Grupo modelo augusto severo (1908-1928): prática pedagógica e formaçÃo de professoras



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GRUPO MODELO AUGUSTO SEVERO (1908-1928): PRÁTICA PEDAGÓGICA E FORMAÇÃO DE PROFESSORAS
Francinaide de Lima Silva – UFRN

francinaide_pedagog@yahoo.com.br


Maria Arisnete Câmara de Morais – UFRN

arisnete@terra.com.br

Palavras – chave: História da Educação. Prática Educativa. Grupo Escolar Modelo.

Situando práticas culturais no Grupo Modelo: a leitura e a escrita

O presente texto resulta de uma pesquisa concluída sobre a prática pedagógica no Grupo Escolar Augusto Severo, em Natal, primeira instituição do gênero no Estado do Rio Grande do Norte. O referido estabelecimento foi criado pela Lei n. 249, de 22 de novembro de 1907, que autorizou o Governo a reformar a Instrução Pública, dando especificamente ao Ensino Primário moldes mais amplos e garantidores de sua proficuidade. O Decreto n. 178, de 29 de abril de 1908, autorizou seu funcionamento e a instalação da Escola Normal de Natal para a formação dos professores consoante a Moderna Pedagogia. A Escola Normal de Natal preparava os professores primários de ambos os sexos para atuar em uma rede de Grupos Escolares instalados no Estado.

O Grupo Escolar Augusto Severo foi instalado a partir do Decreto n. 174, de 5 de março de 1908, o qual estabelecia que pelo menos duas cadeiras de ensino primário fossem instaladas nesse estabelecimento. É inaugurado em 12 de junho do mesmo ano em representativa festa cívica no centro cultural e urbano da cidade de Natal a época, o bairro da Ribeira. Através do Decreto n.198, de 10 de maio de 1909, o Grupo Escolar Augusto Severo passou à condição de instituição modelo para o ensino elementar e para a prática dos normalistas.

As ações que ocorreram no período em recorte eram tentativas de organização educacional por meio da Reforma do Ensino Primário (Lei n. 249, de 22 de novembro de 1907) e da Reforma do Ensino (Lei n. 405 de 29 de novembro de 1916).

Fundamentamo-nos na História Cultural definida através da conjunção da história dos objetos na sua materialidade, das práticas nas suas diferenças e das configurações, dos dispositivos nas suas variações. Para tanto, nos respaldamos em autores como Chartier (1990), Duby (1993) e Morais (2003). Utilizamos os jornais A República e Diário do Natal, a revista Pedagogium, as Leis, Decretos e Mensagens do Governo, Códigos de Ensino e o Regimento Interno dos Grupos Escolares, documentos procedentes do acervo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN) e fontes iconográficas, provenientes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN/RN).

No Arquivo Público do Estado (APE/RN) pesquisamos os Livros de Inscrição dos Grupos Escolares e Escolas Isoladas, Ofícios, Matrículas, Relatórios e Atas de reuniões da Diretoria Geral da Instrução Pública e Diários de Classe.

Analisamos a ação dos docentes nesta instituição primária, assim como a história das disciplinas escolares, dos programas de ensino, bem como dos livros de leitura. Ao problematizarmos conteúdos e métodos, observamos que o método intuitivo era a tônica da prática pedagógica vigente e que os ritos de premiação e as festividades cívicas compunham o ideário modernizador da época. Ressaltamos a importância dada a leitura e a escrita na escola primária numa sociedade que se pretendia letrada. 

Buscamos identificar as disposições específicas que distinguem a comunidade de leitores e as tradições de escrita na formação da sociedade letrada norte-rio-grandense. Reconstruir as redes de aprendizados que organizam, histórica e socialmente, os modos diferenciados de ler e escrever os quais se configuram em gestos e em hábitos aprendidos no espaço escolar é uma tarefa revestida de dificuldades.

As fontes de nossa análise registram como os professores devem instruir ou educar seus alunos. Os Regimentos Escolares, os Diários de Classe, as reflexões de intelectuais mostram maneiras de fazer, não o que foi feito. Os documentos que se descortinam permitem comparar a instituição Grupo Escolar do ponto de vista administrativo, político e social. Mas o seu cotidiano permanece envolto nas brumas do passado. Como seriam os gestos, as frases que caracterizavam as relações que se estabeleciam entre professor e alunos? Estes documentos não informam sobre o trabalho dos alunos. Tentamos estabelecer o confronto entre o ensino desejado com a aprendizagem concreta a partir dos vestígios que os nossos professores legaram à contemporaneidade. O que sabemos a respeito das práticas de escrita e de leitura a partir das fontes disponíveis? Na tentativa de compreender estas marcas de aprendizagem recorremos à análise das práticas educativas nos Grupos Escolares no início de sua formação e criação no Rio Grande do Norte.

As práticas de ensino da leitura e escrita nos Grupos Escolares tinham por finalidade a formação da sociedade letrada norte-rio-grandense. Neste período a leitura e a escrita revestem-se de importância, uma vez que tornam-se conhecimentos articulados à possibilidade de transmitir aos cidadãos os valores republicanos por meio dos Livros de Leitura. As práticas de leitura e escrita são produções culturais que agregam as características e as formas de fazer da época nas quais estão circunscritas. Estas atividades indissociáveis têm sua história marcada por variações. Chartier (1999, p.17) assevera que uma história da leitura não deve, pois, limitar-se à genealogia única de nossa maneira contemporânea de ler em silêncio e com os olhos. Por isto, uma história das maneiras de ler e escrever deve identificar as disposições específicas que distinguem as comunidades de leitores e as tradições de escrita. Este entendimento nos permite afirmar que o ato de ler e escrever são práticas que se configuram em gestos, em espaços, em hábitos.

