Governo do estado da bahia



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Auto do

Descobrimento

(o romanceiro de vagas descobertas)



Universidade Estadual de Santa Cruz

GOVERNO DO ESTADO DA BAHIA

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SECRETARIA DE EDUCAÇÃO

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ

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diretora da editUs

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Conselho editorial:

Maria Luiza Nora – Presidente

Antônio Roberto da Paixão Ribeiro

Elis Cristina Fiamengue

Fernando Rios do Nascimento

Jaênes Miranda Alves

Jorge Octavio Alves Moreno

Lino Arnulfo Vieira Cintra

Lourice Salume Lessa

Lourival Pereira Junior

Maria Laura Oliveira Gomes

Marileide Santos Oliveira

Paulo dos Santos Terra

Ricardo Matos Santana




Auto do

Descobrimento

(o romanceiro de vagas descobertas)

Ilhéus - Bahia

2007

Jorge de Souza Araujo



2ª edição - revista e ampliada


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Ficha catalográfica: Elisabete Passos dos Santos - CRB5/533

©1997 by J

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2ª edição: 2007

Direitos desta edição reservados à

EDITUS - EDITORA DA UESC

Universidade Estadual de Santa Cruz

Rodovia Ilhéus/Itabuna, km 16 - 45662-000  Ilhéus, Bahia, Brasil

Tel.: (73) 3680-5028 - Fax: (73) 3689-1126

http://www.uesc.br/editora     e-mail: editus@uesc.br

Capa e ilUstrações

Marilda Castanha



diagramação

George Pellegrini



revisão

Maria Luiza Nora

EqUIPE EDITUS

Direção de Política Editoral: Jorge Moreno; Revisão: Maria Luiza 

Nora, Aline Nascimento; Coord. de Diagramação: Adriano Lemos;



Designer Gráfico: Alencar Júnior.

A658 


Araujo,  Jorge de Souza.

 

  Auto do descobrimento (o romanceiro de vagas desco-



 

bertas) / Jorge de Souza Araújo. – 2.ed. rev. e ampl. -

 

Ilhéus : Editus, 2007.



 

  98p. : il.

                     

 

  ISBN: 978-85-7455-132-6



                       1.Teatro histórico. I.Título

 

  



                                                                         CDD – 869.925


exercício de saberes

de vagos descobrimentos

de ondas em vãos momentos

de nadas e de não seres





Para

Izi, Ciça, Elisa e Bárbara, filhas,

Jorge Marcelo e Gabriel, netos,

e para


Valdelice Pinheiro,

Jane Kátia Voisin,

Baísa Nora

e Carla de quadros Araújo

— vagas do amor absoluto

descobertas nada vagas





Histórico de contradições

Maria Theresa Abelha Alves

Esta obra da moderna dramaturgia brasileira utiliza um 

gênero herdado do teatro vicentino e transportado para o Brasil 

pela didática jesuítica — o auto — e conjuga-o com outra for-

ma quinhentista portuguesa, mas que ainda se mantém viva no 

nordeste brasileiro — o romanceiro. Com esse efeito de citação, 

propõe uma outra versão para o descobrimento do Brasil, versão 

que descobre o que a história oficial encobriu e que ensina o quão 

efêmeros são os descobrimentos. O cenário do auto é a paisagem 

de Porto Seguro. Além das personagens históricas, contracenam 

neste auto portugueses, índios e negros. Espaço e personagens 

metonimizam o Brasil e sua pluralidade racial.

Composto em 1980, no período final da ditadura militar, 

este auto rouba dos jesuítas a intenção didática, procurando cate-

quizar os brasileiros (no caso leitores da obra ou público presente 

à sua representação) para uma outra atitude frente aos fatos e à 

vida: a reflexão. Sendo assim, o auto é um convite ao pensamento 

questionador e criativo. No Brasil, durante os anos amordaçados, 

a literatura se fez a interlocutora social que o autoritarismo não 

conseguiu  silenciar.  Se  a  ditadura  fornecia  uma  história  oficial 

de onde se suprimiam as heterogeneidades, impondo sua lógica 

social por meio de uma visão ingênua, teleológica, unidirecional, 

cabia à literatura iluminar a assimetria entre o representado e a re-

presentação, e investir no reconhecimento de que a lógica é pro-

duto de constructos sócio-culturais. É com semelhante intenção 

desconstrutora que Jorge de Souza Araujo, simultaneamente à ce-

lebração da chegada das naus de Pedro Álvares Cabral às águas de 




Porto Seguro, conta, com letra nova, a velha história para servir 

de exemplo ao presente. Se dúvidas podiam ser lançadas à história 

oficial da Descoberta do Brasil, fato definido no passado, dúvidas 

podiam ser lançadas sobre o registro histórico de fatos contem-

porâneos. Elabora, assim, teoreticamente, a relação do país com 

sua temporalidade, fornecendo alternativas problematizadoras 

do racionalismo e monologismo oficiais. Para tanto, ao se voltar 

para o emblemático ano de 1500, investe na multitemporalidade, 

desmontando o tempo cronológico e retilíneo da história, pro-

pondo, em contrapartida, a simultaneidade temporal, questio-

nando, por conseguinte, toda a colonização e todo colonialismo. 

Auto do Descobrimento pode inserir-se assim na literatura dita “da 

resistência”, revelando um outro modo de crer na história que 

consiste em negá-la como verdade única.

De um saber intertextual, dialogante com a cultura euro-

péia que os navegantes trouxeram em suas caravelas, com as man-

dingas e batuques trazidos pelos navios negreiros, e com todo o 

hibridismo que caracteriza uma cultura de fronteira, como é a 

brasileira, faz-se o auto, composto de um monólogo inicial e um 

final e de cinco romances.

Para os monólogos é convocada a figura do CEGO, figura 

bissêmica: de um lado o ancestral aedo, tal como o concebera a 

tradição da Grécia antiga; de outro, o cego-cantador que difunde o 

cordel nas feiras e festas sertanejas. O CEGO, recontextualizando 

versos de Os Lusíadas e de Mensagem, apropria-se do discurso do 

colonizador nas versões poéticas que o celebraram, ao celebrarem 

a “gente que cruzou a Taprobana” e “o começo involuntário” (p. 

6-17) para, ao fragmentar o cânone literário português em suas 

figuras de proa — Camões e Fernando Pessoa —, fomentar uma 

versão nova para os velhos fatos. O CEGO recusa-se a reproduzir 

a versão oficial, porque aprendeu, com a linguagem aforística do 




vulgo, que “brasa ao seio deita/ quem se honra com erro alheio” 

(p. 18). Confirma, portanto, no seu monólogo, a condição de “li-

vre enredo” (p. 17) da história que se encena. No monólogo final, 

retoma o “plaudite” das comédias de Plauto e de Terêncio, como 

fora retomado pelo teatro quinhentista. O pedido de aplauso é, 

no entanto, assumido como efeito de distanciamento que possi-

bilita a revisão crítica, à maneira do teatro épico de Brecht, por 

isso o CEGO convoca, imperativamente, a platéia a refletir.

