Getulio Vargas



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Getulio Vargas


VARGAS, Getúlio 
*dep. fed. RS 1923-1926-; min. Faz. 1926-1927; pres. RS 1928-1930; rev. 1930; pres. 
Rep. 1930-1945; const. 1946; sen. RS 1946-1949; pres. Rep. 1951-1954. 
Getúlio Dornelles Vargas nasceu em São Borja (RS) no dia 19 de abril de 1882, 
filho de Manuel do Nascimento Vargas e de Cândida Dornelles Vargas. Ainda jovem
alterou o ano de nascimento para 1883, fato somente descoberto durante a 
comemoração de seu centenário. Em dezembro de 1902, ao realizar exames 
preparatórios para o curso de direito, Vargas declarou — provavelmente pela primeira 
vez — uma idade diferente da real. Mais tarde, ao ingressar na Faculdade de Direito de 
Porto Alegre, em março de 1904, alterou o ano de nascimento para 1883, apresentando 
uma certidão militar comprovadamente rasurada. Desde então, constou em registros e 
documentos oficiais, artigos e livros sobre sua pessoa, o ano de 1883 como o de seu 
nascimento. 
Vargas era descendente de uma família politicamente proeminente em São 
Borja, região de fronteira com a Argentina, palco de rumorosas lutas no século XIX. 
Seu avô paterno, Evaristo José Vargas, lutou como soldado voluntário da República de 
Piratini durante a Guerra dos Farrapos. Foi casado com Luísa Maria Teresa Vargas, com 
quem teve 14 filhos. Os avós maternos, Serafim Dornelles e Umbelina Dornelles, 
pertenciam a uma família tradicional, descendente de imigrantes portugueses dos 
Açores. Serafim Dornelles foi major de milícias, próspero comerciante e também um 
dos mais ricos estancieiros de São Borja. 
O pai de Getúlio, Manuel do Nascimento Vargas, combateu na Guerra do 
Paraguai, distinguindo-se como herói militar. Começou a guerra como simples cabo 
para encerrá-la como tenente-coronel. Uma vez desligado do Exército, estabeleceu-se 
como fazendeiro em São Borja e em 1872 casou-se com Cândida Dornelles, com quem 
teve cinco filhos: Viriato, Protásio, Getúlio, Espártaco e Benjamim. No final do 
Império, tornou-se o chefe político local do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR). 
Em 1893, já na República, combateu os federalistas que se insurgiram contra o governo 
de Júlio de Castilhos no Rio Grande do Sul, desencadeando a chamada Revolução 
Federalista. Bateu-se contra as tropas de Dinarte Dornelles, tio materno de Getúlio e 
líder federalista no município, o que contribuiu para que se introduzisse e permanecesse 
viva dentro da família Vargas a acirrada e histórica contradição entre “chimangos” 


(republicanos) e “maragatos” (federalistas). A guerra civil terminou em 1895 com a 
vitória dos republicanos e o PRR tornou-se o partido dominante no estado, sob a direção 
de Júlio de Castilhos e seu sucessor Antônio Augusto Borges de Medeiros. Manuel 
Vargas recebeu uma promoção a coronel de Floriano Peixoto e outra a general-de-
brigada, concedida por Prudente de Morais. Em 1907 foi intendente — cargo 
correspondente ao do atual prefeito — de São Borja, o mesmo acontecendo mais tarde 
com seus filhos Viriato e Protásio.
Getúlio Vargas fez os estudos primários na sua cidade natal. Em 1897, seguiu 
para a Escola de Ouro Preto (MG), onde já se encontravam seus irmãos mais velhos, 
matriculando-se no curso de humanidades. No ano seguinte, porém, os três regressaram 
a São Borja devido a um conflito entre estudantes gaúchos e paulistas que resultou na 
morte de um rapaz de São Paulo. Viriato chegou a ser pronunciado pelo promotor 
público, fato que mais tarde viria comprometer os Vargas na política gaúcha. 
Em 1898, decidiu seguir carreira militar, solicitando matrícula na Escola 
Preparatória e de Tática de Rio Pardo (RS), primeiro passo no caminho do oficialato. 
Getúlio teve de esperar um ano por falta de vaga, segundo Barros Vidal. Com o objetivo 
de facilitar sua matrícula na escola de Rio Pardo, alistou-se em fevereiro de 1899 no 6º 
Batalhão de Infantaria, sediado em São Borja. Foi rapidamente promovido a segundo-
sargento. Em março de 1900, matriculou-se afinal na Escola Preparatória e de Tática de 
Rio Pardo. Em maio de 1902, porém desligou-se da escola, em solidariedade a alguns 
colegas que haviam sido expulsos por um incidente disciplinar. Voltou à tropa, dessa 
vez no 25º Batalhão de Infantaria, sediado em Porto Alegre. Predisposto a abandonar a 
carreira das armas, matriculou-se na Escola Brasileira com o intuito de completar o 
curso secundário, já decidido a estudar direito. No começo de 1903, quando se 
preparava para deixar o Exército, surgiu uma ameaça de conflito armado entre o Brasil e 
a Bolívia, em decorrência da disputa pelo território do Acre. Apresentando-se à sua 
unidade, partiu em fevereiro para Corumbá (MS), no então estado de Mato Grosso. A 
Questão do Acre, porém, foi resolvida pela diplomacia do barão do Rio Branco e não 
pelas armas, como esperava Vargas. 
Em dezembro de 1903, após dar baixa do Exército, Getúlio ingressou na 
Faculdade de Direito de Porto Alegre como aluno ouvinte. Em março de 1904, 
matriculou-se no segundo ano da faculdade, após prestar exames das cadeiras que 


