  do  grupo,  se  um  membro  do  “Vermelho”  M.C.  ver  outro  membro  do 
                                                 
18
 http://www.harley-davidson.com 


65 
 
grupo  em  uma  briga  com  um  não-membro  do  grupo,  ele  é  obrigado  a  interceder  a 
favor do ‘irmão’, não importando as circunstâncias em que o atrito se resolva. Essa 
característica  corrobora  aquela  ideia  de  Gomes  (2006)  da  progressão  das 
identidades  territoriais  como  uma  das  causadoras  do  recuo  do  espaço  público  na 
cidade, resultando numa redução dos encontros de sociabilidade. No entanto, como 
já  argumentei  anteriormente,  essa  ideia  precisa  ser  creditada  com  ressalvas,  pois 
nem  todo agregado  identitário  possui  características  exclusivistas  em  suas práticas 
territoriais. 
Num dado momento da conversa, ecoa um ensurdecedor barulho do motor de 
uma Harley Davidson no portão, chamando a atenção do Pitbull, que a essa hora já 
não  se  importava  tanto  com  a  minha  presença  no  recinto.  Sem  que  a  nossa 
conversa  precisasse  ser  interrompida,  outro  membro  do  grupo  adentra  e  estaciona 
sua  moto.  Ele  se  dirige  até  a  mesa,  nos  cumprimenta  e  se  retira.  Percebo  que  o 
colete deste membro possui apenas um dos símbolos (o menor deles) que identifica 
o  “Vermelho”  M.C..  Depois  de  alguns  minutos  ele  retorna  com  uma  vassoura  em 
mãos e eu pude perceber ali como funciona a questão hierárquica dentro do grupo, 
pois  o  novo  integrante  pôs-se  a  varrer  o  recinto  sob  o  olhar  supervisor  de  AC/DC, 
que  se  referiu  ao  novato  como  “Prospecto”.  As  normas  rígidas,  como  as  de 
hierarquia, típicas da sociedade capitalista estruturada de consumo dirigido também 
estão  presentes,  de  maneira  marcante  dentro  de  um  grupo  que  em  suas  origens 
utiliza-se dos discursos e ideais da “contracultura”. 
Relativizo  com  as  aspas  o termo  “contracultura”,  pois apesar  deste  aparecer 
em  larga  escala  na  bibliografia  específica  sobre  a  origem  do  M.C.s,  ele  está  muito 
mais ligado ao fato de que esses são grupos que apenas manifestaram-se contra a 
cultura  estabelecida  naquele  contexto  do  pós  II  Guerra  Mundial,  em  meados  da 
década de 1940. Não encontramos nesses grupos de motociclistas, surgidos àquela 
época,  os  verdadeiros  preceitos  da  contracultura,  de  questionamento  da  ordem 
social,  de  constituir-se  como  um  movimento  anticapitalista,  buscando  uma 
reestruturação dos ideais de vida em relação à família, à natureza, à sexualidade e 
às  questões  de  gênero.  Segundo  Santos  (2005),  a  contracultura  surge  no  seio  da 
sociedade norte-americana, na qual: 
 
[...]  é  justamente  aí  que  a  tecnocrata-sociedade,  gerenciada  por 
especialistas  técnicos  e  seus  modelos  científicos  –  atingiu  o  auge  de  seu 
desenvolvimento,  obrigando  o  jovem  a  adaptar-se  rapidamente  a  uma 


66 
 
realidade  mecânica,  árida  e  desprovida  de  qualquer  impulso  criativo.  Com 
isso, a contracultura se tornou a forma de expressão mais importante dessa 
parcela  de  jovens  que  procuravam  “cair  fora”  –  drop  out  –  dos  padrões 
estabelecidos por essa sociedade, para construir um mundo alternativo com 
uma “cultura” própria (SANTOS, 2005, p.63-64). 
 
Se  à  época  de  suas  origens,  o  Moto  Clubes  não  possuíam  realmente  os 
ideais de contestação social condizentes com o movimento da contracultura, tal fato 
é  ainda  mais  marcante  nos  dias  de  hoje,  como  pôde  ser  observado  na  fala  de 
AC/DC,  que  afirma  que  o  “Vermelho”  M.C.  não  possui  qualquer  orientação 
ideológica, e que cada membro é livre para ter a sua ideologia específica. Segundo 
ele,  isso  já  fez,  inclusive,  o  grupo  ser  reconhecido  por  ter  orientações  neonazistas 
devido  aos  eventos  relacionados  ao  neonazismo  terem  sido  ligados  a  alguns 
membros de facções europeias do grupo. AC/DC transpareceu não considerar esse 
“reconhecimento” como um problema ou mesmo algo que devesse se preocupar. 
Já  ao  final  da  entrevista,  quis  saber,  especificamente,  sobre  as  questões 
referentes à identidade e ao território. AC/DC acredita que ser um motociclista de um 
M.C.  não  é  uma  identidade.  O  fato  de  pertencer  ao  “Vermelho”  M.C.  não  confere 
uma identidade, pois o grupo não possui uma ideologia específica, podendo ser um 
membro,  pessoas  de  quaisquer  orientações  ideológicas  ou  identitárias.  Essa 
característica  em  relação  à  questão  identitária,  corrobora  as  ideias  de  Hall  (2007), 
que afirma que na pós-modernidade o indivíduo apresenta-se fragmentado, detentor 
de diversas identidades, muitas delas contraditórias, caracterizando-se por estar em 
constante “processo de identificação”. 
No  que  diz  respeito  ao  território,  AC/DC  afirma  que  o  território  de  cada 
membro  do  “Vermelho”  M.C.  é  o  território  nacional,  pois  através  de  suas 
motocicletas eles possuem a liberdade para circularem e ocuparem todos os lugares 
da  nação,  tal  qual  forem  desejados.  AC/DC  reiterou  que  esse  é  um  preceito  que 
rege o estatuto de todas as facções do grupo, já que um dos símbolos obrigatórios 
na indumentárias dos membros de cada facção é o nome do país de origem dessa 
facção disposto logo abaixo do símbolo e do nome do M.C., o que, de fato, exclui a 
possibilidade de se tratar de um discurso isolado. Essa noção do território nacional 
surpreende,  tendo  em  vista  que  a  dimensão  do  “nacional”  vem  perdendo 
gradativamente seu status, convulsionada pelas dimensões do local e do global. 
A  conversa  aproximava-se  de  um  fim  quando  Metallica  retornou  com  a  sua 
motocicleta,  sentou-se  novamente  à  mesa,  mas  sem  muito  interesse  na  conversa, 


67 
 
permaneceu  sem  se  manifestar  muito,  apenas  fumando  o  seu  cigarro.  AC/DC 
percebeu que já havia falado muita coisa para mim, quanto eu o perguntei quantos 
membros  a  sede  de  Salvador  do  “Vermelho”  M.C.  possuía  no  momento.  O 
motociclista  me  respondeu  com  um  irônico  sorriso  nos  lábios  que  era  “o  suficiente 
para poder abrir uma facção do grupo na cidade”. Após esse episódio, iniciei a me 
despedir,  ou  pelo  menos  a  demonstrar  que  estava  satisfeito  com  o  que  pude 
conversar  naqueles  40  minutos  dentro  da  sede  do  M.C..  AC/DC  e  Metallica  me 
convidaram  à  comparecer,  no  dia  seguinte,  à  um  show  com  bandas  de  Rock  que 
aconteceria no espaço da sede do “Vermelho” M.C.. Agradeci o convite e também a 
atenção  e  a  conversa  informal  que  tivemos,  e  deixei  claro  que  entendia  a  situação 
deles não poderem me responder o questionário formulado especificamente para a 
entrevista.  À  saída  do  portão,  AC/DC,  com  uma  sagacidade  e  ironia  incríveis 
reforçou  para  que  eu  comparecesse  no  show  do  dia  seguinte,  mas  sem  trazer 
máquinas fotográficas ou gravadores de som, equipamentos esses que eu portava, 
mas  que  em  momento  algum  foram  mencionados  e  sequer  saíram  de  dentro  da 
minha mochila, a qual permaneceu o tempo todo no meu colo. 
 