O primeiro “romance” tem como protagonistas os nave-

gadores Cabral, Bartolomeu Dias e Nicolau Coelho. O primeiro 

apresenta-se destituído da glória com que se pintam os heróis, 

pois é um desconhecido, não bafejado pelos ares dos fados e 

dos sucessos, movido pela “mor ventura [de] servir longo ao rei, 

dar-lhe riqueza” (p. 21), movido, portanto, pela “vã cobiça” que 

o Velho do Restelo definira como sendo o dínamo das viagens 

de descobertas. Bartolomeu Dias, num discurso interrogativo, 

pergunta sobre o Oriente e encena a construção dessa parte do 

mundo pelo centralismo ocidental. Ele, que foi o descobridor do 

Cabo da Boa Esperança, da “ponte” para o Oriente, é incapaz de 

promover o elo entre os dois mundos, pois só reconhece o outro, 

narcisicamente, a partir de si. Nicolau Coelho se apresenta como 

aquele a quem só interessa a viagem enquanto aventura. Através 

dos três emblemáticos nautas, desmonta-se a concepção de uma 

história centrada em tutelares “barões assinalados”.

No segundo romance, contracenam os marinheiros do 

Descobrimento. Cabral, não se reconhecendo no perfil de herói, 

declara “comigo findará meu nome e glória” (p. 26). O auto, que 

assim prediz o desaparecimento do nome do Capitão, confere o 

estatuto de descobridor ao anônimo Grumete que emitiu o brado 

duplo — “Terra à vista! Terra à vista” (p.27). Já desembarcados, 

os nautas tomam posse da nova terra, tecendo-lhe auspiciosos 



augúrios provenientes da concupiscência de posse de que se in-

vestem. Ecos da Carta de Caminha se fazem ouvir. Aqui também 

se ilumina a falácia do projeto missionário face ao projeto eco-

nômico dos descobrimentos, quando Frei Henrique, depois de 

um pronunciamento no latim eclesiástico, convoca “homens de 

proceder / bom e de boa vista para governá-la e melhor / servi-

la ao reino de Deus” (p. 29), ao que Bartolomeu Dias retruca 

dizendo “que bons homens hoje é má / tarefa de encontrar” (p. 

29). O advérbio de tempo — hoje — tanto serve ao tempo do 

enunciado quanto ao da enunciação. Como se não bastara isso, a 

oração do capelão da armada, proferida durante a Primeira Mis-

sa — “Afastai, Senhor, da nova terra / os homens cobiçosos / as 

honras vendidas [...] Repeli os malvados / que por força vierem 

/ oprimir ou matar / os nativos tão dados” (p. 35), não obteve o 

agrado de Deus, pois o desenrolar de nossa história tem mostrado 

que não lhe faltam cobiçosos, vendidos e malvados.

O terceiro romance retoma a aventura dos Degredados que 

ficaram na terrra recém descoberta, quando a armada prosseguiu 

viagem para a Índia. Qual esfinge, o Degredado se define como 

“enigma, verso e adverso” (p. 43) que carece de tradução. Os de-

gredados eram criminosos que estavam fora do sistema valorativo 

e ideológico de Portugal. O auto desmascara a relatividade das 

leis ao desvelar que um e outro degredados eram criminosos pre-

cisamente por não possuírem “a cega e vã cobiça” ou “o egoísmo 

e o tenaz pecado do poder” (p. 43). Deles é o início da miscige-

nação que caracteriza o povo brasileiro.

O quarto romance, entre os ecos de Sebastianismo, e os 

da saga da linda Inês de Castro — mitos identitários portugue-

ses que também se recitaram em cantares sertanejos —, coloca 

no proscênio os tribunais da Inquisição, a colonização mediante 

o sistema de capitanias hereditárias, a missionação emergente, a 



saga bandeirante, a diáspora negra. Muitas são as figuras desse ro-

mance. Em primeiro lugar, o Inquisidor Louco e Pero de Campo 

Tourinho, donatário da capitania de Porto Seguro. Através do 

interrogatório a que este é submetido por aquele documenta-se a 

“loucura” do sistema jurídico brasileiro, loucura que não perma-

neceu só no passado. Em seguida, há um Jesuíta (que ora recupe-

ra a figura de Anchieta a tecer loas à Virgem na areia da praia, ora 

a de Padre Vieira a admoestar os reinóis) que contracena com um 

índio, Iaponan, que, na sua “incultura”, prova o quanto é sábio, e 

há um Bandeirante, reconhecido pelo índio como o Demônio de 

cujo mal ouvira falar na catequese. Em lugar de enaltecer a saga 

bandeirante, o auto registra o rastro de sangue e destruição dei-

xado pela corrida ao ouro e aos índios de corda. Desse romance 

fazem parte também os escravos africanos, metonimizados pelo 

Negro Zambi e pela Mulher Zambi, e englobados no anônimo 

Coro de Negros. Com relação à exploração da mão-de-obra afri-

cana ou ameríndia, as razões do Bandeirante se chocam com as 

do Jesuíta. Desvelam-se, assim, as contradições da colonização 

brasileira entre o sentido religioso de culto e o sentido político de 

cultura, como domínio de terra para o cultivo e de gente para a 

fazer produzir, sentidos co-existentes tanto no radical da palavra 

colonização, quanto no projeto civilizatório e colonialista portu-

guês. Pontuando esse cadinho de raças, ouve-se o brado do De-

gredado por uma harmonia racial, urgente desde a colonização, 

mas que ainda não se fez.

O último romance traz de volta as figuras do primeiro e, 

com elas, retalhos dos textos canônicos que tanto marcaram a 

cultura portuguesa. Ouvem-se trechos da Carta de Caminha que 

demonstram o incontido desejo dos viajantes de se reconhecerem 

nos espaços descobertos, desejo, em suma, de apagar as diferen-

ças, o que define a colonização. O auto propõe a vaga descoberta 



do que está atrás da história, o seu outro lado, e destrona as ver-

dades oficiais que se forjaram ao longo dos séculos. Para servir de 

metáfora a tal destronamento, a obra se oferece para ser encenada 

na festa do Divino, quando um rei menino é entronizado para, 

posteriormente, ser destituído do trono.

Esta é uma obra para ser lida, representada e apreciada, 

principalmente num tempo em que, ao se comemorarem os qui-

nhentos anos do Descobrimento do Brasil, a festa oficial ainda se 

fez de encobrimentos e exclusões.

(Texto originalmente publicado como resenha na revista SCRIPTA. 

PUC-Minas, Belo Horizonte, v. 4. n.8, 1º semestre 2001, p. 420-423)



TAL A FALA INICIAL

De anunciações, demandas

Esboços, perfis, retratos




17

CEGO


Nobre, gentil e valeroso povo

que ora vos dais em testa

para glória do lugar e honra da festa,

antes de anunciar e dar começo

à nossa representação

três coisas vos peço e encareço

e para cada uma delas a mor atenção

cuidai:


corpo quieto, olho aceso

mãos prontas para aplaudir

vaia nenhuma ou chiste leso

contrário a gente deste sítio

logo e longe se irá daqui.

Se acaso não estiver a contento

o lugar que vos acomoda

suplico que procureis lugar melhor

onde ver, ouvir e sentir possais

com mui largueza

o que houver para ocupar vossos sentidos

nessa nossa comédia, de muito siso,

riso nenhum e nem tristeza.

Desculpas, de bem antes, já vos rogo

se acaso algum tropeço

vos causar minha voz tão baixa e a vista curta.

De muitos outros males padeço.

De quadros assim tão breves

e tão remotos

não me cabe qualquer serviço.