constituíam o primeiro ano do curso de direito. Na faculdade, revelou-se discípulo fiel 
do castilhismo, integrando-se à mocidade estudantil republicana. O positivismo — 
ideologia oficial do PRR — teve porém uma influência limitada em sua formação 
intelectual. Quando estudante, Getúlio interessou-se mais por Herbert Spencer e Charles 
Darwin do que por Auguste Comte. Cultivou também o gosto pela literatura. Admirador 
de Émile Zola, publicou um artigo na revista estudantil Panthum enaltecendo sua 
posição frente ao caso Dreyfuss e suas tendências progressistas. 
Vargas começou a trilhar o caminho da política gaúcha em 1906, ao ser 
escolhido orador dos estudantes na homenagem prestada ao presidente eleito Afonso 
Pena, quando de sua visita a Porto Alegre. Em 1907, ingressou efetivamente na política 
partidária republicana, juntamente com toda uma geração de estudantes gaúchos que se 
notabilizaria na política nacional e que seria chamada por Joseph Love de a “geração de 
1907”. Nesse ano, o Partido Federalista desencadeou uma grande campanha para 
suplantar o domínio do PRR, lançando a candidatura de Fernando Abbot, um 
republicano dissidente, às eleições de novembro para o governo do estado. Borges de 
Medeiros, que terminava seu segundo mandato no Executivo gaúcho, decidiu não 
concorrer à reeleição, indicando a candidatura de Carlos Barbosa Gonçalves. 
Com seus colegas de faculdade João Neves da Fontoura, Firmino Paim Filho, 
Maurício Cardoso e numerosos estudantes, Vargas fundou o Bloco Acadêmico 
Castilhista em apoio à candidatura republicana. O bloco contou também entre seus 
membros com dois cadetes da Escola de Guerra de Porto Alegre que viriam a 
desempenhar um papel importante na vida de Vargas: Eurico Gaspar Dutra e Pedro 
Aurélio de Góis Monteiro. Com o apoio do senador José Gomes Pinheiro Machado, o 
bloco lançou o jornal O Debate, dirigido por Paim Filho e do qual Vargas tornou-se 
secretário de redação. Eleito sem dificuldade em novembro, Carlos Barbosa iria 
governar o Rio Grande do Sul de 1908 a 1913, no intervalo entre dois longos períodos 
de governo de Borges de Medeiros. 
Em dezembro de 1907, Vargas formou-se em ciências jurídicas e sociais e mais 
uma vez foi escolhido o orador da turma. Sua participação na campanha de Carlos 
Barbosa impressionara favoravelmente a Borges, que, como chefe do PRR, dispunha de 
enorme poder pessoal e detinha a decisão final sobre todas as coisas, das questões mais 
importantes às mais secundárias. Assim, em janeiro de 1908, Vargas foi nomeado 


segundo promotor público do Tribunal de Porto Alegre. Alguns meses mais tarde, seu 
nome foi incluído na lista dos candidatos do PRR à Assembléia dos Representantes, 
como era denominada oficialmente assembléia gaúcha. Vargas passou o cargo de 
promotor a João Neves e voltou a São Borja, onde constituiu uma banca de advocacia e 
estendeu os contatos com os correligionários de seu pai, garantindo apoio eleitoral à sua 
candidatura. 
O deputado Getúlio Vargas 
Em março de 1909, Vargas foi eleito à Assembléia dos Representantes na 
legenda do PRR. A Assembléia gaúcha era uma instituição com funções bastante 
limitadas, devido à extrema concentração de poderes do Executivo estadual. Pela 
Constituição rio-grandense, o presidente do estado detinha uma autoridade legal 
equivalente a um poder ditatorial. A Assembléia reunia-se durante três meses por ano 
com o fim exclusivo de votar o orçamento e examinar as contas do governo. Getúlio iria 
aproveitar os longos períodos de recesso parlamentar para dedicar-se às suas atividades 
de advogado em São Borja.
Em março de 1911, casou-se com Darci Lima Sarmanho, filha de Antônio 
Sarmanho, estancieiro e diretor de banco em São Borja. Dessa união nasceriam os filhos 
Lutero, Jandira, Alzira, Manuel Antônio e Getúlio.
Em 1913, foi novamente eleito deputado estadual, mas renunciou ao mandato 
em protesto contra a intervenção de Borges de Medeiros nas eleições de Cachoeira, 
atual Cachoeira do Sul. Nesse município, a lista de candidatos do PRR havia sido 
modificada por João Neves e Odon Cavalcanti. Os deputados eleitos foram preteridos 
por Borges e obrigados a renunciar aos seus mandatos.
Interrompida a carreira parlamentar, Getúlio voltou a São Borja e à sua banca de 
advocacia. Durante três anos, permaneceram estremecidas suas relações com Borges de 
Medeiros, que chegou a incentivar a disputa pelo poder entre os Vargas e outros grupos 
republicanos de São Borja. O grupo liderado por Benjamim Torres e Rafael Escobar 
passou a hostilizar Viriato Vargas, na época intendente local. Getúlio não se envolveu 
diretamente na crise, mas procurou defender o irmão das acusações ainda ligadas ao 
incidente de Ouro Preto. Com o assassinato de Benjamim Torres em março de 1915, as 


suspeitas recaíram sobre Viriato, que se refugiou na Argentina até ser absolvido. 
Entrementes, Borges recuou e manteve o general Manuel Vargas na chefia local do 
PRR. 
No final de 1916, Borges de Medeiros buscou reconciliar-se com Getúlio, 
oferecendo-lhe a chefia de polícia de Porto Alegre. Getúlio recusou o cargo, mas 
posteriormente aceitou sua inclusão na lista de candidatos à Assembléia. Eleito em 
1917, recuperou rapidamente o tempo perdido fora da política. Prestigiado por Borges 
de Medeiros, começou a desempenhar na Assembléia as funções de líder do PRR, 
embora sem diploma expresso. Como explicou João Neves, “líder majoritário não 
havia. A tradição castilhista desconhecia a figura do líder. Talvez porque o Partido 
Republicano até ali ocupara unanimemente todas as cadeiras. Líder dava a idéia de 
divisão, de luta, de fracionamento”.
Na Assembléia, Getúlio tomou algumas iniciativas isoladas e pessoais para 
congregar as forças políticas gaúchas. Em outubro de 1917, ao manifestar o apoio do 
governo do estado à declaração de guerra do Brasil contra a Alemanha, conclamou os 
deputados do PRR e do Partido Federalista a superarem suas divergências e “ante o 
sentimento de perigo comum unirem-se sob a mesma bandeira”. Quando o armistício 
foi assinado em novembro de 1918, defendeu a concórdia entre os povos, após 
denunciar a “arrogância” do Império alemão e o “militarismo prussiano”. O discurso foi 
aplaudido não só por seus correligionários, mas também pelos deputados federalistas.
Entretanto, em sua opinião, a guerra européia trouxera uma lição nova, 
comprovando “a inépcia” dos parlamentos “para a solução dos mais graves problemas 
que agitam a vida nacional dos países onde vigora”. Ao protesto de que não se deveria 
confundir a presença do governo na vida nacional com essa presença na emergência de 
guerra, redargüiu: “Tanto não é assim que, após a terminação da guerra, os poderes 
públicos continuaram a intervir na atividade privada, mantendo os serviços com o 
intuito de restringir a ganância dos particulares.”
Sua reeleição para a Assembléia em 1921 foi assegurada com tranqüilidade, 
porém com a situação política nacional tumultuada pela disputa em torno da sucessão 
do presidente da República Epitácio Pessoa. Borges de Medeiros levantou-se contra a 
candidatura de Artur Bernardes, articulada por Minas Gerais e São Paulo, denunciando 