 
4.1.2 Sobre o H.O.G. (Harley Owners Group) 
 
 
Através  de  conversas  informais  com  amigos  durante  a  realização  da  minha 
pesquisa,  fiquei  sabendo  da  existência  de  um  grupo  de  motociclistas  que  se 
congregam  através  dos  mesmos  ideais  e propósitos,  tais  como  os  M.C.s,  mas  que 
se  diferem  destes  por  diversos  aspectos,  os  quais,  irei  expor  a  seguir:  Trata-se  do 
grupo HOG (sigla para Harley Owners Group)
19
, um grupo criado e organizado pela 
própria  marca  de  motocicletas,  Harley  Davidson,  como  uma  estratégia  para  unir  e 
aproximar  os  seus  consumidores.  Esse  grupo  possui  uma  organização  através  de 
uma rede global, onde cada nó dessa rede é representado por cada concessionária 
revendedora das motocicletas da marca.  
Segundo  o  site  oficial  do  HOG  (http://www.hog.com.br)  existem  atualmente 
mais de 1400 concessionárias Harley Davidson espalhadas pelo mundo. No Brasil, 
são  12  no  total.  Interessante  mencionar  que  através  da  análise  da  distribuição 
                                                 
19
 Grupo de proprietários de motos Harley Davidson. 


68 
 
espacial  das  concessionárias  da marca  no  país,  constatamos facilmente  que  todas 
elas se localizam na chamada “região concentrada” (SANTOS; SILVEIRA, 2001), o 
que  exclui  a  cidade  de  Salvador.  A  região  concentrada  em  Santos;  Silveira  (2001) 
compreende  aquela  região  onde  há  intensa  densidade  das  técnicas,  bem  como 
maior  intensidade  e  movimentação  de  capitais  decorrente  de  uma  maior  presença 
das redes materiais e imateriais devido ao fato da difusão de inovações ter sido mais 
veloz e complexa nessa área. Segundo os autores, nessas áreas as cidades tornam-
se  especializadas,  pois  são  áreas  privilegiadas  pela  concentração  e  um  maior 
adensamento, na qual o trabalho tende a se tornar também mais especializado e os 
intercâmbios  tornam-se  necessidades  crescentes.  (SANTOS;  SILVEIRA,  2011,  p. 
141). 
Para  fins  didáticos,  estipula-se  que  a  região  concentrada  compreende  os 
estados  das  regiões  Sul  e  Sudeste,  acrescidos  de  algumas  porções  da  região 
Centro-Oeste,  o  que  coincide,  justamente,  com  a  localização  das  revendedoras  de 
motos Harley Davidson no Brasil. São três concessionárias na cidade de São Paulo, 
uma  em  Campinas,  uma  no  Rio  de  Janeiro,  uma  em  Belo  Horizonte,  uma  em 
Goiânia, uma em Brasília, uma em Campo Grande, e mais uma em cada uma das 
capitais dos estados da região Sul – Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre. Apenas 
como  um  apontamento,  já  que  este  não  é  o  foco  central  do  trabalho,  podemos 
concluir  que  essa  distribuição  pode  ser  interpretada  como  um  retrato  da  realidade 
socioeconômica brasileira, onde há uma maior concentração da renda, das técnicas 
e dos serviços na “região concentrada” do país. 
Através de amizades em comum, cheguei a entrar em contato com o Anthrax, 
um  professor  universitário  baiano,  que,  no  entanto,  reside  na  capital  paulista  há 
cerca  de  três  anos.  Anthrax  tem  37  anos  de  idade,  amante  e  proprietário  de  uma 
motocicleta da marca Harley Davidson, integrante, portanto, do HOG, gentilmente se 
dispôs  a  conversar  sobre  esse  grupo  através  da  internet.  O  motociclista  iniciou  a 
conversa  dizendo  que  além  de  ter  recebido uma  boa proposta  de trabalho  em  São 
Paulo, um dos outros motivos que o levaram a fazer a mudança foi o fato de que em 
São Paulo ele poderia exercer com mais entusiasmo e proximidade o seu hobby por 
motocicletas, mais especificamente por motos Harley Davidson.  
 
“As Harley são diferentes das outras motos. A Harley é um dos poucos exemplos no 
mundo que a marca vale mais do que a própria empresa. Quem compra uma Harley 


69 
 
não  compra  só  uma  moto,  compra  também  um  estilo  de  vida,  um  símbolo.  Uma 
identidade,  sabe?”  (Anthrax,  entrevista  realizada  pelo  “chat”  da  rede  social  virtual 
“Facebook”, no dia 20/03/2012). 
 
Entusiasmado,  prosseguiu  dizendo  que  em  São  Paulo  existem  mais 
possibilidades de encontros com outros amantes da Harley Davidson, já que existem 
três  concessionários  da  marca  na  cidade.  Enfatizou  ao  dizer  que  quem  gosta  das 
“Harleys”,  compartilha  essa  predileção  com  outras  pessoas  através  de  reuniões, 
passeios,  viagens,  shows  etc.  O  próprio  site  oficial  do  HOG
20
  informa  que  os 
objetivos  do  grupo  são  o  de  “se  encontrar  com  amigos,  se  divertir,  apoiar  causas 
justas e pilotar”. Anthrax adquiriu sua “Harley” em uma das concessionárias de São 
Paulo,  portanto,  é  ao  HOG  dessa  concessionária  que  ele  está  ligado.  Indaguei  se 
não  era  possível  o  intercâmbio  com  membros  de  outros  HOGs  e  ele  prontamente 
disse  que  a  troca  de  experiências  com  outras  filiais  do  HOG  eram  mais  do  que 
incentivadas,  afirmando  inclusive  que  ele  preferia  ir  aos  passeios  e  eventos 
organizados pelo HOG de Campinas-SP: 
 
“Quando  você  compra  uma  Harley  na  concessionária,  você  já  pode  estar  fazendo 
parte do grupo. Isso é um tipo de pós venda. Quando você se filia ao HOG você está 
se  inscrevendo  em  um  grupo  mundial.  Você  recebe  um  número  que  está  no 
cadastro da empresa como se fosse um clube de vantagens e que tem uma página 
na  internet  que  funciona  como  uma  rede  social,  e  cada  membro  possui  um  login  e 
uma senha. HOG não é um moto clube, hein, cara?!” (Anthrax, entrevista realizada 
pelo “chat” da rede social virtual “Facebook”, no dia 20/03/2012). 
 
Questionei  se  não  havia  algum  custo  para  se  tornar  membro  do  grupo,  e 
Anthrax  informou  que  existe  uma  tarifa  anual  para  cada  membro.  Ao  verificar  no 
website  oficial  do  HOG  consegui  descobrir  que  a  taxa  anual  é  de  US$45  dólares 
americanos. Existe a possibilidade de se pagar dois ou três anos com adiantamento 
havendo  um  desconto  que  resulta  nos  valores  de  $85  e  $120  dólares  americanos, 
respectivamente. Dentre as vantagens de se associar ao grupo, Anthrax mencionou 
os  descontos  que  são  dados  para  os  associados  HOG  com  os  produtos  da  marca 
em  suas  lojas  oficiais,  que  vendem  desde  jaquetas,  botas,  luvas,  calças  jeans, 
                                                 
20
 http://www.hog.com 


70 
 
óculos  de  sol  e  souvenires  diversos,  até  mesmo  peças  para  a  customização  das 
motocicletas.  O  motociclista  mencionou  também  as  facilidades  para  a  participação 
nos eventos, festas e excursões organizados pela marca, pelo HOG ou por algum de 
seus  parceiros.  Verificando  o  site  do  grupo  identifiquei  outros  benefícios  para  os 
membros, a saber: uma cobertura de uma assistência técnica especializada para o 
caso de acidente ou dano na motocicleta durante uma excursão, um livro com mapa 
e guia anual rodoviário dos Estados Unidos, Canadá e América do Sul destinado às 
excursões  de  motocicleta  bem  como  a  entrega  de  cada  uma  das  cinco  edições 
publicadas anualmente da revista do HOG. 
Anthrax mencionou que não tem e nunca teve interesse em participar de um 
M.C.,  mesmo  sendo  um  amante  de  motocicletas  há  tanto  tempo.  Para  ele,  Moto 
Clubes possuem “um clima muito pesado, muita bebedeira, e às vezes coisas piores 
como  crimes  e  drogas”.    Com  isso,  percebi  que  para  cada  tipo  diferente  de 
agrupamentos de motociclistas, existe um discurso exclusivista de negação do outro, 
tal como também foi relatado com o “Vermelho” M.C.. 
Pude  perceber  que  o  HOG  está  muito  atrelado  às  condições  de  uma  classe 
mais  abastada  da  sociedade.  Anthrax  informou  que  possui  renda  superior  a  10 
salários mínimos
21
, e contou que seus colegas de grupo mantêm o mesmo padrão. 
Segundo ele, a idade média dos companheiros de HOG é de 30 a 60 anos, e uma 
das  características  primordiais  desse  grupo  é  fazer  uma  verdadeira  referência  à 
marca  Harley  Davidson,  utilizando  de  seus serviços  oficiais,  bem como  o  consumo 
apenas  de  seus  produtos  originais  de  vestuário  ou  para  customização  da 
motocicleta.  
O site oficial do HOG dispõe de uma loja virtual onde esses produtos podem 
ser  adquiridos.  Segundo  Anthrax, as  jaquetas,  botas  e  calças  jeans  são os  objetos 
mais cobiçados e em breve pesquisa, constatei que a jaqueta de couro mais barata 
da marca custa US$ 495, sem contar o custo do frete.  
Anthrax  esclareceu  ainda  que  a  maioria  dos  eventos  é  local,  restritos  às 
concessionárias  específicas  de  cada  HOG,  como  o  passeio  à  cidade  de  Curitiba 
realizado pelo HOG de Campinas-SP no mês de Junho/2012 (Figura 2 e Figura 3). 
No entanto, existem ainda eventos nacionais ou internacionais, mas que segundo o 
motociclista demandam um alto investimento financeiro para a participação.  
                                                 
21
 Acredito que
 Anthrax tenha minimizado a sua renda nessa resposta.
 


71 
 
Em nível nacional, existe, anualmente, o “Rio Harley Days”, que acontece na 
cidade do Rio de Janeiro. Esse evento é organizado pela Harley Davidson do Brasil 
com  coparticipação  de  todos  os  HOGs  brasileiros.  Acontecem  exposições 
envolvendo  o  mundo  das  motocicletas  da  marca,  stands  de  venda,  exibições  e 
shows  de  Rock.  Anthrax  me  informou  que o  preço  dos  ingressos para  cada  dia de 
evento  deste  ano,  que  será  realizado  no mês  de  setembro,  (o evento  terá  duração 
de  três  dias)  começou  a  ser  vendido  por  R$160,00  (para  a  sexta  ou  domingo)  e 
R$240,00 (para o sábado), mas que a partir do mês de agosto o preço subirá para 
R$200,00 (sexta ou domingo) e R$280,00 (sábado). Integrantes dos HOGs possuem 
o  direito  a meia-entrada,  bem  como  privilégios  específicos  nos  dias  do evento,  tais 
como local privilegiado e seguro para o estacionamento das motocicletas, bem como 
a  preferência  para  a  entrada  no  local  do  evento,  caso  hajam  muitas  filas  e/ou 
congestionamentos. 
Figura 2: Integrantes do HOG de Campinas-SP em passeio à cidade de Curitiba-PR.  
Anthrax, 2012. 
 
