Hfd revista, V. 5, n. 10, p. 73-90, ago/dez 2016 Uma análise crítica das condições de trabalho



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8832-Texto do artigo-28251-1-10-20161201
Discussão
Alguns pontos podem ser levantados para discussão, uma vez que é possível 
observar uma correspondência entre questões que existiam no início da Revolução 
Industrial e que ainda se mantém atuais.
A sazonalidade inerente à indústria da moda, bem como a influência da mídia 
em uma sociedade cujos valores são pautados no consumo, colaboram para a ma-
nutenção de um sistema produtivo acelerado. É o caso do fast fashion, um padrão de 
produção que lança pequenas coleções de roupas que devem ser vendidas rapida-
mente e substituídas por outras, a um baixo custo para o consumidor e sem grandes 
pretensões em temos de qualidade e durabilidade do produto. Esse sistema é empre-
gado por grandes varejistas, como Zara, H & M, GAP etc., e no Brasil por lojas como 
Renner, C & A, Marisa e diversas outras. De acordo com Burns e Bryant (2007) para 


Uma análise crítica das condições de trabalho na indústria têxtil 
desde a industrialização do setor até os dias atuais
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que este modelo de negócios funcione é preciso que haja agilidade no fornecimento 
e produção, com baixo custo e tempo reduzido.
Na opinião de Boriello (2016), o ritmo acelerado do fast fashion, em função da 
variedade e da rapidez com que esse sistema entrega novas coleções a preços aces-
síveis à grande massa, está diretamente ligado às condições de trabalho. Isso porque, 
essa demanda é atendida por países com baixíssimo custo de mão de obra, em regi-
me de exaustão do trabalhador, que passa extensas horas nas máquinas e com baixa 
remuneração. As condições dos locais também são precárias e o maquinário é frágil 
e desgastado. 
Um processo semelhante ocorreu no século XVIII, quando a demanda por têx-
teis cresceu e os teares passaram por melhorias que aumentaram a atividade da te-
celagem, exigindo a contratação de um grande número de trabalhadores. Porém as 
condições de trabalho exigiam um ritmo de trabalho demasiadamente acelerado, o 
que causava acidentes de trabalho e jornadas exaustivas para homens, mulheres e 
crianças. Em função da grande demanda, a força de trabalho foi reforçada com a vin-
da de imigrantes que, assim como as mulheres e crianças, também aceitavam salários 
menores. 
Atualmente, imigrantes que deixam os seus países por motivos de guerras e 
questões políticas, costumam encontrar vagas em sweatshops, especialmente no 
ramo da confecção de vestuário. As peças confeccionadas, muitas vezes recebem 
etiquetas de grandes marcas de moda do mundo todo, inclusive de Paris. Embo-
ra essa prática proporcione uma considerável economia em custos fixos (mão de 
obra) para as empresas que recorrem a esses prestadores de serviço “alternativos”, as 
perdas sociais são difíceis de mensurar. Cabe o questionamento em relação a trans-
ferência do trabalho para um terceirizado e se assim também há a transferência da 
responsabilidade social, ambiental e trabalhista para o empregador direto. 
O emprego de mão de obra infantil ainda é uma prática recorrente em muitas 
empresas ligadas à moda. Destas crianças, a maioria não estuda e habita em condi-
ções precárias, pois ao final da jornada, parte desses trabalhadores dorme dentro da 
própria fábrica, enquanto outros moram próximo ao trabalho em quartos alugados 
em prédios em condições semelhantes à das fábricas. O que remete ao sistema da 
tommy shop (comércio de víveres) e do cottage system (casas de aluguel), ambos do 
empregador. 
Ao empregar crianças em funções de adultos, além de violar o direito da criança 
a sua formação escolar, o empregador ainda impõe riscos à saúde de um ser humano 
cuja estrutura física ainda não está completamente formada. Deformações na coluna 
vertebral, alterações de crescimento, problemas de visão, são alguns dos prejuízos 
causados por atividades exercidas dentro das sweatshops, podendo chegar a ampu-
tações e eletrocussões.
No que concerne ao trabalho feminino, predominante no ramo têxtil, diversos 
são os aspectos a se considerar. Para Souza-Lobo (1991), o primeiro obstáculo a ser 
superado pelas operárias é a dupla jornada, pois além da baixa remuneração no tra-
balho a mulher desempenha funções domésticas não remuneradas. Segundo a au-
tora, existe uma ideologia sobre o lugar da mulher na família e sua vocação “natural” 
para a maternidade. 


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A partir do século XVIII, quando as mulheres começaram a deixar o lar em tem-
po integral, para dedicarem a maior parte do seu tempo ao trabalho na fábrica, houve 
uma ruptura no sistema familiar tradicional. Para Engels (2008) essa necessidade da 
mulher de ajudar a compor a renda familiar, foi a causadora de uma subversão na 
ordem dentro da família, ou seja, se o marido recebesse uma remuneração digna 
e justa, teria condições de prover sozinho o sustento do lar e de toda a sua família. 
Dessa forma, a princípio, continuaria sendo responsabilidade exclusiva da mulher o 
cuidado do lar e das crianças. 
A independência da mulher ao longo dos séculos vem sendo conquistada aos 
poucos e em função de uma série de mudanças que vem ocorrendo na sociedade 
como um todo. Naquele momento histórico, porém, parece não ter sido uma esco-
lha das mulheres o trabalho nas fábricas, mas a única alternativa frente à fome e a 
miséria. Para Hessen (2015) essa conjunção econômica e social favoreceu a emanci-
pação feminina, promoveu a adiamento dos casamentos precoces e da dependência 
financeira da mulher em relação ao marido e, assim sendo, não teria sido necessaria-
mente prejudicial.
Outro fator importante que pode ser relacionado ao trabalho feminino, espe-
cialmente no setor de confecção do vestuário, seria a qualificação para o trabalho. 
Para Souza-Lobo (1991, p. 259), “...as qualificações femininas – os talentos das mu-
lheres – não configuram qualificações formais e não encontram correspondência em 
termos de carreira ou de salário”. As habilidades para o trabalho industrial são con-
sideradas inatas, tais como destreza, rapidez, concentração, disciplina etc., porque 
dispensam cursos e diplomas. 
Todas essas demandas advindas da relação entre patrões e empregados de uma 
certa forma contribuem para o aperfeiçoamento das máquinas, como já vem acon-
tecendo ao longo da história. Atualmente já existem diversos movimentos por parte 
da indústria global no sentido de robotizar a produção, substituindo o homem pela 
máquina sempre que possível, nas funções operacionais. Nos Estados Unidos, cuja 
manufatura era quase totalmente feita no exterior, o Fundo Walmart está financiando 
pesquisas para o desenvolvimento de um sistema completo de robotização da cos-
tura. Na Alemanha, a Adidas está instalando na cidade de Ansbach a sua primeira fá-
brica totalmente automatizada e robotizada, a Speed Factory. Inclusive o governo da 
China vai investir bilhões para que grande parte de suas fábricas estejam robotizadas 
até 2020, incluindo o setor têxtil e de confecção. (BORIELLO, 2016).

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