o arranjo político como uma forma de garantir recursos para o esquema de valorização 
do café, quando o país necessitava de finanças equilibradas. Getúlio, acompanhando a 
posição do PRR, participou da campanha da Reação Republicana, movimento em favor 
da candidatura de Nilo Peçanha articulado pelo Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco 
e estado do Rio.
Apesar de acirrada disputa, Artur Bernardes venceu as eleições em março de 
1922. Sua vitória comprovava o poderio eleitoral da aliança entre Minas e São Paulo, os 
dois estados de maior expressão socioeconômica do país, detentores do controle da vida 
política nacional desde o princípio do século. Essa aliança, resultado lógico dos 
interesses econômicos comuns aos dois estados cafeeiros, tinha por corolário um 
esquema de revezamento na presidência da República, conhecido como a “política do 
café com leite”.
Entretanto, a eleição de Bernardes foi contestada pela oposição civil e, 
principalmente, por jovens oficiais do Exército, que se tornariam conhecidos como os 
“tenentes”. A crise culminou com a Revolta de 5 de Julho de 1922, que foi 
imediatamente sufocada pelo governo, mas marcou o início das revoltas tenentistas da 
década de 1920. A rebelião contou com a adesão das guarnições de Campo Grande, de 
Niterói, então capital do estado do Rio de Janeiro, e do Rio de Janeiro, então Distrito 
Federal, e nesta última cidade, especialmente a guarnição do forte de Copacabana, que 
caiu na manhã do dia 6, no episódio que ficou conhecido como Os 18 do Forte. Diante 
do levante, seguindo a nova orientação do PRR, expressa no manifesto Pela ordem de 
Borges de Medeiros, Getúlio defendeu a dissolução da Reação Republicana e prestou 
solidariedade a Epitácio Pessoa e Artur Bernardes. 
Em outubro de 1922 Vargas foi indicado e eleito à Câmara Federal para 
completar o mandato vago por morte do deputado gaúcho Rafael Cabeda. Entretanto, 
devido à proximidade das eleições governamentais no Rio Grande do Sul, adiou sua 
partida para o Rio. Pela primeira vez, desde 1907, ocorreu uma situação competitiva na 
sucessão gaúcha. Borges de Medeiros, candidato ao quinto mandato de cinco anos, 
defrontou-se com a oposição dos federalistas, dos republicanos dissidentes e dos 
democráticos, unidos em torno da candidatura de Joaquim Francisco de Assis Brasil. O 
pleito realizou-se em 25 de novembro de 1922 em meio a rumores de um levante contra 
Borges e acusações de fraude de ambos os lados. Vargas foi designado presidente da 


Comissão de Constituição e Poderes da Assembléia, encarregada de apurar os votos e 
proclamar o candidato vencedor.
Em 17 de janeiro de 1923, a comissão proclamou a vitória de Borges, por 106 
mil votos contra 32 mil. Segundo uma versão que circulou na época, a comissão 
chegara anteriormente à conclusão de que Borges perdera a disputa, não conseguindo a 
maioria de 3/4 dos votos, exigidos pela Constituição estadual para sua reeleição. Diante 
do impasse, Vargas e seus dois colegas da comissão teriam ido à presença de Borges 
para expor a situação. Ao recebê-los, Borges teria declarado efusivamente: “Sei que 
vêm cumprimentar-me, porque estou reeleito.” Sem jeito de contrariar o chefe, a 
comissão se teria retirado sem dizer a que vinha, reformulando em seguida seus 
cálculos. 
Em 25 de janeiro de 1923, Assis Brasil e antigos caudilhos federalistas 
insurgiram-se com o objetivo de depor Borges, desencadeando violenta guerra civil no 
estado. Nomeado tenente-coronel por decreto de Borges, Vargas partiu para São Borja, 
assumindo o comando do 7º Corpo Provisório, tropa irregular composta de civis 
recrutados. Mas não chegou a participar dos combates, pois, ameaçado de perder sua 
cadeira na Câmara Federal, interrompeu a luta e foi para o Rio de Janeiro assumir mais 
uma missão delegada pelo PRR. 
Na Câmara, Getúlio trabalhou para evitar a intervenção federal em seu estado, 
buscando contornar as dificuldades geradas pelo apoio anteriormente dado por Borges à 
Reação Republicana. Desenvolveu também um esforço de aproximação com os 
representantes gaúchos de oposição, ampliou suas relações com os parlamentares de 
outros estados, sobretudo de São Paulo, e estabeleceu vínculos com o poder central que 
beneficiaram a imagem do Rio Grande do Sul junto aos centros decisórios da política 
nacional. A guerra civil no Rio Grande do Sul terminou em dezembro de 1923 por um 
acordo de paz assinado sob a égide do governo federal em Pedras Altas, estância de 
Assis Brasil. O Pacto de Pedras Altas vedou nova reeleição de Borges, mas garantiu o 
mandato que exercia no Executivo estadual. 
Reeleito deputado federal em 1924, Vargas assumiu a liderança da bancada 
republicana gaúcha na Câmara. Nessa condição, apoiou as medidas de exceção 
propostas por Bernardes, às voltas com generalizado e persistente descontentamento da 