Em  nível  internacional,  Anthrax  mencionou  o  evento  que  celebrará  o  110º 
aniversário da marca Harley Davidson, que será realizado na cidade de Milwaukee, 
Estados Unidos, (cidade de fundação da marca), em 2013. O motociclista afirma que 


72 
 
este será o maior evento relacionado ao motociclismo da história e que desde já o 
mercado de pacotes turísticos e hospedagens relacionados ao evento encontram-se 
aquecidos. Segundo Anthrax será possível, inclusive, alugar uma motocicleta Harley 
Davidson  para  os  dias  de  evento,  para  aqueles  que  não  puderem  se  deslocar  a 
Milwaukee com suas próprias motos. 
Apesar de ter me afastado um pouco do objeto central da pesquisa, que são 
os grupos de motociclistas e M.C.s atuantes na cidade de Salvador, poder conhecer 
um  pouco mais  sobre  o  HOG,  mesmo em  se  tratando  de  um  grupo  que  ainda  não 
existe na capital baiana, foi importante para a minha pesquisa para que eu pudesse 
entender  um  pouco  mais  sobre  o  universo  do  motociclismo,  bem  como  para 
compreender  a  importância  da  marca  Harley  Davidson,  que  exerce  tremendo 
fascínio, como um objeto de cobiça e desejo para muitos admiradores e amantes do 
motociclismo.  Anthrax  revela  que  a  marca  possui  um  plano  de  expansão  para  o 
Brasil  e  que  existem  previsões  para  a  abertura  de  novas  concessionárias  em 
algumas  capitais  da  região  nordeste,  como Salvador,  Recife e  Fortaleza,  já  que  se 
trata de um mercado em crescente expansão pelo Brasil.  
Figura 3: Integrantes do HOG de Campinas-SP em passeio à cidade de Curitiba-PR
22
.  
Anthrax, 2012. 
                                                 
22
  É  possiével  notar  a  presença feminina  entre  os integrantes  do  HOG,  que  por ser  um  grupo  organizado  pelo  fabricante  de 
motocicletas, não possui distinção de gênero, tal como foi constatado no “Vermelho” M.C.. 


73 
 
Tal informação pode ser comprovada através da entrevista realizada por Lima 
(2012),  com  o  diretor  superintendente  da  Harley  Davidson  para  o  Brasil,  Longino 
Morawsky.  Longino  afirma  que  a  marca  possuirá  cerca  de  40  concessionários  no 
Brasil,  e  que  a  próxima  meta  é  atuar  no  mercado  das  três  maiores  cidades  do 
Nordeste.  O  diretor  lembra  que  quando  a  marca  passou  a  montar  as  suas 
motocicletas no Brasil, com a fábrica de Manaus, houve uma isenção dos impostos o 
que  reduziu  bastante  o  preço  dos  produtos,  tornando-os  mais  acessíveis,  mas  que 
ainda hoje, a Harley Davidson é um produto de ‘nicho’, um produto desejado.  
 
O  cliente  Harley  está  em  busca  de  algo  mais  que  uma  moto.  Ele  quer 
liberdade,  prazer,  paixão.  A  Harley  carrega  tudo  isso.  Nós  possibilitamos 
aos nossos clientes [através do HOG] a experiência de estrada, de grupo, 
de passar fins de semana agradáveis. [...]. Eu diria que ele [cliente Harley 
Davidson]  é  um  executivo  bem  sucedido,  um  empresário,  que  já  tem  o 
carro  dele,  já  tem  o  apartamento  dele.  (MORAWSKY  apud  LIMA,  2012,  p. 
134). [grifo nosso]. 
 
Além de poder ter conhecido mais sobre o universo do motociclismo, abordar 
o HOG em minha pesquisa, possibilitou que eu estabelecesse um comparativo entre 
esse e o “Vermelho” M.C.. Dois grupos, que a primeira vista, poderiam ser inclusos 
dentro  de  uma  mesma  generalização  de  estereótipos,  por  estarem  ligados  às 
motocicletas da marca Harley Davidson. No entanto, com uma análise mais apurada 
de cada grupo, notei que profundas diferenças marcam esse comparativo, tanto no 
que  diz  respeito  aos  objetivos  e  ideais  de  cada  grupo,  como  as  suas  composições 
socioeconômicas.  
Desta  maneira,  é  possível  concluir  que,  excluindo-se  o  fato  de  utilizarem 
motos  Harley  Davidson,  o  “Vermelho”  M.C.  e  o  HOG  são  grupos bastante distintos 
entre  si.  No  “Vermelho”  M.C.  pude  notar  que  a  marca  de  motocicletas  não  foi 
mencionada  como  pré-requisito  para  um  provável  membro  do  grupo,  mas  sim  a 
potência  e  agressividade  da  moto.  Coincidentemente,  ou  não,  as  motocicletas 
Harley Davidson, uma empresa americana, país de origem do “Vermelho” M.C., é a 
fabricante de motos que mais se enquadra nessas características de alta cilindrada, 
agressividade e alto ronco do motor
23
, que fez com que, historicamente, esse M.C. 
estivesse  relacionado  à  marca.  Sem  contar  que  não  há  uma  referência  e  uma 
admiração  exacerbada  por  parte  dos  membros  do  “Vermelho”  M.C.  através  do 
                                                 
23
 Originalmente as motocicletas Harley Davidson foram concebidas para a utilização pelas forças armadas e policiais. Por este 
motivo foram sempre desenvolvidas para serem motos “fortes”, “agressivas” e de elevada potência. 


74 
 
consumo  de  merchandising  e  vestuário  da  Harley  Davidson.  Nesse  grupo, 
diferentemente  do  HOG,  no  qual  existe  uma  verdadeira  reverência  à  fabricante  de 
motocicletas,  a  referência  é  feita  ao  próprio  M.C.,  seus  brasões, símbolos,  coletes, 
códigos de conduta e à sua história. 
 
 
4.1.3 Os Moto Clubes de Salvador reconhecidos pela AMO-BA 
 
O último foco do trabalho de campo se deu com os Moto Clubes de Salvador, 
que diferentemente do “Vermelho” M.C., não são filiais de um grupo de motociclistas 
estrangeiro, e, além disso, encontram-se devidamente cadastrados junto à AMO-BA. 
Desta  forma,  caracterizam-se  por  manterem  constante  intercâmbio  entre  si  nas 
atividades  realizadas  pela  associação.  Em  verdade,  o  que  mais  distingue  esses 
M.C.s  do  “Vermelho”  M.C.,  descreditados  por  um  próprio  membro  do  “Vermelho” 
M.C.,  como  não  sendo  M.C.s  de  “verdade”,  é  o  que  define  aquela  noção  de 
Haesbaert  (2007),  exposta  desde  o  início  desse  trabalho,  sobre  a 
“multiterritorialidade”  e  a  “reclusão  territorial”.  Essa  noção  considera  que  existe  um 
continuum  no  qual  se  enquadram  as  identidades  territoriais  e  suas  respectivas 
territorialidades.  Em  um  extremo  têm-se  as  identidades  caracterizadas  por  serem 
mais  reclusas  territorialmente  em  suas  práticas  espaciais  e  cotidianas  e  pela 
negação  do  intercâmbio  e  da  troca  com  demais  identidades  territoriais.  Na  outra 
ponta  temos  as  identidades,  caracterizadas  por  Haesbaert  (2007),  como  sendo 
expressas  pela  “multiterritorialidade”.  Essas  são  identidades  mais  híbridas,  móveis, 
flexíveis,  menos  arraigadas ao  seu  referencial  territorial  e  mais  abertas  às  trocas  e 
intercâmbios que o cotidiano urbano possibilita. 
Uma  das  marcas  desses  grupos  mais  “multiterritorializados”  é  o  fato  de 
incentivarem  os  encontros  heterogêneos  nos  espaços  urbanos.  Os  grupos  de 
motociclistas  de  Salvador  participam  maciçamente  de  uma  reunião  semanal  dos 
M.C.s  em  uma  praça  pública  da  cidade,  o  “Largo  da  Mariquita”,  que  cumpre, 
portanto,  esse  papel  agregador  de  garantir  a  sociabilidade  dessas  identidades.  A 
reunião  semanal  dos  M.C.s  de  Salvador  é  um  encontro  que  acontece  todas  as 
quintas feiras no Largo da Mariquita, localizado em um importante e central bairro da 
orla atlântica da cidade, o Rio Vermelho, que também é reconhecido como o bairro 
da boemia soteropolitana. (Figura 4). 


