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O trabalho vivo em ato e o processo de trabalho em saúde



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O trabalho vivo em ato e o processo de trabalho em saúde
Como você pôde ver nas observações que fez do processo de trabalho, há situações em que o mes-
mo  é  dominado  pela  “tecnologia  dura”  e/ou  “Leve-dura”,  ou  seja,  o  trabalhador  valoriza  mais  o 
instrumento que tem à mão, do que a atitude acolhedora que pode e deve ter em relação ao usu-
ário, quando faz o atendimento. Isso significa que, muitas vezes, a relação, o diálogo e a escuta são 
colocados em segundo plano, para dar lugar a um processo de trabalho centrado no formulário, 
protocolos, procedimentos, como se esses fossem um fim em si mesmos. O resultado último que se 
pretende é o de reduzir o sofrimento, melhorar a qualidade de vida, criar autonomia nas pessoas 
para viverem a vida.
Imaginemos que há sempre várias formas de se comportar com o usuário durante o trabalho de 
assistência à saúde. Por exemplo, pense em um trabalhador fazendo uma entrevista. Ele pode fazer 
essa atividade de duas formas distintas, quais sejam: 1° - O profissional pega um roteiro/questioná-
rio, mal cumprimenta o usuário e começa a fazer as perguntas, olhando e anotando no questionário 
à sua frente. Restringe-se às perguntas, age de modo formal, distante e frio. 2° - O profissional pode 
ter o roteiro/questionário que lhe serve de guia, mas abre espaço para a fala e a escuta do usuário 


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Qualificação Profissional: Agente Comunitário de Saúde -  Unidade 1: O Agente Comunitário de Saúde e o SUS
sobre aspectos não roteirizados, realiza uma introdução que o deixa mais à vontade, a fala não se 
restringe às perguntas do questionário, troca olhares, interage, discute os problemas percebidos, 
qualifica a atenção e o cuidado.
No primeiro caso, podemos dizer que o processo de trabalho de produção da anamnese foi domina-
do pela tecnologia dura representada nesse ato pelo instrumento roteiro/questionário. Houve uma 
substituição dos atos de fala e escuta, para a linguagem fria do texto do roteiro, ao qual o trabalha-
dor ficou preso. Isso reduziu de alguma maneira o aspecto relacional desse trabalho. Já no segundo 
caso, o aspecto relacional é valorizado, isto é, há o domínio da tecnologia leve no processo de tra-
balho, servindo o instrumento apenas como seu auxílio. Nesse caso, a relação entre trabalhador e 
usuário torna-se dinâmica, há valorização dos gestos mútuos de cuidado e produção da saúde.
Mas o que torna o trabalho, quando realizado de forma centrada nas tecnologias leves, mais produ-
tivo e interessante para o usuário e o trabalhador de saúde? Que aspectos vão se organizando para 
que ele ganhe essa dinâmica e maior resolutividade?
De novo nos valemos de Merhy (1997, 2002) para dizer que as tecnologias leves são aquelas mais 
dependentes do Trabalho Vivo em ato.
Ao ler a expressão acima, seria natural que você se dividisse entre dois sentimentos: o da sua beleza 
“trabalho vivo” e a curiosidade em relação ao seu significado. Estaria se perguntando: “e há trabalho 
morto?” A resposta é sim, há trabalho morto e vamos falar de ambos a seguir.
Trabalho Vivo é a expressão que dá significado ao trabalho em ato, isto é, no exato momento da 
sua atividade produtiva (Merhy; 1997, 2002; Franco, 2003). Trabalho  morto são máquinas  e ins-
trumentos, possuem esse nome porque sobre as máquinas e instrumentos existentes já se aplicou 
determinado trabalho anterior, ou seja, eles já trazem uma carga de trabalho pregresso, que lhes 
deu forma e função.
Quando o processo de trabalho é comandado pelo trabalho vivo, o trabalhador tem uma grande 
margem de liberdade para ser criativo, relacionar-se com o usuário, experimentar soluções para os 
problemas que aparecem e, o que é mais importante, interagir, inserir o usuário no processo de pro-
dução da sua própria saúde, fazendo-o sujeito, isto é, protagonista de seu processo saúde-doença. 
Já quando hegemonizado pelo trabalho morto, o processo de trabalho é pré programado, porque 
fica sob o comando dos instrumentos, age como se ele fizesse um aprisionamento do trabalho vivo, 
limitando a ação do trabalhador àquilo que já foi determinado pela programação da máquina, pro-
tocolo, formulário etc. Aqui há pouca interação entre trabalhador e usuário, construção de sujeitos 
nesse encontro realizado para produzir o cuidado. Há apenas um processo frio e duro de produção 
de procedimentos.
Toda atividade produtiva envolve sempre o Trabalho Morto e o Trabalho Vivo em ato, para que se re-
alizem os produtos desejados. No processo de trabalho, um deles tem a hegemonia e determina, no 
caso da saúde, o perfil da assistência. Voltando ao nosso exemplo, em que um trabalhador de saúde 
vai fazer uma anamnese, podemos dizer que o roteiro/questionário é trabalho morto e os atos de 
fala, escuta, olhares são trabalho vivo em ato. Quando o roteiro comanda o processo de trabalho 
(1° caso), podemos dizer que é um processo de trabalho que tem hegemonia do trabalho morto e é 
dependente das tecnologias duras. Quando há o inverso (2° caso), há hegemonia do trabalho vivo, 
lugar próprio das tecnologias leves.



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