opinião pública e intermitentes rebeliões tenentistas. Entre outros movimentos armados, 
Bernardes enfrentou a Revolta de 1924 em São Paulo, chefiada pelo general Isidoro 
Dias Lopes, e a Coluna Prestes, contingente rebelde liderado pelo capitão Luís Carlos 
Prestes e o major Miguel Costa que percorreu o interior do país de abril de 1925 até 
fevereiro de 1927, dando combate às tropas legais.
Em 1925, Vargas participou da comissão encarregada de estudar a reforma da 
Constituição de 1891. A revisão constitucional foi proposta por Bernardes, visando a 
ampliar o poder do governo central perante os estados. Vargas concordou com as 
modificações pedidas, condenando o “anti-revisionismo sistemático”. Na ocasião, 
manifestou-se também contra o ensino religioso nas escolas. Em maio de 1926, passou a 
integrar a Comissão de Finanças da Câmara, na qual permaneceria até o final de seu 
mandato, em novembro.
Apesar da tensão causada pelas rebeliões tenentistas e pelo estado de sítio em 
vigor, a sucessão de Bernardes foi das mais tranqüilas da República Velha. Sem 
qualquer oposição, Washington Luís e Fernando de Melo Viana, até então presidentes 
respectivamente de São Paulo e Minas Gerais, foram eleitos presidente e vice-presidente 
da República em março de 1926.
Ministro da Fazenda 
Em 15 de novembro de 1926, Washington Luís assumiu a presidência, 
empossando Vargas no Ministério da Fazenda. Essa escolha tinha o claro propósito de 
reconciliar o Rio Grande do Sul com a aliança Minas-São Paulo. Além disso, o 
programa de estabilização financeira anunciado por Washington Luís era bem visto por 
Borges de Medeiros, que expressara repetidas vezes seu interesse na estabilidade dos 
preços internos. Vargas manifestou-se a princípio contra sua indicação, alegando, em 
carta a Borges, que não possuía qualificação suficiente em finanças, mas acabou sendo 
convencido pelo presidente gaúcho a aceitar a designação. 
A passagem de Vargas pelo Ministério da Fazenda duraria pouco mais de um 
ano, correspondendo à época de êxitos da política econômico-financeira de Washington 
Luís. Vargas tratou basicamente de implementar a reforma monetária, aprovada pelo 
Congresso ainda em dezembro de 1926. A reforma instituiu o retorno do padrão-ouro e 


criou um novo fundo de estabilização cambial chamado Caixa de Estabilização, à qual 
caberia emitir papel-moeda contra reserva de 1% de ouro. Passaram a existir dois meios 
circulantes no país, um conversível e outro não, e a taxa de câmbio foi fixada acima dos 
índices de mercado com objetivo de favorecer as exportações e proteger a indústria 
nacional.
Em agosto de 1927, Borges de Medeiros indicou as candidaturas de Vargas e 
João Neves da Fontoura respectivamente à presidência e à vice-presidência do Rio 
Grande do Sul. Embora impossibilitado pelo Pacto de Pedras Altas de concorrer a nova 
eleição, Borges havia conservado a chefia do PRR, o que lhe garantia a escolha de seu 
substituto. Por outro lado, tanto Vargas como João Neves tinham uma concepção da 
política, se não menos autoritária que Borges, ao menos mais liberal em relação às 
oposições gaúchas. O “liberalismo” de Vargas era considerado excepcional mesmo 
dentro do PRR, sobretudo por seus membros mais antigos, dedicados seguidores do 
castilhismo. Como naquele momento, segundo Alexandre Barbosa Lima Sobrinho em 
seu clássico livro sobre a Revolução de 1930, “urgia encontrar para o governo gaúcho, 
depois de lutas tão ásperas, um homem conciliador que os partidos e as facções 
recebessem com a mesma boa vontade”, Vargas era o candidato ideal. 
Em outubro de 1927, uma convenção do PRR aprovou por aclamação a chapa 
Vargas- João Neves. A Aliança Libertadora, de oposição, fundada em 1924 por 
federalistas e dissidentes republicanos, não apresentou candidato, mas colocou grandes 
esperanças na chapa republicana, vendo em sua vitória a possibilidade de um governo 
mais liberal. Vargas foi eleito em novembro seguinte, sem que fosse preciso participar 
da campanha em seu estado. Em dezembro, exonerou-se do Ministério da Fazenda e em 
discurso pronunciado ainda no Rio de Janeiro insinuou que as divergências no Rio 
Grande do Sul deveriam ser abandonadas no interesse da paz com os libertadores. 
Presidente do Rio Grande do Sul 
Em 25 de janeiro de 1928, Getúlio assumiu a presidência do Rio Grande do Sul. 
Sua primeira preocupação foi estabelecer um modus vivendi com Borges a fim de 
assegurar a independência político-administrativa de seu governo. Vargas iria governar 
com certa autonomia, apesar da influência preponderante de Borges nos assuntos de 
política partidária. O primeiro passo nesse sentido foi a nomeação dos secretários de 


estado a partir de sua própria escolha, sem levar em conta as indicações feitas por 
Borges. Para a Secretaria do Interior e Justiça foi nomeado Osvaldo Aranha, o mais 
jovem representante da nova geração de republicanos gaúchos, famoso por sua 
combatividade durante a guerra civil de 1923. Firmino Paim Filho, amigo de Vargas 
desde os tempos da faculdade, recebeu o cargo de secretário da Fazenda. João 
Fernandes Moreira ocupou a Secretaria de Obras Públicas e Florêncio de Abreu, seu 
concunhado, a chefia de polícia. 
Vargas reorientou a ação econômica e política do governo gaúcho, conseguindo 
resultados amplamente positivos. No plano econômico, tomou uma série de medidas de 
amparo à lavoura e à pecuária, atendendo sobretudo às reivindicações dos produtores de 
charque e arroz. Ainda em 1928, fundou o Banco do Rio Grande do Sul para estender o 
crédito fácil aos interesses agrícolas e pecuaristas, afetados por violentas flutuações nos 
preços e na produção desde o final da Primeira Guerra Mundial. Em novembro desse 
mesmo ano conseguiu a aprovação no Congresso da Lei de Desnacionalização do 
Charque, que considerava estrangeiro todo charque brasileiro que transitasse por 
território uruguaio na demanda de portos nacionais. A medida visava a coibir o 
contrabando de charque uruguaio que entrava no Brasil, disfarçado como produto 
gaúcho ou mato-grossense. Vargas obteve também importantes concessões econômicas 
do governo federal para diminuir os custos do frete no Rio Grande do Sul. Nesse caso, 
incluíram-se o auxílio para a expansão do sistema ferroviário rio-grandense e a 
transferência dos portos de Pelotas e Torres para o controle do estado. Seu governo 
também subsidiou o nascente comércio exportador de charque e arroz, diminuindo as 
tarifas ferroviárias para os dois produtos.
Outra forma de atuação de Vargas foi o estímulo à organização dos sindicatos de 
produtores. O êxito do sindicato dos arrozeiros, criado em 1926 com o objetivo de 
controlar a oferta e manter os preços altos, propiciou um surto geral de 
“associatividade” no estado no final da década de 1920. Ao término de seu primeiro ano 
de governo, Vargas expôs o seu pensamento a respeito: “Ao Estado cabe estimular o 
surgimento dessa mentalidade associativa, valorizada com sua autoridade, exercendo 
sobre ela um certo controle para lhe evitar os excessos. (...) Organizados para a defesa 
dos interesses comuns, [os sindicatos] têm uma dupla vantagem: para os associados a 