75 
 
 
 
 


76 
 
O Largo da Mariquita caracteriza-se por possuir um grande número de bares, 
que  se  apropriam  do  espaço  público  com  suas  cadeiras  e  mesas  e  por  ser 
considerado  um  dos  “points”  turísticos  para  se  comer  o  “Acarajé”  (famoso  quitute 
baiano).  Recentemente,  o  Largo  tem  sido  lembrado  também  por  ser  o  local  de 
encontro dos M.C.s da cidade.  
Nesse encontro, às quintas feiras, que se inicia a partir das 20h, uma multidão 
de  cerca  de  150  a  200  motociclistas  ocupa  todos  os  espaços  do  largo  e  das  ruas 
próximas com as suas motocicletas dos mais variados estilos, potências e tamanhos 
e as mesas dos bares com a presença dos seus familiares e amigos (Figuras 5 e 6). 
Durante  o  encontro  os  motociclistas  fazem  aquilo  que,  como  pude  perceber  nas 
entrevistas, realmente mais gostam como, por exemplo, a troca de experiências com 
os “irmãos” de M.C. e colegas de M.C.s parceiros sobre viagens, passeios, estradas 
e  motocicletas.  Além  disso,  é  possível  notar  também,  a  presença  constante  de 
empresas que vendem, desde motos a acessórios para os motociclistas, montarem 
seus stands no espaço público, caracterizando o que Gomes (2006) denuncia como 
“a apropriação privada dos espaços comuns” o que leva a uma perda, ou melhor, ao 
o “recuo da cidadania”. 
 
 
 
 Figura 5: Transeuntes, frequentadores e motociclistas no “Largo da Mariquita”, Salvador, Bahia. 
 Hiram Souza Fernandes, 2012. 
 


77 
 
Dentre  os  muitos  M.C.s  que  comparecem  ao  encontro  semanal  dos 
motociclistas  no  Largo  da  Mariquita,  pude  entrar  em  contato  e  realizar  entrevista 
com  representantes  de  quatro  deles,  a  saber:  “Harleyros  M.C.”,  “Falcões  Raça 
Liberta  M.C.”,  “Cometas  Gam  M.C.”  e  o  “Alma  Cigana  M.C.”.  Relatarei  agora  as 
conversas e entrevistas que realizei com cada um dos membros desses grupos. 
 
 
   Figura 6: Transeuntes, ambulantes e motociclistas no “Largo da Mariquita”, Salvador, Bahia. 
   Hiram Souza Fernandes, 2012. 
 
 
4.1.3.1. O “Harleyros M.C.” 
 
O  Harleyros  M.C.  é  um  grupo  de  motociclistas  de  Salvador,  que  como  o 
próprio  nome  indica,  é  composto  por  motociclistas  que  possuem,  ou  pretendem 
possuir, uma motocicleta da marca Harley Davidson. O contato realizado com esse 
M.C. se deu através de um conhecido em comum com um dos integrantes do grupo. 
Esse integrante é o Nirvana, com quem consegui marcar um encontro em seu local 
de  trabalho.  Nirvana  tem  46  anos,  é  apaixonado  por  motos  desde  os  17,  mas 
apenas a partir do ano 2000 é que passou a descobrir o “universo Harley Davidson”. 
Em  um  chuvoso  dia  do  inverno  de  2011  me  recepcionou  no  estabelecimento 
comercial  que  vende  peças  e  acessórios  para  computadores  e  videogames,  no 
bairro da Barra, em Salvador, do qual é o proprietário.  


78 
 
Nirvana  se  mostrou  muito  receptivo  e  interessado  no  meu  trabalho  e  de 
prontidão  se  dispôs  a  responder  às  perguntas  que  foram  elaboradas  para  o 
encontro.  O  motociclista  inicia  dizendo  que  o  Harleyros  M.C.  é  um  Moto  Clube 
formado  por  grandes  e  antigos  amigos  que  se  unem  pela  paixão  pelas  “lendárias 
motos  Harley  Davidson”.  Os  integrantes  do  grupo  adquiriram  suas  motos  em 
concessionários  localizados  em  São  Paulo  ou  Rio  de  Janeiro,  e  por  conta  da 
distância  preferiram  não  se  filiar  ao  HOG  e,  portanto,  organizaram  um  grupo 
independente  e  específico  para  os  amantes  da  Harley  Davidson  em  Salvador. 
Atualmente o grupo é composto por nove membros, e nas palavras de Nirvana, não 
há o interesse de que o grupo se expanda com novos integrantes. Para fazer parte 
do  grupo,  é  preciso  que  o  provável  novo  integrante  seja  apresentado  por  algum 
membro,  e,  além  disso,  ser  observado,  por  um  período  de  dois  meses.  Segundo 
Nirvana  esse  período  de  avaliação,  na  verdade  é  para  que  se  possa  conhecer  um 
pouco mais desse novo integrante, a “sua conduta e o seu caráter”. 
 
“A gente não pode pegar qualquer um e aceitar no grupo de cara. Nós já tivemos um 
problema uma vez  com um rapaz que estava envolvido  com drogas. Isso pode ser 
um “pepino” para nós, por que uma hora ele pode cair da moto ou ser abordado pela 
polícia,  e  se  ele  estiver  com  a  gente,  nós  também  seremos  culpados  por  essa 
atitude  dele”.  (Nirvana,  entrevista  concedida  no  Inverno  de  2011  em  Salvador, 
Bahia). 
 
Questiono  então  sobre  a  possibilidade  de  aceitação  de  um  pretendente  a 
integrante  do  grupo,  que  seja  indicado  por  um  membro,  e  que  se  enquadre  nas 
normas  de  comportamento  do  M.C.,  mas  que  não  possua  uma  moto  Harley 
Davidson.  Nirvana,  sem  titubear,  respondeu  que  esse  pretendente  seria  aceito  no 
grupo “numa boa”, mas que com o tempo de estrada, esse membro, vendo que os 
companheiros de grupo só possuem motos Harley Davidson, se sentiria encorajado 
a  adquirir  uma  moto  do  mesmo  fabricante.  O  motociclista  completa  ainda  com  a 
afirmação  de  que  “todo  mundo  do  universo  do  motociclismo”  deseja  possuir  uma 
Harley  Davidson  e  que  qualquer  motociclista,  que  venha  acompanhar  o  Harleyros 
M.C.  por  algum  passeio  ou  viagem  com  alguma  moto  diferente,  irá  se  sentir 
inferiorizado ou excluído. 


79 
 
Baseado nesse discurso pude comprovar a questão do fascínio e o desejo do 
consumo  que  a  fabricante  de  motocicletas  “Harley  Davidson”  exerce  sobre  grande 
parte dos motociclistas, tal como já havia relatado anteriormente ao discutir sobre o 
HOG. Segundo Nirvana, quem tem uma “Harley” procura “não se misturar”.  
 
“Eu poderia te dizer que ‘Harley’ é uma ‘filosofia’ de vida. Tudo que tem da marca eu 
procuro  comprar.  Quem  tem  uma  ‘Harley’,  só  usa  roupa  ‘Harley’.  Relógio,  óculos 
etc.. Quem tem Harley procura não se misturar. Motos de verdade são muito mais 
caras do que um carro popular. Uma ‘Harley’ custa no mínimo 30 mil. Quem vê um 
cara com uma Harley sabe que ele não é um ‘vagabundo’ qualquer. Quem olha sabe 
que  você  tem  condições”.  (Nirvana,  entrevista  concedida  no  Inverno  de  2011  em 
Salvador, Bahia). 
 
Da  mesma  maneira  que  pude  perceber  com  os  grupos  que  abordei 
anteriormente,  no  discurso  do  integrante  do  Harleyros  M.C.  também  existe  um 
desejo  por  exclusividade  e  exclusão  do  ‘outro’.  Há  também  um  forte  cunho  de 
distinção de classe social, que se percebe com o fato de que para ele, quem possui 
uma motocicleta da Harley Davidson é diferenciado dos demais motociclistas. Nesse 
grupo, segundo Nirvana, a média de idade é de 50 anos, sendo ele, com 46, o mais 
novo.  O  motociclista  reitera  ainda  que  o  padrão  de  vida  de  todos  os  integrantes  é 
“alto”.  Pergunto  então  sobre  a  sua  renda  média  mensal,  e  ele  me  responde  que 
obtém “cerca de 10 a 12 salários mínimos por mês
24
". 
A  principal  atividade  do  grupo  é  a  realização  de  viagens  e  passeios.  Os 
“Harleyros”, como Nirvana autodenomina os integrantes do grupo, têm o costume de 
“pegar a estrada” praticamente todos os finais de semana para um passeio de “bate-
e-volta”  para  alguma  cidade  do  interior  da  Bahia  num  raio  de  distância  máxima  de 
200 km de Salvador. Além dessas viagens que eles próprios organizam, costumam 
frequentar também outros passeios e rotas, como a “Rota do Recôncavo” na Bahia, 
e o “Rastro da Serpente” entre os estados de São Paulo e Paraná. Nirvana explica 
que  cada  motociclista  que  deseja  realizar  alguma  dessas  viagens,  fora  do  período 
oficial em que elas acontecem, precisam apenas mostrar os comprovantes e notas 
                                                 
24
 Acredito, mais uma vez, que por motivos pessoais, o entrevistado tenha inferiorizado os valores de seus rendimentos nessa 
resposta. 


