Hiram Souza (Dissertação)



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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA 
INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS 
DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA 
MESTRADO EM GEOGRAFIA 
 
 
 
 
HIRAM SOUZA FERNANDES 
 
 
 
 
Dissertação de Mestrado 
 
 
 
 
 
A RELAÇÃO ENTRE AS IDENTIDADES TERRITORIAIS E A “NOVA 
URBANIDADE”: O CASO DAS MANIFESTAÇÕES IDENTITÁRIAS 
DOS GRUPOS DE MOTOCICLISTAS EM SALVADOR, BAHIA. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Salvador 
2012 
 



 
HIRAM SOUZA FERNANDES 
 
 
 
 
 
 
Dissertação de Mestrado 
 
 
 
 
 
A RELAÇÃO ENTRE AS IDENTIDADES TERRITORIAIS E A “NOVA 
URBANIDADE”: O CASO DAS MANIFESTAÇÕES IDENTITÁRIAS DOS GRUPOS 
DE MOTOCICLISTAS EM SALVADOR, BAHIA. 
 
 
 
 
 
 
Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação 
em  Geografia  do  Instituto  de  Geociências,  da 
Universidade Federal da Bahia como parte dos requisitos 
para obtenção do título de Mestre em Geografia. 
 
Área de concentração: Análise do Espaço Geográfico. 
 
Orientador: Prof. Dr. Wendel Henrique 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Salvador 
2012 



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
__________________________________________________ 
                          F363    Fernandes, Hiram Souza.  
        A relação entre as identidades territoriais e a “nova 
urbanidade”: o caso das manifestações identitárias dos grupos de 
motociclistas em Salvador, Bahia  / Hiram Souza Fernandes. - 
Salvador, 2012. 
        106 f. : il.  
                   
        Orientador: Prof. Dr. Wendel Henrique. 
                                          Dissertação (Mestrado em Geografia) – Programa de Pós-
Graduação em Geografia,
 
Universidade Federal da Bahia, Instituto 
de Geociências, 2013. 
 
                                           1. Territorialidade humana – Salvador (BA). 2. 
Motociclistas. 3. Identidade. 4. Especo e tempo. I. Henrique, 
Wendel.                II. Universidade Federal da Bahia. Instituto de 
Geociências.       III. Título. 
 
 
                                                                                                 CDU: 911.3(813.8) 
__________________________________________________ 
Elaborada pela Biblioteca do Instituto de Geociências da UFBA. 
 
 



 
TERMO DE APROVAÇÃO 
 
 
 
HIRAM SOUZA FERNANDES 
 
 
 
 
A RELAÇÃO ENTRE AS IDENTIDADES TERRITORIAIS E A “NOVA 
URBANIDADE”: O CASO DAS MANIFESTAÇÕES IDENTITÁRIAS DOS GRUPOS 
DE MOTOCICLISTAS EM SALVADOR, BAHIA. 
 
 
Dissertação  aprovada  como  requisito  parcial  para  obtenção  do  título  de  Mestre  em 
Geografia  pelo  Programa  de  Pós-Graduação  em  Geografia  do  Instituto  de 
Geociências da Universidade Federal da Bahia, pela seguinte banca examinadora: 
 
 
 
_____________________________________ 
PROF. DR. WENDEL HENRIQUE 
ORIENTADOR / IGEO-POSGEO / UFBA 
 
 
 
_____________________________________ 
PROF. DR. ALESSANDRO DOZENA 
EXAMINADOR EXTERNO / PPGe / UFRN 
 
 
 
_____________________________________ 
PROF. DR. ANGELO SZANIECKI PERRET SERPA 
EXAMINADOR INTERNO / IGEO-POSGEO / UFBA 
 
 
 
 
 