A culpa toda é do vate

que engendrou tudo isso.




18

— Não vale jogar tomate

pois o maldito

nem se encontra no recinto.

Tudo o que faço ou digo

aqui não minto.

Juro por Santa Bárbara

padroeira dos navegantes

depois do que aqui se conta

cabeça nenhuma virá a ser

como dantes.

Por outra, prender-vos-á a comédia

— real ou inventada — já se verá

e usai da imaginação

que usada com viço

o vazio cobrirá.

As armas e os barões assinalados

da gente que cruzou a Taprobana

e o soldado Luís cantou em versos

tomam hoje lugar em nosso drama.

Tudo com muita fermosura

fama ainda a vir e pouca riqueza,

como é de notar por essas cercanias

onde o pobre trabalha tudo

e o rico, ninharias.

Cuidaremos da louca aventura humana

da audaciosa gente lusitana

em direção do Brasil

onde o que mais se descobre

há muito já se encobriu.

A história que contamos



19

tem livre enredo e sentimento

e se passa muito ao acordo

de nosso ledo entendimento.

Não há, pois, neste drama

batalhas sanguinosas

disputas intestinas

combates prolongados

fatos que o cenário não permite

nem se mostram apropriados

a dia de celebração.

Antes, crede na palavra

que é farta, cria, dá vida

e não aprova contestação.

Romanceiro de vagas descobertas

mostrar-se quer plural e vário

que todo começo é involuntário

disse o poeta de veias abertas.

Vai dedicado com mui vivo encanto

ao venturoso povo de Porto Seguro

onde o achamento da paz é tanto

que o afeto se faz forte e maduro

e ao menino imperador, rei da festa

ao qual serão rendidas homenagens

ao fim e ao cabo de nossa viagem

de pouca ventura, mas arte honesta.

E para que não zombeis da encenação

lembrai-vos que de sabedoria

o adágio anda cheio

e brasa ao seio deita




20

quem se honra com erro alheio.

Tudo o que iremos representar

é poesia e fingimento, histórias

de mares fartos, homens de ardil,

cadernos de males, entre mil

astúcias, lutas e algumas glórias.

Enfim considerai a grande nau

que esta comédia representa.

É a nau da vida, imensa nau

de singrar contínuo e vil tormenta.

Nela tomai vossos lugares

embarcadiços, passageiros, singulares

soldados ou pobres bardos...

que o Romanceiro vai começado.



ESTE É O ROMANCE 1

De mares encapelados

Sempiternas esperanças




23

CABRAL


Fados e sucessos na bagagem

não trago. Sou desconhecido,

como desconhecida é esta viagem.

Do Belmonte extremo, onde nasci

quis-me um dia navegante em mar

e em destino da Corte, lá parti.

Vasco da Gama torna do Oriente.

No elevado mastro a grã-fortuna

e a fé leal da portuguesa gente.

El Rey Dom Manoel, o Afortunado

renova a armada e a põe em rota

pera as Índias, e sempre a meu mandado.

Mil e quinhentos homens, treze naus

maior esquadra até então já vista

saí do Tejo por amor de Portugal.

Às Índias, às Índias, por maneira

de logo chegar, de mais conquista

e honra e glória de nossa bandeira.

E nisso mora minha mor ventura

servir longo ao rei, dar-lhe riqueza

e bens e paz e messes e brandura.

A tal me avento, cuido e lanço ora

com dúvida e muita incerteza

muita fé, muito amor sejam embora.




24

BARTOLOMEU DIAS

Peito, cabeça e coração

singram essas águas

inquietas ondas apartando.

Velas inchadas e fráguas,

tormentas, a branca escuma,

furiosos ventos, enfrentando.

Sem tristuras, sem nojados

acoimamos o esquecimento

a modo de degredados

e cá seguimos.

Mas meu coração é lento

e as embarcações, lentas

naves tangidas ao mar

ao sempre mar profundo

e o mundo a andar

a andar o mundo.

que está por vir, o Oriente?

Mas que é o Oriente

comparado a isto aqui?

Mar e céu e pouca terra

ventura de quem peca,

mas não erra.




25

NICOLAU COELHO

Detrás de mim deixei o Tejo

o doce Tejo que cá estremeço

e nisso pereço.

Mas a alma sendo boa

perdoa

pois malhas, armaduras, armeses



escudos, pelouros, adagas, terçados

posses e terras, luzes e soldados

não quero e nem a fartar

pois a mim nada me falta

basta-me a ventura de navegar, navegar.




ESTE É O ROMANCE 2

De vagas revelações

Relevos e desencontros




29

CABRAL


que passa avante?

PERO ESCOLAR

Parecem abrolhos.

CABRAL


Não chegam aos olhos de

nossa confiança.

PERO ESCOLAR

Seguimos?

CABRAL

E sem mais tardança.



PERO ESCOLAR

Já fora de rota estamos

e onde o Oriente, onde?

CABRAL


Ver o que se esconde

no desconhecido

nisso cumpre e avança

o nunca dom vencido

da inquietação.

quanto mais longe

mais obedientes

ao reino de Portugal

seremos e rentes

na navegação.

E verdade mais empenhada:

pouca ventura, sempre nada

enquanto mar houver, navegaremos

e da Índia com riquezas voltaremos.




30

PERO ESCOLAR

A que nos move a aventura, Capitão?

Pouco amor pela vida, danação

coisas do mar fendido?

Tormentas, raios, ventania

nautas mortos, o impressentido

deixados ossos n’água em revelia?

CABRAL

Dizer-vos, não creio, a alegria



de abrir velas ao vento, sereno

ou fero


mas tenho pressentimento, terreno

e vero


de que avante haveremos

messidor:

a ânsia de pisar em terra nua

que pé nenhum antes de nós pisou.

PERO ESCOLAR

Guarde-vos Deus em vosso sentimento 

que bom isso de vós ouvir, já é.

CABRAL


Sei-o a mal saber, de meu momento

mas apascenta os rebanhos de minha fé.

Dirá o poeta avante

quando essa instância for romanceada

que o luso peito navegante

leva numa das mãos a pena

e na outra a espada.

De mim pouco dirá toda a História

comigo findará meu nome e glória.



31

PERO ESCOLAR

Não vos cria assim penalizado.

CABRAL


Tampouco me tenho a meu cuidado.

Esquece o que eu disse.

Desejo apenas ao Reino acrescentar

as mais riquezas d’aquém-mar

— o mais é tolice!

Segui, pois, a armada por este lado

e com ela nosso fado.

GRUMETE


Terra à vista! Terra à vista!

AFONSO LOPES

Capitão-mor, Capitão-mor! Conquista!

CABRAL


que me quereis? que é de lá?

AFONSO LOPES

Alvíssaras! Hemos visto terra à frente!

CABRAL


Terra à vista? Estais tremente?

AFONSO LOPES

Com pouco espaço para navegar

certo estou, pelo amado Tejo

e tanto como vos vejo

terra há.




32

CABRAL


A quanto distamos?

AFONSO LOPES

Obra de umas tantas léguas

calculadamente.

CABRAL

Pera lá nos dirigimos, então.



Desta nova, faço-me obediente.

Saí para alargar posses d’El Rey

descubro novas terras que não sei.

E a vós, senhores

que vos parece a nova terra?

