Hfd revista, V. 5, n. 10, p. 73-90, ago/dez 2016 Uma análise crítica das condições de trabalho


As condições de trabalho nas atividades ligadas ao ramo têxtil



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8832-Texto do artigo-28251-1-10-20161201
As condições de trabalho nas atividades ligadas ao ramo têxtil
Até 1750, segundo Hobsbawm (2009), a maior parte das atividades econômicas 
e manufatureiras da Grã-Bretanha era rural, na qual o trabalhador era um artesão ou 
pequeno proprietário que trabalhava em casa. Aos poucos, essas pessoas foram se 
transformando em trabalhadores assalariados e as aldeias em que eles passavam seu 
tempo livre tecendo ou fazendo trabalhos de mineração transformaram-se em vilas 
industriais de tecelões ou mineiros em tempo integral, sendo que algumas viraram 
cidades industriais. 
Na obra “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, publicada em 1845, 
o filósofo alemão Friedrich Engels (1820-1895) relata as condições de vida dos ope-
rários da época. Para Engels (2008), os constantes avanços nas máquinas, levavam a 
diminuição da necessidade de operários, ocasionando o desaparecimento de muitas 
funções e a diminuição dos salários. Tanto na fiação quanto na tecelagem, o trabalho 
humano reduziu-se, principalmente, a reparação dos fios que se rompiam, já que 
as máquinas faziam o resto. Como esse trabalho não exigia força física e sim dedos 
ágeis, ao invés dos homens, era mais proveitoso contratar mulheres e principalmente 
crianças, estas últimas principalmente para tirar e repor bobinas. De qualquer forma, 
a maioria dos homens empregados nesse sistema, estava incapacitada para o traba-
lho aos 40 anos, poucos estavam aptos até os 45 e quase nenhum chegava aos 50.
Eram frequentes os acidentes de trabalho, que incluíam mutilações e esmaga-
mento de membros. Segundo Engels (2008), muitos acidentes ocorriam porque os 
operários queriam limpar as máquinas em movimento. Isso porque, o horário desti-
nado à limpeza coincidia com o seu horário de descanso, quando as máquinas esta-
vam paradas. 
Outra denúncia do autor revela que para evitar o deslocamento dos operários, 
os víveres eram vendidos em armazéns que pertenciam ao dono da fábrica (tommy 
shop), o que elevava os preços das mercadorias em 25% a 30% do seu preço nor-
mal. Para que o trabalhador não buscasse esse produto em outros locais, parte da 
remuneração consistia de vales que só podiam ser trocados no estabelecimento do 
patrão. A moradia das famílias de operários também era de propriedade dos patrões 
(cottage system), que arbitravam livremente o valor do aluguel. Em caso de desliga-
mento dos operários ou greve, o despejo acontecia num prazo máximo de oito dias.
A fabricação de rendas, com o uso de bilros era feita por crianças e jovens, tra-
balhando em pequenos cômodos mal arejados, sempre sentados e curvados sobre os 


Uma análise crítica das condições de trabalho na indústria têxtil 
desde a industrialização do setor até os dias atuais
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Tatiana Castro Longhi
Flávio Anthero Nunes Vianna dos Santos
bilros. Para manter o corpo nessa posição, as meninas usavam um corpete de madei-
ra, porém o uso deformava-lhes o externo e as costelas, atrofiando o tórax. A maior 
parte delas morria tuberculosa, depois de sofrer diversos distúrbios digestivos, em 
função do sedentarismo e da permanência em uma atmosfera asfixiante. (ENGELS, 
2008)
Embora muitos estudiosos afirmem serem desumanas as condições dos operá-
rios da indústria no período abordado aqui, existem opiniões em sentido contrário. 
Para o economista, historiador e professor de Stanford, Robert Hessen (2015), a in-
trodução do sistema fabril ofereceu sustento para crianças que não viveriam até suas 
adolescências nas eras pré-capitalistas. Embora a jornada de trabalho das crianças 
fosse muito longa, o trabalho era sempre muito fácil.
Os proprietários das fábricas não forçavam ninguém a aceitar trabalhar nas 
suas empresas; só podiam contar com aqueles que aceitassem os salários ofereci-
dos. Como afirma o professor Ludwig von Mises: “Mesmo que esses salários fossem 
baixos, eram ainda assim muito mais do que aqueles indigentes poderiam ganhar em 
qualquer outro lugar”. (1995 apud HESSEN, 2015).
No que tange às mulheres, para Hessen (2015), o sistema fabril ao contrário de 
miséria e degradação, oferecia independência econômica. Assim, as mulheres prefe-
riram trabalhar nas fábricas, em vez de aceitarem pesados serviços agrícolas ou em 
minas, e até mesmo o serviço doméstico; além disso, uma mulher com autonomia 
econômica, não seria levada ao casamento precoce.
Para Hessen (2015), a vida no campo não era tão idílica como observado em 
muitos relatos, pois nesse sistema, os trabalhadores faziam um investimento inicial 
custoso, para aquisição de um tear ou um filatório, e arcavam com a maioria dos 
riscos especulativos envolvidos
1
. Ao optarem por trabalhar nas fábricas, a sua casa 
deixara de ser uma fábrica de miniatura, tornando-se mais confortável, quieta e higi-
ênica. 
Novamente é possível encontrar em Engels (2008), oposição a essas afirma-
ções, pois ele reconhece que as condições de vida dessas pessoas, especialmente a 
das crianças eram desfavoráveis fora das fábricas, mas afirma que essas condições 
também foram criadas pela elite da época. Destaca que se não fossem fiscalizada, 
essa elite iria tratar os operários de modo ainda mais abusivo. Conforme relatório da 
Factories Inquiry Commission, de 1833, os fabricantes às vezes chegavam a empre-
gar crianças de cinco anos, mas frequentemente as de seis e sete anos, sendo que a 
maioria tinha entre oito e nove anos. A jornada de trabalho durava de catorze a de-
zesseis horas (não inclusas as pausas para refeição). Era permitido que os vigilantes 
castigassem fisicamente as crianças, quando não eram os próprios patrões que o 
faziam. 
1 Como explica Hobsbawm (2009) a maioria das atividades, incluindo a produção de vestuário, continuava a empregar métodos inteiramente tradicionais, sendo 
limitada a utilização de novos materiais. Em face da enorme expansão da procura, os industriais complementavam sua produção fabril com a utilização de algo 
semelhante ao sistema domiciliar. Pode-se perceber que, a fim de complementar a produção das fábricas, os empresários da época recorriam a uma espécie de 
terceirização da produção, que era feita nas casas dos camponeses, em oficinas domésticas.


Tatiana Castro Longhi
Flávio Anthero Nunes Vianna dos Santos
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