 
Salvador, BA 
Junho de 2012 



 
AGRADECIMENTOS 
 
No processo de realização de uma pesquisa em nível de Mestrado várias são 
as pessoas e instituições que apoiam e auxiliam o pesquisador e que sem as quais o 
trabalho do mestrando poderia se tornar muito mais complexo, ou mesmo impossível 
de ser concluído. Uma dissertação de Mestrado requer dedicação e muita disciplina, 
que, por vezes, não são compatíveis com os problemas que enfrentamos em nossas 
vidas pessoais ou profissionais. Por isso, se não fossem as pessoas ou órgãos que 
irei mencionar aqui, eu não sei se o meu trabalho poderia ser concluído. 
Em  primeiro  lugar  eu  gostaria  de  agradecer  à  minha  família.  Em  especial  à 
minha mãe, Cássia. A minha mãe é o meu alicerce, o meu pilar. Uma mãe com “M” 
maiúsculo,  que  se  desdobra  para  ser  também  um  pai,  uma  avó,  uma  amiga.  Mãe 
que nunca poupou esforços para me apoiar emocionalmente ou financeiramente, e 
que mais do que ninguém sonha com o meu sucesso e a minha felicidade em vida. 
Gostaria  de  agradecer  imensamente  aos  meus  queridos  e  amados  irmãos:  Lúcia, 
Júlio e Vânia. Cada um no seu jeito, cada um com suas manias, cada um com a sua 
maneira de se relacionar comigo. Mas sei que cada um deles me ama tanto quanto 
eu também os amo e se importa com o meu sucesso e a minha realização pessoal, 
tanto quanto eu me importo com a deles. 
Sou muito grato ao meu orientador, Prof. Dr. Wendel Henrique, pela amizade, 
pela  parceria  que  se  estende  desde  a  graduação,  mas,  principalmente,  pela 
paciência  que  dispensou  em  meus  momentos  de  dúvida,  fraqueza  e  a  sabedoria 
com  que  soube  me  conduzir  até  a  conclusão  desta  etapa.  É  com  prazer  que 
agradeço,  também,  aos  membros  da  banca  examinadora  de  minha  dissertação;  o 
Prof. Dr. Angelo Serpa, ao qual reservo imensa admiração por todos os momentos 
em  que  tivemos  a  possibilidade  de  trocar  ideias,  debatermos,  bem  como  nos 
momentos em que tive o prazer de ser seu aluno; e o Prof. Dr. Alessandro Dozena, 
que  apesar  de  não  termos  tido  a  possibilidade  de  nos  conhecer  pessoalmente, 
também  se  mostrou  muito  solícito,  ajudando  e  contribuindo  para  o  processo  de 
escrita deste trabalho. 
É  com  especial  atenção  que  agradeço  ao  CNPq  (Conselho  Nacional  de 
Desenvolvimento  Científico  e  Tecnológico),  pela  bolsa  de  Mestrado  concedida 
durante  24  meses  e  ao  Programa  de  Pós-Graduação  em  Geografia  (Mestrado  e 
Doutorado)  da  Universidade  Federal  da  Bahia.  Aos  professores  Ms.  Clímaco  Dias, 
Dr. Cristóvão de Brito, Dr. Diego Maia e Dra. Catherine Prost pelas colaborações e 
pela amizade. 
Agradeço  aos  meus  grandes  amigos.  Elissandro  Santana  e  Célio  Santos  do 
MGEO-UFBA,  e  Leonardo  Barros  do  curso  de  graduação  em  Geografia  da  UFBA, 
pela  amizade  e  pelo  apoio  com  os  mapas.  À  Adriana  Bittencourt,  Shanti  Marengo, 
Matteus de Oliveira, Rodrigo Cortes, Livia Celestino, Jorge Valois e todo os colegas 
do  grupo  de  pesquisa  CiTePlan.  Além  destes,  gostaria  de  lembrar  de  todos  os 
amigos  do  grupo  “Micadão”,  por  trazerem  alegria  aos  meus  dias  de  estresse,  de 
Mariana de Oliveira e Irlande de Oliveira, por toda a amizade e carinho. Yuri Tadeu 
pelos anos de companheirismo e todos os demais amigos de Cuiabá-MT, Salvador-
BA  e  Maringá-PR.  Vocês  sabem  exatamente  quem  são  e  a  importância  que 
possuem na minha vida. Por isso, deixo aqui, mais uma vez, o meu muito obrigado. 
Por  fim,  mas  não  menos  importante,  agradeço  aos  motociclistas  que  contribuíram 
com informações, sem as quais este trabalho não teria se realizado. 