NICOLAU COELHO

É limpa aos olhos. Nela muito verde erra.

GASPAR DE LEMOS

E pássaros de real canto

e árvores copadas.

BARTOLOMEU DIAS

Causa-me espanto haja terra assim.

Parece África de tão assolada.

NICOLAU COELHO

Muito ouro deve conter

e prata e especiarias.

CABRAL

Nosso caminho às Índias, porém.



Aqui ficamos por uns dias


33

reconhecemos a terra nova

e dela mandamos ao rei notícias.

CAMINHA


Água mui limpa e tantas mais primícias

fazem a terra de mui bom proveito.

Tenho que deve ser tratada a jeito

de muito amor e igual veneração.

CABRAL

Assim deverá ser



e El-Rey saberá a ação

de pô-la em conquista

e pertencer.

FREI HENRIqUE

que venham homens de proceder

bom e de boa vista

para governá-la e melhor

servi-la ao reino de Deus

— que é a maior conquista.

BARTOLOMEU DIAS

A tanto El-Rey se arrisca

que bons homens hoje é má

tarefa de encontrar.

Sobre a terra, porém, já

o Capitão-mor tem conselho?

CABRAL


Vai o capitão Nicolau Coelho

verificar de perto o novo solo

saber de suas águas, os portos

assuntar se há povo mais no colo




34

da mata, e como é esse povo

se é de paz ou se nos quer mortos.

NICOLAU COELHO

Topei com vinte homens, todos nus

sem nada que lhes cubra as vergonhas

suas faces gentis não me foram medonhas

nos modos embora pareçam tão crus.

São pardos e com arcos e setas armados

logo vieram grudar-se ao batel

em forma de alegres. Acudimos farnel

de palavras sem proveito, sojugados

ao bruto quebrar do mar à costa.

Trocamos presentes: dei-lhes de linho

u’ a carapuça e um barrete do Minho

demais sombreiro, que me não desgosta.

Um deles deu-me sombreiro de penas d’ave

e outro, grande ramal de contas brancas.

Tornei para cá, causa das carrancas

do mar à costa, sem jeito de suave.

A terra é mui bela, da boca do rio

que é mui limpo se avista a floresta

de árvores frondosas e duras. Esta

terra tem riquezas de monta e em desvario.

CABRAL

A terra, há que ver; não a tolhe



o conhecido, por isso bruta e bela

inda há de ser porto que acolhe

todo tipo de povo que vir a ela.

Porto docente, redenção de ares

respira o peito da América santa

águas límpidas, selva inteira, mares




35

seiva nova singrando, tanta, tanta.

Perigo nos ventos, dano em vela

vida nunca certeira, má tormenta.

Terra de Vera Cruz, que acalenta

o sonho doce de ser forte e bela,

ouve-me: sê mastro inteiro e lançador

não de rude e vil e cego egoísmo

mas de vasto afeto e largo amor.

Levantar âncoras, fazer vela

ao longo da costa e nela

em direção do Norte.

Batéis e esquifes amarrados

à popa vão, de boa sorte

a ver se achamos pouso acertado

e muito boa abrigada,

onde bem pouco nos devemos demorar

e água e lenha e fruto tomar.

Os navios pequenos sigam

tanto mais à terra chegados

e se acharem seguro ancoradouro

para as naus, aí amainem

e nos mandem sinal convencionado.

AFONSO LOPES

Santa Bárbara do nosso lado!

PERO ESCOLAR

que he visto? Barbado?!

AFONSO LOPES

Um recife com um porto dentro

muito bom e muito seguro

e com uma mui larga entrada!



36

PERO ESCOLAR

Mete-vos nele de enfiada

que já nos imos a amainar.

A quanto dista?

AFONSO LOPES

Ao certo, não mais he vista

que obra de dez léguas do sítio

donde levantamos ferro.

PERO ESCOLAR

Arribar! Pera âncora acolá!

CABRAL


Vão à terra os capitães tornar

Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias.

Salvem os nativos e os deitem

em seu bom estado

e com eles o mancebo Afonso

o degredado

pera no meio dos de lá ficar

saber de seu viver e maneiras.

E com o capitão Nicolau

segue também o escrivão Caminha

para trazer-nos novas inteiras.

BARTOLOMEU DIAS

Por que não ficaste no meio deles

como te foi ordenado?

AFONSO RIBEIRO

Não me querem lá ficado.




37

BARTOLOMEU DIAS

E tornaste assim tão presto

sem ao menos insistir?

AFONSO RIBEIRO

Dei-lhes o que tinha e esta bacia

mas eles me fizeram vir.

BARTOLOMEU DIAS

E que trazes além da bacia?

AFONSO RIBEIRO

Duas ou três carapuças vermelhas

Ao chefe da tribo dá-las ia.

BARTOLOMEU DIAS

Volta pois aonde estão

e isso tudo aceitarão.

NICOLAU COELHO

Olhai, nautas, a andar

pelo porto seguro

o sol que desmaia.

GASPAR DE LEMOS

E a baía , em frente à praia

é tão larga

e do porto é alta a entrada!

NICOLAU COELHO

Nela há tal abrigada

que lhe cabem em naus e navios

duzentos de monta.



38

GASPAR DE LEMOS

A terra é vezes sem conta

de sumo bem nela estar.

CABRAL

Imos oficiar



neste Domingo de Páscoa

u’a santa missa.

A tanto se aprestem, já!

Atendo a ordem não breve

do alto Rei de Portugal.

Naquele ilhéu lá se eleve

a cruz de Cristo e o sinal

sagrado da religião

que nossa alma toma

e vingará neste chão.

Louvemos Deus

pelo Descobrimento

da terra nova.

Abri lá uma cova

e lá erguei o madeiro

do Santíssimo Sacramento!

FREI HENRIqUE

Neque enim in justificationibus

nostris prosternimus preces ante

faciem tuam, sed in miserationibus

tuis multis.

Ao Deus que nos governa a vida,

a obediência devida

Lhe devotamos.

Como o profeta, pedimos inclinar

os Vossos ouvidos até nós para nos curar

de nossas flagelações. Rezamos



39

pera que nos livre da desolação

e Vos lançamos apelo

que não cuide de nossas justiças

senão de Vossa vasta misericórdia.

Pera que a obra do homem

se dê sem discórdia

e não em estultícias

de ruim caráter, de dolo e furor

dá-nos,  Senhor, que nesta terra

justo se empreite

a paz dos homens e jamais a guerra.

que o leite de suas riquezas

seja repartido em igual partilha

a todos , e as pobrezas

do humilde não se fundem em ilha

de mortificação.

Pois pior maldade ao homem

não é sua morte

mas sua perdição.

Afastai, Senhor, da nova terra

os homens cobiçosos

as honras vendidas

as naus ultrajantes

as bandeiras servidas

a povos maldosos.

Dá-nos navegantes

que sirvam ao seu rei

no império da lei

do trabalho e do amor.

Repeli os malvados

que por força vierem

oprimir ou matar

os nativos tão dados.

Enfim, Senhor, fazei



40

que a terra dadivada

seja respeitada

e escrevei

que nenhum dano se faça

ao ar, nem qualquer desgraça

às águas, ou aos animais

de forma que a paz

seja multiplicada.

O achamento da terra é

mui bom sabimento

pera nossa fé.

que ela se conforme

ao sinal da Cruz

e em nós reforme

no Senhor Jesus

a mor devoção.