80 
 
fiscais  de  postos  de  gasolina,  paradas  ou  restaurantes  localizados  no  percurso  da 
rota aos organizadores para que seja comprovada a participação. 
Além dessas viagens os Harleyros se reúnem, semanalmente, em algum bar 
ou  boteco  da  cidade.  Nirvana  cita  o  festival  “Comida  de  Boteco”,  que  promove  um 
concurso  gastronômico  entre  diversos  botecos  da  cidade.  Dessa  forma,  o  grupo 
escolhe um boteco participante do concurso para a realização do encontro semanal. 
O  motociclista  enfatiza  que  o  objetivo  de  grupo  é  o  “entretenimento,  diversão  e 
relaxamento  com  um  grupo  de  amigos  que  amam  as  Harley  Davidsons”,  fazendo 
menção, inclusive, a esse objetivo, como a “ideologia” do grupo. O Harleyro justifica 
ainda, que por conta desse objetivo, o grupo pouco frequenta a reunião semanal do 
M.C.s soteropolitanos no Largo da Mariquita, pois se sentem mais a vontade quando 
estão  só  entre  si  e  suas  "Harleys".  Essa  afirmação  corrobora,  mais  uma  vez,  o 
caráter  de  segregação  e  rejeição  do  encontro  com  os  diferentes,  caracterizando  a 
“nova  urbanidade”  (CARLOS,  1997),  discutida  no  Capítulo  3  deste  trabalho.  É 
possível,  também,  verificar  o  “recuo  da  cidadania”  (GOMES,  2006),  tendo  a 
progressão  das  identidades  territoriais  como  um  importante  agente  no  par  dialético 
“reclusão x sociabilidade” existente no espaço urbano contemporâneo que gera uma 
diminuição dos espaços públicos e de uso comum na cidade. 
Sobre a situação atual da cidade em relação ao motociclismo, Nirvana afirma 
que em Salvador existe uma verdadeira “negação do motociclista”. Ele se refere aos 
motoristas  de  carros  e  veículos  grandes  que  não  respeitam  as  motos  no  trânsito 
urbano, muitas vezes intimidando-as com a vantagem do tamanho do veículo. Além 
disso, o motociclista faz referência às péssimas condições das vias de circulação, da 
sinalização, bem como do atual descaso dos poderes públicos, tanto estadual como 
municipal, no que diz respeito ao motociclismo.  
 
“É  impressionante,  cara,  mas  parece  que  Salvador  é  o  pior  lugar  do  Brasil  para  o 
motociclismo. E eu nem vou comparar com as cidades do Sul ou do Sudeste por que 
lá sempre teve uma tradição de grupos de moto. Eu comparo mesmo com Aracaju 
ou com Recife, que tem encontros de motociclistas muito melhores e com apoio do 
governo  e  que  aqui  não  tem.  No  interior  é  que  tem  encontros  bem  mais  legais  e 
movimentados, como o de Paulo Afonso e o de Serrinha. Só que se algum desses 
encontros for realizado por algum M.C. de lá que nos convidar, a gente não pode ir 


81 
 
vestindo  as  nossas  camisas  e  coletes,  por  que  seria  um  tipo  de  desrespeito.” 
(Nirvana, entrevista concedida no Inverno de 2011 em Salvador, Bahia). 
 
Aproximando-se  ao  final  da  conversa  quis  saber  um  pouco  mais  sobre  o 
funcionamento  e  as  questões  de  organização  do  grupo.  Nirvana  me  informou  que 
não  existe  nenhuma  taxa  ou  mensalidade  que  deva  ser  paga  pelos  membros,  no 
entanto,  eles  sempre  dividem  todos  os  custos  com  as  contas  de  bares  e 
restaurantes,  bem  como  dos  projetos  especiais  que  eles  venham  a  desenvolver, 
como  para  a  confecção  de  camisas  para  uma  determinada  viagem  especial,  o  site 
do  grupo,  divulgação,  etc..  O  motociclista  esclareceu  ainda  que  não  existe  uma 
organização  hierárquica  dentro  do  grupo.  Não  existem  cargos,  funções  ou 
atribuições.  Todos  os  integrantes  estão  em  um  mesmo  patamar  e  possuem  o 
mesmo poder de voz nas decisões comuns do grupo. 
Em  resumo,  posso  inferir  que  o  Harleyros  M.C.  é  um  grupo  identitário  que 
possui certas restrições em suas práticas territoriais que os aproximam para o lado 
da “reclusão territorial” no continuum proposto por Haesbaert (2007), tal como o é o 
“Vermelho M.C.”, com o diferencial de não possuírem verdadeiros “rituais”, códigos e 
procedimentos de características militares e hierárquicas. 
  
 
4.1.3.2. O “Falcões Raça Liberta M.C.” 
 
A  maneira  como  consegui  entrar  em  contato  com  o  “Falcões  Raça  Liberta 
M.C.”  foi  bem  interessante  e  após  ela  passei  a  nortear  o  meu  trabalho  de  campo 
com mais tranquilidade e clareza, tal como relatarei a seguir. Depois de um período 
de  muitas  tentativas  seguidas  de  muitas  negativas  para  entrar  em  contato  com  os 
M.C.s  da  cidade  e  realizar  as  conversas  e  entrevistas  que  eu  pretendia,  decidi, 
através  dos  poucos  sites  existentes,  realizar  esse  primeiro  contato.  As  alternativas 
anteriores  haviam  sido  a  de  solicitar  os  e-mails  dos  grupos  através  da  AMO-BA,  a 
qual  não  logrou  sucesso  após  três  tentativas,  e  a  segunda,  a  de  recorrer  a 
conhecidos em comum com algum membro de algum M.C., com a qual só consegui 
obter  o  contato  do  “Vermelho”  M.C  e  do  “Harleyros  M.C.”,  o  que  ainda  era 
insuficiente para a minha pesquisa. 


82 
 
Após  um  turno  de  pesquisas  na  internet,  consegui  descobrir  um  pequeno 
número  (em  torno  de  dez)  de  websites,  blogs  ou  e-mails  de  M.C.s  de  Salvador. 
Enviei  uma  mensagem  padronizada  para  todos  eles  que  esclarecia  o  motivo  do 
contato e solicitava um encontro, caso possível, com algum membro do grupo para 
que eu pudesse conhecer um pouco mais o M.C. e, dessa forma, enriquecer o meu 
trabalho de campo. De todas essas tentativas, o único grupo que atendeu a minha 
solicitação  foi  o  “Falcões  Raça  Liberta  M.C.”,  que  no  dia  seguinte  me  retornou, 
através de uma ligação telefônica. O contato estava sendo feito pelo Led Zeppelin, 
integrante  que  ocupa  um  alto  cargo  na  hierarquia  da  filial  baiana  deste  grupo  que 
tem origem na cidade de Guarulhos, em São Paulo, e com o qual consegui marcar 
um  encontro  no  mesmo  dia,  uma  quinta  feira  do  Outono  de  2012,  e  que  por  isso 
pôde  acontecer  na  reunião  semanal  dos  motociclistas  de  Salvador  no  Largo  da 
Mariquita.  
Chegando  ao  local  do  encontro  no  horário  marcado,  realizei  o  contato 
telefônico  para  que  pudesse  saber  onde  estava,  exatamente,  o  Led  Zeppelin,  que, 
além  de  dar  como  referências  o  seu  vestuário  e  aparência  naquele  momento, 
mencionou  também  as  características  das  motos  que  estavam  estacionadas 
próximas  à  mesa  onde  ele,  outros  integrantes  do  grupo  e  seus  familiares  estavam 
sentados. Assim que o encontrei, fui apresentado aos demais integrantes da mesa, 
como o “Hiram, que está fazendo uma pesquisa sobre as “tribos” dos Moto Clubes”, 
e  fui  convidado  a  sentar.    Agradeci  pelo  retorno  à  minha  tentativa  de  contato  e 
mencionei o quanto estava sendo difícil poder arrumar entrevistas e conversas com 
os M.C.s de Salvador. Led Zeppelin confirmou que a maioria dos grupos ainda está 
um  tanto  quanto  “ultrapassada”  em  se  tratando  de  internet,  com  seus  sites  e 
endereços de e-mail defasados ou mesmo uma falta de monitoração frequente com 
os  e-mails  que  são  recebidos.  Led  Zeppelin  endossou  ainda  que  a  escolha  pela 
tática  de  tentar  fazer  o  primeiro  contato  através  da  internet  ou  de  conhecidos  em 
comum  foi  realmente  acertada,  ao  invés  de  uma  abordagem  pessoal  direta,  sem 
nenhum  contato  prévio,  pois  segundo  ele,  os  motociclistas  já  são  “um  pouco 
fechados  e  desconfiados  por  natureza”  e,  além  disso,  quando  estão  em  um 
momento  de  encontro  ou  de  lazer  com  outros  amigos,  pouco  se  interessariam  em 
conversar sobre algum trabalho sério de terceiros, o que não era o caso dele, já que 
havíamos combinado o encontro previamente.  