 
FERNANDES,  Hiram  Souza.  A  relação  entre  as  Identidades  Territoriais  e  a  “nova 
urbanidade”: O caso das manifestações identitárias dos grupos de motociclistas em 
Salvador,  Bahia.  106  f.  il.  Dissertação  (Mestrado)  –  Instituto  de  Geociências, 
Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2012. 
 
 
RESUMO 
 
 
A  dissertação  de  mestrado  aqui  apresentada  refere-se  à  pesquisa  que  buscou 
compreender  as  relações  que  se  engendram  entre  as  identidades  territoriais,  no 
plano  do  cotidiano  urbano,  e  a  “nova  urbanidade”,  na  cidade  de  Salvador,  Bahia. 
Para  este  trabalho,  que  consiste  em  um  estudo  de  caso,  o  recorte  de  análise  está 
vinculado  aos  grupos  de  motociclistas  organizados  em  Moto  Clubes  (M.C.s).  A 
escolha pelos agregados identitários de motociclistas deveu-se ao interesse pessoal 
do  pesquisador  pelas  manifestações  culturais  que  apresentam  ideais  de  cultura 
diferentes  em  relação  à  cultura  hegemônica  “imposta”  pelas  diversas  esferas  do 
poder,  como,  por  exemplo,  as  do  poder  midiático  e  da  indústria  do  carnaval  em 
Salvador.  Além  disso,  a  escolha  revela  manifestações  de  um  agregado  identitário 
que  possui  características  extremamente  distintas,  baseando-se  em  Haesbaert 
(2007), no  que  diz  respeito ao  continuum  que  este  autor  apresenta,  caracterizando 
as  identidades  desde  a  “multiterritorialidade”  à  “reclusão  territorial”.  Esta,  por  sua 
vez,  reforça  a  segregação  e  o  fechamento  das  manifestações  identitárias.  A 
segregação  é  entendida  a  partir  de  Correa  (1989),  como  sendo  caracterizada  pela 
individualidade física e cultural, resultante do processo de competição impessoal que 
gera  espaços  de  dominação  dos  diferentes  grupos  sociais  levando-as  a  uma 
“reclusão  territorial”,  como  no  caso  de  determinados  grupos  de  motociclistas.  Por 
outro  lado,  a  “multiterritorialidade”  é  caracterizada  pelas  “identidades  híbridas”  que 
são  altamente  influenciadas  pelo  aumento  da  mobilidade  das  populações,  o  que  é 
notadamente  uma  característica  de  alguns  outros  grupos  de  motociclistas  que  são 
mais  abertos  aos  intercâmbios  culturais  e  a  uma  flexibilidade  na  materialização  do 
território. Tendo em vista essa diferenciação dos agregados identitários com base no 
continuum  proposto  por  Haesbaert  (2007),  tive  a  possibilidade  de  observar  e 
compreender  as  distintas  manifestações  de  diferentes  grupos  de  motociclistas 
através das experiências do espaço vivido. Tal fato contribui para a compreensão e 
o enriquecimento das reflexões sobre a constituição das territorialidades tendo como 
referência  as  identidades  territoriais.  A  compreensão  sobre  a  formação  de 
territorialidades  urbanas  em  Salvador  parte  ainda  das  discussões  sobre  a  “nova 
urbanidade”,  proposta  por  Carlos  (1997),  a  qual  se  materializa  no  espaço  e  se 
realiza no cotidiano da grande cidade, possibilitando que o surgimento / crescimento 
/  desaparecimento  das  manifestações  identitárias  na  cidade  contemporânea  parta 
das ideias de segregação social urbana e da tendência cada vez mais marcante do 
isolamento dos indivíduos, pela competição e pela individualidade, mesmo existindo 
um  movimento  dialético,  no  sentido  de  complementaridade,  que  através  de  uma 
convivência  solidária  possibilita  o  desenvolvimento  de  agregados  identitários 
diversos. 
 
 
 
Palavras-chave: identidade, território, Moto Clubes (M.C.s), nova urbanidade. 
 



 
FERNANDES,  Hiram  Souza.  The  relationship  between  the  territorial  identities  and 
the  “new  urbanity”.  The  case  of  the  expressions  of  identity  from  groups  of 
motorcyclists  in  Salvador,  Bahia,  Brazil.106  f.  il.  Master  Dissertation  –  Instituto  de 
Geociências, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2012. 
 