Pois só Ele cura

opera, limpa e segura,

nossa salvação.

CABRAL

Vai Bartolomeu Dias, o capitão



com seu esquife na dianteira

ver de que maneira

os nativos se comportam.

AFONSO LOPES

Com as almadias o mar eles cortam

e chegam-se logo à água como podem.

CAMINHA

Bartolomeu Dias acena-lhes que pousem

os arcos, uns pousam e outros não.



41

AFONSO LOPES

Na certa, temem qualquer treição.

CAMINHA


Vejam aquele lá, que vermelhão

na pele e que tintura!

AFONSO LOPES

Parecem saídos de alguma pintura!

CABRAL

Avisa aos capitães quando chegarmos



da ordem de virem à nau por conversarmos.

Achei por bem chamá-los cá

porque temos o que deliberar

deste nosso achamento.

Parece-vos mal apartarmos agora

o navio de mantimentos e em boa hora

o mandarmos de volta a El-Rey

para dar-lhe a nova?

BARTOLOMEU DIAS

Parece-me bem e nada reprova.

NICOLAU COELHO

Creio ser mui boa determinação.

Temos que seguir viagem avante

e El-Rey mandar saber e descobrir

o mais da terra, bem melhor que nós

pois nos esperam as Índias, a semblante

de longo percurso.



42

BARTOLOMEU DIAS

Ademais, vigoram recurso

e desejo de Sua Alteza

em explorar a terra, extrair-lhe riqueza

que nela deve haver em abundância.

Se seguimos viagem, não houvemos sustância

em fazê-lo, de momento.

Mas se volta o navio com novas

logo posse da terra teremos

em novelo do tempo.

CABRAL


Vós, capitão Gaspar, que concluís?

GASPAR DE LEMOS

O que os demais votaram e vós, juiz

da pendência, pois vos parece bem.

Estou pronto. A conclusão é tomada.

Volto a dar a El-Rey notícias d’ aquém

e a ele caberá razão considerada.

Certo estou que a nova será bem recebida.

CABRAL

Nesse passo, que vos parece a lida



de tomarmos por força um par

desses homens nus, para lembrar

sua origem e qualidade a El-Rey?

BARTOLOMEU DIAS

Se caso é por força, não sei

mas me parece dos atos menos cuidados.




43

CABRAL


Deixamos aqui dois dos degredados

como troca. Fica ruim?

NICOLAU COELHO

Não me parece bem, ainda assim.

Pois não vejo necessário levar

por força homens cujo falar

aos da Corte nada ia entender.

Melhor informação da terra

darão os degredados que ficarem

pois estes tornarão um dia

e o contarem tudo vão saber.

BARTOLOMEU DIAS

Não convém, por outra, mal fazer

escândalo. Pois não cuidamos

em tomar ninguém por força aqui.

Melhor o trato de amansar, pacificar

os homens nus. E assim ficamos

com eles amigos, ao irmos partir.

Mais proveito é estarem em paz, que irados.

CABRAL


Neste ponto, então, fica determinado

o que de melhor a todos pareceu.

Ide-vos a folgar à baía. Adeus.

Vá outra vez o degredado

Afonso Ribeiro para o lado

dos nativos, lá se demore

e de lá não torne

ainda que o mandem vir.





ESTE É O ROMANCE 3

De mundos ignorados

Descobertas e paixões




47

AFONSO RIBEIRO

Terra de Santa Cruz, abre teus braços

para receber-me

a mim, por mim, por quem a sorte traz.

Doravante seremos juntos, nunca separados.

Solfeja de teu hálito em meu ouvido inerme

a doce canção da esperança, os dados da paz.

OUTRO DEGREDADO

Aqui sou contigo, com tua aurora nova, tua luz

tuas águas puras e teu soberbo aroma

sou amigo e irmão, a mim me toma

sou teu enigma, verso e adverso, me traduz!

que a ti me chego, com uma força lenta

que em pouco e em muito logo se acrescenta.

AFONSO RIBEIRO

Ó noites de Portugal, noites de nãos!

Ó noites de rio e mar, noites de frio!

Ide-vos, que meu coração vadio

lume não cede aos ferros da opressão.

Adeus, adeus, que cá minh’alma viça!

OUTRO DEGREDADO

Não me funda a cega e vil cobiça.

AFONSO RIBEIRO

Não me move o vão gesto que atiça

o egoísmo e o tenaz pecado do poder.

OUTRO DEGREDADO

que só me importa a mim humano ser

e se me não cuida então o mais ter

pelo mais gastar. Aqui já serei




48

o menos pelo qual aventurei

o mais que posso e quero obedecer

pois muito vale ao homem a liberdade

e nada mede em bem a falsidade.

AFONSO RIBEIRO

Terra de Santa Cruz, tão rica e boa

de ti cantarão lavouras e fados

deitarão sorte sobre teu traçado

e serão de ti mil cantos e loas.

Mas é sempre bom manter-te a cuidado

da ira humana, tanta e alagada

da vil cobiça e o pouco apropriado

egoísmo. Portugueses há e vários

e dentre eles muitos temerários.

OUTRO DEGREDADO

Terra vestida em sol, iluminada

cuida de teus filhos e mais amparada

serás de paz, riqueza e alegrias.

AFONSO RIBEIRO

Cerra teus flancos, antes havias

de proteger-te que te seres dada.

E vela por nós!

OUTRO DEGREDADO

Diniz! Martim Soares! Taveirós!

salvai-me de um penso mal de culpa

do fundo mar do amor, livrai-me vós!

Adeus Don’Ana, Beatriz, Dolores!

Adeus, Carolina, Isabel, Amanda!

Adeus ao Minho e adeus às cores




49

de tudo belo que deixei por lá!

que ora quero só salvar-me em braços

de Inaiá, Inaiá, Inaiá!

Ó grandes nautas, grandes trovadores

cuidai que estou a salvo dessa sorte?

Purguei meu peito do lavor da morte

e vivo estou, mas morto estou de amores.

Inaiá é selvagem, pura flor

bela parda nativa, luzidia

é vida e arde como a luz do dia

excita meus nervos, seiva e sabor.

AFONSO RIBEIRO

Perigos há e mil danos sem conta

nesta dor de ficar em sobressalto

na súcuba certeza e grave monta

de que ao nauta cabe o mar bem alto.

Eu, porém, por ficar já me conformo

em ver que a terra é franca e sem ressalto.

E embora tudo faça, não reformo

a marca que me fere o jugo da saudade.

infinda tal do mar a imensidade.

OUTRO DEGREDADO

quem vem lá, assombração?

GRUMETE

Duas almas de Deus

que em terra ficarão.

AFONSO RIBEIRO

Como então é isso?

Eu vos tinha em nau!




50

GRUMETE


De lá fugimos, a bem sem mal

que por cá melhor estamos.

AFONSO RIBEIRO

E por qual motivo?

E por que razão?

GRUMETE


Sem nenhuma dúvida, pelo coração

que por cá temos perdido.

AFONSO RIBEIRO

Acaso, estais aqui rendidos?

Deixeis em terra amor vosso?

GRUMETE


Isso é justo e nem mais posso.

Inda que quisesse, deixá-lo mais sentia.

AFONSO RIBEIRO

Tal é bem mal valia.