união torna-os mais fortes, para o governo, o trato direto com os dirigentes de classe 
facilita, pelo entendimento com poucos, a satisfação do interesse de muitos.”
No plano político, Vargas buscou também um acordo com a oposição, 
conseguindo pôr termo a quase 30 anos de violentas lutas interpartidárias no estado. A 
oposição, reorganizada em março de 1928 em torno do Partido Libertador (PL), 
sucessor da Aliança Libertadora, obteve garantias políticas jamais concedidas por 
Borges de Medeiros. Vargas incluiu na administração estadual membros do PL e tomou 
medidas para assegurar eleições honestas. Em março de 1929, por exemplo, mandou 
recontar os votos numa eleição municipal que o PL considerava fraudulenta, permitindo 
à oposição conquistar uma nova cadeira na Assembléia dos Representantes. O PRR não 
opôs restrições a esses esforços conciliadores, apesar de todo o peso da tradição 
castilhista. Assim, nesse mesmo ano de 1929, Vargas teve condições de unificar a 
política do Rio Grande do Sul e empreender a primeira tentativa direta de um político 
gaúcho para chegar à presidência da República.
A Aliança Liberal 
A candidatura de Vargas às eleições presidenciais de 1930 nasceu do acordo 
entre o Rio Grande do Sul e Minas Gerais, marcando o rompimento dos dois estados 
com o governo federal. Foi o presidente de Minas, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, 
quem iniciou as articulações para uma candidatura de oposição. Antônio Carlos 
esperava ser o próximo presidente, tendo em conta o esquema de revezamento entre 
Minas e São Paulo no governo federal. Com efeito, a eleição de um candidato de São 
Paulo em 1926 implicara um acordo tácito pelo qual Minas voltaria ao poder em 1930. 
No quadriênio Washington Luís surgiram porém divergências na “política café com 
leite”, a propósito do programa de estabilização financeira e da “valorização do café”. 
Isto não seria grave não fossem pretensões dos grupos políticos de São Paulo em manter 
o controle direto do governo federal. No decorrer de 1928, tornou-se claro o interesse de 
Washington Luís em apoiar a candidatura de Júlio Prestes, antigo líder do Partido 
Republicano Paulista (PRP) e seu sucessor no governo paulista. 
Antônio Carlos buscou o apoio do Rio Grande do Sul a fim de se opor a esses 
planos. Como observou Bóris Fausto, “para lançar o Rio Grande do Sul em uma 
contenda que representaria uma ruptura na acomodação com o governo federal era 


necessário oferecer ao estado a própria presidência”. Do lado gaúcho, João Neves 
tornou-se o grande articulador dessa solução. Em dezembro de 1928 ele acenou com a 
possibilidade de uma candidatura gaúcha, ao ser sondado pelo deputado mineiro 
Afrânio de Melo Franco. 
Washington Luís pressentiu a cisão com os mineiros e procurou comprometer o 
Rio Grande do Sul com seus planos. Ainda em 1928, informou a Vargas, por intermédio 
do deputado gaúcho José Antônio Flores da Cunha, que se dispunha a considerar um 
candidato gaúcho, se porventura Minas bloqueasse o nome de Júlio Prestes. Dessa 
forma, o Rio Grande, terceiro estado em importância eleitoral e tradicionalmente um 
contendor de segundo plano, tornava-se a peça-chave do jogo sucessório. 
Em janeiro de 1929, Vargas soube por autorização expressa de Antônio Carlos 
que Minas estava definitivamente deliberada a recusar o nome de Júlio Prestes e a 
apoiar uma candidatura gaúcha ao Catete. Getúlio respondeu em termos evasivos: não 
repeliu a idéia, mas lembrou os vínculos de cooperação entre seu governo e a 
administração federal. Ao que tudo indicava, Minas se atiraria isolada a uma luta, sem 
grandes possibilidades de êxito. Quando muito, conseguiria reunir à sua volta os 
pequenos partidos de oposição que haviam surgido na década de 1920: a dissidência 
republicana paulista, que deu origem ao Partido Democrático (PD), e a carioca, que em 
1928 se uniu aos paulistas e aos libertadores gaúchos no Partido Democrático Nacional.
De janeiro a maio de 1929, os entendimentos entre Minas e o Rio Grande 
permaneceram em suspenso. Enquanto isso, Washington Luís insistia em que o debate 
sucessório fosse iniciado apenas em setembro, isto é, seis meses antes das eleições 
marcadas para março de 1930. Em maio, porém, a questão sucessória foi levantada no 
Congresso Nacional. Vargas escreveu então uma carta confidencial ao presidente, 
declarando-se à margem das manobras sucessórias e prometendo-lhe o apoio do PRR 
“no momento preciso”.
Em junho, João Neves encontrou-se no Rio com o secretário do Interior de 
Minas, Francisco Campos, incumbido por Antônio Carlos de obter uma resolução 
definitiva do Rio Grande do Sul. João Neves apressou-se em aceitar o acordo proposto 
por Minas, sem consultar previamente Vargas ou Borges de Medeiros. As conversações 
resultaram na assinatura de um pacto secreto de aliança entre Minas e o Rio Grande do 