Os Diários de Classe mostram que a escola divide os saberes em disciplina, definidas pelo conteúdo a ser trabalhado. Um conteúdo humanístico preocupado com o ensino da moral e do civismo numa escola republicana, entre 1908 a 1920. Como ensinar a moral republicana?

Os registros da professora Josefa Botelho, em 12 de agosto de 1919, evidenciam as lições destinadas aos alunos e fazem referência à Cartilha Ensino Rápido da Leitura, de Mariano de Oliveira. Pelo número de edições dessa cartilha evidencia-se o seu grau de aceitação nos Grupos Escolares do período. Nos apontamentos da professora estão dispostas as disciplinas que compunham o programa de ensino e o respectivo conteúdo a ser trabalhado durante a aula. Observamos que era o Livro de Leitura um recurso ao qual a professora recorria para o ensino de diferentes matérias.

A preocupação da professora, neste momento é com o espaço geográfico. A criança e o mundo; no entanto, não tivemos acesso às respostas dessas crianças quanto às atividades solicitadas. A prática de escrita proposta seria a cópia das frases: “A terra é iluminada pelo sol” e “Glorinha gosta de livros de figuras” (BOTELHO, 1919). As citações a serem escritas, evidenciam o caráter dos ensinamentos ministrados nos Grupos Escolares e o suporte textual utilizado nas lições de leitura e escrita. No que diz respeito à Leitura, a lição fazia parte da Cartilha Ensino Rápido da Leitura, de Mariano de Oliveira, cuja primeira edição data de 1917. No quesito Demonstrações, do referido diário da professora primária, há o apontamento especificando a lição do livro. A lição a qual o registro docente se refere apresenta a concepção de alfabetização usada na Escola Primária e evidencia que as lições de leitura e escrita serviam ao ensinamento das demais matérias do programa de ensino escolar. Conforme Deiró (2005) as exortações às virtudes, bem como a valorização da Pátria, do trabalho, da natureza eram contínuas. Sentenças utilizadas pela professora Josefa Botelho reforçam a ideia de que as lições de coisas tentavam incutir na criança as bases de uma educação moral e cívica. As ideias disseminadas nos livros escolares deveriam ser seguidas pelas crianças. Frases como “A bandeira é o retrato da pátria”, “É útil evitar as más companhias” e “O álcool perverte o caráter e os sentimentos” (BOTELHO, 1919) eram usadas para instruir os alunos quantos aos códigos morais.

As orações: “Ofélia já está no Grupo Escolar”, “Ela já sabe ler, escrever e contar”, “Hoje ela teve uma lição de geografia”, expressam as particularidades da educação primária no início do século passado, bem como o orgulho de pertencer à uma instituição escolar. O modelo escolar, os conhecimentos escolarizados e as intenções educativas de outrora são ressaltadas. Os textos mostram os valores a serem incutidos nos meninos e meninas que frequentavam o Grupo Escolar. Para as meninas o ensino valorizava atributos como leitura, considerado de bom tom para seu papel social de mãe, esposa, professora. Enquanto os meninos realizavam performances que condiziam com sua função de cidadão. Contudo, ambos contribuiriam para a formação da nação. A lição evidencia o papel socialmente construído para meninos e meninas. Locuções como “O Clóvis quer ser soldado”, “Glorinha gosta muito de livros”, “Ela quer ir para o jardim de infância”, sugere valores morais que se pretende disseminar na sociedade. Não esquecer que esta cartilha surge em um contexto em que no Brasil há o projeto de construir a sociedade letrada no qual a educação é entendida como elemento essencial de mudanças e transformações (MORAIS, 2003, p.59). Um momento de renovação de valores no qual a moral e o civismo faziam parte deste projeto. O culto à Pátria se destacava. As mensagens morais, sugerindo comportamentos virtuosos, constituem os textos dos Livros de Leitura destinados à Escola Elementar. Lições como “O menino honrado” (CARVALHO, 1934b, p.94) denotam as chamadas boas maneiras, padrões de comportamento da família burguesa transmitidos às crianças como regras universais. Estes valores legitimam os saberes e costumes da cultura dominante como os válidos e descredenciam os conhecimentos provenientes da cultura popular.

Na Cartilha Ensino Rápido da Leitura é nítida a construção dos papéis sexuais das crianças na sociedade, expressa textualmente ou nas ilustrações. As leituras vinculam a boneca à figura feminina e a bola e o boné como objetos circunscritos ao universo masculino. Neste sentido, períodos como “O menino tem uma bola” e “A menina tem uma boneca” são usados para o ensino da leitura e da escrita, mas também para incutir os valores tidos como necessários à criança. Temas como os deveres do menino relativos à escola, a assiduidade, o trabalho e o cuidado com o asseio do corpo eram tratados com uma maior veemência nos livros. Recomendava-se para as meninas em idade escolar uma boa educação que consistia em “não se apresentar na escola com vestidos em desalinho e enodoados de tinta ou de qualquer outra coisa que os enxovalhe. Unhas aparadas e limpas, ter o cuidado em tudo que constitui a higiene” (MORAIS, 2008, pp.93-94).

Segundo os manuais de conduta os alunos deveriam apresentar-se com asseio, higiene do corpo, decência e pontualidade na instituição de ensino. Em Elementos de educação escolar: para uso nas escolas primárias de um e de outro sexo (1885), manual da escritora e professora Isabel Gondim, eram valorizadas as noções de educação moral e de aspectos relativos à religião, bem como de civilidade, higiene e caligrafia (MORAIS, 2003, p.61). Os alunos deveriam mostrar-se cortez e bem educado, com um tratamento ameno e afetuoso com colegas, funcionários e visitantes.




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