Geografia no cotidiano: ensino médio, 3º ano



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Geografia no cotidiano ensino m dio, 3 ano
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A dívida e(x)terna
A situação que se delineou na década perdida se explica fundamentalmente pelo problema vinculado às enormes dívidas externas contraídas por esses países e pelas formas de tratamento dispensadas a essa questão pelas instituições financeiras internacionais e países credores. Embora o problema da dívida tenha afetado praticamente todos os países latino-americanos, ele se mostrou mais agudo, justamente naqueles países em que a economia apresenta maior grau de complexidade, ou seja, no Brasil, Argentina e México.
O pagamento dos juros e outras taxas decorrentes das dívidas externas (o chamado Serviço da Dívida) praticamente inviabilizou a aplicação de recursos em planos de desenvolvimento interno. Muitos países não tiveram outra saída senão contrair novos empréstimos, que só são concedidos seletivamente e se o país endividado permitir o “gerenciamento” de sua economia por órgãos como o Fundo Monetário Internacional (FMI), que sofrem influência dos países do Primeiro Mundo, especialmente dos Estados Unidos. Esse “dinheiro novo” destina-se ao pagamento de débitos do Serviço da Dívida, e somente uma pequena parte, se sobrar, é aplicada em planos de desenvolvimento do país.
O problema da dívida tornou-se mais complexo nos anos 1980, quando, além de afetar o relacionamento entre países e instituições econômicas internacionais, levou inúmeros países latino-americanos a determinadas situações-limite de caos econômico-social.
Se, durante a década de 1980, a América Latina marcou passo no campo econômico, no campo político assistiu a uma verdadeira “festa da democracia”. No final da década, as ditaduras, tanto civis como militares, espécie de marca registrada dos regimes latino-americanos, tinham praticamente desaparecido do continente.
Fonte: OLIC, Nelson Bacic. Geopolítica da América Latina. São Paulo: Moderna, 2004. p. 25-27.

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Unidade 2
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O Mercosul frente ao protecionismo europeu e norte-americano
A Conferência do Rio de Janeiro, realizada em fins de junho de 1999, que reuniu 48 chefes de Estado (quinze da União Europeia e 33 dos países da América Latina e do Caribe) discutiu, oficialmente, o incremento e o fortalecimento dos laços entre as duas regiões geoeconômicas.
A pauta da reunião previu amplas discussões sobre questões político-democráticas, governabilidade e combate ao desemprego e à pobreza; econômico-financeiras, onde seria levantado o problema de controle do fluxo de investimentos especulativos e, para fins de relações públicas, as questões relacionadas com a educação, qualificação da força de trabalho, legislação trabalhista e os direitos humanos.
Entretanto, poucos resultados concretos foram produzidos diante da recusa da França de se incluir nas negociações das medidas protecionistas aplicadas aos produtos agrícolas. De fato, somas consideráveis são gastas anualmente sob a forma de subsídios e de incentivos aos produtores agrícolas europeus, mormente os franceses, prejudicando as exportações provindas da América Latina. Enquanto os países latino-americanos sofrem pressões para abrir seus mercados aos produtos europeus e norte-americanos, suas exportações sofrem restrições, tanto nos mercados europeus quanto no norte-americano.
O déficit crescente dos países do Mercosul, em suas transações correntes com a União Europeia e os EUA, exigiria uma redefinição das regras de jogo, eliminando a ameaça permanente de sanções por parte da OMC e, sobretudo, dos EUA, referentes a um alegado dumping na venda de frutas, suco de laranja, carne, aço e outros commodities.
Ambas as associações encerram riscos para o desenvolvimento autônomo e sustentável das sociedades latino-americanas. Pressionadas pelos desafios criados por uma abertura comercial precipitada e descontrolada, as sociedades latino-americanas são cada vez menos aptas a controlar seus déficits interno e externo, mesmo após terem privatizado a maior parte das empresas e ativos construídos com recursos públicos. Efetivamente, nenhum desses países está hoje em condições de desenvolver uma política de desenvolvimento autônoma, em função da estreita dependência de recursos financeiros externos.
As contradições e disputas não se limitam apenas às medidas protecionistas da UE e dos EUA. Argentina e Brasil confrontam-se, hoje mais do que antes da desvalorização do real, com a questão da sobretaxa do açúcar, imposta pelo governo argentino, alegando subsídios ao setor pelo governo brasileiro. Atitude idêntica está sendo adotada no que concerne à importação de aço brasileiro, sem falar das negociações tensas envolvendo o comércio e o sistema de incentivos ao setor de automóveis.
Voltamos assim, ao ponto de partida: a ausência de uma integração nacional devido às grandes disparidades regionais e desigualdades sociais continua emperrando o caminho de uma integração regional, sob o signo de reformas e de consolidação da democracia. Chegando tardiamente ao desenvolvimento capitalista, as sociedades latino-americanas não conseguiram completar o processo de formação de sociedades abertas, pluralistas e democráticas. Passam por fases de transição sem rumos definidos e sem as transformações estruturais necessárias para a construção das nações modernas. A maioria da população continua à margem dos processos políticos, incapaz de constituir-se em uma sociedade civil atuante, como contrapeso ao Estado centralizador, sempre a reboque do capital financeiro transnacional.
Vislumbramos o Mercosul como um projeto de construção de uma América Latina integrada, não somente por laços comerciais e financeiros, mas também culturais e políticos, o que levaria à conquista de uma posição de independência e soberania em suas decisões frente aos outros blocos regionais e aos organismos internacionais.
Um primeiro passo nessa direção seria a regulamentação e o direcionamento dos investimentos externos, a partir de um plano de desenvolvimento regional em benefícios das populações e não apenas dos conglomerados e corporações transnacionais atraídos pela redução das tarifas e as facilidades de remessa de lucros e dividendos. A expansão e relocação de suas fábricas e escritórios de venda em escala global não resulta, necessariamente, em melhoria das condições de vida das populações, oneradas por políticas injustificáveis de concessão de incentivos, subsídios e isenções fiscais-tributárias. Efetivamente,