 
ABSTRACT 
 
The  Master  Dissertation  presented  here  refers  to  the  research  that  aims  to 
understand  the  relationships  between  the  territorial  identities,  in  terms  of  everyday 
urban life, and the "new urbanity" in the city of Salvador, Bahia, Brazil. For this work, 
which  consists  in  a  case  report,  the  clipping  of  analysis  is  linked  to  the  groups  of 
motorcyclists  that  are  associated  in  Motorcycle  Clubs  (M.C.s).  The  choice  of 
motorcyclist's  clusters  of  identity  was  made  due  to  the  personal  interest  of  the 
researcher by cultural manifestations that express ideals of culture that are different if 
compared  to  the  hegemonic  culture  imposed  by  various  spheres  of  power,  such  as 
the  media  power  and  the  industry  of  carnival  power,  in  Salvador.  Moreover,  the 
choice  reveals  manifestations  of  an  aggregate  of  identity  that  has  diverse 
characteristics,  based  on  Haesbaert  (2007),  with  respect  to  the  continuum  that  this 
author presents characterizing the identities since the "multiterritoriality" to "territorial 
seclusion". This, in turn, reinforces segregation and the closing of the manifestations 
of  identity.  Segregation  here  is  understood  by  Correa  (1989),  as  characterized  by 
physical and cultural individuality, resulting from the competition process that creates 
impersonal  spaces  of  domination  of  different  social  groups  leading  them  to  a 
"territorial  seclusion"  as  in  the  case  of  certain  groups of motorcyclists.  On  the  other 
hand,  the  "multiterritoriality"  is  characterized  by  "hybrid  identities"  that  are  highly 
influenced by the increased mobility of populations, which is mainly a feature of some 
other  groups  of  motorcycle  riders  who  are  more  open  to  cultural  exchange  and 
flexibility  in  the  materialization  of  the  territory.  In  view  of  this  differentiation  of 
aggregates of identity since the continuum proposed by Haesbaert (2007), I had the 
opportunity to observe and understand the different manifestations of different groups 
of  riders  from  the  experiences  of  lived  space.  This  fact  contributes  to  the 
understanding  and  enrichment  of  the  reflections  of  the  constitution  of  territorialities 
since  territorial  identities.  The  understanding  of  the  creation  of  the  urban 
territorialities  in  Salvador  also  begins  since  the  discussions  on  "new  urbanity", 
proposed by Carlos (1997). The "new urbanity" materializes itself in space and takes 
place  in  everyday  life  in  the  big  cities,  enabling  that  the  emergence  /  growth  / 
disappearance  of  the  manifestations  of  identity  in  contemporary  city  leads  from  the 
ideas of urban social segregation and the increasingly striking trend of the isolation of 
individuals,  by  competition  and  individuality.  This  happens  even  if  there  is  a 
dialectical  movement  in  the  sense  of  complementarity,  which  via  a  joint  of  possible 
coexistence leads the development of several groups of identity. 
 
 
 
 
 
Keywords: identity, territory, Motorcycle Clubs (M.C.s), new urbanity. 
 
 



 
 
LISTA DE ILUSTRAÇÕES E QUADRO 
 
 
Figura 1 
Cartograma de localização dos países com filiais do “Vermelho” 
M.C. 
59 
 
 
 
 
 
 
Figura 2 
Integrantes do HOG de Campinas-SP em passeio à cidade de 
Curitiba-PR. 
71 
 
 
 
 
 
 
Figura 3 
Integrantes do HOG de Campinas-SP em passeio à cidade de 
Curitiba-PR. 
72 
 
 
 
 
 
 
Figura 4 
Localização do Bairro do Rio Vermelho 
75 
 
 
 
 
 
 
Figura 5 
Transeuntes, frequentadores e motociclistas no “Largo da 
Mariquita”, Salvador, Bahia. 
76 
 
 
 
 
 
 
Figura 6 
Transeuntes, ambulantes e motociclistas no “Largo da Mariquita”, 
Salvador, Bahia. 
77 
 
 
 
 
 
 
Figura 7 
Motociclistas do “Cometas Gam M.C.” e “irmãos” de outros M.C.s 
em ação de entrega de cestas básicas e mantimentos na Escola 
Lar Mundo da Criança em Lauro de Freitas, Bahia. 
90 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 8 
Crianças da Escola Lar Mundo da Criança em Lauro de Freitas, 
Bahia, atendidas pela ação de solidariedade promovida pelo 
“Cometas Gam M.C.” e outros M.C.s parceiros. 
91 
 
 
 
Figura 9 
 
 
 
Mapa de localização dos pontos de encontro que constituem as 
territorialidades dos M.C.s de Salvador. 
 