Agis destarte pela paixão?

GRUMETE


Por certo e como não?

OUTRO GRUMETE

No meu coração

minha vida há.

Se ferido ele

ela em sangue está.




51

OUTRO DEGREDADO

Estais mal parados.

GRUMETE


E nós mais pasmados

em vossa destinação.

OUTRO DEGREDADO

Em nós guia uma missão.

GRUMETE

E em nós outros, a paixão.

AFONSO RIBEIRO

Com que então, quereis cá ficar?

GRUMETE

Pera com bons frutos, nela mourejar.

AFONSO RIBEIRO

Acudis com gosto a esta certeza?

GRUMETE

Tão certo como da vida a madureza

e a aurora do dia sempre há.

AFONSO RIBEIRO

Podeis nesse passo cuidar

de vós na terra que vos abriga.

Não permitais, porém, que u’a espiga

de mal qualquer de vós se espalhe.

A terra é boa e requer respeito



52

e sua gente é de paz. — Nenhum direito

dá em nós tirar dela o fora do sustento

mas em comum vivermos em bom pensamento.

GRUMETE

Sábias palavras e boas de ouvir.

AFONSO RIBEIRO

Ponde-vos, pois, em pouso e vão a dormir.




ESTE É O ROMANCE 4

De projeções donatárias

Seculares penas várias




55

OUTRO GRUMETE

Secretos amores ide

onde por o mar lá vai

andai, coração, andai

que o sonho a si não elide.

Meu corpo é meu lado errado

minha voz é meu esquecimento

meu peito é o maior momento

da vida que hei pecado.

Minha alma é que é degredo

dano de mim e tormenta

fera bruta, se alimenta

da danação e do medo.

Mas como alcançar resguardo

do sonho se ele escapa

e foge a qualquer tapa

da sorte ou destino tardo?

Fugi, procelas, fugi!

Vencei, auroras, vencei!

que aquele que já foi rei

de novo se apresta aqui.

Abertas portas, decreta

da contida calmaria

dos ventos em nau secreta

que o sonho é uma profecia.

Hei sonhado! É livre o dia!

Todo amanhã é um princípio

de passado! E então via.

INqUISIDOR LOUCO

Alcácer-quibir! Mouros! Cristãos!

Per mandado da Santa Inquisição

novo rei é coroado. Seja adorado!



56

POVO


Real! Real!

Viva D. Sebastião

que é rei de Portugal!

INqUISIDOR LOUCO

E Pedro, desgraçado infante

que teve o desplante

de tornar rainha

sua Inês já morta?

Adorai-a!

POVO


Real! Real!

Viva D. Sebastião

que é rei de Portugal!

INqUISIDOR LOUCO

Venturas e desventuras.

Galiza, Navarra, Granada

Castela, Ganges, Marrocos

oiro e prata, especiaria

escravos e pau-brasil

velas, cavalos havia.

Viva El-Rey!

POVO


Real! Real!

Viva D. Sebastião

que é rei de Portugal!

INqUISIDOR LOUCO

Burgo espedaçado, feudos destroçados

a plebe reinando, nobres perecendo.




57

Perdidas espécies: caravelas, corais, falcões

damascos, tapetes, leopardos, leões

almíscares, açúcares, engenhos, colares, marfim.

Tudo he dado fim.

Perdido tudo pela graça del Rey.

POVO

Real! Real!



Viva D. Sebastião

que é rei de Portugal!

INqUISIDOR LOUCO

No Paço reina a fartura

músicas, danças, amores.

No Paço reais canduras

estrofes e menestréis.

Fidalgos amam nativas

dando-lhes filhos e filhas

que farão bem outros filhos.

E revéis. No Paço, ah!

Carnes quentes sabujadas

Nações moças molestadas

Sujeira, miséria, pó

No Paço tudo há melhor.

POVO


Real! Real!

Viva D. Sebastião

que é rei de Portugal!

INqUISIDOR LOUCO

Peste, febre, maldição.

Desgraça à bandeira, demência

Descendência má, degenerescência.



58

Burgueses interditos fracassados.

Tamancos nos pés descalços

pedaços nos pés quebrados

mas o sonho de conquista

e expansão da fé partido ao meio.

Alcácer-quibir! Tomar!

Batalha mais desastrosa

de uma gente valerosa.

D. Sebastião vai voltar!

POVO

Real! Real!



Viva D. Sebastião

que é rei de Portugal!

PERO DE CAMPO TOURINHO

Mas quanto a mim, senhor

por que condenar-me

sem ouvir razões, valor?

INqUISIDOR-MOR

Como vos chamais?

PERO DE CAMPO TOURINHO

Por meus ais,

Pero de Campo Tourinho

donatário da Capitania

de Porto Seguro.

INqUISIDOR LOUCO

Prevaricou o impuro!

Não guardou os dias nem fez penitência!

Insultou os ministros, escandalizou.



59

Aos herejes não se faz clemência.

Mau pai, mau marido, mau governante!

PERO DE CAMPO TOURINHO

Aos autores dessa aleivosia, antes

de lhes ajuntar a verdade à objeção

lembro que o defeito não está na obra

mas em quem a vê, decerto.

Em ações e exemplos fui fiel a El-Rey

mas minhas obras falam contra o incerto

dos homens que por lá contrariam a lei.

Enfrentei tudo e tudo o mais enfrentaria.

Honrar meu nome e dar a El-Rey a garantia

de vencer correntes, matas e ribeiras

nada me impediu caminhar por fileiras

do bem, da fé, esperança e trabalho.

E quanto mais completos foram os reveses

mais me animei à luta, à liça, sem talvezes.

Amansei tupiniquis, combati corsários

franceses, canibais, patrícios usurários.

Chamei capitães, cedi terras, sem proveito.

Venci dificuldades do clima e da terra.

Elevei oito vilas, doutrinei no eito.

Dois engenhos de açúcar construí aos reis.

INqUISIDOR-MOR

Oponde-vos ao Santo Ofício, às suas leis?

PERO DE CAMPO TOURINHO

Oponho-me à má aplicação das ditas leis

pera o efeito das coisas tidas na ambição.

Egoísmo, preguiça, licenciosidade.

Abuso dos reinóis, desgraças do Brasil.



60

INqUISIDOR-MOR

que tendes contra a Igreja, que tendes contra o Reino?

PERO DE CAMPO TOURINHO

Portugueses há maus homens e bons.

No Brasil são bem tristes suas afeições.

INqUISIDOR-MOR

quantas culpas se imputam a vossas ações?

PERO DE CAMPO TOURINHO

Juízo reto, caridade, obediência.

INqUISIDOR-MOR

Difícil ao Tribunal fazer clemência!

PERO DE CAMPO TOURINHO

Negar verdades só enfraquece os detratores.

INqUISIDOR-MOR

Tanto que estais na lista dos prevaricadores.

PERO DE CAMPO TOURINHO

Este o fim principal, por que Deus veio a isto?

INqUISIDOR-MOR

E que virtudes guardais da lei de Cristo?

PERO DE CAMPO TOURINHO

Desprezo do mundo, humildade, amor por fim.

INqUISIDOR-MOR

Vossas culpas e tenções quereis confessar?




61

PERO DE CAMPO TOURINHO

que culpas a confessar?

que tenções a proferir?

INqUISIDOR-MOR

A consciência de partir

o escândalo da nossa fé.