Sul, firmado em 17 de junho por João Neves, Francisco Campos e o deputado José 
Bonifácio Ribeiro de Andrada, irmão de Antônio Carlos. Conhecido como o Pacto do 
Hotel Glória, o acordo prescrevia o veto ao nome de Júlio Prestes e a apresentação de 
um candidato gaúcho à sucessão presidencial, nomeadamente Vargas ou Borges de 
Medeiros. Ficou também consignado que o acordo só entraria em vigor após a 
homologação de Borges. Depois de muita hesitação, Borges e Vargas aceitaram os 
termos do acordo. 
Em 11 de julho, Vargas escreveu a Washington Luís, comunicando sua 
candidatura, mas deixando claro que não oporia obstáculo a uma solução diferente caso 
o nome de Júlio Prestes fosse posto de lado. O presidente não se abriu a qualquer 
espécie de entendimento. Comunicou aos demais governadores de estado a candidatura 
de Júlio Prestes, recebendo o apoio de todos, com exceção de João Pessoa, da Paraíba, 
que aceitara concorrer à vice-presidência na chapa oposicionista. O convite a João 
Pessoa fora feito à última hora, depois da recusa da Bahia, Pernambuco e Rio de 
Janeiro, estados de maior importância eleitoral que a Paraíba. 
Em 30 de julho, a comissão executiva do Partido Republicano Mineiro (PRM) 
aprovou por unanimidade as candidaturas de Vargas e João Pessoa à presidência e vice-
presidência da República, respectivamente. No dia seguinte, o PL deu apoio aos seus 
nomes, integrando-se ao PRR na Frente Única Gaúcha (FUG). O próximo passo foi a 
criação no início de agosto da Aliança Liberal, coligação oposicionista de âmbito 
nacional, tendo como presidente o mineiro Afonso Pena Júnior e vice-presidente o 
gaúcho Ildefonso Simões Lopes.
A Aliança Liberal congregou a ampla maioria dos representantes políticos do 
Rio Grande ao Sul, Minas e Paraíba, à qual veio juntar-se o PD de São Paulo e o PD do 
Distrito Federal. A campanha foi marcada por um série de recuos e tentativas de 
conciliação com o governo federal, empreendidas sobretudo por Vargas. Em meados de 
agosto, Vargas propôs a seus aliados a formação de uma nova chapa de oposição, 
composta de candidatos de Pernambuco e do Ceará, a fim de ampliar a frente 
antipaulista. Ante a recusa dos presidentes dos dois estados, Vargas sugeriu novamente 
a apresentação de um terceiro candidato. Mas Washington Luís manteve-se 
intransigente em relação à candidatura Júlio Prestes.


Em 12 de setembro, uma convenção de delegados dos partidos dominantes de 17 
estados, liderados por São Paulo, homologou as candidaturas de Júlio Prestes para a 
presidência e de Vital Soares, governador da Bahia, para a vice-presidência da 
República. Oito dias depois, a Aliança Liberal, em convenção realizada no Rio, aprovou 
a chapa Vargas-João Pessoa e sua plataforma eleitoral, redigida pelo gaúcho Lindolfo 
Collor. O programa, segundo Bóris Fausto, “refletia as aspirações das classes 
dominantes regionais não-associadas ao núcleo cafeeiro e tinha por objetivo sensibilizar 
a classe média”. Na parte econômica, “defendia a necessidade de se incentivar a 
produção nacional em geral e não apenas o café, combatia o esquema de valorização do 
café e por isso mesmo não discordava nesse ponto da política de Washington Luís”. 
Insinuava a necessidade de industrialização, mantendo porém velha distinção entre 
indústrias naturais e artificiais. Preconizava medidas de proteção aos trabalhadores, 
como a extensão do direito à aposentadoria, a aplicação da Lei de Férias e a 
regulamentação do trabalho do menor e da mulher. Mas a grande arma e denominador 
comum da Aliança Liberal, para Bóris Fausto, era “a defesa da representação popular, 
através do voto secreto e da designação de magistrados para a presidência das mesas 
eleitorais”. Outra proposta de grande efeito na campanha foi a anistia ampla a todos os 
presos políticos processados e perseguidos desde 5 de julho de 1922. 
A partir das convenções de setembro, ficou perfeitamente definida a situação de 
inferioridade da Aliança Liberal na disputa sucessória. Vargas enfrentaria a máquina 
oficial em 17 estados e, tendo-se em conta os padrões de controle eleitoral da República 
Velha, suas chances de vitória eram extremamente pequenas. 
Minas era o principal reduto eleitoral da Aliança Liberal e Antônio Carlos 
comprometera-se em manter a coesão do PRM. Em outubro, contudo, o partido sofreu 
uma grave cisão. O vice-presidente da República Fernando de Melo Viana rompeu com 
a direção do PRM ao ser preterido na sucessão de Antônio Carlos no governo do estado. 
A crise resultou na formação da Concentração Conservadora, movimento que promoveu 
em Minas as candidaturas de Júlio Prestes à presidência da República e de Melo Viana à 
presidência do estado. 
Em conseqüência da cisão em Minas, Vargas esboçou uma nova tentativa de 
recuo. Propôs a seus aliados retirar-se da disputa em troca de concessões reabilitadoras 
na plataforma de Júlio Prestes. Firmino Paim Filho foi encarregado de consultar 


Washington Luís e os principais dirigentes da Aliança Liberal. Washington Luís 
recusou-se a abandonar o nome de Júlio Prestes, o que, ao lado da inflexibilidade de 
Antônio Carlos, levou à manutenção da candidatura Vargas.
Em fins de 1929, a corrente mais radical da Aliança Liberal, formada por seus 
políticos mais jovens, como João Neves, Osvaldo Aranha e Virgílio de Melo Franco 
(filho de Afrânio de Melo Franco), passou a admitir a hipótese de desencadear um 
movimento armado, no caso da derrota nas urnas. Como primeiro passo, buscou-se a 
colaboração dos “tenentes”, tendo-se em conta seu passado revolucionário, sua 
experiência militar e seu prestígio no interior do Exército. Essa aproximação já estava 
em curso desde o início da campanha sucessória, mas os contatos se desenvolviam com 
grande dificuldade, devido a desconfianças recíprocas. Na Aliança Liberal, estavam 
alguns dos principais adversários dos “tenentes”, notadamente Artur Bernardes, 
Epitácio Pessoa e João Pessoa, o qual, como promotor militar, fora acusador de muitos 
militares rebeldes. Por outro lado, para os velhos dirigentes oligárquicos da Aliança, os 
“tenentes” personificavam a ameaça de derrubada do regime e, conseqüentemente, de 
suas próprias bases de sustentação política. 
Vários oficiais revolucionários, como Juarez Távora, João Alberto Lins de 
Barros e Antônio de Siqueira Campos, aderiram aos poucos à idéia de colaborar com a 
Aliança Liberal, apesar da posição em contrário de Luís Carlos Prestes, o chefe supremo 
do movimento tenentista. Prestes encontrava-se a meio caminho em seu processo de 
adesão ao Partido Comunista Brasileiro, então Partido Comunista do Brasil (PCB), e 
começava portanto a abraçar uma nova concepção da revolução brasileira. Em 
setembro, Prestes entrou secretamente em contato com Vargas para declarar que 
somente o apoiaria se a via revolucionária fosse adotada. No íntimo, Prestes tinha a 
impressão de apresentar uma condição impossível de ser cumprida. Em 13 de setembro 
Vargas transmitiu a João Neves sua opinião a respeito das declarações de Prestes 
“Penso que não nos é lícito lançarmos o país numa revolução, sacrificarmos milhares de 
vidas, arruinar e empobrecer o Estado, só para combater um homem que atualmente nos 
desafia que é o presidente da República.” 
Nos últimos meses de 1929, Aranha, João Neves e Virgílio de Melo Franco 
estabeleceram contato direto com Siqueira Campos, Juarez Távora e João Alberto, que 
retornaram clandestinamente do exílio, e ainda com outros oficiais revolucionários, que, 