 
 
98 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Quadro 
Comparativo dos grupos de motociclistas abordados na 
pesquisa. 
97 



 
SUMÁRIO 
 
 
1. Introdução ............................................................................................................ 10
 
 
1.1 Contextualização, Justificativa e Objetivos. ..................................................... 10
 
1.2 Metodologia ..................................................................................................... 17
 
 
 
 
2. Identidades e Identidade Territorial: contextualização teórica ....................... 21
 
 
2.1 Identidade + Território = Identidade Territorial? ............................................... 21
 
2.2 Contextualização dos agregados identitários abordados na pesquisa ............ 24
 
 
 
 
3. A “nova urbanidade” e a formação das identidades ....................................... 29
 
 
3.1 Entendendo o cotidiano ................................................................................... 29
 
3.2 O que é a “nova urbanidade”? ......................................................................... 34
 
3.2.1. A “lógica do automóvel” ............................................................................... 41
 
3.2.2. A “lógica da motocicleta” .............................................................................. 44
 
3.2.3. Os “enclaves fortificados” ............................................................................ 46
 
3.3 Marcas da “nova urbanidade” em Salvador ..................................................... 49
 
3.4 A relação dialética entre a “nova urbanidade” e a formação das identidades .. 52
 
 
 
 
4. Identidades Territoriais. Como atuam os grupos de motociclistas em 
Salvador? ................................................................................................................. 56
 
 
4.1 O  agregado  identitário  dos  motociclistas em Salvador. Anseios,  perspectivas, 
estratégias de ocupação do espaço e o relacionamento com a cidade. ................ 57
 
4.1.1 Sobre o “Vermelho” M.C.. ............................................................................. 58
 
4.1.2 Sobre o H.O.G. (Harley Owners Group) ....................................................... 67
 
4.1.3 Os Moto Clubes de Salvador reconhecidos pela AMO-BA ........................... 74
 
4.1.3.1. O “Harleyros M.C.” .......................................................................................... 77
 
4.1.3.2. O “Falcões Raça Liberta M.C.” ..................................................................... 81
 
4.1.3.3. O “Cometas Gam M.C.” e o “Alma Cigana M.C.” ....................................... 88
 
 
 
 
5. Considerações Finais ......................................................................................... 99
 
 
 
 
Referências Bibliográficas ................................................................................... 103
 
 


10 
 
1. Introdução  
 
1.1 Contextualização, Justificativa e Objetivos. 
 
As  Harley  são  diferentes  das  outras  motos.  A  Harley  é  um  dos  poucos 
exemplos  no  mundo  que  a  marca  vale  mais  do  que  a  própria  empresa. 
Quem  compra  uma  Harley  não  compra  só  uma  moto,  compra  também  um 
estilo  de  vida,  um  símbolo.  Uma  identidade,  sabe?  (Anthrax,  entrevista 
realizada pelo “chat” da rede social virtual “Facebook”, no dia 20/03/2012). 
 
Esta  afirmação,  feita  por  um  dos  entrevistados  do  trabalho,  sintetiza  de 
maneira  ímpar  o  pensamento  que  motivou  o  interesse  pela  pesquisa  aqui 
apresentada. Uma dissertação de mestrado que busca aprofundar o estudo sobre a 
manifestação  identitária  dos  grupos  de  motociclistas,  suas  convicções,  desejos, 
anseios,  e,  principalmente,  a maneira  como  o  grupo,  enquanto  identidade  territorial 
que  se  materializa  no  cotidiano,  se  relaciona  com  o  espaço  urbano  da  cidade  de 
Salvador. 
 