PERO DE CAMPO TOUIRINHO

E escandaloso, o que é?

INqUISIDOR-MOR

O que obrais na sujidade.

PERO DE CAMPO TOURINHO

Nunca sujeitei verdade.

INqUISIDOR- MOR

E as suposições cabidas?

PERO DE. CAMPO TOURINHO

Repousam improferidas.

INqUISIDOR-MOR

Reprovais nossas ações?

PERO DE CAMPO TOURINHO

E as vossas abluções.

INqUISIDOR-MOR

Respeitais a Santa Igreja?

PERO DE CAMPO TOURINHO

Mais do que em mim sobeja.



62

INqUISIDOR LOUCO

Intolerável! Bruto! Palavroso!

Espancou padres, xingou, o reinoso.

quis parecer maior que o Papa

e de Deus a bondade mostra o mapa!

PERO DE CAMPO TOURINHO

Melhor seria se soberbo fosse, não indulgente.

INqUISIDOR- MOR

A vossa causa não tem salvação.

PERO DE CAMPO TOURINHO

Pera falência da justiça e da misericórdia.

INqUISIDOR LOUCO

Maravilha rara

e de mor grandeza

ressuscitar um rey

morto e a realeza!

POVO


Real! Real!

Viva D. Sebastião

que é rei de Portugal!

JESUÍTA


Goza o Brasil de ares sempre puros

pela raça dos ventos que aspira

com tanta paz o homem se retira

a completar lá fora os mundos muros.

Abundante de fontes, bosques, rios

variada de vales e outeiros




63

revestida de verdes prazenteiros

a terra é um paraíso erradio.

Mas os homens precisam educação

pera a campanha civilizadora.

Precisam já da luz reparadora

dos bons reclamos da religião.

Empenha-se o menos temente a Deus

no mais escandaloso da luxúria.

Diz atos lastimosos prol da injúria

e falam sem nobreza os gestos seus.

Dedicam-se à cruel escravaria

dos negros e dos índios em pendência

dos que não se salvam na inocência

das perdições, dos males, da enxovia.

IAPONAM


que estais a praticar, padre santo?

JESUÍTA


Firmo a memória de uns cantos

para a Virgem Mãe Maria.

IAPONAM

Não o fazes já todo dia?

que pedes a Ela agora?

JESUÍTA


Oração boa não tem certa hora

de rezar.

Peço que ilumine os homens duros

que obram ações pecaminosas

e deixam entre nós as mais raivosas

intenções.




64

Peço que transforme esses duros homens

em bons. E suas maldezas, cujos nomes

eles tanto proclamam

possam de enfiada sumir-se

como os de boa obra reclamam.

IAPONAM

Ainda estais na crença de transformação

em bom do coração raivoso de um cão ?

JESUÍTA


Os homens não são maus como se pratica.

É o Demônio que ao mal os incita.

IAPONAM

Os seus demônios são eles

sua vã cobiça e a desgraça

de sua ambição, que passa

de pai a filho, lá deles.

Quando fizerem deserto

a terra, matarem a indiada

aí se aquietarão, por certo

e aí também não sobrou nada.

BANDEIRANTE

Ouro! Prata! Esmeraldas!

Escravos! Mando! Haveres!

que me importam os saberes

se possuo ricas faldas

de terras e de grandezas?

Em solo e água, ouro há.

Na mata, a madeira sobra.

Pera isso enfrento cobra




65

índio, negro, fera má

mas acumulo riquezas.

que é do rio a atravessar?

Atravessemo-lo, já!

que é do índio abugrado?

Jaz no mato ou amansado.

que é do negro tão fujão?

Nada mais que um cabrão.

que é das mais distantes minas?

Abertas e peregrinas.

Com sol ou tempo ruim

a arma e a coragem empresto

num vão desse tempo lesto

de cegueira e de festim

na forma que sou forçado

a cumprir sem mais clemência

a revogar paciência

a matar, se for meu fado

vou abrindo, vou rompendo

mata, terra, gente, rio

termino em mor desvario

rico ou pobre, enlouquecendo.

Numa coisa há garantia:

pós o bravo navegante

que he visto esta terra um dia

por sina, por feitoria

dela é dono o bandeirante.

NEGRO ZAMBI

Da senzala e da macumba

solta a voz o africano

que com sangue soberano

fez o chão, faz o trabalho.



66

CORO DE NEGROS

Ê, tumba, ê, tumba ê!

Ê, tumba, ê, tumba ê!

Ê, tumba, ê, tumba ê!

Ê, tumba, ê, tumba ê!

NEGRO ZAMBI

quatro, oito, dez milhões

de braço escravo, bem mais

enriquecem aqui os pais

da pátria e os patrões.

CORO DE NEGROS

Ê, bango, ê, bango ê!

Ê, bango, ê, bango ê!

Ê, bango, ê, bango ê!

Ê, bango, ê, bango ê!

NEGRO ZAMBI

Escravidão! Crueldade!

Amuxila nosso corpo

Enquizila nossa alma

Alumbamba a saudade

em nós do peito de África

CORO DE NEGROS

Ê,banzo, ê, banzo ê!

Ê,banzo,ê, banzo ê!

Ê, banzo, ê, banzo ê!

Ê, banzo.ê, banzo ê!

MULHER ZAMBI

Escravidão! Crueldade!

Usa nosso sangue no melaço dos engenhos!




67

Usa nosso leite pra amamentar os ioiôs!

Usa nossos deuses pra afuguentar maus empenhos!

E as nossas mulheres para o gozo dos sinhôs!

CORO DOS NEGROS

Ê, Xangô, ê, Xangô ê!

Ê, Xangô, ê, Xangô ê

Ê, Xangô, ê, Xangô ê!

E, Xangô, ê, Xangô ê!

BANDEIRANTE

A terra tem que ser rasgada!

A mata tem de ter caminho!

NEGRO ZAMBI

O negro faz tudo sozinho

e o branco manda só, mais nada!

BANDEIRANTE

O mais que importa é a povoação

benfeitorias, engenhos e vilas

igrejas, casas e homens vivendo.

NEGRO ZAMBI

E o braço escravo no suor, morrendo.

BANDEIRANTE

E a nação crescendo, vigorando.

NEGRO ZAMBI

E os valores negros, dizimando.

BANDEIRANTE

Progresso! Crescimento! Evolução!



68

Léguas e léguas além de costa a costa.

O homem vence o ignorado e arrosta

desafios, périplos, febre sezão.

quem pudera arrastar-se malfadado

sem violar humanas regras, preitos

de vida em paz e mais o bom respeito

a corpo e alma alheios, o dom sagrado?

quem, sem praticar mor atrocidade

pudera avançar na febril conquista

de terras, minas, pau-brasil, assista

aos bons instintos, e sem falsidade?

Rasgar o bruto chão em busca d’oiro.

Caçar índios e negros, submetê-los.

Cindir feras, mosquitos, desmazelos.

Isso é ausência de paz, isso é desdoiro.

Como empatar desgraças, sortilégios?

Como extinguir percalços e avançar?

Como punir maldades, sem matar,

cometer crimes e até sacrilégios?

JESUÍTA

Erguendo escolas, mosteiros, colégios.

Assim,

a colonização do Brasil



se fará pela conquista

da alma do gentio

e não pela ruim vista

da crueldade e alvedrio.