83 
 
Desde  então,  pude  perceber  que  Led  Zeppelin,  além  de  bem  humorado, 
estava disposto, e até mesmo interessado em me ajudar com o trabalho. Ofereceu-
me um copo de cerveja e tentou me explicar sobre o assunto que debatiam a mesa 
antes  da  minha  chegada,  como  que  para  me  “enturmar  com  o  grupo”,  antes  que 
fôssemos direto ao assunto do trabalho que me levara até ali. Após alguns 15 ou 20 
minutos  de  conversa  e  alguns  goles  de  cerveja,  o  motociclista  sugeriu  que 
déssemos  uma  volta  pelo  largo  para  que  ele  pudesse  me  mostrar  um  pouco  mais 
sobre  o  encontro  dos  motociclistas,  e  quem  sabe,  me  apresentar  a  alguns  outros 
motociclistas de outros Moto Clubes. 
O Largo da Mariquita, como exposto anteriormente nas Figuras 4, 5 e 6 é uma 
praça  pública  localizada  na  orla  atlântica  de  Salvador,  mais  especificamente  no 
bairro  do  Rio  Vermelho.  Existem  quatro  bares/restaurantes  que  invadem  o  espaço 
público com a colocação de cadeiras e mesas (cada qual com uma cor específica), 
constituindo uma verdadeira expansão de seus estabelecimentos. Esses bares são 
sempre  muito  visitados,  em  qualquer  dia  da  semana,  especialmente  no  verão,  por 
estarem  localizados  em  uma  zona  de  potencial  turístico  da  cidade,  e,  além  disso, 
estarem em um bairro que é, reconhecidamente, o bairro da “boêmia” soteropolitana. 
No entanto, é às quintas-feiras que os estabelecimentos vêm suas mesas e cadeiras 
completamente  lotadas  por  conta  do  encontro  dos  motociclistas.  Porém,  não  é 
apenas nas mesas e cadeiras que os motociclistas e seus familiares ficam durante o 
encontro.  Na  verdade,  os  que  estão  sentados  compõem  a  minoria,  pois  a  maioria 
permanece em pé, circulando e confraternizando com outros motociclistas em meio 
às  motos  que  são  estacionadas  na  parte  do  Largo  que  não  possui  mesas  ou 
cadeiras
25

Demos  uma  volta  pelo  largo,  cumprimentamos  alguns  conhecidos  do 
motociclista e pude perceber o quanto Led Zeppelin é admirado no meio dos M.C.s 
quase sempre sendo recebido com muito entusiasmo e carinho pelos seus “irmãos”. 
Retornamos para onde estava a mesa com os integrantes do “Falcões Raça Liberta 
M.C.”,  mas ao  invés  de  nos  sentarmos, permanecemos  em  pé, ao  lado  da mesa  e 
das  motocicletas  do  grupo.  Led  Zeppelin  completou  o  meu  copo  de  cerveja  e  me 
mostrou qual era a sua moto, dizendo inclusive que eu poderia usá-la como “apoio” 
para  o  copo,  pois  ele  não  tinha  “frescura”  com  essas  coisas.  A  moto  era  de  um 
                                                 
25
 Como visto nas Figuras 5 e 6. 


84 
 
modelo  esportivo  da  marca  japonesa  Suzuki,  toda  na  cor  preta.  Uma  típica 
motocicleta de corrida. 
A  partir  desse  momento  pude  iniciar  a  conversa  direcionando  mais  para  o 
formato  de  entrevista  a  fim  de  alcançar  os  meus  objetivos  com  a  pesquisa.  Led 
Zeppelin  tem  36  anos,  apesar  até  de  aparentar  menos,  é  empresário  e  tem  renda 
média mensal de até R$ 8.000,00. Ocupa um alto cargo na sede baiana do grupo, 
que  como  disse  anteriormente,  é  original  de  Guarulhos,  São  Paulo.  O  grupo  está 
presente há 14 anos em Salvador e tem como principio reunir amigos amantes das 
motocicletas  e  que  gostem  de  praticar  boas  ações  e  a  filantropia.  O  motociclista, 
inclusive, fala em uma ideologia “filantrópica” como preceito que rege o grupo. 
Dentre  as  entrevistas  que  havia  realizado  até  então,  Led  Zeppelin  foi  o 
primeiro  que,  ao  ser  perguntado  se  se  enquadrava  em  algum  determinado  grupo 
identitário, respondeu, sem titubear, que era um “motociclista de Moto Clube. Eu sou 
um  ‘Falcão’”.  Os  “Falcões”,  que  é  como  ele  se  refere  aos  membros  do  grupo, 
compõe um Moto Clube de base “familiar”. 
 
“Somos um grupo de amigos que curtem as motos, estar entre amigos e as nossas 
famílias  e  ajudar  as  pessoas  que  necessitam”.  Todos  os  meses  a  gente  faz  uma 
arrecadação no grupo para comprar cestas básicas para doar pra alguma instituição 
de  caridade.  Quando  tem  uma  instituição  que  precisa  de  muita  ajuda  a  gente  se 
junta com um Moto Clube parceiro e faz essa atividade em grupo. No mês que vêm 
mesmo  nós  vamos  fazer  essa  doação  junto  com  o  Cometas  Gam  M.C..  Daqui  a 
pouco  um  amigo  do  “Cometas”  tá  chegando  aí  e  eu  te  apresento  a  ele”.  (Led 
Zeppelin, entrevista concedida no Outono de 2012 em Salvador). 
 
Led Zeppelin prossegue com seu relato dizendo que em Guarulhos o M.C. já 
é muito mais consolidado, possui muito mais membros, e que, por isso, pode fazer 
projetos de maior alcance, mas que eles, da filial baiana, estão também batalhando 
para poder “alçar voos mais altos”.  
 
“Em  Guarulhos  nós  temos  uma  sede  muito  bem  preparada  e  equipada.  Lá  tem 
dormitórios  para  receber  os  irmãos  de  outras  sedes  do  clube  que  estão  passando 
por  lá,  tem  um  consultório  de  dentista  que  faz  atendimento  de  graça  pra 
comunidade.  Tem  um  monte  de  coisa.  É  muito  bacana  mesmo.  Eu  vou  pra  lá  de 


85 
 
moto  pelo  menos  umas  quatro  ou  cinco  vezes  por  ano”.  (Led  Zeppelin,  entrevista 
concedida no Outono de 2012 em Salvador). 
 
O  motociclista  conta  que,  atualmente,  a  filial  baiana  do  grupo  possui  31 
integrantes.  Para  ser  admitido  precisa-se  passar  por  uma  espécie  de  período  de 
observação, tal qual foi relatado em todos os outros grupos até aqui. À medida que o 
novo  membro  for  sendo  observado  pelo  grupo  ele  irá  recebendo  os  símbolos  que 
caracterizam um estágio específico na hierarquia, até tornar-se um membro efetivo. 
O  grupo  é  organizado  hierarquicamente  e  todos  os  membros  possuem  cargos  ou 
atribuições. Há a cobrança de uma taxa mensal que é convertida para a realização 
de  projetos,  como  confecção  de  camisas  para  algum  evento  ou  passeio  especial, 
bem como uma “poupança” para que possa, no futuro, ser adquirido um imóvel para 
ser  a  sede  física  do  M.C..  Além  disso,  Led  Zeppelin  menciona  que  consta  no 
estatuto  do  grupo  que  o  novo  integrante  precisa  possuir  uma  motocicleta  com  no 
mínimo 500 cilindradas, mas ele me garantiu que, como presidente dos “Falcões” na 
Bahia, ele tem autonomia para decidir pela a aceitação de um membro mesmo que 
ele não tenha uma moto com o mínimo de 500 cilindradas. 
 
“Velho, eu não posso negar de entrar no grupo, um cara que seja bacana, um amigo 
de  verdade,  que  já  tenha  sido  aprovado  por  nós,  só  por  que  ele  tem  uma  400,  ou 
uma 450 e não uma 500. Tem muito nego aí que tem motos melhores do que uma 
500, mas que não tem um bom caráter. O cara que tem a 400, mas que é de bom 
caráter  um  dia  pode  comprar  uma  500,  ou  qualquer  outra  moto.”  (Led  Zeppelin, 
entrevista concedida no Outono de 2012 em Salvador). 
 
Como o grupo ainda não possui uma sede física, os locais escolhidos para os 
encontros  e  reuniões,  são  geralmente  bares  e  restaurantes  de  amigos  ou 
conhecidos,  ou  que  tenham  sido  indicados  por  algum  amigo  ou  conhecido.  Além 
destes,  são  utilizados,  ocasionalmente,  a  casa  de  algum  integrante,  bem  como  os 
eventos  de  motociclistas.  Indagado  sobre  a  existência  de  um  território  quando  o 
grupo  está  reunido,  Led  Zeppelin  considera  que  o  grupo  não possui  um  “território”, 
mas sim um “espaço”. Para ele o termo território é “muito forte”: 
 


86 
 
“Não, território a gente não constitui, não. A gente constitui mais um espaço nosso 
mesmo  quando  a  gente  para  as  nossas  motos  em  algum  local.  Mas  não é  sempre 
mesmo. É de quem chegar primeiro, entende? Além disso, outras pessoas de outros 
grupos  podem  ficar  aqui  com  a  gente  também.  Toda  hora  senta  algum  amigo  de 
outro grupo aqui com a gente. O lance das motos num mesmo lugar é por que assim 
a  gente tem  o  nosso cantinho, o  nosso espaço, e  aí todos  sabem  que  ali  estão  os 
‘Falcões’”. (Led Zeppelin, entrevista concedida no Outono de 2012 em Salvador). 
 
O  motociclista  enfatiza  que  em  eventos  onde  estão  reunidos  diversos  M.C.s 
sempre existe a interação entre esses grupos. Na verdade, segundo Led Zeppelin, é 
justamente  a  interação  entre  os  mais  diversos  grupos  o  objetivo  dos  encontros, 
como  o  encontro  do  Largo  da  Mariquita.  Apesar  disso,  ele  lembra  também  que 
apesar  da  amizade  e  das  interações  existem  grupos  que  possuem  rivalidades 
também. Led Zeppelin, no entanto, afirma, de maneira orgulhosa, que eles são bem 
vindos em qualquer lugar e em qualquer clube.  
 
“Nós  somos  os  ‘Falcões’...  nós  entramos  e  saímos  em  qualquer  lugar”.  (Led 
Zeppelin, entrevista concedida no Outono de 2012 em Salvador). 
 