Os  estudos  e  pesquisas  sobre  as  identidades  e  manifestações  culturais  no 
Brasil vêm recebendo destaque cada vez maior no campo das Ciências Humanas e 
Sociais Aplicadas, incluindo a Geografia. Isso se dá em virtude das especificidades e 
da importância que tal tema adquire no Brasil, principalmente, a partir da década de 
1990,  com  a  criação  do  NEPEC  (Núcleo  de  Estudos  e  Pesquisas  sobre  Espaço  e 
Cultura) em 1993, no Departamento de Geografia da Universidade do Estado do Rio 
de Janeiro, mas também pela criação do NEER (Núcleo de Estudos em Espaços e 
Representações) em 2004, no Departamento de Geografia da Universidade Federal 
do Paraná, que, apesar de mais recente, tem se mostrado um importante grupo nas 
discussões  de  temas  através  da  abordagem  cultural  da  Geografia  Humana.  As 
pesquisas  e  discussões  desenvolvidas  no  âmbito  desses  grupos,  bem  como  em 
congressos e seminários, caracterizam-se por ser a base para a compreensão dos 
estudos  que  evidenciem  as  relações  entre  espaço  e  cultura,  incluídos  aí,  os  que 
abordam  os  conceitos  como  a  identidade  territorial  e  a  territorialidade.  As 
manifestações culturais que são expressas pelos chamados agregados identitários, 
apresentam-se  mais  diversificadas  na  atualidade  e  também  como  algo  que 
caracteriza  o  cotidiano  atual  dominado  pelo  mundo  urbano.  Estas  diversidades 
adquiriram,  primeiramente,  visibilidade  nos  espaços  das  grandes  metrópoles 
mundiais,  pois  é  nestes  espaços  que  se  concentra  a  maior  parte  das  populações 


11 
 
que se congregam em grupos através da acessibilidade à informação, técnicas e do 
conhecimento.  
Para  Carlos  (1997),  o  cotidiano  reproduzido  através  das  relações  entre  as 
pessoas  na  metrópole  e  os  novos  comportamentos  apresentados  por  seus 
habitantes produz o que a autora achou conveniente chamar de “nova urbanidade”. 
No  entanto,  a  autora,  além  de  considerar  que  essa  “nova  urbanidade”  representa 
comportamentos  mais  individualistas  e  individualizados,  acredita  que  existe  ainda, 
como  um  comportamento  residual,  a  possibilidade  do  encontro  com  “outro”,  com  o 
“diferente” e com os “iguais”, que permite a formação das identidades que atuam na 
produção  do  espaço.  Para  a  autora,  “o  homem  está  alienado  de  si  mesmo, 
manipulado,  preso  a  um  consumo  programado  que  separa  o  homem  do  outro, 
encerrado em seu universo pessoal”. (CARLOS, 1997, p. 207). 
Cabe aqui, deixar claro que compreendo o cotidiano, principalmente, a partir 
das considerações de Lefebvre (1978) que o define como:  
 
A substância do homem, a matéria humana, o que permite viver, resíduo e 
totalidade  ao  mesmo  tempo,  seus  desejos,  suas  capacidades,  suas 
possibilidades,  suas  relações  essenciais  com  os  bens  e  com  os  outros 
humanos,  seus  ritmos,  através  dos  quais  é  possível  passar  de  uma 
atividade delimitada  a outra totalmente diferente, seu tempo e seu espaço, 
ou  seus  espaços  e  seus  conflitos...
1
  (LEFEBVRE,  1978,  p.  88).  [nossa 
tradução] 
 
E também a partir das colaborações de Santos (1997) que considera: 
 
O cotidiano é essa quinta dimensão do espaço e por isso deve ser objeto de 
interesse  dos  geógrafos,  a  quem  cabe  forjar  os  instrumentos 
correspondentes  de  análise.  [...]  Na  verdade,  o  tempo  e  o  espaço  não  se 
tornaram  vazios  ou  fantasmagóricos  como  pensou  A.  Giddens,  mas,  ao 
contrário, por meio do lugar e do cotidiano, o tempo e o espaço, que contêm 
a  variedade  das  coisas  e  das  ações,  também  incluem  a  multiplicidade 
infinita  de  perspectivas.  Basta  não  considerar  o  espaço  como  simples 
materialidade,  isto  é,  o  domínio  da  necessidade,  mas  como  teatro 
obrigatório da ação,  isto é, o domínio da  liberdade (SANTOS, 1997,  p. 38-
39). 
 