por já terem cumprido pena, estavam em liberdade, como Eduardo Gomes e Osvaldo 
Cordeiro de Farias. Por insistência de seus companheiros, Prestes viajou 
clandestinamente a Porto Alegre para conversar com Osvaldo Aranha e Vargas.
A história dos encontros entre Vargas e Luís Carlos Prestes permanece obscura 
em vários pontos, como por exemplo em relação às datas. Segundo Hélio Silva, Carone 
e outros autores, os encontros ocorreram em novembro de 1929 e fevereiro de 1930. 
Prestes, em depoimento publicado em 1982, mencionou duas datas diferentes: setembro 
de 1929 e janeiro de 1930. Resta ainda saber por que o ex-comandante da Coluna 
Prestes recebeu uma substancial quantia de dinheiro, após ter recusado a chefia militar 
da revolução.
A primeira fase da conspiração não implicou ainda a preparação efetiva para a 
luta armada, mesmo porque os principais dirigentes da Aliança Liberal não pensavam 
em romper os limites do sistema. A frase atribuída a João Pessoa resume perfeitamente 
essa perspectiva: “Nunca contarão comigo para um movimento armado. Prefiro dez 
Júlio Prestes a uma revolução.” Vargas, por seu lado, tomou uma atitude ambivalente 
diante da ação conspirativa: permitiu que Aranha, João Neves e os mineiros 
perseguissem um caminho belicoso, mas ao mesmo tempo autorizou Paim Filho a 
manter os laços vitais com o governo federal. 
Em dezembro de 1929, Paim Filho, agindo com autorização expressa de Vargas, 
negociou e conseguiu firmar com Washington Luís, à revelia de Minas, da Paraíba e até 
mesmo dos líderes gaúchos, um acordo secreto com o governo federal. Por esse acordo, 
Vargas assumiu o compromisso de não deixar o seu estado para fazer propaganda 
eleitoral e de apoiar o governo federal no caso de uma vitória de Júlio Prestes. De sua 
parte, Washington Luís e Júlio Prestes comprometiam-se a reconhecer os candidatos do 
PRR que fossem eleitos em março para o Congresso (seriam renovados a Câmara e 1/3 
do Senado), a não combater o reconhecimento de Vargas caso este fosse eleito e, no 
caso de uma vitória do governo, a restabelecer as relações com o Rio Grande do Sul nos 
termos anteriores à divergência sobre a sucessão presidencial. O cumprimento desse 
acordo implicaria muito provavelmente na desagregação e liquidação da Aliança 
Liberal.


Nessa mesma época, entretanto, o governo federal também enfrentava 
dificuldades, embora de outra ordem. A crise econômica internacional, irrompida em 
outubro de 1929, estava solapando o programa de estabilidade da moeda e provocando 
conseqüências desastrosas para os cafeicultores e os círculos financeiros de São Paulo. 
Em poucos meses todas as reservas de ouro acumuladas à custa de empréstimos 
externos foram tragadas pelos capitais em fuga do país. Segundo o comentário que 
começou a circular, o “general café” se havia voltado contra o presidente. Houve, de 
fato, divergências entre os cafeicultores e o governo, pois Washington Luís recusou-se a 
emitir novos financiamentos e a conceder a moratória, reclamados pela lavoura paulista. 
Diz Bóris Fausto: “Independentemente do fato de que a crise só tenha repercutido no 
Brasil com toda sua intensidade em 1931... independentemente do fato de que a 
oposição não [tivesse] plena consciência de seu alcance e não a [utilizasse] a fundo, ela 
[golpeou] o governo ao produzir o desencontro entre o Estado, como representante 
político da burguesia cafeeira, e os interesses imediatos da classe.” 
No Congresso, João Neves aplaudiu a resistência de Washington Luís em 
atender às reivindicações dos cafeicultores paulistas, mas criticou acerbamente sua 
imprevidência. Em 26 de dezembro, após várias sessões tumultuadas, o deputado 
aliancista gaúcho Ildefonso Simões Lopes revidou uma agressão de seu colega 
situacionista de Pernambuco, Manuel de Sousa Filho, abatendo-o a tiros no recinto do 
palácio Tiradentes.
Em meio à radicalização da campanha, Vargas violou o acordo com Washington 
Luís, viajando para o Rio de Janeiro no final de dezembro. No dia seguinte à sua 
chegada, entretanto, avistou-se com o presidente, reiterando sua disposição de respeitar 
o modus vivendi estabelecido por Paim Filho. Em 2 de janeiro de 1930, ao lado de João 
Pessoa, Vargas leu sua plataforma, não em recinto fechado como fizera Júlio Prestes, 
mas em praça pública, para uma grande multidão que se concentrou na esplanada do 
Castelo. Estendeu sua viagem a São Paulo e Santos (SP), onde foi recebido com 
demonstrações populares de apoio, regressando em seguida a Porto Alegre. A campanha 
da oposição prosseguiu com a organização das caravanas liberais que percorreram 
Minas e as principais cidades do Norte e Nordeste, sob a chefia de João Pessoa. 