Pergunto então se com as pessoas que não façam parte do motociclismo eles 
também são bem recebidos. Dessa vez ele demora um pouco mais para responder 
e reconhece que existe certo preconceito da sociedade, de uma maneira geral, que 
os olha de uma maneira estereotipada por possuírem cabelos grandes, tatuagens, e 
usarem muitas roupas pretas ou de couro. Led Zeppelin relata que há cerca de dois 
anos,  o  encontro  semanal  de  motociclistas  de  Salvador  era  realizado  no  Largo  de 
Santana,  também  no  bairro  do  Rio  Vermelho,  ao  invés  do  Largo  da  Mariquita.  O 
encontro mudou de endereço quando algum dos proprietários dos bares do Largo de 
Santana  disse  não  gostar  da  movimentação  que  os  motociclistas  criavam.  Desde 
então eles decidiram pela mudança pelo Largo da Mariquita. Segundo Led Zeppelin, 
os proprietários dos bares agradecem aos motociclistas, pois além dos adeptos dos 
M.C.s, o encontro atrai também pessoas de fora do movimento, como por exemplo 
algumas mulheres, que consideram o “point” como um lugar propício à paquera, já 
que  a  maioria  esmagadora  dos  motociclistas  que  frequentam  o  Largo  da  Mariquita 
às quintas-feiras, é composta por homens. 


87 
 
Fiquei curioso com essa informação e em outra oportunidade conversei com 
dez  pessoas  que  estavam  no  Largo  da  Mariquita  no  momento  do  encontro  dos 
motociclistas,  mas  que  não  aparentavam  fazer  parte  de  nenhum  grupo  ligado  ao 
motociclismo.  A  totalidade  dos  entrevistados  considera  que  o  lugar  fica  mais 
“agitado”,  “movimentado”  e  “convidativo”  para  o  encontro  com  amigos  no  dia  da 
reunião dos motociclistas.  
Aproximando-se de um final de conversa procuro saber sobre as relações da 
cidade de Salvador e seu cotidiano urbano com as atividades do grupo e a vida do 
motociclista  de  uma  forma  geral.  Como  pude  observar  na  entrevista  com  o 
integrante do “Harleyros M.C.”, Led Zeppelin também está muito insatisfeito com as 
administrações públicas, que fazem tudo “pensando apenas nos carros e nunca se 
lembrando das motos”. O motociclista fala que possui carro, mas que só o usa em 
caso  de  necessidade  máxima,  ou  quando  precisa  transportar  uma  quantidade 
grande de pessoas ou objetos. Led Zeppelin também faz comparações com a cidade 
de  Recife  que  possui  grandes  eventos  de  motociclismo  com  o  apoio  do  governo, 
como o “Salão Nacional Duas Rodas”. A partir daí Led Zeppelin passa a utilizar em 
seu  discurso  o termo “tribo”  para  se  referir  aos  motociclistas  de  uma forma  geral  e 
não apenas ao M.C. que faz parte.  
 
“Os motociclistas são uma tribo. E aqui em Salvador as tribos que não forem do axé 
ou do pagode vão ser sempre esmagadas. É assim com a tribo do rock, do metal, do 
skate,  do  reggae.  A  gente  não  tem  espaço  pra  nada!  Pra  organizar  um  evento  é 
sempre  muita  dificuldade  e  falta  de  apoio  dos  governos.  Nós  somos,  de  verdade, 
uma raça que luta pra sobreviver”. (Led Zeppelin, entrevista concedida no Outono de 
2012 em Salvador). 
 
 
Preste  a  concluir  a  minha  entrevista,  agradeci  imensamente  ao  apoio  e  à 
atenção dispensada a mim por Led Zeppelin e me retirei, deixando-o aproveitar, pelo 
menos um pouco da noite com os seus “irmãos” do motociclismo. O motociclista se 
despediu  com  a  promessa  de  passar  o  contato,  através  de  e-mail,  de  dois 
motociclistas de uma mesma família, pai e filho, que com certeza estariam dispostos 
para colaborar com o meu trabalho.  
Com a entrevista com Led Zeppelin, pude notar, um grupo que se difere um 
pouco  mais  dos  grupos  que  foram  abordados  até  aqui.  O  “Falcões  Raça  Liberta 


88 
 
M.C.” é um grupo que em suas práticas territoriais está mais aberto ao intercâmbio 
com outros grupos e menos arraigado a um componente territorial, o que o faz estar 
mais  próximo  da  “multiterritorialidade”,  caracterizando  um  agregado  identitário  com 
características  híbridas  e  mais  flexíveis.  No  entanto,  condições  para  a  entrada  de 
novos membros, como potência mínima do motor da motocicleta (mesmo que sejam 
mais flexíveis  e  plausíveis),  bem  como uma  organização  hierárquica  do  grupo,  são 
características  que  ainda  conferem  ao  grupo  uma  sutil  “aura”  de  “reclusão”  e 
inacessibilidade.  
 
 
4.1.3.3. O “Cometas Gam M.C.” e o “Alma Cigana M.C.” 
 
Como  já  foi  antecipado  anteriormente,  pude  obter  o  contato  de  dois 
motociclistas de uma mesma família e integrantes de diferentes M.C.s, o “Cometas 
Gam” e o “Alma Cigana”, através do Led Zeppelin, do “Falcões Raça Liberta” M.C.. 
Após  contato  telefônico,  pude  marcar  um  encontro  para  poder  conversar  com  os 
dois  ao  mesmo  tempo.  Esse  encontro  aconteceu  no  último  mês  de  junho,  na 
residência dos motociclistas, que como também já havia mencionado, são pai e filho. 
Motorhead tem  28 anos  e  ocupa um  alto  cargo  na escala  hierárquica  do  “Cometas 
Gam M.C.”, filho de Black Sabbath, 57 anos, que também ocupa um alto cargo, só 
que  no  “Alma  Cigana  M.C.”.  Farei  o  relato  sobre  esses  dois  grupos  de  maneira 
conjunta,  pois  foi  assim  que  se  desenvolveu  a  entrevista  na  residência  dos 
motociclistas;  como  uma  verdadeira  conversa  informal  a  três,  tendo,  inclusive,  em 
alguns  momentos,  a  participação  da  mulher  da  casa,  ex-esposa  e  mãe  dos 
motociclistas, aqui denominada de Doro. 
No  dia  e  no  horário  marcado,  me  encontrei  com  Motorhead,  devidamente 
trajado com um colete de couro com as identificações do “Cometas Gam M.C.”, em 
um  ponto  de  ônibus  da  “Estrada  do  Coco”,  em  Lauro  de  Freitas,  Bahia.  Um 
município  integrante  da  Região  Metropolitana  de  Salvador,  sendo,  inclusive,  um 
município em conurbação com a capital baiana. Motorhead me levou de carro até a 
sua residência, que fica em um bairro de classe média de Lauro de Freitas, e que é 
precariamente  servido  pelo  transporte  público.  Ao  chegar  à  residência,  pude 
perceber que além do carro com o qual Motorhead me buscou ao ponto de ônibus, a 
família  também  possui  outro  veículo,  sendo  este  de  porte  grande  e  de  categoria 


89 
 
luxuosa.  Fui  recebido  pela  mãe  do  motociclista,  Doro,  e  em  seguida  pelo  seu  pai, 
Black  Sabbath,  que  também  trajava  o  colete  com  os  símbolos  do  seu  grupo,  sem 
falar  no  seu  pequeno  irmão,  de  apenas  quatro  anos,  mas  com  uma  sagacidade  e 
simpatia incríveis. 
Para mim é um tanto quanto estranho “invadir” a residência de pessoas com 
as  quais  ainda  não  tinha  tido  nenhum  contato  pessoal,  mas  que  abrem  a  porta  de 
suas casas apenas para atenderem a minha solicitação pessoal, que na verdade é 
estritamente  profissional.  No  entanto,  a  simpatia  e  o  bom  humor  da  família  me 
deixaram logo à vontade. Segundo Black Sabbath, se eu entrei em contato com eles 
através do “irmão” do M.C. “Falcões Raça Liberta”, logo eu também sou um “irmão” 
para eles. E prontamente pude comprovar a diferença entre esses últimos M.C.s, e o 
“Vermelho  M.C.”  e  o  “Harleyros  M.C.”  no  que  diz  respeito  àquelas  características 
exclusivistas  e  de  exclusão  do  outro.  Com  os  M.C.s  “Falcões  Raça  Liberta”, 
“Cometas Gam” e “Alma Cigana” pude conhecer outro tipo de grupo que estimula a 
sociabilidade  através  dos  encontros  e  as  interações  entre  si  e  demais  grupos 
identitários.  
Após uma conversa de apresentação inicial e uma nova e mais bem explicada 
fala  sobre  o  meu  trabalho,  aceitei  um  “cafezinho”  oferecido  por  Doro  e  comecei  a 
dirigir a conversa aos objetivos que desejava alcançar na pesquisa, solicitando que 
cada um pudesse falar um pouco mais sobre os Moto Clubes dos quais fazem parte, 
e  que  nos  quais  ocupam  cargos  de  liderança.  Motorhead  iniciou  falando  sobre  o 
“Cometas  Gam  M.C.”,  que  segundo  ele  é  um  grupo  muito  novo,  não  tendo  ainda, 
inclusive,  completado um  ano de  existência.  O  nome  do  grupo faz  referência a  um 
modelo  de  motocicleta  da  fabricante  brasileira  de  motos,  “Kasinski”,  a  “Comet 
250GTR”.  Segundo  ele,  a  ideia  de  fundar  um  grupo  específico  surgiu  com  alguns 
amigos que tinham a mesma motocicleta, a fim de tentar reunir outros proprietários. 
Para Motorhead a Comet 250GTR é uma moto bonita, de visual arrojado e esportivo 
(lembra  a  dos  modelos  japoneses  de  motovelocidade),  mas  que,  no  entanto,  não 
possui tanta potência de motor, tampouco é vendida a preços exorbitantes. Segundo 
o motociclista a moto pode ser adquirida por R$15.000,00.  