Posto  isso,  é  interessante  explorarmos  as  relações  dialéticas,  onde  exista  a 
contradição,  entre  o  espaço  e  o  cotidiano.  Compreender,  portanto,  como  as  ações 
no espaço interferem no cotidiano e como o cotidiano atua nessas ações.  
                                                 
1
  La  substancia  del  hombre,  la  materia  humana,  lo  que  le  permite  vivir,  residuo  y  totalidad  a  un  tiempo,  sus  deseos,  sus 
capacidades,  sus  posibilidades,  sus  relaciones  esenciales  con  los  bienes  y  los  otros  humanos,  sus  ritmos,  a  través  de  los 
cuales le es posible pasar de una actividad delimitada a otra totalmente distinta, du tiempo y su espacio o sus espacios, sus 
conflictos. (LEFEBVRE, 1978, p. 88). 


12 
 
Acredito que as modernas relações cotidianas nas metrópoles, explicadas por 
Carlos (1997), levam a uma homogeneização e individualização, cada vez maior, de 
seus habitantes, mas, é cada vez maior, também, a necessidade da presença com 
os  iguais,  gerada  pela  própria  escassez  de  vida  coletiva  e  pela  insegurança, 
características essas, oriundas da “nova urbanidade”. 
No  entanto,  como  destaca  Bezerra  (2007),  num  mundo  global,  onde  a 
modernização  gerou  uma  tendência  à  homogeneidade,  torna-se  um  “triunfo 
essencial”  essa  diferenciação  através  da  identidade  cultural.  Por  isso,  a  autora 
reforça que a homogeneização global na contemporaneidade gera uma “fascinação 
pela diferença” e pela “mercantilização da alteridade”.  
Apresentadas essas discussões no plano geral, cabe destacar que o recorte 
particular deste trabalho é a cidade de Salvador onde foi verificada, no espaço intra-
urbano da metrópole baiana, a atuação dos agregados identitários dos motociclistas 
que abordo nesta pesquisa. No entanto, é importante mencionar que, inicialmente, a 
proposta  era  a  de  abordar  também  o  agregado  identitário  dos  emos  e  realizar  um 
estudo  comparativo  entre  estes  e  os  grupos  de  motociclistas.  Esses  grupos  que 
surgiram  como  interesses  iniciais  para  a  abordagem  na  pesquisa apresentavam-se 
bastante distintos entre si, mas também possuíam características em comum, como 
o  fato  de  representarem  manifestações  identitárias  de  cultura  alternativa  ao  grupo 
hegemônico do Rock e, além disso, se constituírem enquanto minoria no contexto da 
sociedade  soteropolitana.  Porém,  como  será  explicitado  logo  a  seguir,  não  foi 
possível prosseguir na pesquisa com o grupo dos emos. 
Embora  seja  possível  identificar  que  o  cenário  musical  da  capital  baiana 
esteja diretamente ligado à indústria do carnaval e a grande massificação através do 
Axé  Music,  é  possível  afirmar,  também,  dentre  os  apreciadores  do  estilo  musical 
Rock,  que  existe  um  cenário  específico  do  estilo  em  Salvador,  de  reconhecimento, 
inclusive, no cenário nacional.   
O  Rock  soteropolitano  ganha  força  nas  décadas  de  1970  e  1980  com  os 
nomes de Raul Seixas, e logo após da banda “Camisa de Vênus”, que nos dias de 
hoje é considerada, como um consenso entre os admiradores do estilo, uma grande 
influência  de  diversas  bandas  do  Punk  Rock.  Nos  anos  1990  vemos  surgir  outros 
nomes, também com respaldo no cenário nacional, tais como “The Dead Billies”, “Dr. 
Cascadura” e “Pitty”. Na atualidade são várias as bandas baianas com destaque na 
mídia  especializada  nacional,  principalmente  através  do  canal  de  televisão  “MTv”. 