No final de fevereiro, Vargas retirou-se temporariamente para São Borja, 
nomeando Osvaldo Aranha presidente interino do Rio Grande do Sul e explicando que 
“escrúpulos de ordem moral o impediam de continuar no cargo durante a eleição”.
Neste último mês ocorreram choques violentos em Garanhuns (PE), Vitória e 
Montes Claros (MG). Nesta última cidade, um comício da Concentração Conservadora 
foi interrompido por um tiroteio que deixou vários mortos e feridos, incluindo-se entre 
os últimos o vice-presidente Melo Viana, pisoteado no tumulto que se estabeleceu. O 
conflito mais importante eclodiu na Paraíba, em 28 de fevereiro, véspera das eleições. 
Foi a revolta da cidade de Princesa, atual Princesa Isabel, liderada por José Pereira, 
chefe político do município, que congregou a oposição parai- bana ao governo de João 
Pessoa e contou com o apoio do Catete. Antes e depois das eleições, o governo federal 
hostilizou abertamente os estados de Minas e da Paraíba.
A Revolução de 1930 
As eleições de 1º de março de 1930, realizadas no estilo tradicional da República 
Velha, deram afinal a vitória a Júlio Prestes, como já era esperado. Além de vencer por 
grande diferença nos estados situacionistas, o candidato oficial obteve 50 mil votos em 
Minas e a terça parte da votação na Paraíba. A fraude, praxe na época, dominou o pleito 
de parte a parte. De outra forma seria impossível explicar o fabuloso resultado obtido 
por Vargas em seu estado com 298 mil votos contra apenas 982 dados a seu 
concorrente. Mesmo assim, Júlio Prestes chegou a cerca de um milhão e cem mil votos, 
contra 737 mil dados a Vargas. Pelo Bloco Operário e Camponês, organização 
patrocinada pelo pequeno PCB, fundado em 1922, concorreu o operário Minervino de 
Oliveira com uma votação ínfima.
Em 11 de março, antes de voltar a Porto Alegre para reassumir o governo 
estadual, Vargas telegrafou a Osvaldo Aranha, considerando “quixotesca” a continuação 
da luta. Em 19 de março, Borges de Medeiros, em entrevista publicada pelo jornal A 
Noite, reconheceu enfaticamente a vitória de Júlio Prestes, dando por encerrada a 
campanha da oposição e a FUG. A entrevista provocou forte reação de Osvaldo Aranha, 
João Neves e Flores da Cunha contra o que consideraram uma completa capitulação. 
Borges viu-se forçado a retificar suas declarações para evitar a ameaça de cisão no PRR. 


Em fins de março, admitiu o prosseguimento da luta pela ação parlamentar e a pregação 
doutrinária.
Nesse ínterim, Virgílio de Melo Franco e João Batista Luzardo, dirigente do PL, 
conseguiram articular um entendimento com Epitácio Pessoa e Antônio Carlos em favor 
da alternativa revolucionária. Luzardo foi autorizado por Antônio Carlos a declarar aos 
chefes políticos gaúchos que Minas aceitaria a solução sediciosa, caso o Rio Grande do 
Sul a adotasse. Epitácio Pessoa concordou com a fórmula, comprometendo-se a 
consultar João Pessoa, a quem caberia a última palavra sobre a Paraíba. No final de 
março, após ser informado sobre esses contatos, Vargas concordou com a preparação do 
movimento armado, deixando a Osvaldo Aranha a responsabilidade de sua coordenação. 
Aranha acelerou a conspiração reativando seus contatos com os tenentes. No 
início de abril, a participação dos tenentes na revolução ficou definitivamente acertada: 
Juarez Távora chefiaria o levante no Norte, João Alberto e outros oficiais ajudariam o 
movimento no Sul e Siqueira Campos dirigiria o setor mais difícil — a capital paulista. 
Para chefiar o estado-maior revolucionário, dada a desistência de Luís Carlos Prestes, os 
gaúchos escolheram um oficial de carreira, em vez de um “tenente”. O tenente-coronel 
Pedro Aurélio de Góis Monteiro, na época comandante de urna guarnição no Rio 
Grande do Sul, foi convidado a assumir o encargo. Na década de 1920, ele combatera 
militarmente os “tenentes” da Coluna Prestes. 
Também por iniciativa de Aranha foram encomendadas armas à 
Tchecoslováquia no valor de 16 mil contos de réis. O Rio Grande do Sul participaria 
com metade dessa soma, cabendo a Minas seis mil contos e dois mil à Paraíba. Em 
meados de abril, Antônio Carlos e Epitácio Pessoa concordaram com o esquema 
proposto para a compra de armas. Francisco Campos viajou então a Porto Alegre para 
verificar in loco os preparativos da revolução. Com Vargas e Osvaldo Aranha, ele 
acertou o esquema de participação de Minas no levante. A tarefa militar desse estado 
seria distrair as tropas federais que nele se encontravam e fechar as próprias fronteiras, a 
fim de atrair os contingentes do Exército estacionados em São Paulo. 
No final de abril, Vargas aprovou um documento elaborado por João Neves 
sobre a orientação da bancada do PRR na legislatura que se iniciaria em maio. Tratava-
se de um memorando de sete itens, sancionado por Borges de Medeiros em sua estância 


de Irapuazinho. Conhecido como o Heptálogo de Irapuazinho, o documento estabelecia 
como pontos principais a oposição não-sistemática do PRR ao governo federal, a defesa 
da plataforma aliancista e a apresentação de projeto de lei de reforma eleitoral, a defesa 
dos candidatos aliancistas de Minas e Paraíba não reconhecidos pelas juntas de apuração 
eleitoral, a assistência aos governos desses dois estados contra a intervenção federal, o 
fornecimento de armas a João Pessoa para a luta contra a Revolta de Princesa e a 
recondução de João Neves à liderança da bancada republicana gaúcha na Câmara. 
Paim Filho, preocupado com a manutenção do modus vivendi com o governo 
federal, não concordou com o Heptálogo. Em carta a Borges, denunciou as intenções 
revolucionárias de João Neves, mas omitiu o acordo firmado em dezembro de 1929 com 
Washington Luís. Para contornar a dificuldade, Vargas e Borges autorizaram Paim 
Filho, eleito senador em março, a defender sua posição pessoal no Congresso. 
Em 3 de maio de 1930, o Congresso reiniciou seus trabalhos. O estudo das 
eleições presidenciais e da renovação dos mandatos legislativos constituiu sua primeira 
tarefa. A maioria governista se serviu, arbitrariamente do processo de reconhecimento 
dos candidatos para punir as representações aliancistas de Minas e da Paraíba. A 
“degola” atingiu todos os candidatos apoiados por João Pessoa, beneficiando os 
partidários de José Pereira. A representação do PRM sofreu um corte de 14 deputados 
numa bancada de 37, sendo diplomados em seus lugares candidatos da Concentração 
Conservadora. No caso de Minas, diz John Wirth, “o desastre foi agravado pela perda 
de todas as presidências de comissões e pela imposição de sanções econômicas 
federais”. Sintomaticamente, o Rio Grande do Sul atravessou ileso o expurgo. Em fins 
de maio o novo Congresso aprovou os resultados das eleições, declarando Júlio Prestes 
presidente eleito. 
O arbítrio do reconhecimento dos poderes constituiu-se em mais um fator de 
indignação contra Washington Luís, sobretudo em Minas Gerais. Em 27 de maio, a 
comissão executiva do PRM convocada por Antônio Carlos aprovou por unanimidade a 

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