Somos pela catequese.

BANDEIRANTE

Essa então a vossa tese?



69

JESUÍTA


E que outra melhor é?

BANDEIRANTE

Padres cheiram missa e fé.

Cuidado, ensino, ciências

são finezas de mulher.

Índio e negro têm saber

que o duro trabalho os quer

mais que tudo, a obedecer.

JESUÍTA

Não louvo esse proceder

de vós que a cobiça alcança.

BANDEIRANTE

Outro juízo não lança

esta nação a destino

de rota segura e pronta.

JESUÍTA


Juízo bom há sem conta

que melhor tenha em mente

não haver passo acertado

na exclusão dessa gente.

Contrário senso, o herdado

serão misérias apenas

lutas, dores, malas cenas

sem corrigir o errado.

BANDEIRANTE

Não mais vos quero escutado.

Se credito ao que dizeis

em breve estaremos mal




70

pois é bem ceder a vez

ao bugre e ao negro boçal?

CAFUSO


Há vários portugais em vosso Portugal

muitos encobrimentos, muitos encobertos

muitos maus juízos e sentidos despertos

só na vã cobiça, na desordem moral.

Não se passa o mesmo com esse povo de Holanda

que é chegado a nós e convosco faz guerra.

Fazem eles grandes obras, querem bem à terra.

Respeitam as mulheres e o progresso anda.

OUTRO DEGREDADO

Não, o progresso não anda como pensais.

Se é certo no português muitos portugais

também dele é o amor por vosso país.

Amor violento e amor maior que não quis

terra, ouro, prata, madeira e o que há

mais para conquistar e para possuir

senão o amor de uma mulher: Inaiá.

Pois é em nome deste amor que vivo aqui.

Se há com Holanda progresso, como dizeis.

Se há prestígio e ordem e armas valerosas.

Não há, porém, quem ame as mulheres formosas.

Negra ou índia, ama-a o branco português.

NEGRO VELHO

Negro escravo cava a terra e planta

colhe, apanha, amarga, perde dentes.

Negro escravo faz brotar sementes

de riqueza, seca a força e canta.

Negro escravo quer fazer mandinga.

Negro escravo quer fazer ebó.




71

Negro escravo quer amanhã ser livre.

Ser só negro, que é muito melhor.

NEGRO ZAMBI e CORO DE NEGROS

Filho lá da África

faço meu caminho

e aqui completo o passo

sem ficar sozinho.

Escravo me fizeram

e me deixaram marcas

de que me vou limando

do tesouro em arcas.

Ódio vil não quero

se não a alegria

de cantar lundu

sem virar-me o dia

e dançar meus santos

lá no meu terreiro

e a liberdade

de ser brasileiro.

OUTRO DEGREDADO

Terra de Santa Cruz, ilha de raças

não deiteis ferros aos sabrosos ventos

de vossa alma à solta e pressentimentos

de sonhos de América, livres taças

de vida e espírito — naus fraganças

em idéias, anseios, esperanças.

Ficai bem comigo, o negro, o selvagem

em nós resguarda a paz e a amável festa.

Livrai-nos do vão ódio que molesta

a alegre duração dessa viagem.

E apoucai nossa dor, nossa saudade

como se não pudera a claridade.



72

OUTRO GRUMETE

Hei sonhado! É livre o dia!

Dos ventos em nau secreta

o sonho é uma profecia!

Meu corpo é meu lado errado

minha voz é meu esquecimento

meu peito é o maior momento

da vida que hei pecado.

Minha alma é que é degredo

dano de mim e tormenta

fera bruta se alimenta

da danação e do medo.

Mas como alcançar resguardo

do sonho, se ele escapa

e foge a qualquer tapa

da sorte ou destino tardo?

Fugi, procelas, fugi!

Vencei, auroras, vencei!

Se a tanto me aventurei

de novo me apresto aqui.



ESTE É O ROMANCE 5

De almas vastas, corredeiras

Rotas rotas medianeiras




75

CABRAL


No quintal do largo mar

o Oriente se avista.

É feita a revista

da nova terra, já.

Não curo de mais tardança

que águas do mar em abastança

nos querem e às caravelas.

Vamos a elas!

BARTOLOMEU DIAS

Velas fortes

prontas velas ao vento

— Ao mar, nautas, andai —

que anda e corre mais

meu pensamento.

A quem baste a alma gasta

que o vasto basta ao mar

e à vida — encapeladas ondas

dissentidas de vagar.

NICOLAU COELHO

Ao mar, ao mar

que nos aguarda

vento, frio, tempestade

sol ardente, longidade

de tempo que perdura

de nós além e à aventura.

CAMINHA


Esta terra, Senhor, parece que da ponta mais con-

tra o Sul vimos até outra ponta que contra o Norte 

vem, de que nós deste porto seguro houvemos vista, 

será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e 




76

cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgu-

mas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas 

brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de 

grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-

palma, muito chã e muito fermosa.

CABRAL

Terra de Vera Cruz



que vos sei eu ?

CAMINHA


Nela, até agora, não podemos saber que haja oiro, 

nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem 

lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, 

assim frios e temperados, como os de Entre Doiro e 

Minho, porque neste tempo de agora os achávamos 

como os de lá.

CABRAL

Ilha de Santa Cruz



que vos sei eu?

CAMINHA


Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é gra-

ciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, 

por bem das águas que tem.

CABRAL


Ilha / Terra de Tosca Cruz

que vos sei eu?

OUTRO DEGREDADO

Ser humano é exército de dúvidas.




77

Paz, aturdimento do corpo em silêncio.

Vida, tombadilho de luar sem navio,

Aventura é linha paralela do sol.

Mais vasto pego e longe e breu e fundo

espelho de navalhas é o curto mundo.





ESTE É O ROMANCE 6

De esboços, perfis, retratos

Anunciações, demandas




81

CEGO


E assim se dá por encerrado

um romanceiro. Outro é começado.

Se dele gostais, aplaudi

com firmeza

na hora que vos pedir

pois é nobreza

o pedido e mais ainda

o atendido.

Abrigai o poeta, esse aturdido

em vosso largo coração.

Ganheis dele as graças

refleti na representação.

Na grande nau da vida

que tipo de aventura investis?

Embaradiços, soldados, passageiros

desta nau,

perdoai o parvo

que escreveu o que assistis

pois o poeta é o lume de Deus

mas é torto

e degredado e morto

tem o lúcido lado

das coisas reais.

E vamos tirar da festa mais cor.

Enfim descoroemos o Imperador

como é parte da tradição.

Destarte reza o tratado

e se faz descoroado

o Imperador

por amor


das simplezas humanas.


82

Belas coisas soberanas

são o sonho, a casa, a vida noviça...

... e nunca a injustiça!

Assim vós, poderosos da hora

cuidai do que tendes, nele vivais

bem postos

gozai tudo, sem demora

pois quando acabados

os gostos

da vossa prosperidade

sereis rotos e enfurnados

debaixo da terra

dos bichos, herdade.

E vamos, finalmente, ao banquete

da festa derradeira do Imperador.

Sejais servidos, alegres, com calor

pois a vida, mar alto, encapelado

inda vos exige o condão continuado

do riso


do mágico riso aberto de concórdia...

— ... e guarde-vos Deus em Sua piadosa misericórdia!




ANEXOS



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