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os fluxos de investimentos externos diretos têm se dirigido preferencialmente para os países mais ricos, que controlam quase 75% do comércio mundial e das transações financeiras internacionais. O capital estrangeiro é atraído pelas inúmeras vantagens concedidas pelos governos dos países “emergentes”, sob a forma de infraestrutura de comunicação, energia e transportes baratos e pelos baixos salários resultantes de uma política perversa de terceirização e precarização das relações de trabalho.
Além de enfraquecer os governos internamente, na possibilidade de justificar, à luz de todas as evidências políticas que objetivamente resultam em espoliação da riqueza nacional e na pauperização das populações, trabalhadores e classe média, diminui paulatinamente a capacidade de resistir às pressões das corporações transnacionais que buscam vantagens e privilégios inéditos e onerosos. Fica cada vez mais difícil implantar uma política industrial criteriosa e seletiva, que admita investimentos externos exclusivamente em setores produtivos (e não especulativos), de preferência em joint-ventures (e não eliminando empresas nacionais) e orientadas totalmente à exportação (em vez de fazer concorrência às empresas nacionais).
Ademais, a alienação, através de um processo de privatizações espúrias das empresas de infraestrutura nacionais, em vez de constituir-se em uma “isca” para atrair capitais produtivos, não tem aliviado, mesmo temporariamente, as contas externas e internas, fato amplamente demonstrado pela desvalorização da moeda nacional e pela persistência do déficit fiscal, acima do nível acordado com o FMI.
Ao seguir nesta trilha, o projeto de integração regional evidencia seus limites de forma cada vez mais insofismável. Os parceiros que prosperaram no período de bonança, pouca inclinação e interesse demonstram de cerrar fileiras e enfrentar juntos a nova conjuntura. Carecendo de uma política de longo prazo, fixando metas que possam mobilizar a identificação e o apoio da população, os governos não enxergam além de medidas casuísticas, que os deixam mais vulneráveis diante das pressões das corporações cada vez mais impertinentes com a provável aprovação do Acordo Multilateral sobre os Investimentos (AMI), em discussão na OCDE e OMC, e à espera da próxima investida dos Estados Unidos para a incorporação do Mercosul no seio da Associação de Livre-Comércio das Américas (Alca), selando definitivamente os anseios para um desenvolvimento autônomo e independente, mas irmanados em seu destino comum, dos povos latino-americanos.
Fonte: RATTNER, Henrique. Mercosul e Alca: o futuro incerto dos países sul-americanos. São Paulo: Edusp, 2002. p. 81-84.
Unidade 3
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