13 
 
Nomes como “Cascadura”, “Retrofoguetes”, “Vivendo do Ócio” e “Maglore” figuram, 
inclusive,  em  festivais  e  premiações  realizados  pela  emissora  no  eixo  Rio-São 
Paulo.  Na  capital baiana, as  bandas, em  geral,  se  dividem  de  acordo  com os  seus 
subgêneros do universo do Rock, como, por exemplo, o Heavy Metal, o Punk Rock, 
o  Hardcore  e  o  Indie  Rock.  Bandas  e  produtores  realizam  shows  e  festivais  em 
determinadas  casas  noturnas  da  cidade,  na  maioria  das  vezes,  de  maneira 
independente, mas em alguns casos, com apoios e suporte do poder público através 
das  leis  de  incentivo  à  cultura.  Considero  que,  principalmente  o  grupo  dos 
motociclistas,  é  alternativo  dentro  desse  grupo  hegemônico  do  Rock  em  Salvador, 
pois apesar de serem apreciadores do estilo, não estão inseridos de maneira incisiva 
dentro  desse  circuito  de  festivais,  shows  e  bandas,  como  quem  produz  música  e 
eventos, mas se apresentam apenas como uma parte do público da cena. 
O  agregado  identitário  que  analiso  nesse  trabalho  é  o  daqueles  que  se 
organizam  através  de Moto  Clubes  (M.C.s)  para  reverenciar  estilos  de  vida  ligados 
às  motocicletas,  constituindo  dessa  maneira,  a  manifestação  de  identidade  do 
motociclista.  Não  podemos  deixar  de  considerar  a  motocicleta  como  uma 
mercadoria, que através dela se envolve um conjunto simbólico de representação de 
“liberdade” e “transgressão” envoltas em uma aura de “contracultura” que acaba por 
reproduzir  o  modo  de  produção  capitalista.  Os  M.C.s,  segundo  Thompsom  (2004), 
surgiram nos Estados Unidos, na década de 1940, formados, majoritariamente, por 
indivíduos  do  sexo  masculino,  com  idade  e  condições  financeiras  suficientes  para 
adquirirem as motocicletas e empenharem-se em viagens pelas estradas do país. 
Por  outro  lado,  o  grupo  de  jovens  caracterizados  como  emos,  se  unia  para 
reverenciar  estilos  de  vida  produzidos  pelos  meios  de  comunicação  na 
contemporaneidade.  Esses  jovens  possuíam  como  elo  comum  os  comportamentos 
específicos da pós-modernidade, ditados por estereótipos, moda, consumo e o gosto 
por músicas do estilo “Emocore”, que abordam letras com temas como: amores não 
correspondidos, infelicidade e o suicídio. O termo “emo” deriva do prefixo da palavra 
em inglês “emotional” e também do seu correspondente em português “emocional”, 
para  se  referir  à  importância  dada  às  emoções  e  sentimentos  ligados  ao  amor  na 
temática lírico-poética.  
O  termo  emo  é  de  difícil  conceituação,  o  que  talvez  possa  ratificar  o  caráter 
híbrido  que  envolve  esse  grupo.  Segundo  Greenwald  (2003),  o  termo  emo  pode 
significar  diferentes  coisas  para  diferentes  pessoas,  existindo,  na  verdade,  uma 


14 
 
massiva  subestimação.  Apesar  da  dificuldade  em  se  “rotular”,  quando  se  pensa no 
termo, a maioria das pessoas tem, previamente construída na mente, uma definição, 
que  em  grande  parte é  pejorativa.  Greenwald  (2003)  afirma  que o  termo emo  “tem 
sido uma fonte de orgulho, um alvo de escárnio, um sinal de confusão, e uma marca 
dos  tempos.”  (GREENWALD,  2003,  p.  1).  Para  se  ter  uma  ideia,  em  uma  breve 
busca na internet, foram encontrados 281.000.000 resultados para o termo emo no 
site google.com e cerca de 3.930.000 de vídeos no site youtube.com. 
Mas  afinal  de  contas,  quem  são  os  jovens  emos?  Greenwald  (2003,  p.  55) 
esclarece que  
 
[...] eles não são punks tradicionais, não são jovens indie rock frustrados ou 
universitários graduados desiludidos. Eles não usam óculos para parecerem 
legais  e  eles  não  usam  camisetas  retrô  para  impressionar.  [...]  Eles  são 
filhos  dos  subúrbios,  de  fora  das  grandes  cidades  e  à  margem  das  vias 
principais. Um caminho alternativo ao caminho batido. Jovens que surgem a 



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