90 
 
Para  se  tornar  um  membro  do  “Cometas  Gam  M.C.”,  assim  como  foi 
constatado  entre  todos  os  outros  grupos  abordados  na  pesquisa,  o  novo  membro 
(sem restrição de gênero) precisa passar por um período de avaliação, no qual ele 
irá,  gradativamente,  recebendo  as  insígnias  que  representam  um  “status”  na 
hierarquia  até  que  este  possa  ser  oficialmente  declarado  um  membro  do  grupo. 
Além,  é  claro  de  possuir  uma  moto  Comet  250GTR.  Motorhead  argumenta  que 
apesar de ser um grupo com um tipo de moto específica, eles não tem como intuito 
se  isolar  dos  demais  grupos,  até  por  que,  segundo  ele,  a  Comet  250GTR  é  uma 
moto  das  mais  simples  no  mercado  de  motos  esportivas.  Motorhead  conta  que 
trabalha  como  vendedor  e  que  sua  renda  mensal  é  de  entre  R$1.500,00  e 
R$2.000,00 e que comprou a sua moto através de um financiamento, com parcelas 
pagas apenas com o seu salário.  
 
Figura 7:  Motociclistas do  “Cometas Gam M.C.” e “irmãos” de outros M.C.s em ação  de  entrega  de 
cestas básicas e mantimentos na Escola Lar Mundo da Criança em Lauro de Freitas, Bahia. 
Motorhead, 2012. 
 
No  “Cometas  Gam  M.C.”  os  preceitos  de  irmandade,  companheirismo  e  a 
hierarquia são levados a sério, onde o “respeito pelos irmãos” deve prevalecer. Além 
disso,  o  grupo  busca  atuar  na  sociedade  ajudando  e  amparando  instituições 


91 
 
carentes  com  a  realização  de  eventos  com  doação  de  alimentos,  mantimentos  e 
brinquedos, como a ação que ocorreu, no dia 7 de Julho do corrente ano (Figuras 7 
e 8), em uma creche mantida apenas com os escassos recursos da Associação dos 
Moradores do bairro de Itinga, um dos bairros mais populares de Lauro de Freitas, 
bem  como  de  toda  a  região  metropolitana  de  Salvador.  O  “Cometas  Gam  M.C.” 
cobra  uma  mensalidade  de  cada membro, segundo  Motorhead,  de  valor  irrisório,  e 
que  é  destinada  para  a  compra  dos  mantimentos  e  alimentos  doados  nas 
campanhas  de  solidariedade  realizadas  pelo  grupo,  na  realização  de  festas,  bem 
como  para  a  confecção  de  camisas  e  demais  materiais  de  divulgação  do  grupo 
como  bótons  e  adesivos.  Black  Sabbath  intervém  lembrando  que,  além  disso,  é 
sempre  importante  “possuir  um  dinheiro  em  caixa”  para  o  acaso  de  algum  “irmão” 
estiver passando por alguma dificuldade ou problema financeiro.  
 
 
Figura 8: Crianças da Escola Lar Mundo da Criança em Lauro de Freitas, Bahia, atendidas pela ação 
de solidariedade promovida pelo “Cometas Gam M.C.” e outros M.C.s parceiros. Motorhead, 2012. 
 
O grupo se encontra semanalmente no Largo da Mariquita em Salvador, que 
segundo Motorhead é o centro do motociclismo de Salvador, pois é o momento que 
propicia  que  os  amantes  de  motocicletas  possam  se  conhecer,  trocar  ideias, 
experiências, informações sobre motos, viagens, passeios, e eventos. O motociclista 


92 
 
lembra ainda que quando algum M.C. da cidade recebe um visitante, esse é sempre 
levado  a  conhecer  a  reunião  do  Largo  da  Mariquita,  como  ele  havia  feito,  com  um 
amigo motociclista vindo do Uruguai na semana anterior. 
Motorhead  contesta  a  ideia  de  que  existam  “territórios”  para  cada  grupo 
quando  da  realização  do  encontro  no  Largo.  Para  ele  é  normal  o  fato  de  que  as 
motos dos integrantes de cada grupo sejam estacionadas uma ao lado da outra, pois 
isso  facilita  apenas  a  identificação  do  M.C.,  mas  com  o  decorrer  do  encontro,  os 
motociclistas  circulam  e  ocupam  outros  lugares,  longe  de  suas  motos  e  interagem 
com pessoas de outros grupos.  
 
“A reunião no Largo da Mariquita é boa justamente por que tem essa interação entre 
todos os grupos. Não acho que cada grupo demarca um território. Todos interagem. 
O irmão que vier em paz e desejar interagir com a gente, vai ser sempre bem vindo. 
E  nem  acho  que  o  Largo  todo  seja  um  território  dos  motociclistas,  por  que  outras 
pessoas, que não fazem parte do movimento, também frequentam lá numa boa, sem 
problema  nenhum.  Mas  sendo  curto  e  grosso  eu  sei  que  a  gente  está  errado,  por 
que  o  Largo  é  para  os  pedestres,  e  é  público.  A  gente  não  poderia  estacionar  as 
nossas  motos  lá.  Mas  a  verdade  é  que  em  Salvador  não  existe  qualquer  espaço 
para nós.  Se  tivesse um  espaço que  a  gente  pudesse  estacionar  as nossas  motos 
com  segurança,  que  não  pudesse  entrar  carro,  que  a  gente  pudesse  levar  nossa 
família,  nossas  crianças,  nós,  com  certeza,  utilizaríamos  esse  espaço...  mas  o 
governo  nunca  se  importou  muito  com  motociclista,  né?  Para  eles  nós  somos 
apenas  uns  loucos  bagunceiros”.  (Motorhead,  entrevista  concedida  no  final  do 
Outono de 2012, em Lauro de Freitas, Bahia). 
 
Tanto  Motorhead,  como  Black  Sabbath,  atribuem,  aos  maus-motociclistas, 
essa  “fama”  de  “loucos  bagunceiros”.  Para  eles,  existe  uma  “molecada  nova”  que 
ganha  ou  compra  uma  moto  nova  e  “que  se  acha  com  o  rei  na  barriga”,  ao  fazer 
manobras arriscadas no trânsito ou abusando do barulho ensurdecedor dos motores 
em  locais públicos  e  com alta  concentração de pessoas  para atrair  a  atenção para 
si. Para eles, esse tipo de motociclista, na verdade, é denominado de “motoqueiro”; 
uma maneira pejorativa de se referir aos que não seguem as regras de trânsito e as 
condutas  e  normas  que  envolvem  o  motociclismo.  Black  Sabbath  endossa  que  é 
essa, inclusive, uma das funções de um M.C.: a de transmitir esses bons preceitos 


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do  motociclismo  os  quais  o  “motoqueiro”  poderá  aprender  caso  esteja  realmente 
interessado.  
Decidi  então  me  direcionar  diretamente  ao  Black  Sabbath,  já  que  ele  pouco 
havia falado sobre o grupo dele até então. O motociclista informou que as respostas 
sobre  o  “Alma  Cigana  M.C.”  eram  muito  coincidentes  com  as  do  “Cometas  Gam 
M.C.”, diferindo, de fato, por se tratar de um grupo mais antigo, o qual ele participou 
da fundação no ano de 2006. No “Alma Cigana M.C.” não existe qualquer restrição 
quanto ao tipo de moto que o provável novo integrante possua.  
 
“Basta  apenas  ser  uma  pessoa  que  esteja  envolvida  de  fato  com  o  motociclismo, 
com  a  irmandade,  camaradagem,  que  agarre  com  unhas  e  dentes  o  brasão  e  o 
estatuto  do  grupo,  mas  que  acima  de  tudo  abrace  a  família.  Os  membros  de  um 
Moto Clube são mais do que irmãos”. (Black Sabbath, entrevista concedida no final 
do Outono de 2012, em Lauro de Freitas, Bahia). 
 
Black Sabbath argumenta que o período de análise o qual um novo integrante 
é submetido antes da admissão total no grupo é extremamente necessário para que 
haja um conhecimento mútuo. Não só para que o motociclista seja aceito pelo grupo, 
mas  também  para  que  o  motociclista  possa  conhecer  e  saber  se  gosta  mesmo 
daquele determinado grupo. 
Ambos os grupos ainda não possuem uma sede física, mas os motociclistas 
me  informaram  que  estão  trabalhando  no  sentido  de  poder  adquirir  uma  sede  que 
abrigue  os  dois  M.C.s.  Questionei  então  quantos  membros  cada  um  dos  grupos 
tinha, e Motorhead me respondeu que o “Cometas Gam M.C.” era composto por 15 
membros. Nesse momento fomos interrompidos por sua mãe, que argumentou com 
o  filho  que  na  verdade  eram  15  famílias.  Os  dois  motociclistas  concordaram  e  eu 
consegui  entender  também  o  que  ela  estava  querendo  dizer,  mas  ainda  assim  ela 
deu uma breve explicação: 
 
“Um  M.C.  tem  a  função  de  juntar  em  uma  grande  família  todas  as  famílias  dos 


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